[spoiler=Capítulo 36 — A Seção Magician]

Viajar no navio de Thugles era uma experiência agradável e divertida, segundo Kiara logo descobriu. Os membros daquela tripulação, além das armas e da esperteza, eram munidos de um arsenal quase ilimitado de canções, piadas e brincadeiras, das quais até mesmo Davien se deixava envolver. A viagem levava algumas horas, descontraída por shows engraçados ao som do violão e da flauta. Era quase possível esquecer a confusão que acontecera em Ellinia — quase.

Sheddeer, Davien e Vampiritico ainda se ressentiam, embora nada dissessem. Afinal, aqueles campistas vindos de Perion eram pessoas comuns, dominadas por um dêmonio e forçadas a atacar contra sua vontade. E os três haviam matado várias dessas pessoas, muitas delas, apenas crianças. Longe dali, famílias desconsoladas estariam chorando agora, por causa de algo que eles fizeram. Bem, Vampiritico era um espião Black Wing, mas ainda era um garoto. Sheddeer, por mais silencioso e indiferente que pudesse parecer, não era uma capa vazia de sentimentos. Nem mesmo Davien, que costumava ser rude e grosseiro. Os três eram eram, apesar da pouca idade, pessoas treinadas e com capacidade de matar sem hesitar, mas isso não fazia deles bestas cruéis desprovidas de compaixão.

Thugles consolava-os dizendo que, afinal, se não tivessem matado aquelas pessoas, Ellinia inteira estaria em chamas.

—Perion teria dobrado de tamanho se vocês não tivesse feito nada — o rapaz disse — E quem sabe o que Ancabe faria depois disso. Tomaria aquele pedaço de Zakum, atacaria outras cidades e mataria mais pessoas. E quando tivesse poder suficiente e os campistas perdessem a utilidade, os mataria. É melhor terem matado alguns dez do que vários milhões.

Faltavam poucas horas para o fim da tarde quando os mastros do navio de Thugles puderam ser vistos do MinarForest. A embarcação se aproximava rapidamente, deslizando pela água em direção à praia. Geralmente a manobra para estacionar era a parte mais difícil — envolvia vários minutos de concentração e manejo do leme, e acidentes não eram tão incomuns. Costumava haver uma pessoa escolhida exatamente para essa função, mas naquele navio, isso não acontecia: Thugles simplesmente avançava com ele até metade do casco encalhar na praia.

(A areia da praia do MinarForest era mágica e não prejudicava a madeira dos navios)

Isso resultava numa freada brusca e, embora os tutores e marujos já estivessem acostumados, Davien perdera o equilíbrio e caíra de cara na areia. O mesmo aconteceu com Kiara, que foi arremessada do navio num "NYA!" indignado — e com uma garota de kimono marrom, que saíra voando de um alcapão ao lado do leme, onde ficava a âncora. Ela batera na beirada da embarcação e caíra dentro dela.

—Giu — Thugles se aproximou dela, ajudando-a a se levantar, meio zonza — Seja bem-vinda ao MinarForest! Isso é o que você ganha por se esconder no meu navio.

—Você estava no porão de vante — reconheceu Sheddeer, o olhar sombrio — Que fica bem perto do leme.

Antes que os outros pudessem perceber o que ele tinha dito, Giu falou:

—Sim, e escutei tudo o que vocês disseram quando saímos. É meio lógico, sabe, vocês deveriam ter verificado o alcapão propenso a esconderijos antes de começar a discutir segredos. Agora eu sei.

Ela olhou para Davien, que voltara ao convés e levantava a polearm casualmente. O rapaz simplesmente a ignorou e desceu do barco, seguido pelos outros tutores. Giu pôs as mãos na cabeça, e um brilho dourado se fez surgir delas — um feitiço de cura.

—Olha só o que eu achei — gritou Vampiritico, puxando um pesado martelo do buraco quadrado onde a garota estivera escondida — Ufa... É bem pesado. Isso é seu?

—Se estava comigo e não é de nenhum de vocês, claro que é meu — a garota respondeu, aproximando-se enquanto Vampiritico analisava o instumento. A arma era toda dourada, um cabo com um cubo meio retangular grande o suficiente para esmagar três cabeças de uma vez. Giu simplesmente a pegou e e apoiou o cabo sobre o ombro com a mesma facilidade com que Davien levava a polearm.

Ele e os tutores desceram do navio, onde Kiara já se levantara e olhava ao redor, ansiosa, correndo para abraçar e ralhar com a amiga. Mais alguém os esperava na praia: um pequeno garoto de roupas azuis e cabelo marrom liso, agitando os braços com animação.

—Finalmente vocês chegaram, estou esperando aqui há horas! Vocês nem imaginam a novidade!

—Dizemos o mesmo — Sheddeer respondeu, mas não queria estragar a animação do pequeno rapaz, então acrescentou: — Diga-nos a sua primeiro. Nosso relatório sobre Ellinia é mais...

—Coisa de reunião com o Nuck — Davien disse grosseiramente — E aí, Nick, que novidade é essa? Arroiz resolveu pedir demissão do cargo?

Nick não parecia se conter de animação.

—Não, melhor! Eu vou... É surpresa. Venham comigo e eu mostro!

Ele correu, e os amigos não tiveram escolha senão acompanhá-lo. Thugles e Vampiritico olharam para Sheddeer, que apenas assentiu. Haveria tempo para as notícias de Ellinia depois. Além disso, eles tinham duas visitantes novas ao fórum, uma delas tão animada e ansiosa quando Nick — a outra, tanto quanto Sheddeer.

—Nem acredito que você veio, sua idiota! — Kiara dissera abraçando a amiga — Não conseguiu nem me esperar, né? Sua boba! Assim eu não fico sozinha aqui!

—É, bem legal.

