O frio, as vozes estranhas e o cheiro forte de pele velha e alguma coisa forte penetravam até o fundo da mente da garota, despertando-a de um mundo confuso de sonhos estranhos. Finalmente ela acordou, e se viu sentada em um monte de neve.

Giu resmungou, zonza, levando as mãos ao nariz e descobriu o que era o cheiro ruim: um curativo tosco feito com pele e uma espécie de pomada, que ela arrancou do rosto com repulsa. Protegeu o nariz com as mãos em concha e esperou, mas nada aconteceu. Esfregou as mãos, levou-as ao nariz novamente e um brilho fraco e dourado sobreveio. O nariz não ficou completamente curado e ainda estava sensível, mas pelo a dor havia sarado.

—Está vendo, Frogand? Eu lhe disse. Agora você me deve dois javalis.

Giu virou-se, assustada, para a voz — seus olhos ainda turvos nada enxergaram, mas segundos depois ela pôde discernir duas corpulentas figuras sentadas ali perto, onde ela pensou que fossem duas pedras cobertas de neve. Eram muito pálidos e os músculos grossos saíam de regatas de pele fina. A visão a fez sentir mais frio, e somente então ela notou que estava coberta com um pesado cobertor de pele e que não usava seu kimono, mas sim uma tanga. Tentou não pensar muito nisso — pelo menos, haviam deixado a touca azul onde estava — e percebeu que se encontrava em uma pequena vila. Estava sentada na neve, e ao redor havia casas de pedra e de madeira que pareciam apertadas.

—Hã, oi — chamou ela, um tanto desconcertada. Os dois grandalhões riram.

—A pequenina acordou — disse o que estava à esquerda, de barba e tranças loiras que desciam em duas linhas gordurosas ao lado da cabeça. O outro homem, de cabelos negros mais desgrenhados e uma grossa cicatriz no nariz, respondeu:

—Cuidado, Frogrand. Acho melhor tratá-la com respeito. Nenhum de nós sabe se...

—Bobagem — Frogrand interrompeu com um gesto de mão — Você ainda acredita nessa conversa de divina? Pffft. Por acaso divinas se deixam ser capturadas assim por um homem? Ou deitam sangue pelo nariz, quando feridas pelo aço de um homem? Não — ele respondeu à própria pergunta — É só uma criança.

—Não sou criança — Giu respondeu automaticamente. O outro homem mordeu um lábio, visivelmente pouco à vontade.

—Ela não tem medo de nós — disse, em voz baixa — E você viu como ela usou aquela magia no nariz? Não precisa nem dos nossos unguentos de cura. E você se lembra... Lembra de que a profecia diz que o enviado dos deuses virá disfarçado de humano? Talvez ela estivesse apenas fingindo. Talvez nem sequer tenha se machucado e agora esteja testando a gente.

Frogrand resmungou inquieto, mas parecia desconfortável, como se não tivesse pensado naquilo.

—O quê? — Giu quis saber, incapaz de resistir — Que história é essa de profecia? Então eu não estou condenada? Legal, porque ainda vou poder reclamar com o Thugles idiota por ter me chamado pra seção Magician e ela bugou e...

Mas Frogrand apontou um dedo acusador para ela e disse, triunfante:

—Está vendo, Krogan? Ela não sabe de nada. É só... É só uma garota! Se fosse mesmo ela, não estaria perguntando o que é a profecia!

—Eu posso estar fingindo não saber quando, na verdade, sei tudo sobre vocês e até o dia, hora, mês e ano exatos em que vão morrer — respondeu ela — Tenham cuidado ou eu posso usar magia em vocês.

Dissera a coisa errada, entretanto. Até mesmo Krogan a olhou um pouco desconfiado.

—Não somos coelhos indefesos, senhora — ele disse um tanto indignado.

—Não disse que eram — Giu apressou-se a dizer, tentando corrigir o erro — Mas só não quero que vocês tentem tipo, me bater ou coisa assim.

—Frogrand, e se ela for mesmo... — Krogan deu uma rápida olhada para a garota — Talvez não nos ajude, depois de termos capturado-na assim...

—Foi Ragnak quem a capturou, não nós! — Frogrand disse com impaciência — Além do mais, não cabe a nós pensar nessas coisas. É Agramungrad quem irá decidir. Quando ele e os Velhas Barbas terminarem o Rito da Sopa...

