[spoiler= Capítulo 35 — Degâl izon FÁIAAAAAAAAAR!!!]

O MinarForest estava relativamente calmo, exceto pela seção Magician que estava mais ativa do que nunca, com Aphanyus trazendo novas sugestões para a construção da seção e ajudando sempre que podia. Nuck, já tendo recebido uma carta de Thugles, não os esperava tão cedo, mas certamente esperava ver seu tutor Warrior, que logo deveria retornar da floresta.

De fato, lá estava ele, vestido em suas roupas comuns e os óculos retangulares, os cabelos brancos já há algum tempo sem corte. Ele trazia algo nos ombros, e o bruxo não hesitou em teletransportar-se até onde ele estava, a fim de verificar o que era: um monte de pedaços de tecido vermelho que se assemelhavam a cobertores. Arroiz o saudou, como sempre fazia.

—Seu Manon agora são cinzas — contou, à guisa de explicação — Mas não achei certo simplesmente incinerá-lo assim. Davien contou que a pele dele era dura como o mais forte aço, então achei melhor trazer um pouco para cá. Sabe, talvez, uma nova armadura...

—A forja da seção Warrior fica pra lá — Nuck apontou desnecessariamente, mas Arroiz sorriu.

—Primeiro quero ver se consigo tirar essa tintura. Vermelho não combina bem comigo, sabe.

E deixou um Nuck perplexo demais para dizer qualquer coisa. O administrador acreditava que Arroiz usaria qualquer peça de armadura desde que fosse eficaz, sem importar a cor. Ele deu de ombros, esquecendo o assunto. "[i]O que a guerra não faz com a cabeça das pessoas...[/i]"

—---------------------------------------------------------------------------------------------------

Por coincidência, o guerreiro passou por uma árvore cercada por um murinho cinza, perto de uma praça. Lá em cima estava um homem alto, vestindo camiseta branca e uma bermuda simples. Ele havia construído uma pequena casa entre as folhagens, cuidadosamente: um pedaço de madeira aqui, outro ali, em noites escuras, procurando não despertar suspeitas, até ele obter algo do tamanho de um aposento, com direito a um baú para guardar suas coisas e uma cama feita de vários colchonetes improvisados.

As paredes tinham a forma de um octógono, cada uma com um buraco para que ele pudesse espiar em todos os ângulos e direções. A lente de um telescópio projetava-se para fora, e dali de cima, ele podia enxergar a floresta que se estendia ao sul. Seu olhar estava concentrado numa mancha vaga: um ponto perto da borda onde a vegetação estava sendo removida, mas ele não podia ver o que era, pois aquelas árvores eram mais altas do que aquela. Só era possível enxergar um pequeno ponto branco, provavelmente de alguma construção, já que permanecia imóvel o tempo todo.

A descoberta daquele local tinha coincidido com um contínuo vai-e-vem de pessoas, pelo que o homem notara, todos da seção Archer. Até onde ele sabia, aquela seção era responsável pelo treinamento com arcos e balestras, então aquilo poderia ser apenas um exercício de treinamento. Mas ele, instruído a verificiar tudo o que podia, esperou anoitecer(a mesma noite que Thugles e os outros passavam em Ellinia) e saiu para explorar o lugar.

De cima da árvore parecia fácil, mas entrar dentro da floresta e procurar um lugar específico era outra coisa. Levou mais minutos do que achou que deveria, mas chegou no lugar onde a grama estava sendo removida para revelar algo muito maior do que esperava. Esperava encontrar alvos em forma de espiral ou bonecos de palha, mas o que viu era algo ao mesmo templo simples e surreal para estar ali. Medindo pelo menos dois metros de diâmetro e cinco de altura, havia ali os restos de uma torre, mas havia algo muito errado. Estava claro que a vegetação havia sido tirada dali recentemente e que a construção permamencera oculta pelas árvores por bastante tempo. Sem rodeios, puxou uma câmera fotográfica e capturou algumas imagens.

"[i]O que será isso? Uma torre antiga... Será isso parte de algum ritual? Se eu contatar meus superiores, talvez eles tomem alguma providência. Por outro lado, talvez simplesmente acabem com esse fórum e levem a riqueza toda para eles.[/i]"

Houve um momento em que a ganância lutou contra seu senso de dever, e finalmente ele pensou que não havia nada a fazer, afinal, era apenas uma velha torre. Não parecia haver porta, mas a pedra parecia descer fundo na terra. E se o resto da torre estivesse enterrado? Certamente isso comprovaria que era antiga, já que a terra ao redor dela era firme como se estivesse intocada havia muito tempo. Como não dispunha de materiais de escavação e, mesmo que os tivesse, correria grande risco de ser encontrado, retornou ao seu abrigo.

—---------------------------------------------------------------------------------------------------------

Arroiz adentrou a pequena construção de tijolos na parte oeste do MinarForest, entre as seções Fanart e Fanfic. O lugar era alguns decímetros do que uma sala de estar e completamente inadequado para as atividades da seção Magician. Enquanto a nova estava em construção, os magos precisavam se virar com aquele galpão.

