[spoiler= Capítulo 38 -

—O que você está dizendo? — a voz de Thugles estava estridente de terror — Eu nunca matei ninguém em toda a minha vida!

—Invade nosso fórum, se esconde, junta informações e agora quer pagar de bonzão — tornou Davien — E ainda acusa o Thug, que não mata nem barata, de assassinato. Acho melhor mudar seu assassino — ele ajeitou a polearm no ombro. Khanjis não pareceu intimidado.

—Ele ainda não matou ninguém — admitiu — Mas está armado com uma pistola. A acusação é pelo fato de que, agora que vim prendê-lo, ele talvez queira invocar o ditado "homens mortos não contam histórias".

—E não contam mesmo — concordou Vampiritico — Mas você, ainda que seja um espião, não sabe nada sobre nós. Thugles não mata...

—Mesmo? — Khanjis se virou para ele, depois para o pirata — Faz tempo que monitoramos suas atividades, Thugles. Nunca conseguimos provas antes, você é bem esperto. Mas não consigo pensar num pirata que não mate... Embora eu tenha que admitir que não há o menor indício que que você tenha feito isso, mas mesmo assim, todas as outras acusações são passíveis de punição, você sabe disso.

Vampiritico riu, virou-se para seus companheiros e tornou a encarar Khanjis.

—E o que você pretende fazer? Não vou nem lembrar quem está em desvantagem aqui, só o Dave já te parte em dois.

—Em cinco — corrigiu o guerreiro.

—Se tentarem qualquer coisa, será crime. A... — Khanjis hesitou um pouco, então continuou: — Marinha já está de olho no fórum de vocês, tendo em vista a recente invasão dos Black Wings e tudo que aconteceu. Além disso... Olha só pra esse lugar — ele fez um gesto mostrando o terreno atrás de si — Um projeto desses envolveria muitas empresas de construção e tecnologia. No entanto, são pouquíssimas as empresas que têm relação com o MinarForest, então de onde vocês tiram todo o material?

—Nunca foi preciso saber disso — Vampiritico deu de ombros — Thugles sempre chegava com tudo de navio, ninguém perguntava nada, ele sempre traz tudo.

—Ilegalmente — reforçou Khanjis — Se vocês não são culpados, então eu gostaria de ver seus documentos, para comprovar.

Houve um momento de tensão: ninguém esperava ter que lidar com aquilo. Thugles não levava materiais para o fórum havia tantos meses, sem nenhum problema? Por que aquele homem agora aparecia tão de repente, questionando-os? Era verdade: Thugles contrabandeava os materiais, mas fazia sempre da maneira mais honesta possível. Por exemplo, havia uma madeireira cujo único crime era não ser reconhecida pela lei. Cortavam madeira como qualquer outra empresa especializada, e vendiam mais barato, porém, isso era proibido. A lei exigia certificados, inspeções, impostos e várias outras burocracias, e haviam as pessoas que preferiam montar o próprio negócio. Tecnicamente, isso não era uma coisa má, porém, era ilegal. Havia empresas que realmente usavam crianças, escravos e outras coisas, mas Thugles sempre procurava "contrabandear limpo". Todavia, aos olhos da lei, isso não fazia diferença.

—É estranho — Sheddeer quebrou o silêncio — Os Black Wings nos atacam e então, quando todos pensam que a situação se acalmou, aparece alguém querendo ver nossos documentos. Se é mesmo um oficial da Marinha, por que não se apresentou num navio, bandeira hasteada, como deveria ser?

—Já mostrei-lhes a insígnia — defendeu-se Khanjis — E eu não queria correr riscos. Como um de vocês mesmo disse, não conheço vocês. Até onde eu sei, a seção Pirate poderia me afundar ao ver um navio da Marinha tentando se aproximar. Vocês combateram barcos da mais poderosa esquadra Black Wing, ora, então o que não iriam fazer com um simples marinheiro?

—Não venha bancar o coitadinho — retrucou Nick — Você nos espionou, este é um terreno privado, isso é crime!

—Eu estava em missão para a Marinha — defendeu-se.

—E por falar em missão, nós temos uma agora — Nuck os interrompeu — Acredite ou não, ela visa não só o nosso bem, mas o de todos nós. Vamos continuar isso na minha sala — sugeriu — Para ser franco, não acho que você vai conseguir muita coisa nessa discussão agora.

—Eu gostaria de falar com o Thugles pessoalmente — pediu Khanjis.

—Thugles é menor de idade — Nuck respondeu-lhe com firmeza — Sou o administrador deste fórum e ele trabalha para mim, portanto a responsabilidade sobre os atos dele em função do MinarForest é minha. Se tem algo a dizer sobre ele, deve falar comigo.

—Muito bem então — concordou Khanjis, sabendo que perdera — Vamos até a sua sala; não precisa me mostrar o caminho, eu sei onde fica.

—Ah, nós não vamos andando — Nuck segurou-lhe os ombros — Presentium Allegratium!