Nick, no entanto, fizera questão que elas os acompanhassem, quando soube que vinham de Ellinia. O motivo ficou claro quando chegaram no lugar da "surpresa".

—Tã-dãã! — Nick se voltou para eles, abrindo os braços tanto quanto seu sorriso — A seção Magician!

—Ooooooh... — fez Kiara.

O lugar era, definitivamente, aquele onde Nuck e os outros magos passaram dias projetando a seção Magician. Mas não havia nada ali, apenas um enorme espaço vazio como um campo de futebol e, mais ao longe, uma praça com árvores — sendo uma dessas separada das demais, de onde alguém observava a tudo com um telescópio.

—Fascinante — Davien assentiu por alguns minutos — Posso tomar meu banho agora?

—[i]Isso[/i] é a seção Magician? — disse Giu — Me parece impressionante. Ela está invisível, não é?

Nick a olhou travessamente.

—Quase... Mais ou menos. Observem... Não saiam daí!

Ele deu as costas aos outros e puxou a varinha, fazendo com ela uma série de movimentos complicados no ar, enquanto a outra mão brilhava com a palma voltada para cima. Kiara inclinou-se para Giu, interessada.

—Olha os gestos da varinha dele. Me parece uma curva de Bézier, e com aquela outra mão dele erguida assim, só pode ser usada pra magia negra super destrutiva ou... AAAH!

Ouviram-se gemidos de surpresa quando um grande círculo surgiu na grama, meio inclinado para dentro nas bordas. Aquilo brilhava em vermelho e azul como algo digital, rodopiando. Do centro surgiram dois outros círculos que pareciam anéis colocados um dentro do outro, rodopiando entre si, flutuando no ar com uma esfera de energia brilhando no meio deles. Tudo isso emitia uma aura que parecia ter várias cores e o mesmo tempo cor nenhuma. Da esfera de energia era possível ver as mais variadas cores, que sobressaíam-se entre si num espetáculo como se ali estivessem cem auroras boreais.

—...ou para abrir portais — completou Giu, aparentando estar menos impressionada do que realmente estava.

—[i]Esta[/i] é a seção Magician — Nick falou sorrindo — Vamos, entrem!

Sem esperar resposta, precipitou-se para o círculo e desapareceu na esfera de energia. Vampiritico disse "primeiro as damas" e Kiara entrou. Giu, no entanto, recuou.

—Ah não, obrigada, mas acho que prefiro esperar...

Então Davien a agarrou pelo kimono e a jogou sem cerimônia no portal. Thugles pegou o martelo que ela derrubara e o levou para dentro.

Todos entraram, e constataram que Giu estava ocupada demais admirando o que via para ressentir-se com Davien, e ninguém podia culpá-la.

Estavam num lugar surreal demais para ser verdade. O chão tinha as cores do portal: vermelho escuro meio cor de cereja, mas era possível ver através dele, e lá embaixo estendia-se um vazio negro incrível. Estavam numa pequena plataforma flutuante: por toda a volta, mas "chãos" se estendiam, e a sensação era a de estar no espaço cheio de outras plataformas.

Havia muito para se ver ali. Longe e acima deles, estava a réplica exata de um enorme vulcão ativo contrastando com o espaço negro, onde se podia ver pontinhos minúsculos que eram os aprendizes treinando. Noutra parte, havia um enorme deserto de areia, que se elevava e adquiria forma à medida que mais bruxos a manipulavam. Outra parte era uma plataforma flutuante como a que eles estavam, porém maior e onde dois homens se envolviam num duelo, um parecendo especialista em raios e o outro em magia arcana.

—Nossa — exclamou Giu.

—Muito boa, não é? — disse uma voz, e Nuck veio flutuando até chegar ao chão, sorrindo quase tanto quanto Nuck — Isto, meus caros, é a seção Magician.

—Onde nós estamos, exatamente? — Kiara quis saber, excitada.

—Em lugar nenhum — respondeu Nick — É aí que está a beleza! Estamos em outra dimensão, um plano diferente do nosso. Aquele portal no fórum nos liga a este mundo, que é praticamente infinito! Podemos realizar todo tipo de magia aqui sem nos ferir!

Para provar o que dizia, ele fez uma estaca de gelo e perfurou a perna de Davien. O rapaz urrou como um animal ferido, mas o gelo não o fez sangrar ou causou danos maiores. Nuck ergueu a mão displicentemente, fazendo gelo e dor sumirem. Kiara parecia mais e mais admirada.

—Obrigada Nick, mas eu preferia ter me vingado dele eu mesma — Giu disse, adquirindo o martelo das mãos de Thugles e apoiando-o no ombro novamente — Isso é muito legal, sério, achei genial. Será que eu posso treinar aqui também? Se puderem me indicar a seção de magia curativa...

—Não há seção de magia curativa — Nuck ergueu uma sobrancelha para ela — Não temos muitos adeptos a esse tipo de magia por aqui, então eu ensino, e é sempre bom aumentarmos os números... Mas vocês terão de me desculpar pela pressa. Estou muito ocupado, vocês duas podem se registrar com o Donnie. No mais, desejo-lhes as boas-vindas ao MinarForest!

Pela primeira vez, Giu pareceu completamente interessada.

—Donnie Nirvana? Ele está aqui?

—Ele [i]é[/i] daqui — riu Thugles enquanto Nuck voava em direção ao vulcão — Embora passe mais tempo viajando. Se bem que esses dias ele anda ocupado lá na seção Fanfic.

—Vocês têm uma seção Fanfic? — os olhos da menina brilharam — Tipo, onde as pessoas escrevem histórias, e qualquer um pode colocar?

—Claro, sua boba — Kiara respondeu — Eu disse que você ia gostar do MinarForest! E você nem queria vir...

