MinarFic
25 Cap40
Pela terceira vez na arena da seção Warrior, Arroiz sentiu o gosto da terra.
Da primeira vez, Iremi tinha feito ele tropeçar com um chicote de ar. Na segunda, tinha sido um pouco menos mágica: chutara um monte de areia no rosto dele, jogando-o longe com um raio logo em seguida. Arroiz levantara-se e investira num ataque rápido, pisando em uma espécie de mina de fogo que o fez girar no ar e cair de cara no chão.Desta vez, Iremi adiantou-se e pisou na cabeça do guerreiro, auxiliada por magia do ar e esfregando o rosto dele no chão. Arroiz sentia a areia entrando nos olhos, no nariz e na boca, cegando e sufocando. Quando ela levantou o pé para pisar mais uma vez, Arroiz girou o corpo rapidamente ficando de barriga para cima, a ponta da espada subindo para acertar a cabeça da menina no golpe final que terminaria a luta, ficando de pé no mesmo movimento.Mas a menina já não estava mais lá, e sim bem atrás dele, preparando uma esfera carregada de energia. Arroiz virou-se para ela e viu o corpo franzino, a pele pálida e os longos cabelos ruivos que pareciam ser feitos de agulhas sobrepostas umas sobre as outras. Um golpe de espada, era só do que precisava para terminar aquela luta: bastava que a lâmina atravessasse aquela pele desprotegida para a magia da seção Warrior entrar em ação e ela cair desacordada como Benna, sem ferimentos de verdade.No entanto, isso parecia impossível. Durante toda a luta, Arroiz quase não conseguia sequer chegar perto da menina, e quando o fazia, se arrependia, pois ela se defendia com eletricidade, fogo ou mesmo com a areia da arena. O rapaz sabia que cada mago tinha algum tipo de magia em que se especializava, e a dela parecia ser uma das mais difíceis — a de teletransporte.O corpo levemente curvado, a espada firme na mão esquerda, Arroiz encarava a oponente enquanto ela conjurava uma bola azul faiscante. O olhar dela focava não na magia, mas no oponente, e foi quando Arroiz percebeu que os olhos dela eram vermelhos. Eles encararam-se por alguns segundos, então o guerreiro notou uma centelha nos olhos dela e, sabendo que ela ia atacar, tomou impulso com o pé e investiu.Foi um movimento rápido, por puro instinto aperfeiçoado pelos milhares de anos observando a expressão de um oponente na batalha, mas que provou estar certo mais uma fez. Assim que ele começou o movimento de atacar, Iremi largara a esfera, então Arroiz parou de súbito, fincando ambos os pés no chão e virando-os para o lado para projetar areia para frente.Iremi foi pega de surpresa quando a areia a atingiu. Arroiz esticou o braço e fincou a espada, carregada de eletricidade, na esfera de energia, forçando-a a explodir e jogar todo o impacto na direção da oponente. Iremi gritou surpresa, sem reagir a tempo para escapar, e foi jogada para trás, enquanto Arroiz não perdia tempo e corria para continuar o ataque. A carga de eletricidade desapareceu da espada e ele desferiu um golpe rápido contra a menina caída no chão.A espada bateu num muro invisível, feito de ar, e Arroiz tentou novamente, destruindo a magia com o impacto. Iremi já estava de pé quando o terceiro ataque veio, uma cortada por cima da qual ela escapou com teletransporte. Reapareceu em algum ponto atrás dele, e Arroiz virou-se novamente na direção certa e ergueu a mão direita, aparando do um raio de Iremi que foi conduzido pelo braço até a espada apontada para cima, onde acertou inofensivamente o teto. Arroiz disparou para a frente, mas Iremi desapareceu outra vez. Deduziu tranquilamente onde ela reapareceria e virou-se naquela direção.