E ambos desapareceram. Arroiz ergueu as sobrancelhas.

—Essa não é aquela magia de teletransporte pra ser usada apenas em grupo?

—É a que mexe mais com a cabeça e deixa mais tonto — respondeu Vampiritico com um prazer selvagem.

—Sujeitinho idiota — Davien disse num rosnado — Espero que Nuck dê uma lição nele. Você podia mostrar umas ilusões pro cara, Donnie.

O rapaz de olhos violeta deu de ombros, indiferente.

—Farei isso, se necessário. Infelizmente, Nuck me quer na seção Fanfic. Vou para lá agora: preciso contar a alguém que sua nova amiga desapareceu.

Ele fez uma saudação e desapareceu como Nuck, deixando os outros confusos. Thugles suspirou.

—Vampy passa um dia todo na base dos Black Wings e eu que sou o acusado — ele resmungou — Se eu for preso, vou te denunciar por blackwingagem. Direi que você é espião deles, e não nosso, vou mostrar umas imagens que falsificarei no GIMP e torcer pra sua pena ser maior que a minha.

—Pare de reclamar — o amigo deu-lhe uma cotovelada — Agora me leva lá pra encontrar os Black Wings.

—Cuidado — advertiu-o Arroiz — Eles podem ter mais marinheiros à volta. Khanjis parece saber o que faz, ele não teria vindo aqui sozinho.

—Talvez teria — ajuntou Rockfield — É a maneira mais simples de não ser descoberto, vindo sozinho. Sheddeer disse que ele chegou de bote. Talvez tenha um navio ancorado perto daqui, mas duvido que ele mantenha uma esquadra de prontidão por semanas. Digo "semanas" porque tenho certeza que ele pretendia ficar mais tempo aqui e só saiu porque o descobrimos.

—Porque contamos a ele que o descobrimos — corrigiu Sheddeer, afinal, já o havia descoberto havia dias — E acho que há muito mais do que um navio. Ele não estava vigiando apenas a seção Pirate, já que também esteve analisando as ruínas da torre que descobrimos, e pegou nosso cronograma.

Davien guardou a polearm e fez uma careta.

—Acha que prender o Thug foi só uma desculpa por ter sido descoberto?

—Provavelmente — o arqueiro assentiu — Eles podem já estar de olho do Thugles, mas se a intenção fosse só essa, ele teria vindo num navio e anunciado a prisão diretamente ao Nuck, junto com alguns superiores. Além disso, por que a Marinha estaria interessada em saber sobre o fórum? Não faz sentido.

—Ele esconde alguma coisa — Nick concluiu. Sheddeer se voltou para eles, a expressão séria.

—Disso não temos dúvidas. No entanto, nossa missão não é essa no momento: precisamos ir para El Nath e encontrar a garota. Se houver algo para descobrir, Nuck descobrirá, já temos problemas demais para nos concentrarmos em todos eles.

—Eu gostaria de poder concordar com o "precisamos" — lamentou Davien — Mas não fui chamado pra El Nath. Com licença.

Ele voltou à seção Warrior, pisando duro, bufando ocasionalmente. Thugles gritou uma ordem para seus piratas e logo o navio estava pronto. Já haviam deixado a costa quando Vampiritico aproximou-se de Sheddeer, na popa.

—Algum problema? — perguntou-lhe o menino, ciente de que o arqueiro estava mais quieto do que parecia. Sheddeer tocou de leve o telescópio ao lado dele e falou:

—Um navio está vindo atrás de nós desde que saímos. Bandeiras azuis, insígnia da marinha.

Com a mão acima dos olhos, Vampiritico pôde divisar o pontinho vago que era o navio à distância e mostrou os dentes. Como espião, ele não gostava de ser espionado sem poder fazer nada.

—Percebi a mesma coisa — Thugles disse perto deles, também de olho no mar atrás — O que devemos fazer? Aumentamos a velocidade?

—Deixe que nos sigam — Sheddeer fez que não com a cabeça, dando de ombros — Estamos indo a El Nath comprar lã. Não há nada de mal nisso, como os marinheiros dele logo vão descobrir quando chegarem ao porto.

—Então nada de paradas em Edelstein — comentou Rockfield — Não se preocupe, Vampy, eu arranjo uma carona pra você.

—Nick me falou de que os aviões do seu clã são bem legais — concordou o garoto, animado.

—E são mesmo — disse o outro — Só que dessa vez, não vamos ter bebidas.

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À porta do Prédio Principal, Davien fez uma careta quando, com um leve aceno de cabeça, Khanjis passou por ele. O homem caminhava a passos largos em direção à seção Pirate. O guerreiro se virou para entrar, mas Nuck já abria as portas duplas de vidro, saindo logo após.

—Ah, Dave — cumprimentou o bispo, parecendo aliviado — Já ia mandar te chamar. Preciso que você...

—Humpf, aí está você precisando de mim, não é?