—Mas eu vim, não vim? Não teria seguido você até aqui naquele navio se não quisesse. Na verdade eu [i]nem queria[/i] mesmo, só vim porque seria muito chato lá sem você.

Antes de deixarem a seção Magician, houve tempo pra mais um abraço de Kiara em Giu(e um soco bem dolorido dela em Davien). Sheddeer resolvera ficar para conversar com Nuck e Nick, e o guerreiro da polearm se dirigira para a seção Warrior. Sobraram Thugles e Vampiritico para levar as novatas à seção Fanfic.

Logo chegaram na seção, um conjuntinho agradável de casinhas azuis, a maior delas sendo a biblioteca principal. Como esperavam, Donnie estava lá, lendo um livro atrás de um balcão de recepção. Ele ergueu os olhos violeta para os quatro.

—Oi — disse.

—Donnie — Giu o encarava com uma expressão admirada no rosto — Você não deve se lembrar de mim, eu fui na sua palestra sobre aplicações da magia dos clérigos em Ellinia. Achei simplesmente fantástica, eu até fiquei no final e te fiz algumas perguntas.

—Ah... — ele a olhou tristemente — Mais ou menos... Você não me é estranha, mas desculpe, fui muitas vezes em Ellinia e é difícil me lembrar de todos... Mas de você eu lembro — ele olhou para Kiara — Filha da Eliesta, sem dúvida. Você é igualzinha à sua mãe.

—Nhá, obrigada!

—Elas vieram se registrar — explicou Thugles — E aqui está o livro que você pediu.

Ele estendeu o volume encapado que dizia "Os Quatro Heróis", que Donnie pegou com voracidade e o colocou sobre a mesa. Enquanto ocupava-se com os registros, Kiara se voltou para os outros dois.

—Agora me lembrei... O fórum não estava fechado? Não vejo ninguém aqui, mas tinha gente lá na seção Magician, então...

—É uma longa história — Donnie disse ainda escrevendo no papel — A versão resumida é que sim, o fórum está fechado, mas algumas seções ainda mantém suas aulas.

—Nuck também deixa a gente trazer membros novos — acrescentou Vampiritico — Qualquer um não pode entrar aqui agora, mas ele deixa você se registrar se for recomendada por um tutor.

—A gente não disse que queria se registrar — Giu ergueu uma sobrancelha — Mas não vou ser indelicada. Giulia Twodothree — ela disse para Donnie, quando este olhou inquisidoramente para ela — E Kiara Eliesta.

Donnie terminou deanotar e fechou o caderno.

—Registros prontos — disse — Thugles e Vampy vão mostrar o lugar a vocês, e dar as orientações. Se me dão licença, tenho um livro pra ler.

—Na verdade eu gostaria de ficar aqui — Giu disse — Quero dar uma olhada nessa seção Fanfic.

(Está escrito "deanotar" lá em cima. Por que você simplesmente passou direto, sem me avisar? Não pedi para que o fizesse? Não disse que, se encontrasse algum erro, deveria comunicar a mim para que eu o corrigisse? Até pedi por favor! Mas se o erro envolvesse um equipamento faltante na sua personagem, ou se eu tivesse feito-a dizer algo que ela jamais teria dito, você teria vindo correndo, aos gritos e caps locks, para me dizer!)

—Eu também — Kiara falou — Mas queria tanto conhecer o fórum...

—Vá conhecer o fórum e me encontre aqui depois — combinou a outra — Vou separar algumas fics legais pra gente ler. Se puder, claro — ela se virou para Donnie, que assentiu.

—Fique à vontade. Você agora é membro do MinarForest, e como Vampy já mencionou, têm acesso às seções mesmo agora enquanto ele está fechado. Se tiver alguma dúvida, me chame ali na sala ao lado — ele apontou para uma porta de madeira — Quando quiser devolver algum livro, coloque na estante de Diversos que ele volta pro lugar.

—Sério? Então se eu pegar esses cinco aqui...

Resolveram deixá-la com Donnie e os livros, e foram passeando pelo fórum.

—Então — Vampiritico virou-se para Kiara — Estamos no MinarForest. O que você quer ver aqui?

—Tudo — a garota respondeu radiante — Quero conhecer tudo!

E assim se deu o tour pelo MinarForest. Foram três horas de caminhada(não havia muito o que se fazer num fórum fechado), por onde eles passaram por quase todas as partes do fórum. Kiara parava, interrompia e fazia perguntas, dotada de uma animação que parecia não ter fim. Os dois rapazes faziam o possível para ajudar como podiam.

Saíram da seção Fanfic no oeste e desceram ao sul dela, chegando à seção Fanart. Viram os parques e praças que ocupavam praticamente todo o oeste, em seguida chegaram nas seções centrais: o Prédio Principal, onde a garota teve que se contentar em não ir, a seção Archer que era uma torre de madeira mais grossa que as outras(havia várias torres de vigília da seção Archer). Seguindo a leste, mas ainda perto do centro, viram o espaço de grama onde se abria o portal para a seção Magician. Ele até levaram-na para a borda da floresta ao sul, onde havia uma colina com uma construção que parecia um templo oriental de madeira cinzenta e negra, com telhados curvados — onde Rockfield ensinaria os alunos da seção Thief, quando o fórum reabrir.

Passaram pela seção hospitalar para que ela conhecesse o famoso Duh, que acabara de retornar de uma caçada na floresta. Visitaram a velha seção de portais, agora inativa. Entraram no Mercado Livre, o que era uma primeira vez para a menina já que o lugar passou, recentemente, a ser usado apenas por grandes revendedores(mas o MinarForest tinha portal do Mercado Livre um para si). Chegaram à seção Warrior, no leste, e visitaram até mesmo a parte onde a grama começava a rarear para se transformar na planície dura e arenosa que era a fronteira com o deserto Nihal.

