MinarFic
22 Cap37
[spoiler=Capítulo 37 — As Duas Tribos]
No meio da grama onde antes ficava a seção Magician, dezenas de pessoas andavam e gritavam, chamando por seus amigos, tentando entender o que estava acontecendo ali. Um pouco afastado dos demais, perplexo demais para dizer qualquer coisa, Donnie escutou a voz de Nick:
—Fiquem todos calmos! Foi apenas um pequeno imprevisto, mas estamos todos aqui, não há o que...
—Todos aqui uma ova! — gritou Kiara, os olhos marejados de lágrimas — Cadê a Giu? Se ela ficou presa naquele mundo infernal de vocês, moleque...
A cena atraiu os outros alunos, e logo todos os olhares convergiam para Nick. Afinal, ele era o tutor Magician, e a responsabilidade do acontecido, tecnicamente, ocorreria a ele. Mas era apenas um garoto, e começou a recuar instintivamente diante dos olhares estranhos que recebia.
—Maldito MinarForest — disse uma garota com desprezo — Eu devia saber que vocês não eram capazes nem de cuidar de si próprios, quanto mais manter uma sala de treinamento decente!
—O Arroiz também não voltou — notou outra garota descalça, Benna — Nem o Nuck...
—Não há motivo para tudo isso — Donnie disse por fim, e suas palavras, cheias de calma e seriedade, foram o que acalmou a multidão — Tivemos um problema, isso não é nem um pouco estranho. Não é simples manter um plano de outra dimensão, portanto era de se esperar que talvez tivéssemos um ou dois erros de cálculo.
E passou os olhos entre a multidão, acrescentando:
—Nuck não lhes pediu confirmação antes de entrarem na seção? Todos vocês concordaram em entrar, mesmo com os possíveis riscos, na seção Magician. Estavam todos ansiosos para vê-la, bem, vocês se comprometeram, não é? Além disso, Nuck está lá dentro, logo ele reabrirá o portal. Por que agora descontam sua raiva em quem não pode fazer nada?
A grande maioria dos alunos baixou a cabeça, mas Kiara continuava firme.
—Eu e Giu não confirmamos nada! Vocês nos mandaram entrar, e foi o que fizemos! Olha aqui, se eu não encontrar minha amiga, se ela...
A voz dela foi interrompida por um grande "vuuush" que se fez ouvir por toda a região, em seguida o círculo ressurgiu junto com os anéis giratórios e a esfera de energia. De lá saíram Nuck, Aphanyus, Arroiz e mais alguns magos, dentre eles, Iskander.
—Perdoem-nos pelo transtorno — o administrador apressou-se a dizer, com voz calma — Um erro nas equações da seção, o que colapsou parte dela. Felizmente, tomamos providências para que isso não afetasse nada diretamente. Os barulhos e tremores que vocês ouviram foram apenas os alarmes de segurança, e garanto que a seção é segura.
Foi o bastante para acalmar os ânimos dos alunos — Nuck era reconhecido quase mundialmente como bispo, e se ele dizia que um lugar era seguro, era verdade. De fato, ninguém se ferira, mesmo assim, Nuck resolveu fechar o portal, por ora.
De qualquer maneira, Nuck jamais disse que o MinarForest era um lugar seguro.
—Que erro foi esse? — Donnie perguntou como quem não quer nada. Nuck o olhou e forçou um sorriso.
—Uma das equações da seção Magician caiu numa raiz negativa. Aphanyus encontrou logo o erro, mas foi impressionante o poder que um sinal errado pode causar.
"[i]ela será revelada quando, das raízes, uma for menor do que nada...[/i]"
"[i]Ela...[/i]"
E de imediato, ele percebeu.
—Há mais alguém no portal? — ele perguntou, mas já sabia a resposta.
—Não — Nuck lhe disse firmemente — Garanti que todos saíssem. Mantive apenas os matemáticos e experientes em cálculos, mas já estamos todos aqui, portanto...
—O quê? — Kiara gritou desesperada — Como assim não tem ninguém? Cadê a Giu?