Ele pisou no chão de carpete, sentindo o cheiro das especiarias e dos diversos ingredientes usados em poções, dentre os quais sobressaía-se um cheiro estranho de chulé. Havia algumas dezenas de pessoas ali usando os mais variados materias disponíveis: caldeirões borbulhantes, mesas de trabalho e kits de alquimia, forja improvisada para a confecção de utensílios metálicos e outras coisas. Logo que chegou, foi atendido por uma garota descalça usando um vestido vermelho, que tinha a expressão de alguém que ficara acordado durante dois dias à base de café.

—Olá — ela cumprimentou, sorrindo alegremente apesar do cansaço — Você deve ser Arroiz, não é? Prazer, sou Benna. Desculpe o mau cheiro — ela fez uma careta — Minha poção para pés doloridos falhou outra vez.

—Percebi — respondeu o rapaz, tentando não franzir o nariz — Desculpe se estou incomodando, mas vim aqui pra piorar ainda mais o mau cheiro: Quero transformar isso numa armadura, mas queria tirar esse vermelho antes.

Benna lançou-lhe um sorriso fraco.

—Por quê? Poxa, o que tem de errado com vermelho? É minha cor favorita — e riu — Claro, claro que posso. Deixe eu achar uma mesa livre...

Era como procurar areia num matagal, pensou Arroiz, mas Benna afastou uns três bruxos que brincavam de massinha numa das mesas, e chamou o rapaz. Ela procurou entre os pertences e tirou vários potes de tinta, ervas, flores e pedras. Pediu que Arroiz estendesse os pedaços de pele na mesa e começou a colocar, dentro de cada "cobertor", pedras e ervas e outras coisas. Arroiz tossiu, educadamente.

—Então... O que vocês fazem aqui? — começou ele — Pensei que todos os bruxos estavam envolvidos na construção da seção Magician, não?

—Nem todos — respondeu-lhe Benna — Não é fácil aquilo que eles estão fazendo, sabe? E eu prefiro continuar meus trabalhos, mas tem sido muito tedioso com as condições limitadas daqui. Eu pensei em assistir umas aulas da seção Warrior — acrescentou, fazendo uma pausa — Mas sempre imaginei que o tutor fosse um cara misterioso demais, e que talvez não quisesse uma maga entre seus alunos. Aí fiquei sabendo que você usou magia na guerra e... wow! E então você vem aqui me pedir pra tingir um pedaço de pele... É pele de quê, afinal?

—Manon — ele disse com displicência, satisfeito com o olhar impressionado da garota — Quanto às aulas, não precisa se preocupar. Aceito todos os que tiverem a vontade de aprender, se você se interessa mesmo pelos guerreiros, pode ir lá um dia.

—Vou sim — prometeu Benna, recuando da mesa e analisando seu trabalho por um momento, antes de erguer a cabeça para o guerreiro — Bom... Pronto. Que cor você vai querer?

—Precisa de tudo isso só pra mudar a cor? — espantou-se Arroiz, reparando que ela estivera colocando pedras e ingredientes o tempo todo. Benna disfarçou uma risada.

—Não... Acho que não. Eu não faço idéia do que estou fazendo, só queria te impressionar mesmo.

Ela riu com a expressão abobada do guerreiro e então gritou "Iremi!". Uma outra garota surgiu, de cabelos ruivos curtos e emaranhados e vestida em jeans e casaco leve de bruxos. Os olhos grandes pareciam cansados como os de Benna, mas naquele caso era como se ela não dormisse desde que Nuck anunciara a construção da seção Magician.

—Que foi?

—Este cavalheiro aqui gostaria de mudar a cor de sua pele — Benna contou — Não a pele [i]dele[/i], mas esta aqui sobre a mesa que, de certa forma, é dele. A cor... Não lembro bem, Arroiz, era turquesa, ou rosa choque?

—Não me decidi ainda — ele disse sério — Pensava num preto brilhante, ou que sabe um azul cobalto, bem metálico...

—Preto é bom — interrompeu Iremi — A cor mais fácil de fazer, basta adicionar todos os ingredientes crômicos possíveis e tudo o que eu quiser vira preto. Felizmente a maioria prefere essa cor, agora, azul... Metálico, ainda...

—Sim, acho que seria boa, agora que estou pensando — disse Arroiz, os olhos brilhando de animação — Pode fazer isso pra mim? É pra uma armadura.

—Já comecei acrescentando pedras e folhas aleatoriamente — Benna comentou com ar de importância. Iremi sacudiu a cabeça, cansada.

—Não adianta nada, Benna, você sabe disso. Pra começar, se quer fazer uma armadura, precisa amolecer o tecido antes, se você apenas usar eles duros desse jeito, vai ser que nem aqueles cavaleiros medievais e não vai poder se mexer direito. Precisa amolecer o material de forma que ele fique flexível, mas continue com a resistência e absorção iniciais. Pele de Manon é boa — acrescentou apalpando os cobertores vermelhos — Vai dar uma excelente armadura, eu garanto.