—Nossa — ela disse enquanto caminhavam de volta para o fórum — Eu sabia que o MinarForest era grande, mas não sabia que era [i]tão[/i] grande!

—E há muito mais ao sul — Vampiritico comentou sorrindo — Lá pro meio da floresta, tem Kentauros, tartarugas, dragões...

—Sim, eu sei disso! — a menina o interrompeu excitada — Mas são lugares muito perigosos, não? Soube que era proibido...

—Proibido? — riu Vampiritico — Estamos no MinarForest, eu e Thugles somos tutores, membros influentes e destacáveis daqui! Nós podemos praticamente fazer tudo o que quisermos, essa região inteira é como se fosse nossa!

—Claro que há algumas limitações — observou Thugles — Não somos livres para ir e vir da florestas onde quisermos. Por exemplo, tem um lugar onde você não pode entrar porque tem uns répteis magignos que devoram você, noutra parte, dragões que comem crianças e derrubam castelos de cartas à noite, frustrando o trabalho de mágicos. Mas a floresta é legal, se você souber por onde ir.

—Podemos ir lá? — ela perguntou timidamente, como se esperasse a vida toda por isso mas tivesse medo que dissessem "não". Vampiritico deu-lhe um tapa no ombro, e riu.

—Claro, não acabei de dizer que somos tutores e conhecemos o local? Nós...

—Por que você fez isso? — ela perguntou rispidamente, assustando-o — Por que me bateu?

—Ei, calma! Foi um tapa amigável, assim, quando...

—Ei, vocês — disse uma voz, para alívio do garoto de preto.

—Oi — ele cumprimentou a mulher parada perto deles; era Zira, da seção Archer. Usava um gorro azul cobrindo as orelhas e tinha a pele pálida quase como uma vela. Os olhos eram pequenos e ela levava uma balestra nas costas.

—Nuck estará fazendo uma reunião na seção Magician — Zira informou — E pediu a presença de todos os magos.

—Puxa — Vampiritico comentou com tristeza fingida — Que pena, né, eu não sou mago. ("Yes!", ele deu um soco no ar) — E nem o Thugles... Que pena, vamos perder a palestra do Nuck! Acho que você quis dizer que estava procurando a Kiara.

—Eu estou procurando os magos — Zira repetiu solenemente — O recado foi dado. Apressem-se, pois Nuck falará em breve.

—O que é essa reunião de magos? — Kiara perguntou, mas nenhum dos dois sabia responder — Vocês não vão vir comigo? Não conheço ninguém na seção Magician, ficaria meio perdida lá...

—Claro que vamos — garantiu Thugles, e Vampiritico o acotovelou.

—"Vamos" não. Pra começar, nem somos magos, e você não vai ficar perdida, vi a Giu fazendo um feitiço de cura lá no navio, então ela deve ser chamada também. Ah, não me olha assim cara, nós não somos magos!

—Mas somos tutores — disse-lhe Thugles — Membros influentes e destacáveis do MinarForest. Devemos demonstrar algum exemplo comparecendo ás reuniões do nosso líder. Você não acha?

Em parte, Thugles sentia-se um pouco desanimado com aquilo. Houve um tempo, antes de Vampiritico virar tutor, em que ele se mostraria mais do que ansioso para comparecer às reuniões do Nuck. Mas parecia que isso só valia para quando era na Sala de Reuniões. Uma palestra — se é que seria uma — na seção Magician dificilmente agradaria o garoto. Vampiritico sacudiu a cabeça, suspirando.

—Você tem razão — disse — Sobre isso de exemplo. Olha só, Kiara, vou dar a você um exemplo de magia, bem digna de um supermago. Está vendo este chapéu aqui?

—Minha nossa, parece um chapéu Black Wing! — ela comentou estarrecida, para a peça que Vampiritico tirara do casaco.

—Pois é. Olha só, eu coloco ele na cabeça e...

Puf. Vampiritico desapareceu, deixando Thugles e Kiara sozinhos. O pirata suspirou, mas sem deixar de rir.

—Esse Vampy — falou, sacudindo a cabeça — Não se preocupe, ele é assim mesmo. Agora acho que é minha vez de te dar um bom exemplo.

—E o que é? — Kiara quis saber, curiosa.

—Correr para a seção Magician. Nuck, que também é mago, ficaria furioso se nos demorássemos.

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[titulo=][align=center][b]Os Quatro Heróis[/b][/align][/titulo]

[i][b]Prólogo[/b]

Este livro narra, de forma vaga e simplificada, as jornadas dos quatro grandes heróis da Deusa Minerva. Não pretendo contar em detalhes, mesmo porque a maioria destes são imprecisos ou estão perdidos nos domínios de Rhinne. Ao final de cada história, será adicionada a opinião do autor sobre seus feitos e que o papel interpretado na salvação do mundo que conhecemos e de que maneira eles se relacionam entre si.

[b]O Primeiro, Campeão da Eternidade[/b]

Nos tempos mais remotos, quando Maple existia apenas nos sonhos e o mundo era apenas uma gigantesca massa de terra no meio do oceano, havia um rei que governava a tudo com mãos de ferro e coração justo. Ele era muito amado por sua população e garantia a paz em todas as tribos, embora houvessem aqueles que se rebelassem e o contradissessem, querendo tomar o poder para si.

Um dia, um famoso mago cujo nome se perdeu através dos milênios, pedira uma audiência com o rei, que a aceitou sem hesitação. Tal mago já era muito conhecido em todas as tribos, tendo passado algum tempo em cada uma delas. Sendo uma figura de notável fama em todo o mundo, não foi sem alegração que o grande rei aceitou que fosse concedida sua entrada.

