MinarFic
14 A Primeira Invasão
Quando chegou a véspera de Natal, o fórum ainda estava fechado.
O dia estava estranhamente tranquilo, pra um lugar que esperava uma invasão a qualquer momento. Mas o dia estava claro, o céu limpo e sem nuvens, e pássaros cantavam nas árvores e no topo do telhado.
Era uma sensação estranha, ver o fórum silencioso daquele jeito. Não era como no dia em que os documentos de tutoria foram roubados, onde o silêncio era pesado e carregado de tensão. Ali, agora, o silêncio era de calmaria e tranquilidade, como o de um parque público ao ar livre. Era a primeira vez que Davien e os tutores, os únicos ali no fórum além de Nuck, viam aquele lugar em silêncio.
A versão oficial era que o fórum estava fechado devido ás festividades. Era verdade, visto que o fluxo de pessoas diminuiu consideravelmente com a aproximação do Natal, mas a verdade era menos natural. Todas as ameaças Black Wings, os problemas com o espião, a possibilidade de um ataque a qualquer hora do dia eram o verdadeiro motivo.
Além de que Nuck tinha que lidar com os pais do frequentador da seção Fanfic, que morrera.
Eles não podiam processá-lo, por o rapaz havia assinado um termo que dizia claramente que ele, sendo maior de idade, assumiria quaisquer riscos por conta própria.
Nuck não o obrigara a lutar. O rapaz havia se oferecido, porque era bom lutador, mas aquilo não foi suficiente, e ele morreu.
Mas aquela era a mãe do menino. Nenhum documento seria suficiente, nenhuma indenização compensaria a perda do único filho. O pai dele entendia que não havia sido culpa do fórum, e estava um pouco melhor do que a mulher, embora seus olhos estivessem profundamente entristecidos. Por fim, eles chegaram a um acordo. A mãe se acalmara e, do fundo do coração, compreendia. O filho sempre havia sido muito impulsivo e gostava de resolver as coisas do próprio jeito. Infelizmente, aquilo havia custado a vida dele. Pelo menos, ela sabia que o filho havia morrido lutando pela vida de milhares de pessoas.
O líder do MinarForest não tivera coragem de contar a ela que seu filho teve a cabeça comida por um Wyvern antes que pudesse sequer dar um golpe.
Quanto a Pizza, ele confava no que Donnie havia dito.
Ele levou Davien e os tutores, junto com o ainda desacordado Pizza, até uma salinha escura na seção Fanfic: um aposento quadrado sem janelas do tamanho de um quarto de dormir.
–Você não vai colocar ele aí dentro, vai? — foi a primeira coisa que Vampiritico quis saber, assim que Donnie abriu a porta da sala. Seria impossível Pizza ficar ali dentro sem entrar em pânico e acabar rachando a cabeça em uma das paredes.
–Bem... vou — respondeu o tutor Fanfic, sério. De repente, a sala ficou iluminada, (embora não tivesse nenhuma lâmpada), revelando o que estava escondido ali.
Um globo de vidro ocupava toda a sala. Não havia muito para ver nele, apenas que era grande e que a porta também era curva, acompanhando a circunferência do vidro.
–Pedi pro Nuck arranjar isso pra mim ontem. É completamente à prova de balas e de fogo.
Aquilo não ia impedir o antigo tutor Fanart de bater a cabeça até morrer no vidro, mas Donnie parecia decidido.
–Mas você não pode colocar ele aí! — Vampiritico gritou com a voz estridente. Donnie lhe deu um sorriso torto.
–Continha de matemática, Vampy. Um globo de vidro, mais um mago especialista em magias de ilusão, e um garoto doido que precisa acreditar que estar ao ar livre... o que dá?
Vampiritico pensou por um momento, então arregalou os olhos.
–Ah, não! — ele olhou fixamente para o globo, depois para Pizza, e então para Donnie — Não, você não pode fazer isso!