—Cuidado, ela está usando magia! — Krogan avisou de repente, empurrando o amigo quando Giu baixou a cabeça e emitiu um forte som rouco. Na verdade, ela estava tentando segurar o riso.

—Acho... Acho que ela já parou — Krogan disse, hesitante. Giu ergueu a cabeça para ambos.

—Não precisam ter medo — ela disse — Eu sou a Giu. Não vou fazer nada com vocês e...

—Quem você acha que está com medo, garotinha? — Frogrand levantou-se zangado. Giu se levantou também.

—COMO OUSA...?

—Não, por favor, tenha piedade!

Giu teve que lutar contra o impulso de rir quando o homem caiu de joelhos no chão, cobrindo a cabeça com os braços e estremecendo o corpo. Mas ela logo caiu também e se arrependeu de ter levantado, pois a cabeça voltou a latejar novamente.

—Aaaaaah... Que drogaaaa...

Um tapa na nuca a jogou de cara no chão quando o terceiro homem chegou, e se sentou entre os outros dois. Giu se ergueu, ainda zonza... E viu o homem grandalhão, de olhos pequenos e barba negra com cabelos sujos e meio espetados tão familiares. O homem que a capturara.

—Parem de perder seu tempo — ele disse numa voz baixa, porém perigosa — Ela é apenas presa. É minha propriedade, e eu não admito que vocês dois se assustem com uma garotinha.

—Ei, Ragnak — Ragnak a olhou automaticamente — Vai tomar no seu cu.

Ragnak ergueu as sobrancelhas para ela como se não tivesse idéia do que ela estava falando. Tampouco Krogan e Frogrand compreenderam aquelas palavras. Mas conheciam aquele tom, e aprovaram silenciosamente.

—Você é bem corajosa — admitiu Krogan — Espero que Ragnak acabe ficando com você.

—Boo! E você acha que eu iria largá-la por aí depois de capturá-la? — Ragnak respondeu dando-lhe um forte tapa, e ambos riram — Não, meus amigos, hoje Ragnak ganhou uma escrava nova. Vocês dois poderão usá-la se quiserem, desde que eu tenha uma caneca de cevada gelada no fim do dia.

—Eca — Giu disse. Tinha uma resposta na ponta da língua, mas achou melhor ficar calada. Lembrou-se de que não estava em casa e nem sequer tinha seu martelo, enquanto aqueles três homens pareciam grandes ursos musculosos e poderiam esmagá-la facilmente com aqueles braços fortes. Somente Krogan parecia pouco à vontade.

—Não fale assim dela... Você sabe, Ragnak, que se ela for a divina...

—Aos diabos com essa divina! — Ragnak respondeu num berro — Ela matou Horak, e embora eu não gostasse dele, ele era um dos meus, e devo vingar meu companheiro de combate. Se ela fosse mesmo a divina, estaria mesmo aqui? Seria minha propriedade de captura? Não, porque é uma criança que eu capturei e que vai limpar os estábulos de agora em diante.

O sangue dela ferveu, ainda que não estivesse na melhor das situações, aquilo a indignava. Quem era ele pra falar daquele jeito com ela? Mas quando tentou se levantar, foi empurrada pela mão forte de Ragnak.

—Escute aqui, menininha — o rosto dele estava próximo ao dela agora — Você só está viva porque tem gente aqui que acha que você veio do céu, mas eu duvido disso. Eles não viram sua cara quando peguei você e te trouxe pra cá, você é uma garota, fraca e insignificante, que ofende meus ancestrais iludindo as mentes dos nosso sábios que acham que você vale alguma coisa. Quando eles acabarem e decidirem que você é só uma criança...

Giu espirrou e ofegou, repentinamente tomada por uma dor forte e nauseante. A longa caminhada pelas geleiras a havia cansado, e o tempo que permanecera desacordada não fora suficiente para que ela se recuperasse. Ragnak rosnou enojado, resmungando algo sobre fraqueza. Os outros dois eram um pouco menos céticos do que ele.

—Ah meus deuses, o que ela está fazendo? — choamingou Frogrand.

