Estava na aldeia havia mais de uma semana, e pela primeira vez, não nevava. Era como se toda a neve que houvesse para cair já tivesse caído e coberto o chão com uma camada grossa e gelada.

Em Ellinia, Giu tinha ouvido falar que as nevascas de El Nath eram cruéis, e que quando terminavam, elevavam o chão a dez metros de altura de puro gelo. Descobriu não ser bem verdade. Os montes recém-formados mais altos não chegavam aos sete metros.

Mesmo as crianças Kerkagar ficavam em casa quando o tempo endurecia. Mas uma vez que a neve parasse e o sol começasse a brilhar com mais força no céu, deixavam animadamente as casas e saíam para aproveitar a leve folga que o frio lhes concedia.

Eram trinta e duas crianças na aldeia, novas demais para o trabalho com armas e velhas demais para ficarem somente em casa. Todos disputavam a Giu para brincar com eles, e ela era a mais alta de todos. Os Kerkagar eram corpulentos e fortes, mas seus filhos eram bastante pequenos e robustos, como filhotes de urso.

Giu nunca tinha visto um até que os pequenos a levaram ao pequeno vale aberto na neve, onde vivia um. O urso era enorme, coberto de pêlos cinzentos salpicados de neve. As crianças chamavam-no Gordão. Resmungava e virava a cabeça enquanto elas pulavam em cima dele, rindo, e enfurnavam-se em seu pêlo macio.

Giu tinha começado seu treinamento em Ellinia mais cedo do que a maioria, e manteve-se calma quando as crianças resolveram "apresentá-los". O urso a farejou e rodeou, desconfiado. Ela permaneceu ereta, calma como os montes de neve. Só quando o urso assomou sobre ela e deu-lhe um quente abraço que ela soltou o ar, e percebeu que tinha segurado a respiração durante todo o tempo.

Às vezes o Gordão roubava uma criança e se afastava, e as outras punham-se a procurá-los no vale rochoso. Outras, elas construíam desajeitadas muralhas de neve e as derrubavam no urso quando ele passava. Gordão, mais esperto do que parecia, pulava preguiçosamente para longe e agarrava uma criança qualquer com a boca no colarinho de lã. Jogava-a longe, aos gritos, e a criança caía no chão, rindo.

O urso gostava de destruir as esculturas de neve assim que eram concluídas, então dividiram-se em dois times num complicado jogo de guerra com casas de neve. Um deles tinha o urso, mas Giu tinha seu martelo e alguns terremotos portáteis.

Eles ficaram boa parte da manhã até as crianças sentirem fome, e Giu foi servida com honra junto aos Barbas Velhas. Os Kerkagar não eram muito seletivos com comida e serviam porções de cubo de pernil, pernas de carneiro e legumes assados cortados aleatoriamente. A garota comeu pouco, com medo de não conseguir manter as carnes no estômago.

Grania sentava-se ao lado dela, e não parecia ter esse receio. Agarrava carne com ambas as mãos e devorava tudo, o que fez Giu rir. Ela tinha uns dez anos e era bastante pequena. Como a maioria dos membros da tribo, usava culotes de lá marrom, embora sem mangas. Tinha se tornado companhia constante da estrangeira, desde que rezaram dias depois da morte de Agramungrad.

—A decisão foi tomada. Finlad será a nova Barba — um dos Barbas Velhas anunciou de repente ao deixar a Casa. Giu comia com os outros, ao ar livre. Todos olharam e assentiram para o escolhido, um homem magro de túnica cinza-escura e, naturalmente, a barba branco-suja.

—Sempre é assim quando escolhem uma barba nova? — Giu comentou com Grania. Tinha esperado uma reação mais entusiasmada e solene, mas os Kerkagar comiam como se a notícia fosse pouco importante. A menina soltou um sonoro arroto ao se preparar para responder:

—Não sei, eu nunca peguei uma escolha. Minha mãe nasceu dois anos depois do Agramungrad ter sido escolhido, ele foi Primeira Barba desde que eu me lembro. Foi durante um inverno bastante rigoroso, o anterior tinha morrido numa tempestade...

—Em Ellinia, é estranho imaginar alguém morrendo de frio — Giu mordiscou um meio tomate.

—É mesmo, você não é daqui. Eu nunca pensei em como seria um lugar fora daqui... Como é Ellinia?

—Bom — Giu engoliu — Pra começar, não tem neve, e...

—Espera, não tem neve? Como assim? De que cor é o chão?

—Lá também não tem chão, não exatamente, mas...

—Credo, Giu, você veio do inferno?

—Deixa eu explicar! — Giu empurrou a cabeça da menina — Ellinia é uma vila formada no alto das árvores, tipo, árvores muito altas, algumas do tamanho das suas montanhas. Não cai neve e é tudo verde ou marrom, por causa dos troncos e das folhas. O ar é sempre puro e o clima é fresquinho, e quando chove, o Grendel, que a gente chama de Muito Velho, faz a água escorrer pelos galhos e não deixa ficar tudo alagado. Há fadas que vivem por lá... [i]deixa eu falar![/i] Fadas são criaturinhas com asas, bem menores que você e que não se dão bem com humanos, mas elas não resistem a presentes.

—E se não neva, faz muito frio? Qual é a roupa que vocês usam? Todo mundo usa essa coisa fininha e cinza que você veste?

—Isto é um kimono — Giu explicou pacientemente — E não, a maioria das pessoas usa outros tipos de...

Um pulso de energia amarela percorreu o grupo. Homens kerkagar levantaram-se com as mãos nas armas. Grania pôs-se de pé em um salto.

—O que houve?

—É o sinal de alerta — Grania disse — Significa invasores. E o amarelo...

—Wanapi! — alguém gritou dentre os homens. Um murmúrio de indignação e ressentimento percorreu a multidão reunida. Homens e mulheres saíam das casas, armados e preparados, mas a tribo estava muito espalhada.

—Aqui — Grania puxou o pulso da outra, ansiosa. Os quatro Barbas Velhas aguardavam junto com outros trinta guerreiros prontos para atacar, mas os inimigos tinham chegado de surpresa.

Havia pelo menos cem, surgindo de montes de neve e trincheiras cavada sonde se esconderam. Levantaram-se de todo lado, como pontinhos escuros surgindo na neve branca. Giu reconheceu as peles lisas e escuras, um negro fosco que era quase cinza.

Alguns surgiam da neve, mas outros apareciam em nuvens de fumaça. Usavam principalmente túnicas com capuzes, de pele costurada e lã. Uns poucos trajavam armadura e lâminas, mas a maioria parecia desarmada. A verdadeira arma dos Wanapi era a magia.

—Chegou o dia, ursos — gritou uma mulher wanapi, de trajes cinzentos — Rendam-se, e as crianças serão poupadas. Crescerão fortes, bem alimentadas e servirão a nós no lugar que merecem. Caso contrário...

—Estamos em uma época sagrada — Finlad a interrompeu com uma voz alta e sonora, surpreendente para alguém daquela idade — Não é a época de lutar. Nosso grande Agramungrad

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.