Ele ofegava de indignação, mas Donnie estava firme e tranquilo como sempre.
–Vampy, me diga aonde você está vendo falhas nesse plano. É perfeito. Não podemos deixá-lo andar à solta pelo fórum, mas ao mesmo tempo, precisamos deixá-lo ao ar livre. Que solução melhor do que juntar as duas coisas?
–Não, Donnie! E quando ele acordar, o que vai acontecer? A magia pode penetrar a mente dele de tal forma que...
–Com licença — interrompeu Thugles, com uma tossida — Não é que eu esteja achando chato ficar aqui ouvindo vocês discutirem, zoa, tá chato pra daralho, mas tipo, se você explicasse o que vocês querem, ajudaria!
Donnie se adiantou, vendo que o outro não iria responder.
–Lancei vários feitiços de ilusão nesse globo — explicou — Que iriam fazer o Pizza entrar em uma realidade virtual. Seria como aqueles capacetes de realidade virtual que passam na televisão.
–Só que sem os microondas e o SAL — observou Thugles. Donnie deu um tapinha no vidro.
–A realidade daqui de dentro seria o que a mente dele quisesse. Como ele não quer ficar em lugares fechados, ele provavelmente entraria em algum mundo cheio de grama e céu azul, ou uma montanha, enfim, apenas o que agradasse a ele iria aparecer. Não teria perigo de ele se confundir ou ver um Black Wing. Cuidei exatamente para que o globo só capte as boas lembranças.
Sheddeer assentiu, pensativo.
–Eu acho uma boa idéia.
Arroiz também assentiu, até mesmo Davien, que não gostava muito de explicações longas e essas coisas.
Nick veio em defesa de Vampiritico.
–Mas, Donnie, tem várias coisas — ele observou. Como mago, era o que mais entendia sobre esse tipo de magia naquela sala, além de Donnie — Por exemplo, e se ele quisesse correr? E se ele desse um soco e acertasse o vidro, o que poderia acontecer?
Mas Donnie apenas sorriu.
–Eu pensei em tudo isso, Nick. Ele não vai cair, vai apenas andar normalmente e subir pelo vidro, vai ser como se estivesse usando botas com cola.
–Mas é aquelas colas de desenho animado? Quer dizer, você sabe como elas são... são mais fortes que Super Bonder, é impossível descolar alguma coisa que encoste naquelas colas.
Thugles era assim mesmo, fazia piada nos piores momentos. Por isso, o que deixou todos surpresos não foi a piadinha sem graça, mas a falta delas. Vampiritico teria dito algo como "menos quando colam dinamite, aí ele explode e a cola é magicamente descolada" em resposta. Aí Thugles teria feito uma piada sobre "descolado" ser alguém "considerado maneiro", então que a "cola era maneira", e a coisa viraria a costumeira bola de neve até Davien perder a paciência. Mas ele não parecia estar nada disposto a fazer brincadeiras.
–E sobre a parte do soco — continuou Donnie, vendo que Vampiritico estava prestes a ter um ataque de nervos — Isso também não aconteceria. Por exemplo, se Pizza estivesse com os pés na lateral do vidro, quando ele esticasse a mão, ela iria pra frente e acertaria o ar. Além disso, a própria ilusão o induz a fazer coisas mais criativas do que dar um soco no ar.
–Você quer combater um transtorno psicológico com outro, Donnie — rebateu Vampiritico — Por exemplo, e se ele imaginar um kit de pintura e pintar a melhor obra de arte da vida dele? Quando o acordarmos, como ele vai ficar ao saber que dedicou tanto tempo pra nada? Você já teve um sonho muito bom e então lamentou ter acordado? É a mesma coisa!
Vampiritico era um dos que mais conheciam Donnie, mas ainda assim não sabia sobre a magia que lutava contra ele, ou algum desses segredos. Foi por pura coincidência que ele atingiu um ponto sensível na confiança quase inabalável do amigo. Ele hesitou um momento, como se realmente estivesse considerando a possibilidade de desistir, mas logo se recompôs. "D" de "Desistir" não era "D" de "Donnie", mas sim de um antigo membro da tutoria.