Nuck a olhou, e então seu rosto empalideceu ao não encontrar a garota que estava com ela antes — ela queria estudar magia curativa, portanto, recebera o aviso e estava na seção Magician. E ele tinha certeza de que não havia ficado ninguém lá dentro.
—O que foi? — Kiara respirava com dificuldade — Ela não está naquele mundo, e nem está aqui... Onde...
Subitamente ela arfou, seus olhos brilharam e a temperatura subiu vários graus ao ponto de sobressaltar alguns dos que estavam ao redor. Ela tinha ambas as mãos no cajado e os apertava com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos. Sua boca se fechou, a respiração ficou pesada e rascante...
Donnie foi mais rápido — colocou-se à frente dela e segurou-lhe os ombros. Em seguida, olhou-a profundamente nos olhos, que se fecharam rapidamente no que ela caiu no chão, desmaiada.
—Emoções fortes e magia de fogo — disse o rapaz — Não é uma boa combinação.
Mas ele estava ciente do olhar que Nuck pousava nele. O bispo sabia que, de alguma forma, Donnie tinha a ver com tudo aquilo, mas teria o bom senso de perguntar depois. Donnie retribuiu-lhe o olhar, e Nuck assentiu.
—Mande chamar os outros tutores — o líder falou claramente — Encontraremo-nos na Sala de Reuniões.
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Ela caminhava, não com a leveza a que estava acostumada, mas com passos pesados e forçados, as dores nas pernas já cessando — estavam entorpecidas demais para sentir qualquer coisa. O vento açoitava-lhe os cabelos e fazia sua pele arder. Nevava pouco, mas mesmo estes raros flocos de neve grudavam-lhe na pele e davam a sensação de que iria congelar. Cada passo era um grande esforço, somado ao peso do martelo que doía-lhe as costas.
Giu estava andando havia, no mínimo, uma hora, embora não tivesse certeza. Buscou orientar-se pela luz do sol, mas ele parecia nem sequer existir, era como se o próprio céu fosse formado de vento e partículas de gelo em movimento. Também, se o sol estivesse ali, ela pensou, talvez houvesse algum calor para seu kimono absorver.
A roupa marrom de barra e dobras azuis lhe proporcionava algum conforto, mas mal lhe cobria as pernas e os braços. Ela tentava usar a magia curativa para se aquecer, mas isso só a impedia de congelar. A sensação gélida, de frio intenso, ainda estava ali como uma presença.
Ela amaldiçoou o momento em que seguira a amiga àquele fórum, quando ambas entraram na seção Magician que causara tudo isso — o que só piorou as coisas porque, se Kiara estivesse ali, poderia facilmente aquecê-las com a magia de fogo.
Quando a seção Magician começara a tremer, a garota sentiu-se puxada por alguma coisa muito forte, em seguida veio o frio e ela soube que não estava mais no MinarForest. Olhara ao redor e vira-se num terreno montanhoso e pedregoso, coberto de neve em toda parte. Ela havia sido transportada para oeste, para as Montanhas de Gelo onde Horntail vivera antes de Duh derrotá-lo anos atrás!
Apesar das condições, ela sabia que precisava se mover não apenas para se aquecer, mas para se aquecer. Ora, as montanhas não eram infinitas, ela pensava, se andasse sempre em linha reta teria que encontrar uma saída. Ela foi pra onde julgou ser o leste e caminhou, incessantemente, um passo depois do outro, deixando marcas profundas na neve.
As montanhas não eram infinitas, mas parecia. Por mais que andasse elas continuavam ali, sem uma única mudança no terreno. Seus pés encontravam ora neve, ora uma pedra plana e gelada, mas ela não desistia. Finalmente, chegou no que parecia ser um grande vale — onde o chão parava de se elevar e dava lugar a um espaço mais plano e menos acidentado. E então...
—AAAAAAAAAAARRRR!