Nuck o olhou longamente, sem entender a súbita raiva na expressão do amigo. Perguntou a Davien o motivo, e este lhe respondeu:

—Não é que eu não goste de ser deixado de lado das missões importantes, ou de ficar à toa no fórum sem fazer nada. Já aceitei você ter dado o [i]meu[/i] cargo pro Arroiz, mas ficar aqui enquanto o [i]Thugles[/i] vai pra El Nath?

—Ele é o capitão do navio — Nuck respondeu-lhe com calma — É natural que ele vá.

—Porque ele conhece o mar e, portanto, é o mais indicado! E quanto a mim? Morei durante anos em El Nath, conheço aquelas geleiras melhor do que qualquer um aqui, e você sabe disso! Foi muita mancada eu não ter ido.

—E o que queria que eu tivesse feito, Davien? Você se esqueceu que os Black Wings têm aquela pedra? Não posso arriscar você estar longe se eles resolverem atacar.

—E desde quando tememos ataques surpresa dos Black Wings? — riu o guerreiro — Pensei que tínhamos um espião que nos avisasse. Ou talvez ele esteja relaxando muito no trabalho, quantos meses faz que ele está aqui de bobeira mesmo?

O olhar de Nuck endureceu, quando ele se aproximou de Davien, dizendo, em tom baixo e rascante:

—Não fale assim do Vampy, se não sabe o que ele faz. O trabalho dele é mais sério e perigoso do que você imagina, e essa tal pedra é um assunto muito secreto, que ele tem pouco acesso. Se há alguém no fórum que fica vagabundando, resmungando, sem fazer nada...

—Porque você me manda ficar aqui! — Davien rugiu — Eu seria muito mais útil em El Nath, teríamos inclusive mais chances de achar Giu se eu fosse, porque conheço bem...

—Não finja que se importa com ela — Nuck o cortou — Que diferença faria você lá? Sei que conhece El Nath bem, mas Sheddeer também conhece. Você já ter caminhado por aquelas montanhas não daria a você nenhuma pista de onde achá-la. No entanto, mandei meu melhor rastreador para encontrá-la.

—Eu poderia servir de proteção, afinal, El Nath é muito perigosa... — tentou o guerreiro, mas Nuck continuou firme.

—Está insinuando que Sheddeer precise de proteção?

—Não — disse Davien, após refletir por um momento. Por mais que se recusasse a admitir, ele havia ficado mais sábio nos últimos dias. Ele conhecia El Nath, era verdade, mas isso não o tornava mais capaz do que Sheddeer de encontrar uma menina na imensa extensão daquelas montanhas. Mas ele ainda era Davien: — Mesmo assim, Nuck, foi muita idiotice não me mandar pra lá. Tem medo de um ataque? Por quê, se você já tem o melhor guerreiro, seu tutor Warrior, aqui pra te proteger?

Nuck ficou rígido — achava que Davien já havia passado a parte de não ser mais tutor, mas parecia que aquilo sempre esteve ali. De fato, quanto mais o guerreiro o lembrava sobre isso, mais Nuck se convencia de que fizera escolha certa. Ele estava prestes a responder, algo que teria posto Davien em seu lugar, quando Donnie apareceu, risonho:

—Quem diria, os velhos tempos voltaram! Já estão brigando novamente?

O rapaz se aproximava, vestido numa calça preta com casaco da mesma cor, aberto para mostrar a camisa branca por baixo. A cabeça morena levava um acessório que ele não usava desde antes das invasões: o gorro preto, largo e com orelhas de gato. Seus olhos cor de violeta escuro cintilavam, divertidos — um oposto dos de Davien, que mais pareciam os de um lobo selvagem.

—Escuta, você não tem uns livros pra ler não? Eu estava começando a gostar de ver você enfurnado na seção Fanfic...

Nuck esperou que o outro se irritasse, mas já era o velho Donnie novamente: riu, sacudiu a cabeça e encarou Davien como se este não fosse mais do que um adolescente metido.

—Até tenho, muitos, na verdade, e é justamente sobre um deles que vim falar a vocês. O fórum é muito grande, eu receava ter que procurá-los... Mas felizmente, os velhos hábitos não os abandonaram e vocês estão juntos como sempre, já perto de onde eu queria conversar!

—Não quero falar sobre livros — Davien retrucou, e Nuck pediu-lhe silêncio com a mão.

—O que foi, Donnie? Descobriu alguma...?

—Não exatamente, são coisas que andei refletindo e que gostaria de conversar com vocês.

—Gui está logo ali no Mercado Livre — Davien respondeu, insolente. Donnie mordeu o lábio.

—É que... Não acho que deveria dizer a ele. Por isso procurei vocês.