—Este não pode ser seu tipo principal de magia — falou ele — Vamos, me diga qual é!—Posso vencer facilmente esta batalha — Iremi respondeu, tinha a voz baixa e desenvolvida — E sem usá-lo. Mas não teria graça. Na verdade eu poderia vencer facilmente solidificando a areia e transformando-a em uma lança que atravessaria seu coração.Desta vez, Arroiz relaxou o braço e sorriu.—Não, você está blefando. Nuck fez esta areia à prova de encantamentos, de forma que você não poderia manipulá-la. Afinal, esta é uma arena para soldados de armas brancas, não para bruxos e magos.—E você, não é um? — perguntou Iremi. Arroiz deu de ombros.Esperou que ela atacasse, o que ela fez, jogando-lhe um raio conjurado com as duas mãos que Arroiz desviou novamente com a mão erguida direcionando-o para a espada, novamente um pouco surpreso diante do poder daquela magia. Iremi era nova — não poderia ter mais do que quinze anos, mas seu conhecimento das artes mágicas, assim como a experiência para usá-las em combate, ultrapassava o que era esperado para alguém daquela idade. Era como Nick: um jovem prodígio, e que estava lhe causando trabalho na luta.Arroiz investiu para frente e Iremi teletransportou-se outra vez. Girou o corpo para a esquerda e pulou, segurando a espada com ambas as mãos e descendo-a com força, mas a menina escapou novamente. Voltou-se para onde Iremi reapareceu, parando para recuperar o fôlego.—Ufa — fez ele, com ar cansado. Iremi disparou um raio, que Arroiz só aparou no último segundo. Iremi desapareceu e reapareceu na frente dele com a mão brilhando e faiscando, acertando um soco bem no queixo.
O golpe, impulsionado pela magia, estalou os ossos do guerreiro e ele caiu de costas no chão. Levantou-se rápido como um raio e atacou Iremi, que sumiu outra vez. Sentiu outro raio nas costas e quando se voltou naquela direção, viu ela de pé na areia já conjurando outra magia. Correu para atacá-la, apenas para golpear o ar.—Isso é impossível — Arroiz disse virando-se para ela. Sua voz soava assustada — Ninguém consegue teletransportar-se tantas vezes tão rapidamente.Iremi nada disse, respondeu com uma bola de energia da qual Arroiz esquivou-se. E de repente, o guerreiro pôs um joelho no chão ao tropeçar. A espada caiu de sua mão e Iremi disparou um raio contra ele, uma descarga elétrica contínua, saindo das mãos abertas e terminando no corpo do guerreiro.Arroiz gritou enquanto a menina mantinha o raio, percorrendo seu corpo e eletrocutando-o da cabeça aos pés. Iremi tinha os olhos fixos na cena à sua frente, a boca séria sem piscar ou hesitar. Concentrava todas as suas energias na magia de eletricidade que mantinha o oponente parado, impotente.Arroiz se levantou de súbito e a magia foi quebrada, o raio desaparecendo das mãos de Iremi. Antes que ela registrasse o que tinha acontecido, Arroiz já tomara a espada do chão e espalhava areia enquanto os pés batiam rápida e levemente numa corrida. Levemente surpresa, Iremi teletransportou-se para outro lado da arena.Desta vez o giro de Arroiz foi muito mais rápido, como o de um gato mudando de direção, e sua investida muito mais rápida do que nas vezes anteriores. Iremi teve que desaparecer outra vez, mas assim que reapareceu, Arroiz estava em cima dela, a