MinarFic
26 Cap41
Pouco depois de Khanjis deixar o Mercado Livre, um segundo rapaz entrou no portal. Era mais baixo do que o marinheiro, tinha pele escura e bronzeada e vestia roupas mais casuais — camisa branca de gola em V, calças jeans e tênis brancos. Usava um gorro largo preto com orelhas de gato, e sua característica mais marcante eram os olhos: grandes, profundos e em um tom de violeta vivo. Andava tranquilamente até chegar próximo ao homem vendado, recostado a um portal.
—Vejo que o Mercado Livre está bem visitado ultimamente — disse Donnie, com ar brincalhão.
—E eu vejo que você está melhor — respondeu Gui, serenamente. Donnie sorriu.
—Estou me recuperando, e você não respondeu à minha pergunta. Por falar em recuperação — ele ficou sério — Nuck me contou que você desmaiou na sala dele.
—Foi apenas uma dor de estômago, nada mais — o outro respondeu displicentemente — Nada com o que se preocupar, e digo o mesmo daquele homem que acabou de sair do Mercado Livre.
—Dor de estômago — Donnie repetiu, sem acreditar nisso nem por um segundo.
—Como eu disse, nada com o que se preocupar. Concentre-se na nova missão que tenho pra você.
Ao ouvir isso, Donnie mostrou um sorriso desanimado. Ele estava organizando um livro na seção Fanfic quando sentiu algo, uma sensação que lhe dizia que Gui queria falar com ele. Isso acontecia de vez em quando desde que eles chegaram ao MinarForest, e sempre que Donnie achava que Gui queria vê-lo, era porque Gui de fato queria vê-lo.
—Descobri que nosso repertório de lendas de Perion está desatualizado — continuou ele — E lembrei-me da história uma gangue de Kerning muito peculiar que deveria constar na seção Fanfic, mas que não está lá. Você poderia perguntar a alguém de Leafre, é claro, mas...
—Prefiro verificar por mim mesmo — o rapaz respondeu sorrindo. A perspectiva de voltar à ilha Victoria era muito bem-vinda depois de intrigas com espiões, ataques Black Wings e o desaparecimento da Giu.
O desaparecimento da Giu. O sorriso de Donnie escorregou-lhe dos lábios.
—Ainda não a encontramos, Gui — ele sussurrou — Sinto que poderia rastreá-la, já que ela passou algum tempo na seção Fanfic...
—A seção Fanfic não é um radar, Donnie. Você conseguiu localizar o Thugles porque ele passa muito tempo lá, e além disso, você o conhece e tem uma ligação amigável com ele. Mas você pouco conhece da Giu, dos modos dela ou da maneira de escrever dela.
—Mesmo assim... — Donnie hesitou, sem argumentos. Ele queria continuar ali, pois achava que poderia ajudar a encontrá-la. Além disso, a idéia de procurar lendas enquanto os outros procuravam pela menina desaparecida não lhe agradava. Conhecendo-o como conhecia, Gui sabia exatamente o que se passava na mente do menino. Com uma das mãos calorosamente em seu ombro, disse:
—Donnie, não interessa. Eu estou mandando.
Donnie recuou instintivamente.
—Então é assim? — o rapaz respondeu rindo — Não sou mais um garoto que obedece fielmente suas ordens — disse em tom de brincadeira.
—Mas você precisa sair um pouco do MinarForest — replicou o homem — Acredite em mim, se você não precisasse ir pra lá, eu não mandaria você para lá. Talvez Perion esteja em perigo e eu esteja mandando você lá sob o pretexto de procurar lendas novas, quando na verdade o objetivo é que você apareça pra salvar a ilha. Você já pensou nisso?
—É bem o tipo de coisa que você faria — Donnie concordou num leve tom resignado — Mas tudo bem. Então eu vou.
Ele já estava para partir quando Gui o chamou.
—Donnie — e dessa vez, sua voz saiu mais baixa, mais séria — Confie em mim, você não pode ser mais útil pra Giu aqui no MinarForest do que fora dele. Deixe isso comigo. Concentre-se apenas em seu objetivo, não vá deixar as emoções te atrapalharem.
—Eu... — Donnie hesitou novamente, pois agora que pensava nisso, era justamente o que ele viu que iria acontecer — Tudo bem, Gui. Não se preocupe, vou fazer o melhor.
Sem dizer mais nada, ele desapareceu do Mercado Livre, porém com a mente mais tranquila.
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A mente de Giu era uma confusão embaralhada de gritos, cores e gemidos — coisas que se misturavam em um sonho incompreensível, onde tudo o que acontecera naquele dia se amontoava de uma só vez enquanto ela dormia, ou mais ou menos isso. Estava num estado de semi consciência, sem conseguir dormir por causa da dor que sentia em seu corpo.