Nuck não respondeu, também Davien ficou calado, pois o tom de voz do tutor Fanfic estava sério agora, de repente passando de brincalhão e despreocupado para um vazio triste, parecendo precisar de consolo. O guerreiro hesitou um momento: ainda ressentia-se com Nuck, mas ele e Donnie há muito eram seus amigos, e naquele instante ele percebeu que, nos últimos meses, não haviam conversado sobre nada que não fosse o destino do MinarForest, como se fossem apenas colegas de trabalho, centrados apenas em negócios. Exceto na vez que se reuniram e Thugles jogara Nick em cima dele. Ele se recordou do fato com uma emoção maior do que julgava digno sentir, e balançou a cabeça para afastar o sentimento.

—Vamos para a sala do Nuck — ele não precisava esperar a sugestão do líder, que consentiu e os três entraram no Prédio Principal, subindo de elevador. Chegaram no último andar, na imensa sala mágica: eram dois prédios, um ao lado do outro, mas aquela sala ocupava o topo de ambos, uma sala apenas, quem estivesse fora não veria nenhuma ligação entre ambos os prédios. Não havia janelas — as paredes eram todas de vidro, opacas por fora e transparentes por dentro, permitindo que se visse toda a extensão do fórum, desde o mar ao norte até as florestas ao sul. Sentaram-se na ponta da grande mesa retangular que Nuck usava para reuniões importantes, ele e Davien num lado e Donnie no outro, e o rapaz não demorou a começar:

—Venho tendo umas visões, e acho melhor falar sobre elas primeiro. Li aquele livro dos Quatro Heróis...

Ele contou sobre as histórias: o primeiro herói era um ex-lutador preso, que fora libertado por Minerva para encontrar um instrumento feito pela própria deusa: o Cajado Maple da Sabedoria, que usaria para libertar o rei de sua prisão espiritual. Um mago muito famoso prendera o rei lá, e desde então assumira a sua forma e governava o mundo em meio ao mal e ao luxo. O herói e o rei verdadeiro convenceram as pessoas da farsa, juntaram um exército e deu-se uma grande guerra, que terminara com um cerco ao palácio e o falso rei morto, pelas mãos do herói que depois foi condecorado e aclamado com os maiores títulos de honra.

Depois vinha o segundo herói, nascido numa época onde havia uma tribo maligna, que clamava pela dominação mundial. Os exércitos do rei, este descendente do rei da época do primeiro herói, mal conseguiam contê-los. A tribo inimiga chegou ao ponto de criar um gigante de metal indestrutível entre suas armas, mas não conseguiam ligá-lo. Minerva viu nisso a salvação e mandara mais um artefato ao mundo mortal, desta vez, uma gema brilhante que teria o poder de dar vida ao gigante. O herói, depois de uma longa jornada, a encontrara e, infiltrando-se na base inimiga, animara o gigante que matou não só o herói, como também a grande maioria dos exércitos inimigos, que passaram a lutar contra sua própria criação, a arma que planejaram para ser imbatível. Usando suas tecnologias, conseguiram apenas enfraquecer o gigante — de modo que, quando o último deles morreu, pelo gigante e pelas tropas do rei, estas conseguiram deter a criatura, cumprindo-se assim a segunda história dos escolhidos de Minerva.

Donnie já respirava fundo para falar sobre o terceiro herói quando Nuck, os olhos arregalados — pois ali não precisava esconder seus temores — disse:

—Isso não pode ser coincidência. Uma gema e um gigante de metal...

—E agora, pelo que o Rock me contou, sabemos que existem os restos de um gigante junto com uma pedra com poder de dar vida às coisas — tornou Donnie, pensando o mesmo que ele — Acredito que seja o mesmo gigante da história e a mesma pedra, sim... — ele deu um sorriso — O que significa que a tribo inimiga de tanto tempo atrás viveu de fato perto da Mina Verne, o mesmo lugar onde hoje vivem nossos maiores inimigos. Irônico, não é?

—Parece que o mal daquela tribo permaneceu junto com os restos do gigante — Davien sacudiu a cabeça, sério — Ou os Black Wings podem ser a própria tribo. Eu não ficaria surpreso.

—Eu ficaria — admitiu Donnie — Não estudei a fundo a história do terceiro e quarto heróis, mas a linhagem do grande rei terminou quando seu último descendente morreu, sem filhos, o que mergulhou o mundo numa guerra entre várias nações. O terceiro herói surgiu para unificá-las, sobre uma grande e única nação, e foi quando se dividiu o mundo em territórios como Perion, El Nath, Mu Lung... Sem um chefe, sem um rei, apenas conselheiros e pessoas de maior importância, mas sem uma única pessoa para governar tudo. Vocês sabiam que o nome dessa nova nação, única e sem monarquia, recebeu o nome de "Maple"?

—Sabia — Davien respondeu. Donnie ignorou-lhe o sarcasmo e continuou:

—Por fim temos o último herói, e dele não li mais do que algumas linhas, só sei que pegou a época mais complicada. O motivo dele não envolvia uma guerra entre as pessoas, mas sim entre demônios. Parece que se juntaram e resolveram tomar o mundo, resumidamente falando. Demônios de fogo queimavam cidades, demônios da água inundavam vilas e afundavam navios, os do ar causavam tempestades intermináveis e os da terra sacudiam o mundo com tremores.