Ela ergueu as mãos e pediu a Benna que molhasse as peles com alguma coisa desconhecida para Arroiz, que estava muito animado com o último comentário de Iremi. Sem ter muito o que fazer, ficou observando as duas trabalharem. Benna era mais alta e extrovertida e parecia possuir todo tipo de item mágico, mas ali agia apenas como assistente. Era Iremi quem comandava: recitava magias, dizia onde tal material precisava ser colocado, instruía Arroiz para que esticasse cada pele de uma maneira. O guerreiro percebeu que a ruiva piscava poucas vezes e falava de maneira automática, como uma pessoa sonolenta lendo um texto que sabia de cabeça. Ele se sentiu um pouco mal por ela, parecia exausta, mas logo afastou o sentimento. Se ela não estivesse trabalhando nas peles, estaria ocupada com alguma magia ou poção ou outra coisa. Magos costumavam ser assim, trabalhando mesmo que o corpo quisesse descansar.

—Done — Iremi disse de repente, levantando o que parecia, realmente, um monte de cobertores. Arroiz se adiantou, excitado, mas ela o interrompeu: — Agora você tem que deixar de molho por um mês.

—Um mês! — explodu Arroiz, desanimado. Iremi o encarou.

—Se fosse pele de touro, por exemplo, estaria pronta em três dias. Mas isso aqui é couro de Manon, tirado da própria besta... Você queria o quê? E nem pense em pegar carneirinhos. Se hesitar demais vai acabar transformando, mas tente evitar a todo custo que caia água.

A partir de "carneirinhos" as pálpebras dela pareceram pesar duas vezes mais e ela tombou ao terminar de falar, caindo em cima de Arroiz que a segurou com agilidade — era mais leve do que imaginara. Ele ficou olhando para Benna, sem saber bem o que fazer quando ela deu uma risadinha.

—Acho que ela quis dizer pra você nem pensar em pegar as peles agora e fazer rápido, senão vai sair malfeito — esclareceu — Vê, ela usou muita magia amolecendo estas peles e se esgotou, coitada.

—Espero que não seja grave! — Arroiz disse preocupado, afinal, aquilo era culpa dele, de certa forma. Mas ele não achava que Benna estaria sorrindo tão tranquilamente, se fosse.

—Ah não, isso acontece. Às vezes acontece da pessoa cair no sono ao usar muita magia estando cansada, eu sempre falei pra ela descansar, mas ela não me ouve. Que bom que você apareceu, assim ela dorme um pouco.

E mandou que ele a deitasse no carpete apoiada numa parede, mas Arroiz recusou-se terminantemente. Do jeito que as coisas estavam, ele pensou, era provável que alguma magia espirrasse na menina e ela virasse um sapo ou coisa parecida.

—A sala de experimentos malucos não é lugar pra uma menina dormir — ele disse meio aborrecido — Tem um berçário aqui no fórum. Vou pedir pro Nuck reservar uma sala.

Ele a carregou sobre o ombro, os cabelos ruivos roçando-lhe as costas e deixou a sala. Benna, é claro, o seguiu, conversando sobre a seção Warrior e espalhando chulé mágico por metade do fórum.

—-------------------------------------------------------------------------------------------------

Vale lembrar que, embora o capítulo anterior terminasse com "pela manhã, Ellinia estava em chamas", não foi bem assim que tudo começou.

O dia já amanhecera, as fadas e a maioria dos bruxos já estava desperta, estudando e trabalhando — em especial um certo grupo que parecia não ter dormido, tão ocupado estava com a mais nova peça em sua coleção de estudos: um tilojo quebrado coberto de inscrições desconhecidas. Outro assunto era o grupo que trabalhava num pedaço tirado desse mesmo tijolo, empenhado em transformá-lo num capacete.

Por volta das sete horas da manhã, o clima tranquilo e agradável se transformou quando alguma coisa explodiu na terra, muito abaixo da cidade. Uma energia terrível se fez sentir em Ellinia — lugar que, sendo sensível à magia, podia captar o mal a quilômetros de distância — mas agora ele se encontrava bem ali, nas raízes das árvores que formavam a cidade.

Humanos e fadas já se agitavam, murmurando feitiços e círculos protetores quando os primeiros atacantes surgiram: humanos vestidos em jeans, bermudas e camisetas, aparentando serem adolescentes comuns. Exceto nos olhos, que brilhavam com um fogo laranja e cruel.

A primeira dúzia de adolescentes chegou subindo as árvores como se fossem macacos, fazendo as pessoas recuarem. Um dos bruxos, de idade mais avançada, aproximou-se cordialmente de um deles, o cajado erguido, os olhos sérios.

—Vocês não são bem-vindos aqui. Deixem este lugar agora. Em nome de Grendel, eu...

Ele jamais terminaria sua frase — uma garota, de aproximadamente dezesseis anos de idade, lançou sobre ele uma flecha de fogo brilhante que tremulou um pouco ao passar por um feitiço defensivo, mas sua força ainda fora suficiente para acertar o coração do homem e incinerá-lo da cabeça aos pés. O grito de morte também não saiu — sufocado pelas chamas, caiu da ponte onde estava e se perdeu à distância.