Antes, ela tinha caminhado na neve, encontrada pelos Kerkagar e feito um breve descanso. Agora, tinha sido jogada no chão pela incrível força do grito de Ragnak, estatelando-se e ferindo os músculos. E, agora que ela estava deitada no meio de todas aquelas peles, eles finalmente relaxavam, e agora ela sentia também a dor do cansaço e da exaustão.
Horas se passaram sem que ninguém fosse buscá-la. Além da dor dos músculos doloridos, ela sentia as costelas doerem e alguns ossos que provavelmente estariam quebrados, embora não houvesse sangue — Giu dificilmente sangrava, já que a magia curativa fluía por seu corpo. Mas, se ela era capaz de estancar aquele sangramento, era preciso muito mais energia para curar um corpo que fora atirado com força contra o chão. A magia curativa tentava curá-la automaticamente e ela era incapaz de controlar isso — de modo que suas forças esvaíam-se ainda mais rapidamente, embora, fisicamente, seu corpo estivesse sendo regenerado.
Ela achou que não perceberia quando alguém abrisse a porta — estava errada, alguém a abriu e inundou o quarto de peles com luz. Estivera vagamente ansiosa pra que alguém fosse vê-la logo — mas agora mudara de idéia. A visão do corpo de Agramungrad explodindo em pedaços não tinha deixado sua mente, e jamais deixaria, e ela se perguntou o que fariam com ela. Mas eles não poderiam julgá-la por algo que ela não tinha culpa, disso ela tinha certeza.
Mas... Será que aquela tribo também pensava assim?
Giu sentiu-se erguida por duas mãos imensas, tão rapidamente que seu corpo estalou de dor. Alguém a segurou por alguns segundos, então Giu sentiu-se ser abaixada para cair em mãos muito menores, mais finas e delicadas, que viraram-se para a porta para sair do quarto.
A luz do sol atingiu-lhe os olhos, e depois de tanto tempo na escuridão, Giu sentiu-se atordoada com a claridade. Só pôde fechar bem os olhos, pois seus braços doíam ao menor movimento. Demorou algum tempo para que ela se acostumasse com a iluminação — tanto tempo, que quando deu por si estava sentada numa cadeira estofada de pele de animal.
—Beba isso — mandou uma voz áspera.
Giu obedeceu quando encostaram um pote de vidro grosso em sua boca, tão grosso quanto o líquido de sabor horroroso que lhe escorreu pela garganta. Tentou respirar, mas uma mão forte lhe segurou a nuca e a obrigou a continuar bebendo. Quando aquilo acabou, a menina estava curvada e tossindo, tentando vomitar o que havia acabado de colocar para dentro.
—Ah, vocé já deu o revigorante de... — uma mulher hesitou — [i]Cerveja Preta[/i]? Seu idiota! Não é isso que se dá pra garotas doentes!
—Sempre funciona comigo! — a voz áspera reclamou indignada. Ouviu-se um suspiro seguido de passos largos deixando o local, provavelmente o homem que tinha oferecido-lhe a bebida. A mulher ajoelhou-se à frente de Giu.
—Levante a cabeça — ordenou — Vamos, menina, que fraqueza é essa? Olhe pra mim!
Giu esforçou-se para olhar para ela, e viu um rosto sério e altivo encarando-a com as sombrancelhas muito juntas. Reconheceu Lena... ou Vivian, não sabia dizer qual delas.
—Sou Jacelydia — disse a mulher, estapeando-lhe as faces — Ei, está me ouvindo? Acorde! Estou falando com você!
—blurgh ugh acordada — Giu engoliu audivelmente, sentindo que um pouco da pasta de cerveja havia se aventurado a subir-lhe pela garganta.
—Ótimo — ela virou o rosto para trás — Ei, ela está viva! Podem trazer os dragões famintos! — gritou. Giu ficou ereta na cadeira.
—[i]O quê?[/i]
—Sempre funciona! — a mulher voltou o rosto para encará-la e riu — Relaxe, garota, o pior já passou. Beba isso.
—É...
—[i]Agora![/i]
Giu bebeu outra caneca de algo, desta vez segurando com as próprias mãos. O líquido ainda era pastoso e desagradável, mas não havia a presença do álcool como antes. Para todos os efeitos, tinha sido uma experiência melhor do que a primeira caneca. A mulher assentiu em aprovação.
—Ótimo, agora levante-se. [i]Levanta[/i], você não vai se curar sentada aí, vamos!