A conversa era animada, os jantares magníficos e a felicidade era geral. No sétimo dia da visita, o mago faria um anúncio terrível: exigia a coroa do rei, e caso seu desejo não fosse atendido, invadiria o castelo com suas legiões de monstros.

Tal ousadia desagradou tanto ao rei quanto aos seus guardas, e como que obedecendo às palavras do mago, uma legião inteira de criaturas animalescas forçou passagem pelas portas do castelo. O mago, cheio de si, assassinara cada um dos guardas pessoais do rei, e bloqueara as portas para a sala do trono. À sós com vossa majestade, não perdeu tempo: moveu seu cajado três vezes, amaldiçoando-o e prendendo-o na dimensão dos demônios.

Fora do castelo, as tropas invadiam e atacavam, e os guardas, embora em maior número, male ram capazes de contê-las. No entanto, uma figura saía da sala do trono, cajado na mão: e todas as bocas se abriram ao ver o amado rei, saudável e de pé, enquanto conjurava uma magia que expulsou todos os monstros para fora do castelo. A multidão, perplexa com aquilo, não tardou a dar vivas e a cobrir de júblios seu glorioso rei, que os salvara do perigo mais uma vez.

O rei sorria, embora seus olhos brilhassem de triunfo e fúria malignas. O rei, que não era ninguém menos que o irascível mago, transformado e disfarçado pela magia. Associara-se que o rei matara o mago invasor com as próprias mãos, e durante anos se falou na grandeza, no poder e na honra daquele rei, que na verdade era o próprio impostor que os atacara. Durante anos, o honrado rei ficara preso na dimensão oculta, à espera de ums alvador que o livraria de seu tormento.

Se as pessoas podiam ser enganadas pelo mago, contudo, os deuses, poderosos e misteriosos, não podiam. Os Transcedentais, como eram chamados, desviaram os olhos alegando na ignorância e na perversidade dos homens. Mas uma delas, de nome Minerva da Torres, a Grandiosa, Senhora dos Corações, apiedou-se e fez surgir um poderoso cajado no que foi o primeiro dos grandes artefatos do mundo Maple: chamado de Maple da Eterna Sabedoria. Sendo uma Transcendente Menor, Minerva poderia apenas levar o cajado para o único ponto de ligação com o mundo dos mortais daquela época: o topo de uma enorme montanha coberta pela neve e assolada pelo vento e pelo frio, proibida pelos séculos.

Não obstante a isso, Minerva fizera um acordo com Rhinne, senhora do Tempo, dos Sonhos e dos Mistérios. Gentil e serena, concedeu a ela a ligação com um mortal, mas apenas através de seu mundo: o mundo dos sonhos. A deusa então apareceu numa noite para um homem, em sonho, prisioneiro das masmorras do castelo do rei. Este prisioneiro, condenado a perecer para sempre entre as paredes de pedra, viu-se libertado de seu tormento, e logo se deu conta de que o sonho havia um propósito. Guiado pela deusa e pela sua fé, coragem e grande força de virtude, empunhou seu cajado de madeira e lutou contra qualquer monstro que o desafiasse, para atingir seu objetivo. Chegou, por fim, na montanha, e libertou o rei de sua prisão espiritual. Juntos, convenceram as outras tribos da farsa a que haviam se submetido, formaram um exército e por fim atacaram o grande castelo, onde o mago, agora falso rei, caíra morto ao fim de uma grande batalha entre ele e o homem que, daquele dia em diante, seria chamado de Campeão da Eternidade.[/i]"

Donnie fechou o livro, sentindo uma estranha dor de cabeça. Abaixo havia notas sobre a personalidade e adendos sobre o Campeão, mas ele não se sentia à vontade para ler. O que estava acontecendo com ele? Estava descansado quando iniciara a leitura, mas agora sentia-se tonto e desorientado.

—Ainda não é o momento de você saber das coisas — uma voz falou.

Donnie ergueu a cabeça e viu o garoto de olhos dourados, Fpkforhero, segurando seu cajado de roda espinhosa numa mão. Seu olhar era sério, mas Donnie sacudiu a cabeça.

—Eu preciso. De alguma forma eu estou ligado a Minerva, que certamente está ligada a estes quatro heróis. Eu preciso saber quem eram, se consigo encontrar alguma pista. Este cajado da Sabedoria Eterna, por exemplo. Se eu puder encontrá-lo...

—Você já o encontrou — o garoto lhe disse — Assim como o artefato do segundo herói recuperado pelo seu amigo, que tinha de ser perdido. Não cabe a você possuir nenhum destes.

—O que você está dizendo? — Donnie sentia como se uma mão gelada o apertasse — Amigo? Você quer dizer o...

Então várias coisas passaram pela sua mente naquele momento. Ele se lembrou da visão que aquele mesmo garoto lhe mostrara, quando Gui falara com Minerva sobre um prisioneiro que libertaria o rei. Depois a visão escurecera, e Minerva e Gui conversaram sobre um homem que despertara um gigante de metal usando alguma gema misteriosa. Lembrou então história de Rockfield, sobre um homem de preto ter roubado-lhe a pedra que poderia criar um exército para os Black Wings. Uma pedra que podia dar vida a um exército... E ela havia sido encontrada perto da Mina Verne, num ferro-velho que parecia ser os restos de...

—Um gigante — Donnie disse de repente — O segundo herói despertou o gigante, que caiu perto da mina Verne. O cajado da Sabedoria Eterna é o artefato do primeiro herói, e a gema verde é o do segundo.

—Cuidado — o garoto o advertiu — Saber demais pode ser perigoso, e agora não é o momento.

—Mas eu preciso! — Donnie repetiu batendo o pé — Você não entende? O que acha que vai acontecer se eu aceitar o que está me dizendo e parar de pesquisar? Algo está pra acontecer neste mundo, e eu não sei o que é, mas pretendo impedir que aconteça! E depois...