—Ela vai usar magia, ela vai usar magia! — dizia Krogan, ansioso — Rápido, corra! Eu distraio...

—Krogan e Frogrand — repreendeu uma voz idosa, porém forte — O que vocês estão fazendo?

—Ela quer matar a gente — choramingou Krogan. Giu virou-se e viu que algumas pessoas da pequena vila a observavam. Destacando-se estava uma figura alta, de rosto enrugado e corpo coberto por uma túnica cinzenta cheia de dobras e linhas curvadas, com capuz deixando à mostra apenas o rosto e as mãos. A barba, feita de fios finos embaralhados de um branco-sujo, ia até a cintura. Rapidamente ela notou que o rosto dos dois homens, também o das pessoas que a observavam, eram duros e sérios, como o rosto de um homem feroz da batalha, mas a expressão do homem era serenamente firme. Ele suspirou, parecendo reunir todo o seu autocontrole.

—Frogrand, nós acreditamos que essa seja a divina que veio para nos salvar e livrar nossas terras da guerra, da discórdia e da violência que nos assolam há centenas de anos. Portanto ela [i]não pode[/i] estar querendo te matar. A menos que estejamos errados — acrescentou com olhar de dúvida para Giu, que deu de ombros sem saber o que dizer — Eu sou Agramungrad, primeiro entre nossas barbas, e mesmo assim não posso saber de tudo com certeza.

Giu achou que ser o primeiro entre aquelas barbas certamente era algo importante e que merecia respeito, então a Giu curvou a cabeça em respeito. Então se lembrou de que era um ser divino superior àqueles ursos e levantou o queixo.

—Ah... Oi, Agramungrad, eu sou a Giu — disse, recuperando-se um pouco — Eu, hã, agradeceria se vocês pudessem me explicar as coisas, tipo, onde [í]diabos[/i] é esse lugar? Cadê o MinarForest?

—Se MinarForest era seu guia, ele já partiu de volta para seu mundo — Agramungrad lhe disse com respeito.

—Ah... Não diga isso, Kiara ficou no MinarForest, e eu realmente odiaria ter entrado naquele navio só pra seguir ela e ela sumir pra outro mundo. Eu teria que seguí-la até esse mundo e não sei como fazer isso. Ah...

Ela baixou a cabeça, sentindo enjôo novamente. O frio e a pancada no nariz haviam avariado um pouco suas sensações, e ela não se sentia tão bem. Alguns dos que observavam murmuraram entre si.

—Quem deixou ela aqui fora? — trovejou uma outra voz — Por que a mantiveram aqui, ao vento e ao relento e ao...

—Não convém mantermos uma divina confinada entre as paredes erguidas pelo homem, Sabjern — tornou Agramungrad — A menos que ela permita. Gostaríamos que se reunisse a nós — convidou, estendendo-lhe a mão.

—U ghe — fez Giu, segurando a mão firme e calejada que a ajudou a levantar.

Sentiu-se conduzida pela neve, não queria mostrar fraqueza mas, agora que voltara a si, começava a sentir os primeiros efeitos de ter ficado tanto tempo exposta ao frio. E também estava fraca, pois sua magia de cura a protegera como uma fina aura enquanto vagava sozinha no frio, consumindo sua força lentamente. Foi por isso que ela demorara um pouco para usar magia curativa num simples nariz machucado: agora estava sem forças, quase esgotada, e mal conseguia andar.

O frio parou quase que de repente quando seus pés tocaram um chão sem neve e uma porta se fechou atrás dela, fazendo cessar o som do vento, que foi substituído pelo milagroso crepitar de uma fogueira. Agramungrad a posicionou bem ao lado do fogo, e ela agradeceu silenciosamente por isso. O calor de uma chama acesa ajudava a recuperar as forças, fossem elas mágicas, físicas ou as forças da giu. Além disso, a visão de seu martelo dourado repousando ao lado da lareira a confortou — gostava daquele martelo tanto quanto gostava da touca azul que usava.

—Pois então — o velho sentara-se defronte à menina, estavam num pequeno semicírculo de pessoas sentados diante da fogueira — Perdoe-me nossos métodos, senhorita. Não conhecemos o mundo dos deuses — ele sorriu calorosamente — Então, trataremo-na de nossa maneira tradicional. Como já disse, sou Agramungrad, o primeiro entre os Velhas Barbas...