Os demais magos gritaram de surpresa e fúria, e começou uma troca de feitiços. Mas a maioria dos adolescentes não era adepta à magia, ao invés disso usavam armas como facas e espadas. Um pequeno bruxo teve a garganta cortada por um dos invasores, rapidamente atingido por uma descarga elétrica, que não lhe causou nenhum dano.

—Magia não os afeta! — gritou uma bruxa ao notar o fato rapidamente. Daí, foi um segundo até todos os bruxos começarem a correr desesperados, lançando feitiços atrás de si para se proteger, que só serviam para retardar um pouco os invasores.

Os moradores de Ellinia corriam para suas casas, as fadas flutuavam acima tentando retardar os atacantes ao máximo, mas nenhuma magia funcionava. Embora parecessem imunes à magia, ficou claro que o mesmo não acontecia com armas normais: um garoto de Ellinia conseguira matar um outro garoto, de olhos brilhantes, antes de ser subjugado pelos demais.

—Não adianta, são imunes à magia! — Thugles gritou da janela da pousada, para os magos que ainda insistiam em atacar. Não eram [i]completamente[/i] "imunes", na verdade, mas era como se as magias não os ferissem mais do que picadas de inseto.

—Não é um ataque qualquer — Sheddeer disse, pronunciando o que todos os quatro pensavam — O forte de Ellinia é a magia, se não puderem usá-la, estão praticamente vulneráveis. E mandam justamente pessoas imunes à magia. Isso não pode ser coincidência.

—Os olhos deles... — Thugles começou, e recuou ao se dar conta do que acontecia — Meu Deus, lembram que alguns Black Wings que atacaram o fórum tinham olhos negros, porque foram criados artificialmente? E se esses forem... E se...

—A pedra — Vampiritico assentiu, sombrio — Exército instantâneo. Então eles conseguiram.

Não era, contudo, momento de conversa: Um pequeno grupo de adolescentes chegara até a pousada, quatro no total, arrombando a porta com facilidade. Os olhos brilhavam e as mãos carregavam lâminas afiadas.

Vampiritico não perdeu tempo: pôs o chapéu Black Wing na cabeça, desaparecendo em um instante. Rapidamente dois dos invasores caíram com ferimentos no peito, feitos por uma adaga invisível. Sheddeer esfaqueou uma menina que estava prestes a atacar com fogo e Davien segurou o queixo e o braço do último, arrancando-lhe a cabeça com as próprias mãos.

Mas foram apenas quatro derrubados: por toda parte, de todas as árvores, mais invasores surgiam escalando os galhos como lagartixas, os olhos brilhando em chamas. Agora vinham também adultos, vestidos em uniformes verdes e short cáqui — deviam ser os líderes. Os magos, incapazes de produzir alguma coisa, corriam para salvar suas vidas. Thugles notara, e preferia não tê-lo feito, que o número de pessoas fugindo era agora muito menor do que antes, embora pouquíssimos tivessem conseguido chegar às casas. Os corpos que não estavam espalhados pelos galhos e pontes de madeira haviam caído centenas de metros abaixo.

Mais adolescentes chegavam, alguns se dirigindo para a pousada. Sheddeer já pulara para fora e desaparecera entre os galhos, seu casaco verde cinzento confundindo-se facilmente com as árvores. O único sinal que tinham de Vampiritico era o fato de que invasores pareciam cair no chão sem aviso ou eram empurrados de uma ponte — embora isso tenha parado de ser uma ação apenas do rapaz, pois alguns dos que eram derrubados traziam flechas adornadas de penas no corpo.

Davien olhou em volta e escolheu a espada de um dos caídos e ficou parado logo atrás da abertura da porta. Cada pessoa que entrava era imediatamente decapitada, estocada ou cortada. Num breve momento de folga, ele se virou para Thugles:

—Você tem uma pistola e uma espada, e sabe usá-las muito bem. Então por que está aí parado? Venha aqui me dar uma ajuda!

—Não posso, Dave — o rapaz respondeu tremendo — Eles são... Adolescentes, são pessoas comuns. Não... Não posso matá-los.

—Tá de brincadeira! — gritou, parecendo ele mesmo capaz de matar o pirata, mas felizmente uma garota com maça apareceu para descontar sua raiva.

A batalha continuou, eram agora pelo menos cinquenta pessoas, todos vestindo roupas comuns e armas como espadas, maças e adagas. Havia centenas de magos na cidade, mas já haviam descoberto que magia não funcionava. Os moradores que sobreviveram estavam dentro de suas casas ou bibliotecas, que contavam com uma proteção mais forte. Vampiritico tinha bastante lugar para se movimentar e atacar, mas era Sheddeer quem causava o maior dano, já que um inimigo tombava no chão praticamente a cada segundo.