—Esses não seriam bem-vindos da seção Magician — Davien brincou com Nuck, que permanecia atento a cada palavra.

—E então... Foi assim — terminou Donnie — Quatro heróis, que vieram ao mundo para salvá-lo, por intermédio de Minerva. Passaram-se muitos anos desde o quarto, muito mais do que os outros, por exemplo, se houve um período de dois séculos entre o surgimento de cada herói, então faz mais de três milênios desde que veio o último. É por isso que não acho que os Black Wings sejam os mesmos descendentes dos que fizeram parte da tribo do segundo herói, Dave — acrescentou — Pelo que sei, a luta contra o Black Mage aconteceu há mil anos, muitos milênios depois. E mesmo assim, não houve necessidade de um quinto herói de Minerva.

—Porque Aran estava lá — tornou Davien na mesma hora — Ele liderou os grandes heróis, os heróis [i]de verdade[/i], que não precisam de deuses iluminando-lhes os caminhos pra lutar.

—Isso não seria uma blasfêmia contra a deusa, Davien? — Donnie o olhou verdadeiramente divertido, fazendo o guerreiro calar-se.

Nuck esperou alguns instantes antes de falar, pois agora que ouvira mais sobre as histórias, compreendia o quão grave poderia ser a situação. Temendo que Donnie o confirmasse, mas sabendo que o tutor o faria, falou:

—Você nos disse que estamos em tempo de receber mais um herói, segundo suas visões. Isso significa realmente que está vindo alguma coisa muito ruim, como naqueles tempos?

—É exatamente isso — Donnie disse com pesar — Faz sentido se lembrarmos dos Black Wings e que eles têm posse de um artefato enviado pela própria Minerva. Na verdade, me ocorreu que talvez a razão pela qual eles ainda não tenham atacado seja porque não estão usando a pedra pra criar um exército, e sim...

—Para ressuscitar o Black Mage — disseram Nuck e Davien ao mesmo tempo, o guerreiro finalmente prestando total atenção à conversa.

—Exato. Se eles conseguirem... Bem, o Black Mage já nos atacou antes, e naquela época não havia Black Wings. E não vamos nos esquecer de que naquela época Minerva não mandou nenhum herói, o que significa que a situação não era tão séria a ponto de precisar da influência dos deuses. Mas agora não temos Aran e os outros heróis para nos defender, e Minerva nos manda outro herói, que só aparece quando o mundo passa por um momento realmente crítico. Isso só pode significar uma coisa: o que quer que esteja pra acontecer, é pior do que a primeira invasão do Black Mage.

Davien não disse nada, tampouco Nuck, que percebera a forma como Donnie falara sobre a [i]primeira[/i] invasão do Black Mage. O que fariam eles se os Black Wings conseguissem ressuscitá-lo? Teriam a ajuda do novo herói, isso era verdade, mas...

—Foi justamente pra isso que Minerva nos mandou o herói — continuou Donnie como se lesse os pensamentos do administrador — Só que, quando isso acontecia, normalmente o herói era guiado por ela, mas desde que o Papa Pixie a aprisionou naquela estátua, Ela foi impedida. Acredito que tenha sido por esse motivo que Fpkforhero tenha aparecido para mim, para que eu pudesse ajudar a descobrir.

Davien assentiu, e Nuck lembrou-se de mais uma coisa. Inclinou-se para a frente, a expressão séria.

—Por falar nisso, você disse que nos trouxe aqui para falar sobre as visões, e até agora não falou sobre elas. Também disse que não podia ser dito a Gui...

—Sim — Donnie respondeu, o rosto assumindo novamente a expressão triste — Isso é porque, uma vez, Fpkforhero me mandou quatro visões, três delas em um lugar de pedras, onde um homem falava a Minerva, cada visão era sobre um dos heróis. A quarta visão foi na Torre de Orbis, onde Minerva já estava presa na estátua.

—Significa que Minerva já estava aprisionada na estátua na época do quarto herói — deduziu Nuck — Estranho, sempre pensei que o Papa Pixie tivesse invadido há uns trinta ou quarenta anos atrás...

—Espera — Davien o interrompeu — Não pode ser verdade. Arroiz disse que ele viveu na época que os Cavaleiros de Minerva eram fortes, lembram? Mas a queda deles só começou depois da Deusa ter sido aprisionada, se isso fosse verdade...

—Isso faria de Arroiz um homem de mais de três mil anos de idade — concordou Donnie — Supondo que o último dos heróis veio ao mundo há três mil anos, até onde sabemos, pode ser muito mais do que isso. Pesquisei a história dos Cavaleiros, e alguns deles realmente ganhavam uma bênção da Deusa, que prolongava-lhes a vida. Mas não por tanto tempo — acrescentou — Contudo, talvez o aprisionamento tenha impedido a Deusa de controlar essa magia, mantendo Arroiz vivo até hoje. Ou talvez ela a tenha deixado para que ele continuasse a espalhar a magia, visto que ela não poderia mais recrutar outros cavaleiros.