–Eu sei muito bem o que é isso — ele disse, em um tom mortalmente controlado que assustou ligeiramente os outros — Mas é o melhor que podemos fazer pelo Pizza. Quando ele acordar, eu quero que ele o faça em um lugar feliz, e agradável pra ele. Talvez seja disso que ele precise, e quando mente dele voltar ao normal, ele vai entender e vai poder sair do vidro. Tenho certeza de que, no fundo, você sabe disso.
Ele sabia. Abaixou a cabeça e evitou o olhar de Donnie. Ele estava em desvantagem — todos pareciam achar a idéia boa. Ele próprio também achava, mas tinha medo... e se Pizza, ao descobrir que aquilo tudo era apenas uma ilusão, acordasse ainda pior do que antes? Ele não queria se arriscar.
Ele se lembrou de uma de suas muitas aulas com o mentor, ao ar livre. "Jamais prenda a sua mente", dizia ele. "Não se apegue a padrões ou a 'coisas que todo mundo faz'. Crie o que você quiser. Nada que prejudique ninguém, é verdade, mas seja sempre sincero, principalmente com você mesmo. Enganar a própria mente é um dos maiores erros".
"Enganar a mente era um dos maiores erros..."
Vampiritico levantou a cabeça, tomando uma decisão.
–Não — ele disse com firmeza, olhando bem no fundo dos olhos cor de violeta à frente dele — Sinto muito, Donnie, mas é arriscado demais. Nós podemos colocar alguém vigiando ele, eu mesmo vigio, mas não vou deixar você fazer isso com ele.
Ele se colocou entre eles e a porta do vidro, erguendo os braços em tom de desafio. Donnie o olhou por um momento, então suspirou, desapontado.
–Eu acho que você está errado — ele se virou de costas — Mas não posso culpá-lo. Ele era seu mentor, e você não vai querer arriscar. É que... eu também sinto por ele — a voz dele era de profunda amargura — Eu queria fazer isso de um jeito que fosse bom pra ele, mas já que você não quer...
Vampiritico sorriu, aliviado, e relaxou um pouco. Estava pensando no que dizer para consolar o amigo, dizer que iriam encontrar um jeito mais seguro, quando Donnie se virou.
Sem hesitação ou qualquer grunhido de preparo, ele se lançou para a frente, uma mão fechada ao lado do corpo. Chocou o peito contra o de Vampiritico, acertando-lhe um forte soco no meio da barriga.
–Eu sinto muito por isso — Donnie disse baixinho para o rapaz que encarava o vazio, com os olhos muito arregalados.
–Você... seu...
Vampiritico deu uma tossida fraca, então desabou no chão.
–Davien — Donnie falou com indiferença, como se não tivesse feito nada demais.
O ex-tutor Warrior abriu a pequena porta e colocou Pizza lá dentro com delicadeza, então saiu e colocou o outro garoto desacordado acima do ombro. Poucos segundos depois, o vidro mudou.
Com gemidos de surpresa e espanto, eles viram quando imagens começaram a surgir dentro do globo de vidro. Eram borrões de várias cores, que rodopiavam e dançavam ao redor do corpo do menino lá dentro, mas logo começaram a se estabilizar. Minutos depois, o que tinha lá dentro era uma imagem holográfica de uma linda paisagem verdejante, com montanhas ao fundo e flores de diversas cores por todo o campo.
Tudo isso era uma imagem dentro do globo de vidro, era quase como se aquilo fosse um portal para aquele mundo virtual. Aparentemente, Donnie desfez o que quer que havia feito para desacordar Pizza, porque ele se levantou lentamente e começou a olhar ao redor.
–Caramba! Isso aqui é lindo!