O calor já estava aquecendo as forças de Giu, de modo que ela conseguiu prestar atenção enquanto ele apresentava, uma a uma, as pessoas sentadas, começando pela que estava mais próxima dele. Os quatro primeiros vestiam-se com as mesmas túnicas cinzentas que Agramungrad e se chamavam Yagrin, Hadruf, Finlad e Hofrug. Depois vinham quatro mulheres: Lena, de meia idade e pele morena; Vivian, já de certa idade, pequena e vestindo grossos culotes de lã; Sylvia, de cabeços curtos e rosto altivo e bonito, que acima da cintura não usava nada além de um colar de ossos; e Grania, uma garota de cerca de doze anos. Ela estava sentada ao lado de Giu e a observava com grandes olhos curiosos e cheios de admiração. Cada um fazia um gesto de cabeça quando seu nome era mencionado, mas depois que terminaram as apresentações, o lugar ficou quieto e Agramungrad falou novamente:

—Seja bem-vinda à Grande Casa, lugar de reflexão e estudos dos Kerkagar. É uma grande honra que você esteja aqui, em nossa Casa, em nossa vila!

Alguém lhe ofereceu uma vasilha cheia de pedaços de pernil de porco, que ela recusou. Sentia fome, mas preferia isso a comer aquilo.

—O que foi? — ela perguntou finalmente a Lena, que a olhava. Por um momento teve medo de estar cometendo uma ofensa muito grave àquele povo ao recusar comida, mas ela desviou o olhar, amedrontada.

—Não deixe isso lhe preocupar, pequena — falou Yagrin — O mais importante é que você finalmente veio, embora ainda haja dúvidas. Suponho que conheça nosso vilarejo tão bem quanto nós, não é?

—Na verdade não — admitiu ela — É a primeira vez que ouço falar de Kerkagar.

—Ora, Yagrin, os assuntos mais importantes de nosso povo certamente são supérflous para quem vem dos céus! — falou-lhe Agramungrad — Então permita-me, pequena, que eu lhe conte sobre nosso povo. Muito tempo atrás, nestas geleiras...

Giu inclinou-se para frente, interessada — gostava de ouvir histórias e a curiosidade a fez esquecer da fraqueza. Agramungrad contou-lhe a história de um povo forte, de inúmeros guerreiros e guerreiras, que dominava toda aquela parte fria do mundo. Eram fortes e implacáveis — na guerra, ninguém era capaz de vencê-los. Suas armas eram feitas não de aço — e nessa parte os demais se mostraram inquietos, como se não quisessem que Agramungrad contasse aquilo — mas sim de um certo gelo, extraído de uma reserva secreta e então trabalhado, esmerado e transformado em lâminas e armaduras que eram mais leves e resistentes que muitos metais. Era um segredo muito bem guardado, que Giu achou estranho o mais sábio deles estar contando para uma garota que acabara de chegar, mas que nas mãos daquela tribo de pessoas fortes e selvagens, eram extremamente perigosos.

—Claro que tínhamos muitos inimigos — continuou outro Barba Velha, Finlad — Mas nenhum deles era páreo para nossa força e coragem. Mesmo sem as armas feitas de gelo, éramos tão fortes e numerosos que, por vezes, passavam-se meses sem que alguém ousasse nos enfrentar.

—Dominamos esta terra, toda esta extensão onde há gelo, era nossa — continuou Hadruf, de voz rouca — Podíamos quase nos considerar como um reino, embora o rei nos enxergasse como selvagens, mas até mesmo ele nos respeitava. Nunca invadíamos as terras das outras tribos — e foi estranho para Giu ver aquele velho, experiente de muitas décadas, falar a ela como se quisesse justificar-se — E quando algum dos reinos entrava em guerra contra o mal, nossa tribo era a primeira a oferecer ajuda. Nós éramos simplesmente imparáveis, nossa eficiência em batalha era insuperável.

—E foi justamente nosso grande erro — Agramungrad tomou a palavra — Durante muitos anos, fomos vitoriosos na batalha e agradecíamos aos deuses da força, da coragem e da honra. Mas um dia, nossos inimigos se uniram e nos venceram num grande combate, conhecido como a Batalha da Montanha Vermelha. Não só porque esse é de fato o nome da montanha, mas porque o chão ficou tingido de sangue naquele dia.