O grito ecoou pelas montanhas, trazido até ela pelo vento, e a garota começou a correr. O chão era de pedra agora, e a neve não mais lhe atrapalhava os passos. Embora ainda houvesse o vento cortante, ela corria, pois finalmente encontraria ajuda.
Ou inimigos. Sim, esse pensamento lhe ocorrera, mas com ironia: amigos ou não, ela morreria se ficasse parada ali. Então seria melhor ir logo ao encontro daquelas pessoas e deixar a sorte decidir.
Já estava perto o bastante pra ver que ela não era a única com problemas. Contou, pelo menos, dezesseis homens e mulheres, de braços largos e fortes, recuando e andando para trás, de frente para um grupo de pessoas igualmente musculosas que corria na direção deles, perseguindo-os. Todos usavam armas, a diferença era que os perseguidores tinham achas e enormes machados, enquanto os recuados preferiam espadas e maças mais curtas.
Um dos perseguidores, mais próximo do segundo grupo do que os demais, gritou, e com isso fez alguma magia, pois um dos que voltavam caiu no chão em pânico. Isso fez Giu perceber que havia outras pessoas caídas, imóveis, provavelmente mortas. E ela constatou estar olhando para um campo de batalha — os perseguidores estavam agora a alguns metros...
O homem que caiu certamente despertou um sentimento de ira nos que recuavam, pois eles pararam de andar e passaram a correr para a frente, mas seria tarde demais — o homem que gritara já corria com um machado nas mãos, urrando, pronto para finalizar o guerreiro caído no chão.
Sem pensar, Giu gritou — um berro alto e mais ou menos feminino, que sobressaltou não apenas o atacante como os outros de ambos os lados. Seja como for, distraiu-o por uma fração de segundo, tempo suficiente para ela levantar o martelo com ambas as mãos e acertar em cheio a cabeça do homem, que caiu no mesmo instante.
O gesto lhe custou suas últimas reservas de força física, mas ela era forte. Olhou para o homem caído no chão, que balbuciava palavras de agradecimento — que ela dispensou. Abriu-lhe o grosso colete de pele e encontrou vários ferimentos, pondo a mão delicada na pele dura e áspera. O peito dele brilhou, os cortes pararam de sangrar e não se curaram, mas estabilizaram-se como se já tivessem ocorrido há alguns dias.
Ela olhou, sombria, para o grupo que perseguia. Estavam mais perto agora, mas antes que pudessem se aproximar mais, sentiu uma mão grossa e pesada puxá-la para trás.
Deu-se o choque entre ambos os grupos — gritos, armas se chocando, o calor de fogo conjurado. Mais tarde, Giu saberia que toda aquela magia era conjurada pelos de armas mais curtas(lado em que ela estava agora) enquanto os outros usavam armas maiores e pouca ou nenhuma magia. Também saberia que estes, de armas curtas, usavam grossos casacos de lã cinzenta, áspera e dura, enquanto os perseguidores vestiam couraças metálicas — ou mesmo apenas shorts, deixando o peito nu à mostra no frio. Mas agora ela tinha o rosto na neve e nada podia ver.
Com a mesma delicadeza com que fora puxada, foi virada para um lado num movimento brusco que lhe estalou os ombros. Ela se viu deitada de costas, encarando duas pessoas cujos rostos não podiam ser vistos com clareza, tamanha era sua exaustão e a neve e o vento que atrapalhavam tudo. Quando falaram, no entanto, as vozes soaram claramente.
—Lik reh — disse uma mulher — Redurtni! Lahseid!
—Tiaw, Nerada! Tsum-tiaw rof tnemeg-duj — respondeu o outro, um homem.
—[i]que?[/i]
Giu não podia detalhar lhes as faces, mas via que a mulher tinha um rosto mais escuro — e ambos estreitaram os olhos.
—Vê? Ela fala a língua dos Invasores — a mulher disse com forte sotaque(ah, como Giu sentiu vontade de comentar a ironia no que ela dizia! Mas ficou calada).
—Salvou Necoth — o homem complementou — Merecer menos... mais... Compaixão. Não ainda. Esperar pão. [i]Ha, kufsid[/i]! — acrescentou com desprezo, evidentemente desistindo de tentar falar o idioma de Giu.