espada preparada para acertar-lhe a garganta. Iremi girou e pilares de eletricidade surgiram ao redor dela. Arroiz pulou para a direita sem nem diminuir a velocidade, passando direto pela garota — mas erguendo o braço esquerdo para o lado.A ponta da espada atingiu o braço da menina, que gritou do outro lado da arena — já tinha se teletransportado novamente e Arroiz estava outra vez em seu encalço, cobrindo a espada com fogo. Foi então que ela descobriu que, o tempo todo, Arroiz estava fingindo — tinha entrado em seu jogo de gato e rato, ela achando que estava conseguindo cansá-lo, mas agora parecia estar acontecendo o oposto. Ela mal conseguia se recuperar de um teletransporte e já tinha que usá-lo novamente, e por mais que Arroiz corresse e se esquivasse, seu rosto não demonstrava cansaço. Os olhos por trás dos óculos permaneciam tranquilos e indiferentes.Num dos reaparecimentos, Iremi perdeu levemente o equilíbrio e Arroiz não desperdiçou a chance, baixando a espada para acertá-la bem na barriga. No entanto, o golpe foi bloqueado pela última coisa que o guerreiro esperaria que ela fizesse.Iremi piscou um olho, pela primeira vez exibindo uma emoção diferente da concentração que vinha mantendo: dor, chorosa e aguda, pois colocara o braço na frente para bloquear a lâmina. Até Arroiz arregalou um olho diante daquilo. Não sangrava, a lâmina penetrara no braço como um holograma, parando ao sentir a resistência do osso. Iremi não sofreria nenhum dano físico, exceto toda a dor que aquele golpe poderia causar.No segundo seguinte ela tinha desaparecido, mas ao reaparecer, não tentou atacá-lo. Segurava o braço com a mão esquerda, os dentes arreganhados, a cabeça baixa e o rosto escondido pelo cabelo, de modo que Arroiz não podia ver as lágrimas que escorriam. A dor intensa piorava a cada segundo e ela não dispunha de nenhuma magia que a ajudasse.E Arroiz ficou sem saber o que fazer, parado com a mão frouxa segurando a espada.—Hã, desculpe, eu não sabia que...Ele levantou a espada por reflexo, quando Iremi explodiu em eletricidade, criando um campo de energia dentro de toda a arena. Durou menos de um segundo e a arma de Arroiz absorveu todo o dano que ele teria sofrido. Em seguida, Iremi rodopiou e uma fina camada de vento surgiu, desfazendo-se quando ela cambaleou.—Você está bem? — o guerreiro perguntou hesitante — Eu posso ajudá-la, deixe-me ver seu braço...Estavam a alguns metros de distância entre si quando ela ergueu o braço para ele, o direito, que não doía. Encarou-o nos olhos e Arroiz quase pôde enxergar-se refletindo naquelas duas bolinhas vermelhas que brilhavam com os restos de lágrimas. A boca dela fez uma linha dura e séria, embora o braço esquerdo tremesse.Iremi tinha a mão erguida para Arroiz. Murmurava alguma coisa ininteligível e o guerreiro a encarou com cara de bobo. Um minuto se passou.—Hã... Isso seria algum tipo de truque? — ele perguntou finalmente e a menina baixou a mão, frustrada.Tentou outra coisa: esticou os braços para os lados e criou uma esfera de ar ao redor de si. Arroiz levou três segundos para perceber o que ela fazia, mas era tarde demais. Iremi conseguira completar a magia e agora estava no centro de uma bola na qual o ar movimentava-se com rapidez. Arroiz fincou os pés no chão, pois sabia que magias do ar daquele tipo eram selvagens demais para serem absorvidas, e seu corpo magro poderia ser facilmente levado pelo