Giu foi puxada pelo braço forte da mulher e suas pernas tremeram ao tentar sustentar o corpo. Ela lutou um pouco para tentar ficar de pé, mas não sabia que aquela dose dupla de revigorante estava fazendo efeito. Era uma mistura de folhas medicinais socadas até virar um caldo grosso com altíssimas propriedades energéticas, exatamente o que ela estava precisando naquele momento. Era como uma reserva extra de energia, da qual seu poder curativo poderia extrair para terminar de remendar os ossos prejudicados e os músculos feridos.
Jacelydia a ajudou a caminhar, um passo de cada vez. Somente então Giu se perguntou o que estava acontecendo e pra onde é que estavam indo, mas ainda se sentia insegura demais para se arriscar a falar sem receio de vomitar. À medida que seus olhos se ajustavam à luz, ela reconheceu a neve, as montanhas cobertas de neve e os bonecos de neve... Não, aqueles eram os Kerkagar furiosos reunidos encarando a menina.
Ou assim lhe pareceu, a princípio. Toda uma multidão de homens e mulheres de pele pálida e roupas nada recomendadas para o frio encarava a menina e sua acompanhante, todos eles de armas na mão. Mas os olhares não eram de raiva, embora eles se parecessem muito com ursos ameaçadores. Um urso sempre parecia ameaçador quando estava em pé, mesmo que estivesse no melhor do seu humor.
Homens, mulheres e crianças, todos olhavam para ela. Então Giu sentiu-se impelida para um lado, desviando da multidão e pisando num piso de pedra. Entrou num aposento, e somente então reconheceu que estava na Casa das Barbas. E por falar em barbas, lá estavam quatro delas, presas a queixos que continuavam cabeças presas a troncos com seus membros, cobertos por uma túnica azul-escura cheia de dobras.
A mulher deixou o aposento antes que Giu percebesse que já conseguia ficar de pé sozinha, embora não por muito tempo. Os homens, os outros quatro Barbas Velhas além de Agramungrad, estenderam as mãos e pediram que se sentasse junto deles.
—Bem-vinda, Giu, estrangeira — disse um deles, Finlad.
Os olhares dos demais era muito sérios, e Giu os temia. Mais do que temeria Ragnak ou até Agramungrad — pois sabia o quão poderoso era este, mas Agramungrad tinha modos agradáveis e a deixava confortável e segura em sua presença. Aqueles quatro, não. Eram figuras sábias, conselheiras e cheias de poder, os rostos e olhares marcados pela experiência de décadas, todos com uma seriedade e sombriedade que não deixariam ninguém à vontade, entre quatro paredes com eles.
Quando ela se sentou, os outros ajoelharam-se, e ela assim o fez, embora sentisse que seu corpo iria tombar a qualquer segundo. Os Barbas Velhas puseram lançaram-lhe olhares claros para que ficasse quieta, e colocaram um grande saco cheio de carne para ser queimado na fogueira. Em seguida curvaram as cabeças e juntaram as mãos no coração. Todos de frente para a lareira, que queimava vivamente e consumia o saco, lentamente.
E ninguém disse nada depois disso. Giu estava de joelhos, a cabeça levemente baixa, mas seus olhos atentos não paravam de esquadrinhar o aposento. Notou que os quatro homens haviam tirado os capuzes, mas seus cabelos e barba escondiam as expressões curvadas tão bem quanto as peças de roupa. O tempo se arrastava, mas ela não ousou fazer um movimento sequer. O calor da fogueira a aquecia e pelo menos ela sentiu que conseguiria ficar naquela posição por algum tempo. Os únicos sons que se ouviam eram o crepitar da lareira... E um zumbido baixo, alguma coisa muito distante que ela não conseguia saber direito de onde vinha. Então ela inclinou o corpo levemente para um lado e percebeu que o som vinha de Hadruf, o Barba Velha mais próximo dela. Curiosa, ela aproximou a cabeça o máximo que pôde de Yagrin, outro deles, e finalmente se deu conta de que o zumbido eram sussurros dos homens, provavelmente algum tipo de oração ou ritual.
Os minutos se alongavam. Eventualmente, o saco rasgou-se e seu conteúdo jorrou livremente dentro do fogo: pedaços de carne avermelhada e ossos, alguns já enegrecidos. Giu passou a observar a carne sendo queimada, escurecendo, esfarelando-se até não restar mais nada dela visível. Só depois disso é que os Barbas Velhas ergueram as cabeças, um após o outro(Giu quase gritou de aleluia). Ergueram as mãos, disseram algumas palavras numa língua que Giu não conseguiu entender e levantaram-se.
—A Vigília foi completa — anunciou Yagrin, indicando a Giu que já poderia se levantar — Nossas orações foram proferidas. Agora, que a nova escolha seja tão abençoada quanto foi a última.