Tendo a cidade praticamente dominada, os invasores hesitaram(exceto os que caíam pela flecha ou pela adaga) como que esperando ordens. Então, como se fossem um só, correram na direção de uma construção em especial, uma sala de estudos feita de troncos pesados mais pra baixo de Ellinia, abaixo e à frente da pousada. Alguns, no entanto, ainda se dirigiam para o único foco resistente: um guerreiro teimoso e enfurecido segurando uma arma que não era nem de longe sua favorita.

Ele segurava agora duas pesadas maças de ferro, que paravam no corpo e na cabeça de quem atacava. Mas logo esse número diminuiu, pois a maioria tentava arrombar a biblioteca onde havia bruxos que gritavam por socorro.

—O quê, não têm peito pra enfrentar o Dave? — berrou o guerreiro — Ah não, aí já é demais!

Ele cobriu as mãos com gelo, ignorando o que disseram sobre eles serem imunes à magia. Demorou um pouco(afinal, não estava usando a polearm) mas logo ambas as maças estavam cobertas do pó azul-claro. Ele correu, gritando e urrando, para onde os invasores se encontravam.

Plac. Plac. Duas garotas caíram de uma vez, atingidas nas costas pelas maças geladas. Rapidamente, os demais se viraram, dando as costas à biblioteca, e então aconteceu algo estranho. Os invasores olharam para Davien com certo receio, a chama nos olhares adquirindo uma expressão estranha, era como se estivessem com medo. Não que importasse para o rapaz, que continuiou a dirigir um golpe atrás do outro, atacando com selvageria e chutando os corpos para longe quando estes lhe atrapalhavam o caminho. Somente então Thugles viu o que estava acontecendo.

—A fraqueza deles é o gelo! — ele gritou bem alto para que todos ouvissem, pois era isso que acontecia. Os invasores fugiam de Davien, e se haviam atacado vários homens experientes em magia sem hesitar, por que temiam um rapaz sozinho, cuja única diferença em relação aos demais era o fato de ter as armas cobertas de gelo?

Os bruxos não precisavam de um segundo aviso. As portas da biblioteca atacada, firmemente fechadas, abriram-se com violência, e dali saíram seis magos de túnicas roxas agitando as mãos em movimentos complicados. Uma névoa surgiu diante deles, mais precisamente, em cima do monte de gente que estava entre eles e Davien. Os atacantes caíram no chão, com as mãos nos ouvidos e nos rostos, gritando em pânico. Fumaça escura começou a desprender-se deles, os gritos eram de estourar os ouvidos... E então os bruxos interromperam a névoa, muito cientes do que significava aquela fumaça.

—Por que pararam? — Davien gritou como se houvessem perdido o juízo, mas agora todos os magos da cidade convergiam para aquele local. Clérigos e especialistas em magias de cura seguravam as pessoas que antes atacavam sua cidade, murmurando palavras doces embora urgentes, as mãos brilhando ou carregando pomadas curativas, como fariam com os próprios moradores. Logo os gritos de dor se transformaram em soluços. A fumaça negra e vermelha foi para longe como que espalhada pelo vento, e somente então Davien viu que os olhos deles não brilhavam mais.

—Por... favor... Não... O que...

—Está tudo bem agora — disse o homem que a curava, uma garotinha de apenas oito anos de idade, olhando sem acreditar para a maça que segurava, largando-a com pavor. Vampiritico apareceu perto dali, parecendo pasmo e assustado, com Thugles ao seu lado. De repente, o bando de invasores selvagens parecia uma turma de crianças e adolescentes assustada, tremendo de frio, e também alguns adultos de uniforme.

—Não são Black Wings — Thugles comentou assustado.

—Eram demônios — Vampiritico continuou por ele, com evidente desprazer — Essas pessoas foram... Possuídas. Eu não acredito nisso, pensei que fosse apenas um mito...

Ele chegou a recuar quando o olho de cada mago se arregalou o máximo que podia, como que invadidos por um pulso que só eles podiam sentir. Todos eles se levantaram, inclusive os que curavam, mas o mal fora mais rápido. A explosão aconteceu antes que pudessem intervir: chamas subiram por uma árvore mais pro centro de Ellinia como se ela estivesse cheia de álcool e alguém tivesse ateado fogo nela lá de baixo. A árvore se transformou em pó e for substituída por um pilar de fogo imenso, em cujo centro se podia divisar um vulto alto, magro e delicado de formas humanas.

—Tolos! — o próprio fogo pareceu gritar, a voz distorcida pelas chamas, rouca e maligna como uma lâmina afiada — Vocês ousam desafiar o poder de Ancabe*? Meu senhor logo dominará este mundo, mas desta cidade não restará nada para ser governado!

*[Lê-se "An-ka-bê"]

A criatura ergueu os braços do meio das chamas, que rodopiaram e atiraram bolas de fogo por toda parte. Pontes queimavam, árvores eram atingidas e o fogo cobria casas, lojas, pousadas... Tudo o que encontravam. A combustão era lenta, como se a magia da cidade e a umidade das árvores lutasse contra o mal que a atingia, mas terminava queimando no fim. O calor também atingia as pessoas — de repente a floresta fresca parecia um forno ligado.