vento.Ele permaneceu parado enquanto Iremi, com o braço esquerdo explodindo de dor, moveu os braços em movimentos coordenados como numa dança, criando ondas de vento aleatoriamente pela arena. A esfera fazia o ar girar para um lado, então as ondas acertavam Arroiz em outro, na tentativa de desequilibrá-lo. Ele fez uma careta, concentrou-se, esperando o momento certo.Sua espada se ergueu num movimento repentino, cortando o ar e forçando todos os ventos a irem na mesma direção, a de Iremi. A resistência do ar desapareceu numa linha reta e Arroiz pulou para a frente, impulsionado pelo vento com a espada apontada diretamente para o coração de Iremi.Por coincidência ou não, ela saltou bem a tempo, flutuando no ar metade da altura até o teto da arena. Arroiz olhou para cima e viu esferas azuis surgirem flutuando por todo o lugar, crescendo e rodopiando — começou a correr, pois sabia o que aquilo significava. Cada esfera reunia energia para formar um raio, que caía na arena com estrondo.A areia se espalhava onde os raios caíam, todos parecendo mirar em Arroiz. O rapaz corria, mudava de direção de repente ou pulava rolando para trás, recompondo-se de pé num salto para desviar-se de outro raio. Iremi flutuava, concentrada nos raios.A luta agora parecia impossível para Arroiz, mas ele sabia onde a estratégia da menina falhava. Se ela, tão jovem, conseguia dominar um tipo de magia que levava muitos anos para se aprender(a de teletransporte, que Arroiz, que tinha mais de três mil anos de idade, não conseguia executar), seria impossível que tivesse tempo para treixar outros tipos de magia. Isso era confirmado por ela usar apenas magias de eletricidade e de vento.—Ei, Iremi — Arroiz gritou de repente, tendo uma idéia — Quer ver eu ganhar essa luta agora?Não sabia por que tinha dito aquilo, as palavras apenas lhe apareceram na mente e ele falou. A menina não pareceu escutar, mas redobrou os esforços para atacá-lo. Mas agora Arroiz já não corria, e sim deixava os raios o atingirem enquanto encantava a magia com fogo. Mas não era apenas "a espada coberta de chamas", e sim uma língua de fogo que crescia e crescia, alongando-se a ponto de rivalizar com o tamanho da polearm de Davien. Puxando a espada para trás como se usasse um chicote, as chamas vieram junto, mas então o fogo fugiu ao seu controle, parando no ar e sendo puxado até Iremi, envolvendo-a numa bola de chamas.Horrorizado, Arroiz percebeu que ela estava absorvendo de propósito o fogo das próprias reservas mágicas de Arroiz, e interrompeu a magia. A menina já estava dentro de uma bola que se compactava cada vez mais, passando de laranja-claro para escuro e então começando a se avermelhar. Pontos brancos surgiram na esfera de chamas à medida que ela ficava cada vez mais quente e girava ao redor da garota. Então a esfera começou a crescer lentamente, faíscas surgiram ao redor dela.Arroiz mirava o centro da esfera, onde imaginava que Iremi estaria. Trouxe a espada para cima do ombro, estreitou os olhos e a arremessou como um dardo veloz, girou o corpo no chão e deu um soco no ar de onde saiu uma faísca de energia que acertou o cabo da arma, impulsionando-a.A espada atravessou as chamas e a esfera se desfez e evaporou, revelando o corpo de Iremi que permaneceu no ar durante um segundo antes de cair com um baque abafado no chão. Ela ficou estendida de costas para a areia, a espada cravada abaixo do peito.