—Edevas Necoth... — a mulher falou, hesitante por um momento, afinal, Giu realmente havia ajudado o tal Necoth. A expressão da mulher se amenizou...
...para ser substituída por um arregalar de olhos quando uma acha foi cravada em suas costas, no que ela caiu em cima da garota. Ela, infelizmente, olhou instintivamente para o segundo homem — com isso, viu quando um homem pálido muito musculoso agarrou-lhe a cabeça e a apertou, esmagando-a com as próprias mãos. A visão, depois de tudo, fez Giu tremer.
O assassino afastou o corpo da mulher para um lado e ergueu Giu pelo colarinho, aproximando-lhe o rosto. Por isso, infelizmente, desta vez ela pôde ver com clareza quem a encarava. O homem era pálido como a neve, os olhinhos castanhos emitiam um brilho selvagem e primitvo. O nariz grande e gosmento fungava, as narinas abrindo e fechando. A boca fina era envolta por uma barba escura, desgrenhada e suja de restos de comida e sangue. O homem riu asperamente, uma expressão totalmente diferente da careta repugnada da menina.
—Escolheu uma péssima hora pra se perder, garota — ele disse num português perfeito, o que surpreendeu Giu que esperava algo mais monossilábico como "uga". Dizendo isso, cuspiu nela e a soltou. Arrancou o machado do corpo da mulher, Giu tentou institivamente se mover, mas ele estava apenas colocando-o nas costas.
A garota ofegava, assustada e amedrontada, perguntando-se o que teria acontecido com a luta. Parecia, no entanto, que não lhe caberia descobrir, porque o homem a jogou por cima de um ombro e levou o martelo dourado na outra mão. Então o homem fez um movimento brusco: moveu as costas para trás e para cima e depois para a frente, fazendo Giu saltitar e bater a cara com força na lateral da lâmina do machado. Enregealada, assustada e entorpecida como estava, desmaiou sem nem sentir o impacto no metal direto na cara.
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Era por volta das quatro da tarde, e a sala de reuniões estava cheia novamente, a mesa triangular com a ponta faltando onde se sentava Davien, com Nuck na parte oposta(a base do triângulo). À esquerda de Davien se encontravam Thugles, Nick e Donnie — no lado direito, Vampritico, Arroiz e Sheddeer.
Agora eles tinham também um tutor Thief, para o qual não havia lugar à mesa. Rockfield, no entanto, recusara a idéia de uma mesa nova com displicência, preferindo sentar-se num canto recostado à parede. Estando todos acomodados, Nuck não perdeu tempo com rodeios.
—Ocorreu um erro na seção Magician — disse, a voz séria como sempre ficava durante as reuniões — Pensávamos tratar-se de apenas um problema numa das equações e que nada grave ocorreria, mas uma garota, uma das novatas que entraram no fórum ainda hoje, sumiu e não conseguimos encontrá-la.
Ouviram-se suspiros: preocupados, de Thugles e Vampiritico, que haviam passeado pelo fórum com a tal novata — e de aborrecidos, de Davien. Este acreditara ter escapado à palestra de Nuck na seção Magician — bem, de certa forma, estava enganado.
—Não pode ser coincidência — Thugles foi logo dizendo — Kiara entra na seção Magician e isso acontece? Meu Deus, e se for uma tentativa de impedir que venham novatos para o fórum, causando medo...
—Ninguém disse que era coincidência — Arroiz falou.
—E nem que foi a Kiara — disse Nick — Na verdade foi a Giu.
—A menina com o martelo? — espantou-se Vampiritico — Por que justo ela?
—Quem se importa? — Davien falou bruscamente, erguendo o queixo ante os olhares que recebeu — Não estou dizendo que não me importo [i]com ela[/i], mas sim com o motivo. Por que vou querer saber o que fez ela desaparecer? Vocês deviam estar procurando ela agora, na seção Magician, e não discutindo isso aqui.