Os moradores respondiam com raios de gelo, flechas curativas — e havia até quem atacasse com fogo — mas, se isso causava algum efeito em Ancabe, eram cócegas, pois a criatura ria, uma gargalhada rouca que ficava mais e mais alta. Houve um momento em que ela se interrompeu e o vulto nas chamas pareceu se curvar ao mesmo tempo em que o pilar de chamas em que se encontrava estremeceu, como que atingida por um golpe. Mas logo recuperou o poder, e uma bola de fogo veio em direção à biblioteca onde se encontravam a maioria das pessoas. Bruxos levantaram os cajados e parte do ar pareceu se dobrar. O fogo se espalhou, inofensivo, desfazendo-se em seguida.

—Qual o problema, Ancabe? — Thugles gritou.

—Seu idiota, o que está fazendo? — sussurrou um homem de túnica. Thugles o ignorou.

—Ellinia não é seu lugar Estar aqui enfraquece você, não é?

—Como ousa! — a criatura respondeu possessa — Posso estar onde quiser, e destruir [i]o que eu quiser![/i]

—Não, não pode — insistiu ele — Aposto que isso te gasta muito poder. Você só está se exibindo, mas não pode usar muita magia ou vai se arriscar... Foi por isso que o fogo pareceu fraquejar. Não é muito difícil dedzuir isso.

A coluna de fogo brilhou mais intensamente e pareceu se agigantar, uma esfera de calor foi jogada em fúria contra o rapaz. Desta vez os magos deram um passo à frente, levantando uma névoa de gelo e criando ventos para desviar tamanho poder — que mesmo assim explodiu no ar ao encontrar as magias defensivas, num impacto de desequilibrou as pessoas ali.

Mas Thugles atingira seu objetivo: tão logo lançara a magia, o fogo enfraquecera mais e se tornou menos opaco, o vulto no meio dele ficou mais vago e curvado. O pirata, agachado, ergueu a cabeça e lançou um sorriso travesso e perverso. O fogo quase pareceu se esquentar novamente.

—Eu sabia — murmurou para os amigos ao lado dele — [i]Sempre[/i] funciona.

—Você vai pagar por isso — a coisa disse — Vou me lembrar de você, menino, guarde minhas palavras. Encontraremo-nos um dia, e quando isso acontecer, tomarei seu coração, e ele será meu.

—Ah, já chega!

Thugles tentou impedir, mas ninguém segurava Davien. Com as mãos e parte do peito cobertos de pó de gelo, ele se precipitou para as chamas, saltou e abraçou a sombra ali dentro. O grito de dor da criatura ficaria gravado nas mentes de todos até o dia de suas mortes. O mais estranho era que o grito ia ficando mais agudo, mais humano, para por fim silenciar-se e o fogo desaparecer, derrubando Davien num galho grosso.

—Meu Deus! — gritou um dos homens de uniforme verde — Eu quero sair daqui!

Houve uma correria: pareceu que todas as pessoas e fadas de Ellinia estavam saindo de suas casas e bibliotecas, ocupadas em expulsar o fogo que ainda queimava na floresta, acalmando as dezenas de pessoas que haviam atacado a cidade e criando círculos defensivos por toda parte. Alguns se aproximaram de Davien, mas o rapaz recusara ajuda terminantemente.

—Me solta! Estou bem, o que estão pensando? Saiam daqui...

Nenhum médico quis discutir com ele, então deixaram que apenas seus amigos se aproximassem. As horas se arrastavam enquanto os invasores eram curados e alimentados, e a cidade ficava em alerta. Aparentemente, o ataque havia cessado. Então um pulso surgiu da biblioteca no topo das árvores, uma energia azul que se espalhou por toda a cidade. Davien imediatamente pegou as maças, mas um bruxo que estava perto deles mandou que largasse as armas.

—É Grendel avisando que o mal se foi — ele disse — Não haverá mais ataques até o fim deste dia.

—Como ele pode saber disso? — explodiu Vampiritico — E onde estava quando tudo aconteceu?

O bruxo recuou, o cajado à frente do corpo numa posição defensiva.

—Não use esse tom ao falar de Grendel, menino ignorante! Sei o que pensa a respeito, e lhe digo, dobre a língua ou vou jogá-lo ao mar.

—Vampy — uma mão pressionou levemente o ombro do garoto que já se preparava para responder — Cale a boca.

Virou-se e viu Sheddeer, olhando sério para o mago, o arco e a aljava nas costas, esta quase sem flechas. Quando falou, seu tom era baixo e conciliador:

—Perdoe meu amigo, que pouco conhece sobre a magia de Ellinia. Tampouco eu posso dizer que saiba algo. Mas se Grendel diz que não haverá ataque, então acreditaremos nisso. Enterremos os mortos e cuidemos dos feridos, por agora.

O homem assentiu, curvando-se levemente para eles e se retirou. Logo a cidade se acalmou, e os invasores, que eram na verdade um grupo vindo de Perion que acampara nas redondezas quando uma explosão os atingira, foram levados para baixo. Sheddeer virou-se para os amigos.

—Precisamos voltar ao MinarForest — disse — Também precisamos conversar... Quando estivermos no navio.