—Nossos ancestrais deduziram que os outros deuses ficaram furiosos conosco por ignorá-los, então nos mandaram um castigo — disse Grania, com sua voz jovem como se dissesse algo que aprendera na escola — Eles apoiaram as outras tribos, elas se uniram, e acabaram conosco. Os únicos que sobraram foram os Kerkagar, que é como era chamado o grupo de estudiosos de nossa tribo e que eram sempre riculi... ridi... [i]ridicularizados[/i], perdão, pelos outros. Acabou que só eles sobreviveram.

—Quase — Vivian corrigiu com ternura — Ainda sobraram alguns guerreiros, mas muito poucos. Enfim, nossos ancestrais finalmente perceberam que não podiam honrar alguns deuses e desprezar outros. Era preciso adorar a todos como deve ser, e em homenagem aos que perceberam isso antes, toda a tribo passou a se chamar Kerkagar. Eles, estudiosos, eram ridicularizados por se dedicarem ás artes e à leitura. É graças a eles que sabemos o que aconteceu, pois nossos lutadores não se importavam com livros nem achavam necessário escrever nossa história. Graças aos Kerkagar, temos livros com a história de nossos ancestrais, nossas conquistas e nossa grande derrota, e aprendemos com os erros.

—Entendo — Giu respondeu — Então vocês vivem por aqui desde então? E quem eram aqueles outros, de pele mais escura?

—Aqueles eram os Wanapi, os descendentes dos maiores inimigos dos ancestrais do nosso povo — explicou Lena — Eles são uma tribo má que continuam a guerra, mesmo que tentemos pará-la.

Giu assentiu, embora achasse que pessoas como Ragnak e Frogrand não ficariam tão contrariadas assim com a falha em parar a guerra. Sentiu uma ponta de irritação ao ver Lena olhar com nervosismo para Agramungrad, e novamente sentiu-se o centro das atenções, alguém que todas elas tinham receio de contrariar e que era encarada com relutância. Se achavam que Giu era a divina que viera para salvar o povo, por que tinham tanto medo dela?

Agramungrad pareceu perceber-lhe o desconforto — na verdade era como se tivesse lido seus pensamentos, pois bateu palmas uma vez e disse uma palavra movendo a boca apenas um nada, mas que produzira um som forte e autoritário como uma ordem. Giu achou que tinha sentido magia naquilo, mas afastou a sensação — o velho a encarava, o rosto sério.

—Giu — ele disse, e desta vez seu tom foi muito mais direto do que o jeito tranquilo e sábio que vinha usando — Faz muito tempo que esperamos pela enviada dos deuses, e você usa um tipo de magia que nãos deixa dúvidas à maioria das pessoas desta tribo. Mas vejo em você tanta divindade quanto vejo na pequena Grania, e não arrisco em dizer isso. Portanto me diga: você veio realmente dos céus?

—Não — ela respondeu quase num sussurro.

—Então como você chegou aqui?

—Eu estava no MinarForest — contou — Na... Seção Magician, tinham acabado de inaugurar. Então eu senti frio e vi que estava no meio do gelo. Comecei a andar em linha reta, então vi um de vocês seguindo um dos Wanapi. Ajudei o Wanapi por reflexo e o curei. Então aquele outro, Ragnak, apareceu e me trouxe pra cá.

Ela terminou de falar olhando um pouco temerosa para o velho, mas confiava nele. Agramungrad tinha inclinado o corpo para perto dela, e agora reclinava-se para ficar com as costas eretas. Não tirou os olhos dela, mas fez um pequeno gesto de cabeça.

No mesmo instante Lena levou a mão à cabeça, e foi então que a menina notou que todos eles, exceto ela e Agramungrad, haviam ficado paralisados como se o tempo tivesse parado. Nenhum deles parecia ter percebido isso, embora os demais Barbas Velhas olhassem com certa desconfiança para o superior, como se suspeitassem.

—Então, pelo poder que me cabe como senhor desta Casa, meus caríssimos — Agramungrad falou em seu tom grave e calmo — Ouso dizer-lhes, sem sombra de dúvida, que o sol que brilhará sobre a chegada de nossa esperada divina não é o mesmo que brilha hoje.