—Você se esquece de seu passado. Não estava você, apenas algumas semanas atrás, ansioso para saber que mistérios sua própria mente esconde de você? Não se pergunta que relação tem com Ariant, por que você sofre desse conflito entre magias opostas?

—É claro que me pergunto — Donnie respondeu sem hesitar, mais brandamente — Mas o meu passado pode esperar. Se o mundo está para sofrer uma calamidade e eu posso impedir, então é o que farei. Minhas curiosidades, que podem não passar de meras informações, são de segundo plano. Já cheguei a me perguntar se eu não era uma criança feliz como qualquer outra em Ariant, e se essa perda de memória não aconteceu simplesmente porque tropecei e bati a cabeça numa pedra enquanto passeava em Orbis, tendo, assim, perdido o caminho de casa.

—Você sabe, em seu coração, que não é isso — interpôs o garoto — Sabe que é muito mais do que um mero tropeção. Não, Donnie, o que aconteceu em seu passado é de extrema importância, mais do que você mesmo imagina. É quase tão importante quanto o que está pesquisando agora.

—Então por que não me conta agora? — Donnie vociferou — Por que esconde de mim assim, segredos do meu próprio passado, que nada têm a ver com você? Se você sabe de alguma coisa, conte-me agora e acabe com esse sofrimento inútil!

Fpkforhero olhou-o, sério, e ficou ereto.

—Está bem. Como desejar.

Ele levantou a mão... E Donnie gritou, pois agora sabia de tudo. Seu passado, sua família, seus pais, seus amigos... O incidente em Ariant... Era como se sua memória jamais tivesse sido perdida. Ele não percebeu que seus olhos estavam arregalados e que ele apertava sua cabeça com força, porque aquilo não poderia ser verdade. Não poderia...

Ouviu-se uma pequena explosão de luz fraca e Donnie caiu no chão, sentindo a cabeça nas nuvens. Ele levou alguns minutos para se levantar, e então olhou para o garoto que permanecia de pé, impassível.

—O que... O que você...

—Eu lhe mostrei tudo — disse o garoto — Mostrei-lhe seu passado, tudo o que você queria tanto saber. Não se esqueça de que tenho a bênção de Rhinne, Donnie, e posso facilmente regressar o tempo, se assim eu desejar. Voltamos alguns minutos no tempo: um tempo onde eu ainda não lhe contei o que precisava fazer.

—Está dizendo que você me mostrou meu passado e depois me fez esquecer dele de novo? — Donnie reagiu sem acreditar.

—Não exatamente... Porém o efeito é o mesmo. Fiz isso para mostrar-lhe, Donnie, de que você não pode receber seu passado dessa maneira, pelo menos, não de mim. Você deve encontrar por si só, e fui proibido de lhe contar. Se eu lhe contasse, como fiz, você ficaria fora de controle. Para falar a verdade — acrescentou — Você [i]ficou[/i] fora de controle e explodiu metade do MinarForest, matando alguns membros e quase a totalidade de seus tutores. Então voltamos um pouco no tempo, eu e você, para minutos atrás quando eu não havia lhe contado.

—Entendo — o rapaz respondeu com calma. Ele ainda se sentia fraco, e sua cabeça doía agudamente. Teria ele realmente sabido dos mistérios de sua própria vida, como aquele garoto o dizia? Acreditava que sim. Ele se ergueu e encarou o menino à sua frente, a expressão novamente séria:

—Isso só comprova o que eu lhe disse. Meu passado pode esperar. O mais importante agora é descobrir como esses Quatro Heróis podem me ajudar a descobrir como prever o que vai acontecer ao mundo.

—O que me lembra por que estou aqui — a garoto respondeu, conciliador — Você, Donnie, coloca a segurança do mundo e de seus amigos acima das suas próprias vontade. Sabe que teria poder para sobreviver em um mundo dominado, mas ainda assim zela pela segurança e embarca numa tarefa que parece impossível, reunir informações sobre algo que parece uma lenda. Não me surpreende que Minerva o tenha preferido.

—O que quer dizer?

—Futuramente — prometeu o menino — Agora eu devo lhe ajudar... Derradeiramente. Você precisa levar todos os bruxos, magos e aprendizes de magia, para o lugar onde treinam os bruxos de seu fórum.

—A seção Magician? Por quê?

—Apenas faça, e descobrirá — ele disse — Chegou a hora de descobrirem um pouco mais sobre outra história. Mas esta descoberta, segundo Minerva decidiu, deverá ser recebida por alguém que nada sabe desse assunto, alguém que ainda não ouviu a história contada pelo mago de El Nath.

—Aphanyus — disse Donnie — Então a pessoa que vai descobrir não pode ser Thugles, Nick ou algum dos outros que foram lá visitá-lo? E que outra história é essa?

—Você vai saber, se refletir um pouco — disse o rapaz — Quanto à pessoa que descobrirá, ela será revelada quando, das raízes, uma for menor do que nada. Agora, Donnie, eu devo deixá-lo. Desejo-lhe boa sorte em sua busca... E não se esqueça de descansar. Faz bem, não apenas para o corpo, dormir de vez em quando.

Ele levantou o cajado, maior do que ele, e desapareceu. Donnie se sentou, reorganizando os pensamentos. Que história seria aquela, que alguém iria descobrir e tinha a ver com a viagem para El Nath feita por Arroiz e os outros? Ele achava que a resposta era óbvia... Sacudiu a cabeça. Teria tempo para pensar nisso depois. Por ora, precisava cumprir o que lhe fora pedido — aquele garoto de olhos dourados tinha, isso era claro, alguma ligação com Minerva.