—Agramungrad deu a vida para lhe salvar — Hofrug aproximou-se dela, olhando-a com os olhos castanhos e profundos — É justo que você também esteja presente na consumação de seu corpo no fogo sagrado. A bênção da consagração agora repousa em você, e só poderá ser retirada por ele próprio, quando vocês se encontrarem novamente naquele lugar acima das nuvens.
Um arrepio percorreu a espinha da garota. Agramungrad tinha virado vários pedaços espalhados, então, dentro daquela sacola... O pensamento de que seu corpo estava impregnado com frangalhos dos restos do homem a perseguiria para sempre, também só poderia ser retirado quando ela fosse ter com Agramungrad para reclamar.
Os Barbas velhas indicaram que ela saísse, e ela assim o fez. Hadruf falou um pouco aos demais Kerkagar, anunciando que a escolha do próximo chefe em breve seria feita. Alguém na multidão correu até eles, e Giu reconheceu Grania, a pequena garota de pele pálida vestida em culotes marrons e roupa de pele sem mangas.
—Giu! — a menina tomou-lhe as mãos, sorridente, embora seus olhos vivos estivessem avermelhados de choro — Como você está? Eles te trataram bem? Fulminag ia tirar você do quarto, mas pedi pra carregar você... Mas eles não deixaram!
—Estou bem — Giu devolveu o sorriso a ela — O que aconteceu? Você estava chorando?
—Estava — ela respondeu arqueando as sobrancelhas — Agramungrad brincava comigo desde que eu me lembro. Era a segunda pessoa mais próxima de mim depois do meu pai e da mamãe, e vou sentir muita falta nele. Eu ainda não consigo acreditar que ele se foi — os olhos dela ficaram vagos e confusos por um instante. Lágrimas formaram-se lentamente e ela puxou um fraco soluço.
As duas se abraçaram. Giu era uns dois anos mais velha, mas sentia o corpo forte por baixo da delicadeza da menina. E, apesar de soluçar e fungar, ela quase não chorou. Mas a tristeza era mais do que evidente em seus olhos diante da perda do chefe, conselheiro e amigo. Depois de alguns minutos, Grania libertou-se do abraço e fungou.
—Eu... Sinto que devia rezar por ele, mas não sei o que fazer. Eu devia me ajoelhar e permanecer assim durante algumas horas orando, mas...
Giu estremeceu.
—Oh, não faça isso. Não vai ajudar em nada, Agramungrad não ia querer que você ficasse parada que nem uma monga. Viver sua vida, sorrir, é isso o que deixaria ele feliz, ele não ia querer que você ficasse se lamentando.
—É mesmo — Grania assentiu várias vezes — É... mas ainda assim, vou sentir muita falta dele...
Elas se abraçaram novamente, e uma mulher veio para avisar a pequena menina que precisava realizar alguns afazeres. Não muito sutilmente, Giu perguntou o que seria dela então. A mulher deu de ombros.
—Você agora é nosssa convidada — explicou ela.
—Tá, mas o que eu faço agora? E toda aquela confusão? E o Ragnak...?
—Ragnak foi executado — disse ela, friamente — Aquele assassino agora está a espera nos portões para que todos os diabos o levem. Quanto a você, os Barbas Velhas decidiram que é uma honra que a morte dele tenha sido em um ato de tanta coragem. Agramungrad certamente está no paraíso agora. Muitos de nós o invejam, sabe.
Ela levou Grania pela neve, e a menina acenou despedidas para Giu. Alguém tocou-lhe o braço, ela se virou e se viu encarando um rapaz magro, um pouco mais velho que ela, de cabelos desgrenhados e lisos, rosto limpo e sem marcas.
—Olá, Giu — ele cumprimentou com um sorriso rebelde — Sou Tony Renner, serei seu guia pela tribo dos Kerkagar. Gostaria de me acompanhar?
Ele estendeu o braço para que ela segurasse. Giu ergueu as sobrancelhas.
—Hã... Não, na verdade eu gostaria do meu martelo.
O rapaz riu.
—Seu martelo! Claro, sei onde está. Se quiser me acompanhar...
—Pare de estender esse braço pra mim, não vou sair por aí grudada em você — reclamou ela. Tony finalmente recuou o braço.
—Ei, que mau humor é esse? — ele falava animadamente, alongando um pouco as vogais — Tá bom então, mas venha atrás de mim. Esse lugar é muito perigoso. Fique atrás de mim.
Giu pensou em lhe dar um soco, mas supôs que o rapaz gostaria disso. Suspirou, e apertando o casaco contra o corpo, seguiu o guia pela neve.
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