—Davien tem razão — disse Arroiz — Se Giu está desaparecida, cada segundo conta para a vida dela. Quem sabe onde ela pode estar agora? Eu mesmo ajudei a fazer alguns cálculos para a construção daquele plano dimensional, posso revistar aquele mundo atrás dela, conheço magias que detectam calor humano.
—Não será necessário — falou Nuck — Foi o que eu fiz, Arroiz, mas quando projetamos a seção, fizemos de modo que podemos saber quantas pessoas existem nela, e agora não há nenhuma. Giu não está na seção Magician, e nem morreu nela.
—E se ela saiu no portal errado? — sugeriu Thugles — Sabe, ela pode ter aparecido em outro lugar. Afinal, aquilo é uma outra dimensão, ela pode ser retornado aqui por outro lugar...
—Ela disse que ia separar livros na seção Fanfic — lembrou Vampiritico — Você não pode rastreá-la fazendo contato com a mente dela, como fez com o Thugles quando fomos para El Nath?
Ele olhava para Donnie que, mesmo estando parecendo uma carranca sombria, deu uma risada.
—Eu gostaria, mas não é assim que funciona. Consegui me comunicar com o Thugles naquela ocasião porque ele acessa muito a seção Fanfic, sem falar que ele de fato escreve muitas fanfics, portanto, o lugar está cheio da magia da imaginação dele. Mas não posso fazer o mesmo com qualquer pessoa que entre lá para ler, e mesmo com o Thugles, foi difícil.
—Mas você sabe de alguma coisa — Sheddeer deduziu, ele normalmente fazia isso, e os outros olharam para ele. Donnie, no entanto, assentiu.
—Antes da reunião, eu tive uma visão. Foi por isso que pedi ao Nuck para reunir os magos, na verdade...
Ele contou o que Fpkforhero lhe mostrara, sobre o primeiro herói e sobre alguém ir descobrir alguma coisa importante. Davien e os tutores ouviam a tudo atentamente, todos com expressões estranhas no rosto. Era a primeira vez que ele falava do garoto de olhou dourados. Inicialmente cogitara não falar — mas ele era o tutor Fanfic e estava cansado de livros onde a pessoa tem uma visão importante e nunca conta ao mentor. Bem, aquilo o enojava, e ele precisava confiar em seus amigos. Exceto por Arroiz, todos ali eram pessoas que ele conhecia havia muito tempo, e o tutor Warrior provara ser digno de confiança. Na verdade, foi ele quem pareceu prestar mais atenção ao que ele dizia... Por que Arroiz parecia tão interessado?
—Então a culpa não foi sua, mas do galo dos ovos de ouro — disse Vampiritico.
—Olhos. E eu nunca disse que foi minha culpa. Ele me disse o que precisava ser feito, e eu fiz. Sei que era o certo, e acreditem ou não, tenho certeza que Giu está viva.
Eles assentiram e automaticamente esperaram Sheddeer terminar de pensar. O rapaz assentiu brevemente e falou:
—Se precisava ser alguém que não tinha ido a El Nath naquele dia, então não poderia ter sido o Thug, o Arroiz, Vampy ou Nick, nem o Rockfield. Então porque não eu ou Nuck, ou mesmo o próprio Donnie? Depois que eles chegaram da viagem, ficamos sabendo do que aconteceu. Então realmente precisava ser alguém que não sabia de nada sobre nossa busca.
Arroiz o olhou.
—E por quê? Isso só pode significar que, como Donnie já nos disse, tem a ver com o que fomos procurar em El Nath.
—Exatamente — concordou Sheddeer — E só consigo pensar numa coisa: aquele tal de Kerkagar que apareceu no livro de Aphanyus. Se ele soube sobre aquela magia de gritos do Duh e escreveu um livro sobre isso, talvez possamos encontrar um descendente dele, ou de alguém que o conheceu, ou onde ele vivia.
—Ou até o próprio Kerkagar — ajuntou Arroiz — Quem sabe ele ainda não está vivo depois de todo esse tempo? Mas isso não explica por que precisava ser alguém que não sabia da busca.