—Eles não me parece alguém de três mil anos — disse Davien — Quer dizer, não fala como um. Sempre me pareceu muito experiente, mas se ele tivesse mesmo toda essa idade, ele deveria ser "normal" assim?

—Isso é porque a magia da deusa não apenas interrompe o envelhecimento, mas também a puberdade e o amadurecimento — Donnie lhe disse — Ele tem dezessete anos, e a magia o deixaria [i]sempre[/i] com essa idade, tanto física quanto mental. Por isso ele mantém a flexibilidade e o pensamento aguçado da juventude, mas não fala com a experiência e sabedoria de alguém como Grendel.

Davien coçou a cabeça, aborrecido.

—É muita coisa pra se entender — admitiu. Nuck juntou as mãos sobre o peito.

—É muita coisa para ser colocada em poucas palavras. Quatro heróis, cada um aparecendo para salvar o mundo. Faz cerca de mil anos desde que os Heróis, Aran e os outros, lutaram contra o Black Mage. Muito antes disso, o Papa Pixie invadiu a Torre de Orbis, depois disso veio o quarto herói.

—Se ele conseguiu ser guiado por Minerva, certamente esse herói de agora também será — disse Davien, compreendendo. Donnie, contudo, continuava sombrio.

—Receio que não seja assim tão simples. Acho que, quando veio o quarto, fazia pouco tempo que Ela estava sob a forma de estátua. Hoje, séculos depois, o Papa Pixie já absorveu grande parte do seu poder.

Davien praguejou baixinho.

—Mas e o Gui? — perguntou Nuck. Donnie olhou os amigos, sem hesitar:

—Ele é o homem que vi nas visões, falando com Minerva.

—O quê? — Nuck reagiu sem acreditar, e Davien também parecia igualmente surpreso — O Gui? Sempre achei que havia algo de misterioso nele, mas isso...

—Fpkforhero me mostrou que ele está aqui para guiar o escolhido — respondeu Donnie — Só que desta vez, a deusa Minerva disse que não, que o novo herói precisaria encontrar sozinho seu caminho.

—Como ele vai fazer isso? — Nuck perguntou incrédulo — Sem a deusa e sem um guia, como ele vai sequer saber que é um dos escolhidos?

—É a vontade da deusa, e não a nossa — Davien falou numa sensatez que surpreendeu a ambos — Tudo o que podemos fazer é esperar que Ela nos revele o que pretende fazer. Quando chegar a hora, Gui se apresentará ao escolhido e o guiará.

—Magnífico — Donnie aplaudiu de brincadeira — Seria bom se você fosse bem com as palavras assim com Khanjis também. Quem sabe assim ele desista de nos interrogar.

—Khanjis — repetiu Nuck, ciente da pergunta não proferida nas palavras de Donnie — Por falar nele, consegui convencê-lo a liberar o Thugles. No fim não existem provas de que ele realmente faz o que faz, e aposto que foi seguí-lo até El Nath. Foi também por isso que mandei Sheddeer, e não você, para lá — acrescentou para Davien — Ele vai saber lidar com os marinheiros do Khanjis, caso façam perguntas.

—Mas não vamos conseguir escapar pra sempre — tornou Donnie — Talvez chegue o dia em que as leis fiquem duras e passem a nos exigir um monte de coisas para manter a seção Pirate em funcionamento.

—Talvez — Nuck respondeu, devagar — Mas esse dia não chegou ainda.

No curto silêncio que se seguiu, alguém bateu à porta, fazendo Davien levantar-se com a polearm nas mãos. Havia entre os tutores um código para se bater à porta, e ficou claro que quem batia não era um tutor. Se não era, quem seria? Pensou em Khanjis: ele poderia estar de volta exigindo fazer mais perguntas, talvez tivesse até mesmo posto escutas na sala e tivesse ouvido que falavam sobre ele. Estava para perguntar o fato a Nuck quando a porta se abriu.

—Thugles já partiu?

—Já — Davien respondeu, baixando a arma. O homem assentiu.

—Bem, é uma pena — disse, e o que fez uma lâmpada se acender na mente dos três amigos, juntamente com um calafrio nas espinhas, não foi o sobretudo preto do homem, nem o cajado de pedra azul-claro, nem o chapéu de abas largas ou mesmo a venda vermelha no rosto, mas sim, as palavras que se seguiram: — Então alguém vai ter que me preparar um outro navio na seção Pirate, porque eu também gostaria de ir para El Nath — disse Gui, um segundo antes de derrubar o cajado no chão e cair de joelhos, gemendo de dor.