Ele acrescentou as últimas palavras pois alguém corria na direção deles, uma garota de cabelos azuis e óculos vestida numa túnica branca e laranja. Ela trazia o cajado na mão e sua expressão era agitada.

—Caramba... Você usa magia! — Kiara exclamou olhando para o guerreiro — Você é Davien, não é? Ouvi dizer que usava uma polearm gigante de plástico coberta de gelo, mas sabia que eram só boatos. Mas não achei que você [i]realmente[/i] usasse gelo!

—Eu uso — o rapaz respondeu, rabugento — E também uso uma polearm, que não é gigante, muito menos de plástico.

—Ele pode mostrar a você quando chegarmos no navio — falou Vampiritico, ansioso para sair dali, mas Davien não estava.

—Nada disso, não saio daqui sem meu dinheiro e meu capacete!

—Sai sim — Sheddeer lhe garantiu, e seus olhos castanhos deixavam claro que não aceitaria discussão. Davien hesitou, pois nunca vira aquela expressão no rosto do amigo. Em geral, quando o arqueiro tinha algo em mente, era melhor seguir. E ele parecia muito convencido do que dizia.

—Precisamos partir imediatamente — Sheddeer continuou — Kiara, você ainda pode vir conosco, se preferir. Nós...

—Como assim, "se preferir"? É [i]claro[/i] que quero ir ao MinarForest, Grendel não garantiu que está tudo bem por aqui? Não vejo a hora... Quer dizer... Precisa mesmo ser agora?

—Acho que podemos esperar mais alguns minutos — o arqueiro consentiu depois de hesitar. Afinal, Kiara vira muitas pessoas morrerem, pessoas que ela provavelmente conhecia, e os bruxos de Ellinia realizariam um funeral digno para os que haviam morrido.

Acabou que o grupo partiu três horas depois, quando as baixas — vinte e três no total — foram enterradas numa parte no chão da floresta dedicada justamente para este fim. Os campistas voltaram a Perion, sem consciência do que haviam feito, e ninguém em Ellinia achou necessário contar a eles. Eram um povo muito sábio e, embora estivessem se despedindo das pessoas que acabaram de matar alguns de seus próprios entes queridos, sabiam que eles não tiveram nenhuma culpa. Não queriam que aquelas pessoas inocentes convivessem com a culpa por crimes cometidos por suas mãos, mas pelas mentes do mal que os possuíra. Havia quem se ressentisse contra isso, mas no final todos aceitavam o inevitável. O demônio autor de tudo aquilo já havia ido embora, se não fora destruído por Davien.

Quanto a ele e aos amigos, foram tratados com certa animosidade e desconfiança, e Sheddeer tirou-os dali assim que possível. Logo estavam os quatro de volta ao navio, junto de Kiara que conseguira se reanimar — primeiro por estar indo ao MinarForest, segundo por constatar que Davien realmente tinha uma polearm de mais de quatro metros. Ela logo se envolvera numa animada conversa com alguns dos marujos piratas, deixando os quatro amigos livres para conversar, na proa onde Thugles comandava o navio.

Quando embarcaram, Sheddeer contara casualmente que Grendel conversaria com os magos, e o pagamento pela peça de Zakum seria feito assim que terminassem o capacete, mas que primeiro iriam resolver a questão sa segurança de Ellinia. Tão logo as altas árvores desapareceram à distância, Sheddeer mandou que se reunissem.

—Você sabe de alguma coisa? — Vampiritico quis saber, ansioso. Suspeitava que era por isso que o rapaz queria tanto falar com eles. Sheddeer nem se deu ao trabalho de assentir.

—O que eu sei — ele começou — É que nós quase condenamos Ellinia.

—Como assim? — Davien disse sem entender — Explica isso direito, Shed.

Sheddeer recostou-se num dos mastros próximos ao leme e falou:

—Quando a situação acalmou, fui logo procurar Grendel. Ele não sai da biblioteca, caso não saibam, ele está preso a ela. Ainda assim ele pode proteger Ellinia, mas hoje, estava meditando com seus alunos, como ontem, e não poderia ser acordado. Achei estranho vários fatores terem acontecido ao mesmo tempo.

—Quais? — Vampiritico quis saber, mas o arqueiro só havia feito uma pausa.

—Primeiro, um ataque desses acontece justo quando chegamos na cidade. Um demônio possui alguns campistas e, e a única fraqueza que tinham eram armas e magias de gelo. Nick teria sido extremamente útil nessa situação, e sempre nos acompanha, mas dessa vez ele não estava conosco. A magia de gelo do Dave é mais forte quando usa a polearm, mas ele a deixou aqui no navio, e nenhum dos atacantes tinha uma polearm para que ele pudesse usar.

—Não é qualquer polearm, tem que ser a [i]minha[/i] polearm!