—Acho que consigo pensar em um motivo — começou o arqueiro — Primeiro, não sabemos nada sobre a cultura daquele povo que usava a magia do Duh, nem sobre Kerkagar. Se um de nós o encontrasse, quem sabe como reagiriam se pedíssemos informações? Talvez Giu tenha sido enviada como diplomata. Ela é jovem, corajosa e tem a expressão de alguém que sabe lidar com as coisas.
—Uma expressão meio "Sheddeer" — brincou Thugles.
—E ela também é bem bonitinha — comentou Vampiritico — Pode ajudar a persuadir alguém a nos dar informações.
—Seja como for — continuou Sheddeer — Precisava ser alguém que não tivesse vontade em saber sobre a tal magia, como nós. Portanto, Giu deverá adquirir conhecimento de forma natural, talvez encontre Kerkagar e ele lhe diga, sem que Giu saiba que isso é exatamente o que queremos saber.
—Isso significa que ela está em El Nath — observou Nick, preocupado — É possível que ela tenha sido transportada para um lugar tão longe assim?
—Dimensões diferentes não são ligadas ao espaço e ao tempo da mesma forma que nosso mundo, Nick — disse o administrador — A distância de El Nath à floresta Minar pode significar menos que um pequeno passo, se viajar por outra dimensão. E tudo isso se deveu a um erro de cálculo: quem sabe o quanto isso pode ter mexido para que ela fosse levada a um lugar distante?
—Lembrando que tudo isso possa ter sido manipulado pelo cara dos olhos dourados — disse Thugles, e os outros concordaram.
—Isso nos leva ao que eu disse — tornou Davien — Se Giu está em El Nath, precisamos mandar alguém atrás dela o mais rápido possível. As geleiras não são lugar pra uma garota bonitinha sobreviver fácil.
Isso despertou um sentimento de urgência em Nuck e nos tutores — todos sabiam que El Nath, sem contar as criaturas perigosas que viviam por lá, era muito perigosa principalmente devido ao clima. Eles lembravam-se de Giu estar vestida apenas com um kimono marrom de dobras azuis — ir lá vestida assim seria quase uma ofensa para o vento gelado e traiçoeiro das geleiras.
—Um momento. Antes de partirmos, deixe-me observar alguns detalhes.
Nuck levantou-se de sua confortável cadeira vermelha — alguns dos outros tutores fizeram o oposto, pois já se levantavam. Rockfield estava de pé e caminhava ao redor deles, pensativo.
—Primeiro, mesmo dada a urgência da situação, alguns minutos a mais não farão diferença. Uma viagem a El Nath é demorada, e além disso, as geleiras são muito grandes; levaria dias para encontrarmos sequer o rastro dela no meio de toda aquela neve. Portanto...
—Isso é um absurdo! — explodiu Davien — É exatamente por isso que cada segundo conta para a vida dela!
—Deixe ele terminar, Dave — censurou-o Donnie. Rockfield parou ao lado do guerreiro, e continuou:
—Eu concordo com você, Davien, mas temos que considerar várias coisas primeiro. Por exemplo: por que Giu? O que ela tem de tão especial? É muita coincidência esse Fpkforhero ter aparecido pro Donnie justamente depois que ela chegou, como se estivesse esperando ela vir aqui pra poder mandá-la pra El Nath.
—Implica que não poderia ter sido qualquer pessoa, mas obrigatoriamente a Giu — começou Sheddeer. Rockfield assentiu.
—Ou talvez não, talvez ela simplesmente se encaixasse no perfil. De qualquer forma, ela foi mandada, e por quê? Acho que precisamos saber mais sobre ela antes.
—Já fiz isso — interpelou Donnie — Falei com a Kiara antes da reunião. Ela me contou que Giu é filha de uma curandeira e um feiticeiro de Ellinia, e ambos viajam muito. Estão em uma pesquisa em Mu Lung, por isso ela mora praticamente sozinha em Ellinia.