Giu levou um segundo para entender, mas viu que aquela era a forma embromada de dizer que Giu era somente... Giu, e não uma criatura vinda de outro mundo. As reações dos presentes, contudo, foi diferente do que ela esperava. Todos olharam para ela, depois para Agramungrad como se divididos entre dois sentimentos: o respeito que tinham pelo velho, e o temor que tinham pela enviada dos deuses. Um clima de desconfiança pairou no ar, e ela se viu grata pela breve conversa com Agramungrad ter ficado fora do tempo.

—Foi uma boa reunião — continuou o velho, alheio aos olhares estranhos que recebia — Gormana, minha caríssima, não haveria ainda algumas daquelas ervas de folha estriada? Faz mais tempo que não provo de uma boa refeição abençoada em erva estriada do que meu antecessor foi executado.

—Mas isso... Senhor, como pode dizer isso? Como... — Vivian ergueu a voz exasperada. Agramungrad dirigiu-lhe um olhar muito gentil.

—Ora, Vivian das Brumas, você não reconhece a alma de uma mortal quando esta tem o coração aquecido na mesma lareira que o seu? Giu é um doce exemplo tão humano quanto seu filho Balkum.

—Talvez seu treinamento esteja fraco, se confunde a natureza mortal com a divina — acrescentou, com sutileza, o Barba velha de nome Hadruf.

—Também sua fé em nosso grande sábio parece estar fraca — disse Finlad — Se não é capaz de identificar uma simples mortal, deveria confiar na capacidade de Agramungrad. Ou você ousa dizer que a decisão está errada?

—Não foi o que eu quis dizer — Vivian arrependeu-se rapidamente — Eu peço perdão.

Isso foi o bastante para fazer morrer qualquer outra dúvida a respeito da situação. Giu não vinha do céu, isso estava claro. O que não diminuiu os olhares que ela recebeu, e viu que alguns eram quase tão indesejados quanto os de Ragnak. A menina entendia: todos deveriam estar muito frustrados com ela por terem suas esperanças renovadas somente para serem destruídas tão rapidamente.

—Sei o que vocês estão pensando — e o tom casual de Agramungrad surpreendeu a todos — E ordeno-lhes que parem. Não é culpa dela se pensamos que era nossa tão esperada divina, ela não pode ser punida por algo que nós idealizamos. Se colocamos nossa fé que uma pessoa humana vinha dos deuses somente porque a vimos usar um tipo de magia que não conhecemos, então estamos todos em pecado. Mas peço a vocês que descontem isso em vocês mesmos, e não numa criança que nada tem a ver com nossos conflitos e nossas guerras. Esta reunião está encerrada.

Agramungrad levantou-se e os outros o imitaram, ainda digerindo o que ele acabara de dizer. Giu notou que apesar do ressentimento inicial, aquelas pessoas confiavam muito no velho e pareciam realmente culpadas pelo que haviam pensado. Grania pegou o martelo de Giu e o entregou à dona, que agradeceu com um sorriso.

A porta de madeira se abriu e o vento frio preencheu a casa. O grupo saiu e permaneceu na entrada, de frente para uma multidão de pessoas que esperava, em pé, a alguns metros de distância em respeito. Ficou claro que estavam todos esperando pela decisão de Agramungrad — pelo jeito, o fim das guerras era mais ansiado do que ela imaginara. Agramungrad foi o último a sair, e quando o fez, Giu pensou ter visto cabeças curvando-se em tristeza, e ele tomou a palavra:

—Meus irmãos e minhas irmãs — e Giu quase esperou que ele começasse uma missa — Hoje é um dia de festa para os Kerkagar. Alguém mate o novilho gordo para ser abençoado nas ervas estriadas, e festejaremos.

—O que está acontecendo? — perguntou Giu.

—Ele está anunciando um período de festa — Grania lhe respondeu — As crianças serão livres do trabalho hoje, e ninguém deverá coordenar ataques até o próximo nascer do sol.