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Em toda a sua vida, Arroiz havia visto muitas coisas. Passara por muitas cidades, vilarejos, conhecera pessoas que nasceram décadas depois do próprio Arroiz nascer, e ainda assim todas morreram antes dele. Participara de batalhas, vira inúmeras tropas em combate, bem como as liderara sobre cores das mais variadas bandeiras, manejara os mais diversos tipos de arma e até estivera perto da morte, apenas alguns meses — não na invasão dos Black Wings, mas quando Davien o derrotara na batalha pelo cargo de tutor Warror, que ele ganhou mesmo assim.

Em suma, Arroiz era alguém cujos olhos já haviam pousado em muita coisa. Agora a única coisa que eles enxergavam era um monte de trapos avermelhados, nadando numa bacia de líquido que cheirava a ervas expostas ao sol. Estava em pé, os olhos fixos na bacia no chão, sem perceber que por mais de duas horas, até alguém atrás dele falar:

—Ficar olhando pra pele não vai fazê-la amolecer mais rápido, Arroiz — disse-lhe Benna. O rapaz virou-se para ela, o olhar triste.

—Quatro semanas! Ainda faltam quatro semanas! — e voltou a encarar as peles que amoleciam na bacia.

—Ontem faltavam quatro semanas e um dia — disse-lhe a maga, rindo — Hoje falta menos, seja otimista!

—Mas amanhã vai faltar três semanas e seis dias, se pensar desse jeito.

—Sim — Benna retrucou impaciente — Mas aí você estaria sendo pessimista, e eu mandei você ser otimista. Vamos, ficar olhando pras peles não vai ajudar em nada — repetiu.

Arroiz suspirou, virando-se para ela. Às suas costas estavam pedaços da pele de Manon, que teriam que descansar na bacia por um mês antes de poder serem usadas para confeccionar a armadura que tanto queria. Por um momento, ele olhara com desconfiança quando Benna colocara a bacia ali, do lado de fora do pequeno anexo no meio do fórum que antes foram usado como seção Magician, quando a seção estava sob construção. Ele imaginou que o couro de Manon deveria ficar, no mínimo, sob uma bacia de prata num alto pedestal dourado enquanto recebia a luz do sol para maturar, para então ser forjado respeitosamente para servir de armadura a um digno Cavaleiro de Minerva — e não ali, atrás da porta aberta de um lugar que fedia a chulé, no chão como um monte de cobertores de molho no amaciante.

Mas não disse nada, pois lembrara-se de Iremi desmaiando de exaustão enquanto preparava o couro. Não queria soar ingrato.

—Não tem muito pra fazer aqui — justificou-se o guerreiro — O fórum está calmo, não que eu esteja reclamando, mas hoje é dia da folga dos meus alunos.

—Eu não sou sua aluna — disse a garota — Então que tal me dar aquela aula que prometeu?

—Ah... Aquela aula... — começou ele.

—O quê? Achou que eu estava brincando? Não, falei sério — Benna respondeu, animada — Eu queria mesmo ser uma guerreira, mas acabei descobrindo que sou boa com magia, afinal de contas. Bem, não tão boa... — ela olhou para os sapatos — Desculpe-me novamente pelo cheiro. Na verdade essas ervas que você vê na bacia nem eram necessárias pra amaciar a pele, eu as coloquei para disfarçar a catinga daqui.

—Eu percebi. E gosto desse cheiro, conheci um mago que me mostrou os efeitos essas ervas, e elas cheiravam exatamente assim. Nunca pensei que fosse sentir isso de novo, ainda mais na minha armadura.

—Aí está você de devaneio com sua armadura — Benna suspirou, virando-o para longe da bacia — Credo, não é muito masculino ficar esperando a roupa nova sair, sabia?

—Não é uma roupa nova, é uma armadura feita do couro do dragão mais poderoso de Minar! — Arroiz protestou com o rosto corado, e Benna deu-lhe um soco.

—Que seja, você pode esperar algumas semanas! Ora essa...

Era verdade, visto que dali a algumas décadas ele completaria [i]quatro mil[/i] anos de idade. Ele às vezes pensava nisso, só que a magia da Deusa, como Donnie havia dito, o deixava parado no tempo. Arroiz poderia ter um milhão de anos que, mesmo assim, um ano ainda seria um período bastante longo. Mesmo um mês, como ele teria que aguardar, era muito!

Mas em todos esses anos ele vivera uma vida de lutas e de paz, de alegria e sofrimento, tudo dedicado à Deusa. Nunca havia tido um momento tranquilo, onde poderia ensinar uma garota apenas para passarem o tempo. Ele já ensinara pessoas antes, inclusive era seu trabalho como tutor. Mas nunca alguém lhe pedia com tamanha casualidade, como se fosse simplesmente um pedido entre dois amigos.

Arroiz deu de ombros. [i]Eu posso aproveitar alguns momentos antes do escolhido de Minerva surgir outra vez[/i], pensou com desdém. E aceitou o convite da garota.