Arroiz hesitou temendo o que tinha feito, mas então lembrou-se de que ela nada sofreria e sorriu satisfeito. A próxima coisa que sentiu foi uma dor aguda nas costas e viu uma lâmina projetando-se de seu peito, bem acima do umbigo. Abriu a boca num grunhido surpreso e ouviu a voz de Benna às suas costas:—Rá! Ganhei! É boa a sensação, não é?E desfaleceu.—------------------------------------------------------------------------------------------------------------------Skandrug era uma pequena vila portuária na ponta sudoeste de El Nath, um conjunto de casas e edifícios pequenos com um píer de madeira coberto de lascas de gelo, servindo como porto. Eles não costumavam ter muitos motivos para comemorar, mas agora celebravam a chegada de Thugles, seu herói.A vila ficava isolada das outras porque se situava no litoral onde havia muitas montanhas altas e escarpadas, e as estradas que serpenteavam entre elas tornavam o caminho cinco vezes mais longo até a vila mas próxima. Eles criavam gado e vendiam coisas como leite, carne, lã e chifres, mas Skandrug agora passava por um inverno rigoroso, e poucos comerciantes iam até aquelas paragens. A incidência de piratas locais também tinha mantido afastados os navios que geralmente negociavam com os moradores da vila.Assim, os habitantes esgotavam seus últimos suprimentos de comida e se preparavam para um inverno difícil — a neve caía fraca, porém incessantemente e cobrindo tudo com gelo, bloqueando as estradas para vilas vizinhas e fazer comércio. Coincidentemente, foi nesse período que Thugles chegara ali com Duh e Sheddeer afim de explorar as geleiras para resgatar Giu.Mais ainda, durante o caminho, um navio pirata os atacou e levou a pior no combate que se seguiu, garantindo à tripulação de Thugles um suprimento extra de comida, cereais e outros artigos que o povo de Skandrug precisava. Eles também estavam muito cientes da presença do Kasato Maru, o navio da Marinha capitaneado por Khanjis, que os seguia. Depois de algumas horas de viagem, o navio tinha ficado fora das vistas, e eles não o encontraram mais.—Eles seguem a gente, mas nem pra dar uma ajuda pra enfrentar os piratas — resmungou Thugles.Assim sendo, Sheddeer deixou-os fazendo negócios com a vila e pegou a estrada que levava mais para dentro das geleiras. As trilhas passavam entre os sopés de inúmeras montanhas, e naquele tempo elas ficavam com uma cobertura de vários centímetros de neve. Não seria tão difícil para alguém como Sheddeer, mas a situação seria diferente para carroças e carruagens maiores que quisessem transportar mercadorias.O arqueiro caminhava levemente curvado, sua pele bronzeada anestesiada pelo frio ao qual não estava acostumado. Geralmente ele usava um casaco verde, que trocara por vestes mais grossas brancas por baixo de um casaco mais fino e no mesmo tom branco, capaz de confundir-se com a neve. Quem o olhasse de trás veria apenas um vulto vago caminhando lenta e firmemente. Se a necessidade surgisse, ele poderia deitar no chão e ficar imóvel, o que teria praticamente o mesmo efeito de ficar invisível.Seu arco longo de madeira marrom era a única coisa que constrastava com o branco. Ele parou por alguns instantes analisando o chão à procura de sinais, mas a neve certamente apagaria qualquer rastro ou pegada. Sem dizer palavra, recomeçou a caminhar.As horas se arrastavam, e o arqueiro se sentia como uma formiga caminhando num imenso deserto, o que não deixava de ser verdade. As montanhas já haviam ficado para trás e ele se encontrava num terreno relativamente plano, sempre com montanhas em volta. Então, subitamente ele escalou uma colina e ele se viu diante de uma imensa área de neve sem nenhuma montanha, um lugar que certamente caberia metade do MinarForest.Ele ergueu uma sombrancelha. Seu instinto lhe dizia para ir para lá, e assim ele fez. De qualquer forma, aquele espaço gigantesco sem montanhas era um lugar tão bom quanto qualquer outro, pois o rapaz não tinha muitas pistas de onde procurar, exceto as direções que tinha recebido antes de partir.