Não era o que Giu queria saber, mas Vivian entendeu e aproximou o rosto dela, delicadamente:

—Se fosse decidido que você era a enviada, teríamos tocado os sinos de aviso — disse. Giu soltou um "ah" mostrando que entendia. Agramungrad tornou a falar sobre algumas coisas da vida, e Giu desejou ter ficado dentro da casa: o frio a consumia novamente, cansando e machucando. A cabeça baixa e respirando audivelmente, ela mal notou quando um homem barbudo aproximou-se, fazendo uma reverência para Agramungrad e, em seguida, apontando e falando em voz alta. Giu levou alguns segundos para perceber que ele falava dela.

—É minha propriedade de guerra, minha por direito! — clamava ele — Vim buscá-la para atender-me.

—Ela não é mais propriedade sua, Ragnak — Finlad deu um passo à frente — Esta menina foi encontrada sofrendo, e quase congelou até que a encontrássemos.

—Fui eu quem a trouxe até aqui! — interpelou Ragnak, furioso.

—Qualquer Kergakar a teria trazido, se você não estivesse lá — disse Lena.

—De qualquer forma, ela já foi aquecida pela Casa. Nenhum Kerkagar deverá fazer mal algum a ela — acrescentou Finlad.

—Ela é minha! — vociferou Ragnak. Giu não era medrosa, mas recuou automaticamente para atrás do velho. Hofrug aproximou-se.

—Não use esse tom na presença do Grande Barba Velha, Ragnak — avisou, em tom baixo — Você ousa desrespeitar uma lei mais antiga que seu mais corajoso antepassado?

—Mais ainda, minha decisão — Agramungrad respondeu tranquilo — Giu é nossa convidada, agora. Participará da festa conosco e sentará-se em uma de nossas mesas. Talvez você deva guiá-la, Ragnak — sugeriu, o que Giu não gostou nada. Ragnak parecia dividido entre seu temor pelo velho e entre o orgulho. Levantou o machado.

—Ela matou Horak — lembrou, um tanto hesitante — E portanto, deve pagar. Não há lei que prevaleça sobre o sentimento por um camarada morto, nem com o desejo de vingá-lo. Não vou aceitar comer na mesma mesa que essa porca imunda, que ajuda nossos maiores inimigos e assassina meus companheiros!

—A culpa é dele se sai perseguindo as pessoas com machados — Giu respondeu saindo de trás do velho — E se você acha isso mesmo, então por que não me enfrentou lá mesmo, em vez de me carregar?

Havia uma multidão ao redor, todos silenciados momentaneamente com aquela súbita demonstração indignada. Ragnak era um guerreiro conhecido e valoroso por ali e era novidade alguém respondê-lo daquela maneira, principalmente uma garota estrangeira. Os ombros de Ragnak relaxaram e ele baixou a arma.

—Eu acreditei que você fosse a enviada dos céus, para trazer fim a esse período de guerra — disse, então sorriu com escárnio — Mas é óbvio que você só veio pra fazer minhas vontades, como limpar os estábulos. Por Horak, ela é minha — seu olhar voltou-se para Agramungrad, ignorando completamente a menina, o que foi o bastante para que ela se enchesse de fúria.

—Olhe pra mim quando estiver falando comigo — Giu falou — E não, não vim aqui pra limpar os estábulos. Fui teletransportada por alguma magia estranha que... — e então uma idéia brilhante lhe ocorreu — E se na verdade eu tiver vindo aqui pra esmagar essa sua cabeça feia que nem eu fiz com a do seu amigo?

Por um momento ela pensou ter ido longe demais, mas o restante dos Kerkagar que acompanhava explodiu em gargalhadas. Dedos foram apontados e Ragnak tentou sorrir e caçoar da ousadia da menina, mas as pessoas gritava que Ragnak estava com medo e parecendo um bebê chorão. Bem, eles podiam ser estranhos com seus conceitos de propriedade, Giu pensou, mas não eram muito diferentes das pessoas que ela conhecia por aí. Sem aguentar mais ser insultado, Ragnak levantou novamente o machado.

—Você se acha fortinha, hein? Então eu te desafio pra uma luta!

—Não me desafie, [i]lute[/i] de uma vez — foi a resposta de Giu. Em meio às vaias e berros, e antes que mais alguém pudesse interferir, Ragnak atacou.