Rockfield assentiu, e ninguém ressaltou como era estranho o fato de uma garota nova como ela ser deixada sozinha em Ellinia — não era necessário. Pois em Ellinia havia Grendel, o Muito Velho, o mago mais conhecido e respeitado de todos os tempos. Que casal de magos não confiaria a vida de sua criança a ele? Era verdade que a cidade fora atacada por um demônio enquanto ele meditava — mas as crianças estavam seguras com ele, na biblioteca mágica onde nada poderia atingí-la. Isso também fazia sentido com o fato de Giu ter seguido a amiga: sem pais sempre presentes para impor-lhe limites, ela poderia fazer algumas coisas como seguir pessoas em navios piratas desconhecidos.
—Resumindo, Giu estuda e brinca bastante, treina pra ser Clériga e tem aquele martelo dela — continuou Donnie — Em suma, não me parece o tipo de garota especial para receber uma missão importante. Mas também, as pessoas que as recebem nunca parecem.
—E tem mais — acrescentou Rockfield — Por que Giu está indo encontrar esse Kerkagar, se é que é isso mesmo, para aprender sobre a magia de Duh? O que ele tem de especial?
—Você quer dizer além de ter matado o Horntail e derrotado milhares de Tauromacis que vieram invadir o fórum? — Davien perguntou com sarcasmo. Rockfield fez um gesto de cabeça.
—Me leva a pensar... Se até mesmo Duh, como o Davien disse, poderoso e autor de tantos feitos, é necessário para esta busca... Significa que algo realmente ruim está para acontecer a ponto de precisarmos das pessoas mais fortes.
—Uma coisa pior que os Black Wings — ajuntou Vampiritico, e houve um momento de hesitação enquanto eles refletiam o que Rockfield levantara. Haveria mesmo um mal tão poderoso a ponto de ser ainda mais ameaçador que a invasão que haviam sofrido? E estaria mesmo isso perto de acontecer?
Nuck sacudiu a cabeça, estalando a língua e suspirando.
—Quando fundei o MinarForest, imaginei que criaria um fórum para diversão, aprendizado e conhecimento sobre o mundo — ele disse com amargura — Não sabia que teria problemas com deuses e heróis perdidos surgidos de lendas, atormentando-nos o tempo todo. Eu me pergunto se algum dia vou poder me levantar da cama e sentar-me numa cadeira confortável, preocupando-me apenas com a quantidade de papelada que tenho que assinar.
—Estamos todos trabalhando pra que isso possa acontecer — Donnie disse calmamente, e Nuck o olhou.
—Sim, e isso nos leva a mais uma coisa: estamos reabrindo o MinarForest.
A revelação fora tão repentina que alguns chegaram a recuar.
—Abrir o fórum, Nuck? — até Davien parecia hesitante — Você tem certeza?
—Sim, eu tenho — disse ele sem rodeios — Vocês não se perguntaram se é isso que os Black Wings querem? Ameaçar-nos, manter nossos tutores sempre em guarda e temendo um ataque? Não podemos deixar isso acontecer — acrescentou com firmeza — A partir de amanhã, as aulas retornarão e o fórum estará novamente em funcionamento.
Seu tom dizia que a reunião estava encerrada, embora parecesse haver muito o que discutir. Ele voltou o rosto para Thugles e disse:
—Prepare o navio, Duh e Sheddeer irão com você. Mande alguém ministrar a seção Archer enquanto isso — ele disse ao arqueiro, que concordou com um gesto de cabeça — Partam hoje mesmo para El Nath. Donnie...
—Não posso fazer nada para descobrir onde ela está — disse o de olhos violeta, adivinhando o que seu líder tinha em mente — Mas se eu for com eles, terei chances de ajudar a encontrar seu paradeiro. Aphanyus conhece a região, se ele for comigo, poderá ser útil.
Nuck, porém, negou veementemente.
—Não posso arriscar liberar dois de meus melhor magos — esclareceu ele — Lembrem-se de que ainda não podemos garantir que estamos seguros.
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