—Giu está em algum lugar no sudoeste — dissera Nuck — Não consigo analisar os códigos da seção Magician pra ver onde ela foi, é como se ela simplesmente não tivesse desaparecido. Mas Aphanyus me ajudou a rastreá-la, e não pressentiu nada no norte nem no nordeste. Rockfield mandou uma equipe procurá-la mais pelo centro, mas eles não tiveram nenhuma pista.—Tem uma vila chamada Skandrug — acrescentou Donnie — Fica no litoral e vocês podem começar a procurar pelas estradas que saem de lá. Sonhei com Skandrug durante um cochilo — acrescentou com leve sarcasmo — Imagino que seja Fpkforhero me mandando uma mensagem.E assim eles embarcaram. Normalmente, Sheddeer não gostava muito de magia, preferindo confiar nos músculos, no cérebro e nos instintos que muitas vezes lhe eram infalíveis, cuidando de sempre ensinar isso aos seus alunos. Mas ele não era tolo e confiava em Donnie e em Nuck, e sabia o quanto eram poderosos. Se eles diziam que conseguiram alguma pista, então só lhe restava seguí-la.Mesmo assim, as chances não estavam muito a favor dele. O fato de Aphanyus não ter identificado nada no sudeste e nem as equipes de Rockfield terem descoberto algo em outras regiões só eliminava, e muito vagamente, um pedaço das geleiras. El Nath era muito grande, não apenas em área como também na altura, e ter que procurar em cada uma das grandes montanhas era uma perspectiva desoladora. Na verdade, Sheddeer teria achado a idéia de procurar alguém num lugar como aquele, sem nem saber onde achar, uma idiotice, mas talvez Nuck tivesse mais alguma informação que ele não soubesse, ou Donnie. Talvez o misterioso Fpkforhero quisesse que ele estivesse ali e fosse ajudá-lo. Ele deu de ombros involuntariamente. Aquilo não era problema dele. Deveria apenas seguir o que lhe haviam indicado e concentrar-se nas pistas na neve."Estou ficando muito confiante na magia", ele pensou com leve surpresa.—------------------------------------------------------------------------------------------------------Por mais que trovejasse, relampejasse ou escurecesse, haveria um lugar onde seria sempre dia, sem nuvens no céu e sem até mesmo sol visível, apenas o azul-claro do céu límpido. O clima, sempre neutro e agradável, era excelente para meditar e se pensar, como Gui fazia no Mercado Livre.O chão era de grama curta que não crescia nunca e era completamente plano, estendendo-se por todos os lados até onde os olhos podiam alcançar. A única variação na planície eram os portais de moldura marrom um pouco maiores do que uma pessoa, cada um com um grande número incrustado no topo. Estavam espalhados não somente pelo chão, mas também em minúsculas ilhas que flutuavam no ar tranquilo, por onde se chegava por teletransporte — que qualquer pessoa poderia fazer, se estivesse no Mercado.Mesmo assim, o recém-chegado preferia caminhar, a passos lentos porém largos, o corpo ereto e determinado. Recostado na moldura de um dos portais, Gui tinha o rosto virado para ele tranquilo, embora os olhos estievssem cobertos por uma tira de tecido vermelho.O homem que vinha era alto, vestido numa camisa vermelha por baixo de um colete branco de manga comprida, aberto na frente e com botões. Tinha cabelos duros e negros cobertos por um quepe de marinheiro. As calças eram de um preto desbotado e as botas tinham cor negra. Mesmo à distância, era possível reconhecer o tecido fino e limpo, típico do uniforme de um marinheiro honesto ou de alguém da Marinha.Naturalmente, se fosse um desses casos ele não teria motivos para andar desarmado. No lado esquerdo do cinto, trazia uma espada curta de lâmina achatada sem bainha, ligeiramente larga e um pouco curvada na ponta. No lado direito, o contorno de uma pistola de cabo curvo e cano longo balançava levemente com o andar do homem. Ele parou bem à frente de Gui e exibia uma expressão séria, porém não inamistosa, de feições finas que pareciam um pouco curtas demais para o rosto. Ele deu um breve sorriso e estendeu a mão.—Olá. Eu sou Khanjis.—Sou Gui — respondeu apertando a mão estendida. O homem mais alto balançou a cabeça com entusiasmo.