Se tinha que levar todos os magos, isso incluía adeptos de magia curativa que estavam lendo na seção Fanfic. Só que Giu [i]não estava[/i] lendo na seção Fanfic. Ele a procurou nas bibliotecas, sau da seção, mas não a encontrou. Voltou à seção principal, e notou alguns livros em cima da mesa, obviamente separados por ela. Não poderia ter ido muito longe. Será que...

Quando o pensamento lhe ocorreu, desejou ardentemente que estivesse enganado. Infelizmente, não estava. Atrás de uma porta havia um corredor escuro, uma das paredes aberta para uma profunda saliência onde havia um globo de vidro que iluminava parte do local. Dentro dele havia um garoto de jeans, camisa preta e cabelos marrons penteados para frente. Ele havia feito muitas coisas naquele globo de ilusão: estava numa planície florida, com um cavalete com um quadro não terminado de um conjunto de flores e até mesmo uma garota sentada atrás dele, dentro do globo. Donnie não prestou muita atenção, pois sabia que a única coisa real dentro daquela esfera era o garoto. Mas havia uma outra pessoa real ali, de frente para o globo, sentada num imenso martelo como se fosse um banco. Ela e o garoto conversavam animadamente.

—Giu — Donnie a chamou ríspido, e ela se virou para ele — Você não deveria estar aqui.

—Não vejo por que não — a garota lhe respondeu sem se intimidar — Se não queria que eu viesse aqui, deveria ter me avisado, ou trancado a porta, ou colocado um aviso de "Entrada Proibida" nela. Tá, a porta [i]estava[/i] trancada por magia divina, mas por favor, é a mesma magia que uso e eu pude abrí-la facilmente. E não vejo nenhum mal em falar com eles... Por que estão aqui?

—A garota não existe — Donnie explicou sem rodeios — É uma ilusão criada pelo Pizza, esse garoto que está aqui. Ele... — o rapaz pôs a mão no vidro e Pizza se paralisou no mesmo instante — Ele enlouqueceu, Giu, e o mantenho aqui para tentar curá-lo. Ele está muito melhor do que antes, mas acredite em mim, já tentei libertá-lo e ele não se adaptou.

Ele soltou a mão do globo e Pizza voltou ao normal, sorrindo, sem dar sinais de ter ouvido o que ele dissera.

—Oi, Donnie — cumprimentou alegremente — Fiz uma nova amiga, ela se chama Giu! Ela é muito legal e gosta das minhas pinturas.

—Infelizmente, ela precisa ir — Donnie falou, ignorando o olhar que a garota dirigiu a ele — Nuck a está chamando. Ela precisa ir trabalhar agora, e eu também.

Pizza olhou-os confuso, e Giu teve pena dele. Agora que sabia o motivo de ele estar ali, podia perceber como Pizza era um pouco lento, como se algo em sua mente se rebelasse contra alo. Mas então a magia do globo o dominava e ele sorria outra vez, embora parecesse mais triste agora.

—Tá... Mas você volta pra me visitar depois? Promete?

—Prometo — Giu lhe disse com firmeza, agora a vez dela de ignorar Donnie — E vou te mostrar algumas fanfics que escrevo. Você já me mostrou muita arte, agora é minha vez de te mostrar as minhas.

—Sim — Pizza respondeu radiante — Estarei esperando. Vou tentar completar esse quadro pra você ver quando voltar!

—Você vai completar antes dela voltar, não se preocupe — Donnie disse baixinho enquanto Giu sorria para o garoto. Assim que Donnie fechou a porta e a trancou novamente, ela se voltou para ele.

—Não precisa bancar o chefão estaga-prazeres. A solidão é uma coisa terrível, e você sabe muito bem disso. Já pensou que ter um amigo talvez o ajude a se curar da loucura?

—É perigoso — Donnie disse simplesmente — E Pizza não está sozinho. Tem aquela garota que você viu, mesmo que tenha sido criada por ele. Para ele, aquilo é o mundo perfeito, surreal e cheio de felicidade. Ele poderia viver ali para sempre sem jamais suspeitar que o que vê faz parte da mente dele. Contato com o mundo exterior pode prejudicá-lo, pode distorcer a forma como ele vê aquele mundo e ser altamente danoso para ele. Eu mesmo converso com ele às vezes, e garanto que ele viva da forma mais feliz possível.

—Eu não sei — insistiu ela — Ele me parecia muito solitário. Quando cheguei ali era como se ele não pudesse me ver, chamei mais ele não respondia. De repente ele me percebeu, e você precisava ter visto a cara de felicidade dele. Conversamos bastante e ele me mostrava quadros, parecia feliz como eu jamais vi alguém sendo.

Donnie não respondeu de imediato. O globo era protegido por magia que lacrava o mundo de Pizza ao mundo em que viviam. Seria impossível para alguém não versado em magias de ilusão conseguir contato com ele. Mas quando o garoto de olhos dourados lhe mostrara o passado e criara algum tipo de dobra no tempo para fazê-lo esquecer... Aquilo o enfraquecera, e certamente mexera com a magia no globo. O que explicava por que Giu não conseguira falar com Pizza, apenas depois de determinado momento.

—Deixe que eu cuido dele — garantiu, por fim — Agora precisamos ir à seção Magician.

—Por quê? — a garota quis saber, e Donnie parou.

—Nuck quer ver todos os que praticam magia. Deve ter a ver com a inauguração da seção Magician, que só vai acontecer quando o fórum reabrir. Talvez ele queira reabrir agora, e pediu que todos os bruxos fossem para lá.

—Eu não sou uma bruxa — Giu protestou, mas Donnie a olhou com firmeza:

—Não, você é uma clériga. Temos poucos aqui no MinarForest, mais um motivo especial para você ir. Não se preocupe — acrescentou — É apenas uma reunião rápida.