Seu machado de duas lâminas era de aço cinzento, temperado e lapidado com o gelo secreto dos Kerkagar, sibilando num golpe que usava toda a força de seus músculos. Agramungrad gritou uma ordem, o que só feriu ainda mais o orgulho de Ragnak, que concentrou-se ainda mais em matar a menina.

Houve o choque de aço contra aço quando Giu rebateu o golpe com seu martelo, causando uma pequena explosão de luz que espalhou-se a um pequeno raio pela neve. Ragnak foi jogado um pouco para trás sem cair e já estava para se recompor, quando Giu pulou e bateu o martelo no chão com toda a força que possuía.

Ela ainda estava fraca e sem o calor da fogueira, mas sua raiva serviria para aquecer suas energia da mesma maneira. O impacto foi tão poderoso que Ragnak perdeu o equilíbrio e caiu de costas no chão, a arma voando-lhe das mãos. Giu empurrou o machado com uma batida do martelo e olhou com desprezo para Ragnak. Gritos de surpresa e animação se fizeram ouvir por toda parte como uma torcida euforizada — aquele povo adorava uma boa luta, mas ter um dos melhores lutadores derrubados com tanta facilidade por uma garota era demais.

Ragnak levantou-se com dificuldade, sentindo o corpo doer. Olhava para Giu com raiva, mas sua expressão mudou ao reconhecer um pequeno sorriso e um brilho de triunfo nos olhos dela. Estava acostumado ao combate e sabia ver a expressão da vitória no rosto de um lutador, e aquilo o deixou além de seus limites. Foi Agramungrad quem percebeu o que ele ia fazer e gritou, pela primeira vez em tom amedrontado:

—Ragnak! Par...

Já de pé, Ragnak gritou, um berro de três sílabas roucas, e um pulso de energia azul surgiu de sua boca em direção à Giu, que só conseguiu ver as costas de Agramungrad explodindo em mil pedaços quando este se jogou na frente dela, braços abertos e virado para Ragnak. A força foi tão grande que ainda assim o impacto a atingiu, jogando-a longe, dando giros no ar até se estatelar com força o chão de pedra dura coberta de neve. Gemeu de dor — Giu caíra em cima do ombro, que agulhava assim como os ossos do peito e das pernas. Não sabia onde fora parar seu martelo e sua visão começou a se turvar.

Seu corpo todo doía, mas a cabeça estava quente e atenta a cada centímetro dolorido de seu corpo. O olho direito estava fechado e ela temia tê-lo perfurado em alguma coisa, sentia sangue escorrendo-lhe pelo nariz que quebrara-se outra vez. Ao longe, podia ouvir os gritos dos Kerkagar: a eles misturava-se fúria, raiva, desespero e muitas outras coisas, que Giu não sabia identificar o que era.

Em meio ao tormento, sentiu mãos leves segurarem-na pelo corpo fragilizado e Giu foi carregada até uma pequena casinha de pedra, que teve a porta aberta rapidamente. Os braços delicados e generosos repentinamente foram brutos ao jogá-la sem cerimônia no interior do aposento, onde ela caiu em cima de um monte de peles. Alguém a cobriu com um pesado cobertor e a porta foi fechada, donde se seguiu o som de um pesado ferrolho.

E então, o silêncio. Os gritos e a confusão eram apenas um barulho fraco e isolado, e Giu não tinha forças sequer para se mexer, temendo ter quebrado ou arrebentado alguma parte importante do corpo. Os minutos se arrastavam e a dor piorou, e ela sentiu medo. Sentiu lágrimas escorrerem-lhe pela face machucada e viu-se desejando que jamais tivesse entrado naquele navio, jamais entrado naquele fórum e jamais entrado naquela seção Magician, nem matado aquele Wanapi ou ajudado aquele Kerkagar. Talvez tivesse sido melhor morrer no frio — pelo menos ali dentro estava quentinho, embora seu corpo estalasse de dor.

As horas passavam sem que ninguém fosse checá-la, e os músculos quentes da batalha começaram a esfriar, o que fez todo o corpo de Giu começar a arder e doer ainda mais. Suas energias de cura entravam em ação automaticamente, mas isso a fazia sentir ainda mais dor, pois a esgotava e a livrava das únicas forças que restavam, além de ela estar sem seu martelo. Por fim, depois que sua respiração acalmou, ela adormeceu.