—Sim sim, ouvi falar de você. Um dos membros mais importantes do Minar, se não é o que dizem! Imagino que você deve ser bem requisitado por aqui, hein?—Só de vez em quando — Gui respondeu de bom humor — Mas geralmente fico aqui, no Mercado Livre.—Sim... — Khanjis assentiu, como que procurando as palavras — Principalmente nesses momentos de crise, com os Black Wings atacando tudo, é melhor se esconder, não é?—Não vejo nenhum Black Wing aqui — Gui disse numa risadinha, ignorando a tentativa desajeitada de ofendê-lo — Nem estou aqui pra isso. Este lugar é ótimo para relaxar, você não acha?—Sim sim, claro — Khanjis balançou a cabeça vigorosamente — Na verdade, decidi que gosto... Daqui. Tanoshikatta. É um bom lugar para se evitar as falsidades.Gui não respondeu de imediato. Permanecia tranquilo, o rosto coberto pela venda e pela barba parecendo um tanto vago e distante. Por fim, perguntou:—Falsidades, você disse?E como esperava, o outro apressadamente respondeu:—Sim sim, falsidades. É o que vejo no MinarForest. Não querendo... Hajihaku... Como se diz... [i]Humilhar[/i], é, ninguém, é claro. Mas é o que vejo. Na verdade é por isso que estou aqui.Gui não respondeu. Eles ficaram em silêncio por alguns momentos, então o marinheiro riu.—Você não confia em mim — disse, sorrindo — Bem, saiba que não há o que temer de mim, eu sou do bem — e mostrou uma insígnia, uma âncora azul-clara num fundo de madeira — Vê o símbolo? Khanjis, imediato do navio Kasato Maru, assistente da quinta divisão de marinheiros de Ossyria. Estou aqui em missão, e é por isso o motivo de minhas perguntas.—Tem certeza? — a expressão de Gui, embora vendada, mostrava dúvida — Pois eu jurava que estava falando o capitão Poeuikea, comandante do Mermaid Swamp e veterano da expedição dos marinheiros de Leafre.Khanjis, ou Poeuikea, deu um salto para trás, curvado e de olhos arregalados pela surpresa. Gui soou casual, mas foi como se um soco tivesse atingido o estômago do marinheiro. As palavras saíram de sua boca enroladas e atropeladas, como se ele tivesse subitamente desaprendido a falar.—[i]K'sô... Seu... Teme...Ayutsiaaghajiaksjashi[/i] — ele encarava Gui com os olhos arregalados e respirava ofegante — [i]Komotemerabajyujya... Muri...dayô![/i] Você...—Você espiona o nosso fórum há dias, e não sabe que sou mestre das magias de ilusão? — Gui continuou implacável — E o que é uma identidade falsa, senão uma ilusão para esconder a verdadeira? Não imaginou que passaria despercebido pra sempre, imaginou?—Meu nome... Onamae, não é uma magia — ele respondeu com tristeza — Nari mahô. Você...—Eu — concordou Gui — Estamos lutando por esse fórum há meses, enfrentando os Black Wings e os vários bandidos que aparecem aqui de vez em quando. E isso não é nenhum segredo, Nuck sempre foi honesto e jamais prejudicou ninguém com o fórum. Se há alguma falsidade aqui, ela vem de você.—Watashi... K'sô! — ele sacudiu a cabeça.—Relaxe. Afinal, estamos no Mercado Livre, não é?Khanjis o mirou, um traço de sua compostura original voltando ao seu rosto. O rosto de Gui tinha um sorriso fraco, sem o menor sinal de inimizade. Era como uma tempestade que tivesse trovoado e em seguida parado abruptamente, voltando a um dia tranquilo.—Sim — admitiu o marinheiro — Embora eu ache estranho você estar aqui. O Mercado Livre é livre apenas para comerciantes nessas épocas, mesmo assim, eu soube que estão evitando ao máximo e que o lugar está sendo muito desencorajado: teme, por exemplo, é o único aqui. Você — corrigiu.—Ah, mas eu gosto de ficar aqui — disse-lhe Gui — Como já dissemos, é um excelente lugar para pensar.—Sim, sim, é claro. Não o estou acusando de nada — disse em tom de desculpas — Apenas... me mandaram verificar, você sabe, missão. E... Por falar em missão, preciso voltar aos meus afazeres — ele sorriu — Devo deixar você em paz nos seus pensamentos. Tenha um bom dia.Ele fez uma reverência e retirou-se, desaparecendo no portal em seguida.
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