Giu não teve escolha se não seguí-lo, ante o olhar que ele mantinha. De qualquer forma, ela respeitava muito o rapaz desde a palestra de Ellinia, e não gostaria de contrariá-lo. Isso não a impediu, contudo, de parar no meio do caminho, de frente para ele, ao se lembrar de algo que ele comentara na palestra.

—Se você apagar a memória do Pizza sobre mim, eu te esmago. Não quero fazer isso, e tenho certeza de que você não me deixaria fazer isso. Mas por favor, não quero que ele se esqueça de mim. Gostei dele, sei que é perigoso, mas se você estiver comigo, não haverá problema, não é? Pelo menos deixe-me vê-lo, você pode ficar vigiando se quiser, mas não quero pensar que ele vai se esquecer das coisas que conversamos. Ele me pareceu tão legal...

—Tudo bem — Donnie disse. Era exatamente o que planejava fazer: apagar a memória de Pizza sobre Giu. A garota continuou parada, o martelo sobre o ombro.

—Prometa pra mim.

—Eu juro — Donnie disse de má vontade — E vou levar você pra visitá-lo de vez em quando. Só não conte a ninguém sobre ele.

—Certo.

—[i]Nem[/i] pra Eliesta.

—Ah... Certo, tá bom.

—Prometa pra mim — Donnie disse rindo, e Giu consentiu num suspiro.

Eles caminharam, passando antes por uma das torres de madeira da seção Archer. Donnie bateu na porta algumas vezes e alguém apareceu do topo, vestido com capa verde e capuz.

—Avise aos magos que haverá uma reunião na seção Magician — informou Donnie — Nuck quer todos lá, sem exceção, mesmo os que não são alunos da seção Magician.

O homem levou dois dedos à cabeça e fez um gesto para frente numa saudação, desaparecendo da vista deles na beirada da torre. Donnie continuou a caminhar.

—O que foi isso? — Giu perguntou curiosa.

—É a rede de torres da seção Archer. Ele vai espalhar a mensagem para todas as outras, e logo cada bruxo do MinarForest estará na seção Magician.

De fato, quando chegaram na seção, o portal estava aberto e eles entraram. Na plataforma de entrada estavam dezenas de pessoas, conversando confusas entre si. Arroiz, sendo adepto à magia, também estava ali. Donnie disse a Giu que esperasse, e logo ela encontrou Kiara e ambas desataram a conversar. O tutor Fanfic foi flutuando até outra plataforma e encontrou Nuck ocupado num vulcão.

—Você tem uma reunião agora — disse para o líder, e explicou rapidamente o que ele precisava fazer, omitindo-lhe os detalhes sobre o garoto de olhos dourados.

Nuck podia não entender, mas confiava em Donnie, de modo que obedeceu sem perguntar. Voou para onde os bruxos esperavam, flutuando em sua túnica branca de mangas vermelhas. Ele sorriu e abriu os braços, como que abarcando a multidão.

—Saudações, bruxos, bruxas do MinarForest! Hoje, como sabemos, é um dia de muito progresso, pois a seção tão esperada finalmente foi concluída! Vocês talvez estejam se perguntando como isso foi possível, onde exatamente é este lugar onde estamos e por que demoramos tanto para construí-la! Bem, meus caros, deixem-me explicar...

Donnie observou, satisfeito, enquanto ele explicava. Ocupou-se de procurar mais bruxos, sabendo que o importante não era ouvir ao que Nuck dizia, mas sim manter todos os bruxos ali. Estava parado num rio flutuante, pensando no que o garoto de olhos dourados queria dizer quando sentiu um tremor no rio.

Gritos se fizeram ouvir ao longe quando o mundo inteiro — literalmente — pareceu tremer. Um vórtex de energia, mais negro do que a imensidão do lugar, se fez surgir. Donnie olhou exasperado para a coisa. Era um erro, pensou, mas como poderia estar ali, como poderia...

Um pedaço de rocha acertou-lhe a barriga, tirando seu fôlego por vários instantes. Toda uma montanha desmoronava, rios desaguávam e lava flutuava como que sem gravidade. Foi rapidamente para a saída, onde Nuck expulsava todos pelo portal, ansiosos para sair dali. Ele olhou para Donnie — [i]O que você fez agora?[/i]

O rapaz queria dizer que não sabia, mas Nuck o segurou e e jogou para fora do portal, junto com os outros. Do lado de fora, ele viu os anéis girando mais rapidamente e a bola de energia entre eles brilhando mais fraca, mas girando mais rapidamente, como se fosse entrar em sobrecarga. Então, repentinamente, ouviu-se um barulho de sucção e todo o portal pareceu convergir como se houvesse um buraco negro do tamanho de um ponto, desaparecendo em seguida, restando apenas a planície de grama cheia de magos assustados e amedrontados. E Nuck não estava em lugar nenhum.

—Giu! — ele ouviu Kiara gritar, em pânico — Cadê a Giu?

Várias pessoas gritavam pelos amigos, procurando-se na multidão, em pânico. O próprio Donnie olhava a tudo com o coração batendo a mil. Teria sido aquilo obra do garoto de olhos dourados? Era demais acreditar que fora coincidência. Procurou Arroiz em volta, mas não o encontrou. Nuck também não estava ali. Todos corriam entre si, desesperadamente procurando amigos, tentando garantir que não haviam ficado presos na seção Magician...

"[i]Eu causei tudo isso. Todas essas pessoas.. Vieram aqui e isso aconteceu, e é tudo minha culpa. Eu coloquei todas estas vidas em perigo.[/i]"

Mas embora estivesse perplexo, embora sua mente fervilhasse, ele se sentia em paz. Afinal, havia feito o que o misterioso garoto pedira, feito o que precisava ser feito.

E agora, só lhe restava esperar.

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