—Sim — o arqueiro continuou — Mas se alguém lá tivesse uma, a luta teria sido mais fácil, não? Eles atacavam com várias lâminas, mas não tinham justamente a arma que você usa melhor. Nosso mago de gelo, que sempre nos acompanha, não estava conosco. O ataque acontece justo quando Grendel está meditando e não poderia ajudar, havia um grupo de campistas de Perion, ou seja, provavelmente sabiam lutar e estariam armados, perfeitos para serem possuídos e usados num ataque. E tudo isso foi causado por um demônio, justamente quando trazemos um pedaço do demônio mais temido de todos.

Houve um momento de silência, quebrado apenas pela conversa entre os marujos ao fundo, quando os demais se davam conta do que havia acontecido. Era muita coincidência tudo estar a favor dos atacantes naquele dia. Havia uma lenda de que Zakum havia azarado toda a Mina dos Mortos. Agora parecia que aquele azar era mesmo literal e havia se manifestado.

—Mas não faz sentido — exclamou Thugles — Dave tem essa pedra há anos e a mantém na seção Warrior faz muitos meses, mesmo assim não veio nenhum demônio se não contarmos os Black Wings, muito tempo depois!

—Acredito que a magia do Nuck tenha evitado isso — disse o arqueiro — O MinarForest é cercado de magia curativa que pode ter camuflado o mal e impedido que nos encontrassem. Mas uma vez fora do fórum, foi como um sinal que atraiu o demônio. Como você mesmo disse, ele não pertencia a Ellinia, pois vinha de muito longe, do fundo da Mina dos Mortos. Mas aquele pedaço de Zakum pode ter lhe amplificado os poderes, fazendo com que resistisse a qualquer magia.

—Exceto a de gelo, que é a fraqueza natural daquele demônio, que é de fogo — deduziu Thugles.

—A biblioteca que atacavam — lembrou Vampiritico — Era...

—Era lá que os bruxos estudavam a pedra, sim — concordou Sheddeer — Por isso eles se dirigiram para ela.

—Então Ellinia está em perigo! — exclamou Thugles — Deixamos a pedra lá, eles podem voltar!

—Você está se esquecendo de Grendel — tornou o arqueiro — Ele estava meditando quando tudo aconteceu, mas já disse que o perigo passou. Conversei com ele. Ele deve ter, de alguma maneira, conseguido sobrepujar o poder naquela pedra e acabar com seja lá que azar ela estava trazendo. Seja como for, agora ele está acordado, e nada vindo da Mina dos Mortos poderá atingir Ellinia agora.

—Você disse que ele está preso à biblioteca — lembrou Davien. Sheddeer assentiu.

—Sim, mas isso é algo pessoal dele. Aqueles símbolos que o cercam não são magia dele, mas parte do encantamento que o mantém acorrentado à cidade. Grendel não pode deixar a biblioteca, mas isso tem a ver com um passado muito distante... Que ele não se incomodou em me dizer.

Os outros assentiram, nervosos, até mesmo Davien. Todos estavam muito cientes das vidas que aquela visita havia custado, do quanto a ambição de Davien por um capacete fora cara.

—Estranhei eles nos olharem torto quando saímos — comentou o guerreiro — Agora entendo o motivo. Não é de surpreender que estejam com raiva da gente, e não nos agradecendo, por termos salvado a cidade.

—Eles não sabem disso — afirmou Sheddeer, surpreendendo o guerreiro — Se soubessem... — sua boca se torceu num sorriso desaminado — Não, apenas Grendel chegou a essas conclusões. Ele sabe que não agimos de propósito, e cuidou para que ninguém soubesse exatamente o que aconteceu. Mas os moradores suspeitam de nós, porque o ataque aconteceu justo quando chegamos. Eles acham que trouxemos o mal, e estão certos, mas apenas acham.

—Mas é óbvio que o demônio foi atrás da pedra de Zakum! — disse Vampiritico — Que mago não chegaria a esse pensamento?

—Eles estão seguros de a pedra não representava mais ameaça — opinou o arqueiro — Aqueles magos, geralmente, são muito orgulhosos. Jamais admitiriam que mantiveram uma peça daquelas em sua cidade sem notar que ela representava perigo. Não detectaram nenhuma energia maligna na pedra porque só o que restou nela foi o sentimento maligno de Zakum, perceptível apenas ao mais puro dos males. E aquele demônio, um dos servos de Zakum, era um deles.

—Então isso vai nos salvar, afinal — falou Vampiritico — Os magos acreditam que não havia magia negra na peça que Dave levou, então não vão saber que foi a gente.

—Mas foi — enfatizou Thugles — Nunca vou me esquecer que a coisa que matou todas aquelas pessoas veio no meu navio, enquanto eu fazia piadas bobas sobre ela.

Fez-se um silêncio desagradável em que se remoía o que aconteceu. Minutos depois. Kiara aproximou-se e puxou conversa com eles.

—Não vejo a hora de conhecer o tutor Magician de vocês — ela disse sorrindo — Soube que ele usa gelo, eu uso fogo, então vamos ter uma boa disputa. Engraçado, ouvi dizer que vocês andavam sempre juntos... Por que ele não está aqui com vocês?

E os quatro se entreolharam, sombrios, mudando rapidamente de assunto.

[/spoiler]