A seção Warrior estava vazia exceto por eles, de modo que tinham toda a arena de areia para treinarem. Arroiz usava roupas comuns: bermuda e camisa preta, enquanto Benna estava vestida numa toga branca, fato que o guerreiro não hesitou em comentar.

—Troque para uma roupa mais curta, ou uma armadura — disse — Caso contrário as dobras da sua roupa vão te atrapalhar quando precisar correr, e não vão lhe proporcionar nenhuma proteção.

—Olha quem fala! — disparou ela — Você espera bloquear uma lança com esse seu short de praia?

—Eu não espero deixar o lanceiro me atingir — Arroiz respondeu com calma. Benna bufou.

—Bem, não vou trocar de roupa só porque você quer. Mesmo porque, no fundo, eu sou uma maga, e gosto dessa toga. Devo me acostumar a lutar com as roupas que uso. Posso usar minha magia para me proteger, ou como uma espada. Posso ser uma maga de batalha, como você!

—Eu sou um paladino — corrigiu o guerreiro — Magos de batalha focam na magia pura, enquanto usam uma arma e um cajado para a magia. Já os paladinos encantam a própria arma com ela, estudam magia curativa e, na maioria das vezes, usam escudo e uma armadura pesada.

—Chega de falar de armaduras — pediu a garota com uma risada — Mas pensei que paladinos usassem espadas, não?

Ela olhou com curiosidade para o machado de uma lâmina, sendo esta dividida em dois gumes, um ao lado do outro. Até onde se sabia, paladinos eram figuras lendárias, mas havia pessoas que chamavam-se paladinos por saberem usar magias parecidas — Benna não sabia que Arroiz era de fato um Cavaleiro de Minerva. Ele apenas assentiu e respondeu:

—Eu usava uma espada... Mas isso foi há muito tempo. Decidi que precisaria aprender a usar novas armas, caso quisesse me tornar um bom guerreiro. Mas há muito uso este machado, estou pensando em voltar a usar uma espada... Só não tive coragem de trocar, ainda.

—É muito simples, eu vou te mostrar — Benna tomou-lhe o machado e entregou a ele uma espada, depois puxou outra do arsenal para si — Pronto! Agora eu e você temos uma espada. Quer me acompanhar até o centro da arena e me ensinar a melhor maneira de arrancar sua cabeça?

Ela deu-lhe as costas, indo até a arena. Arroiz estava prestes a acompanhá-la quando viu que havia mais alguém na seção, observando-os o tempo todo.

—Davien — disse, não sem alguma surpresa — Não esperava você se esgueirando por aí.

—Quantos anos você tem? — foi a pergunta.

—Dezessete — respondeu o guerreiro.

—Ah, claro, dezessete. Então seu pai talvez possa nos dizer onde está o novo herói, então?

Arroiz ficou calado, observando-o com os olhos muito abertos — pois se aquela fosse apenas uma pergunta natural, não teria sido feita naquele tom. E a menção sobre o "herói"... Por um momento, hesitou em responder. Então lembrou-se de que Davien fora tutor Warrior antes dele, e que, às vezes, o MinarForest tinha estranho meios de saber das coisas. Thugles não trazia materiais para o fórum de lugares onde ninguém sabia? E Donnie não revivera todas aquelas personagens de fanfic? Mesmo assim, foi num sussurro baixo que ele respondeu:

—Quatro mil, quinhentos e sessenta e sete. Mas sinto-me como se tivesse dezessete anos, já que o tempo nunca passou pra mim.

—Sei disso — respondeu Davien, o que fez o tutor perguntar o que mais ele sabia — É apenas importante para estimarmos algumas datas. Agora devo deixá-lo com sua amiguinha.

Davien saiu da seção Warrior, e atrás de Arroiz, Benna gritou:

—Ei, anda logo! Não se dá as costas pro seu oponente assim!

Arroiz fechou o punho ao redor da espada e se virou. Correu, e antes que ela pudesse reagir, enfiou-lhe a espada na barriga.

Benna emitiu um gritinho suave e caiu no chão, sem sangrar, apenas desacordada — a magia curativa de Nuck cuidava daquilo. Arroiz puxou a arma, praguejando e tocando o rosto da menina, caído na areia.

—Ah, que droga! — resmungou — Acho que me empolguei demais...

—Não seja por isso — disse uma voz atrás dele, Arroiz se virou e viu Iremi, vestida em jeans, sapatos brancos e camisa verde — Também estou entediada.

—Você também quer ser guerreira? — Arroiz lhe perguntou incrédulo. Recebeu uma bola de fogo em resposta, da qual se esquivou agilmente.

—Eu [i]sou[/i] uma guerreira — disse-lhe a menina — Só não uso aço.

Desta vez ela jogou-lhe um raio, que Arroiz absorveu com a espada. A lâmina então zumbiu, carregada de eletricidade. O olhar dele estava sério sob os óculos — sorrindo num esgar maldoso, lançou-se em ataque à garota.

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