Ele ficou parado no mesmo lugar, olhando em volta fascinado. Quanto mais ele olhava, mas o cenário mudava. Um lago surgiu perto dele, vários peixes pulando alegremente no ar. Uma bando de gaivotas cruzou o céu com seus gritos, e um imenso leão apareceu no meio da planície, encarou o menino por alguns segundos e então correu para longe. Um arco-íris surgiu no céu, seguido de imensas nuvens que pareciam bolas de algodão rosadas flutuando no ar.
Ver Pizza ali, com a boca aberta de felicidade, era uma coisa que doía no coração de todos. Menos no de Davien, que já estava começando a morrer de tédio.
Pizza andou um pouco, arrancando um pedaço de grama e analisando por vários segundos do mesmo jeito que fizera no fórum. Ele voltou a caminhar, e seus passos acompanhavam a circunferência do vidro, ou seja, ele estava quase de cabeça pra baixo, mas não pareceu perceber, como Donnie havia dito. Ele se virou e encontrou um cavalete e vários materiais de pintura. Ele selecionou alguns e começou a pintar as montanhas atrás dele.
–Vai funcionar enquanto ele não souber que isso é uma ilusão — Donnie esclareceu — O que só vai acontecer se eu abrir aquele vidro e falar pra ele.
Ele fechou a porta da sala, deixando Pizza isolado em seu mundo particular. Depois, sem dizer palavra, eles saíram para o fórum.
–Você acha que ele vai se recuperar? — perguntou Nick assim que saíram da seção Fanfic.
Donnie demorou alguns segundos para responder. Era estranho vê-lo ali caminhando com eles — ele sempre estava viajando.
–Ele vai melhorar, sem dúvida. Mas, recuperar por completo... não sei. Acho que ele nunca mais vai ser o mesmo, mas uma coisa eu garanto: ele vai sair de lá muito melhor.
Isso soava bem encorajador, embora ninguém aceitasse nada menos do que Pizza voltar ao normal. Mas precisariam se contentar com aquilo.
–O Pizza eu não sei — Thugles falou de repente — Mas eu sei de um certo tutor Fanart que não vai acordar nada satisfeito.
Eles achavam que ele se referia ao fato de Donnie tê-lo socado e feito o que queria mesmo com os protestos dele, mas o pirata estava lendo a última edição da Tribuna da Floresta, o jornal do fórum. Ele havia pego um exemplar quando estavam na seção Fanfic.
–Deixa eu ver — Nick pegou o jornal da mão dele, e começou a ler o artigo em voz alta.
O Retorno de Pizza: Coincidência?
Todos sabemos que Pizza, nosso amado tutor Fanart está de volta. Mas ele por acaso retornou a cargo? Ele foi bem recebido, sua volta anunciada a nós, fanartistas? Não! Em vez disso, onde está ele?
Nuck não pareceu querer dividir a informação conosco, mas onde o Pizza está agora?
"Eu sinto falta do Pizza", diz Erbengly Barbengiston, um dosarte-finalistas da seção "Ele ensinava muito melhor do que o Vampiritico, que não é ruim, mas mesmo assim..."
Não apenas ele, mas muitos outros sentem a sua ausência. E nos faz levantar uma questão... Será que isso não foi tudo um plano para retirar nosso amado tutor do cargo?
"Eu gosto do Vampy", afirma Lena Bushten, "Não só porque ele é um gatinho, mas porque ele ensina muito bem, e eu gosto bastante das aulas dele. E acho que ele também sente falta do Pizza."
Talvez... Talvez não. Quem poderá nos mostrar a verdade? Nos da Tribuna da Floresta apenas mostramos a versão que temos. Não é nada concreto, mas garantimos mais informações na edição que vem.
–Isso é um absurso! — vociferou Arroiz — Calúnia, difamação, um monte de ofensas e acusações indiretas contra o Vampy!
–Concordo com você! — Thugles retrucou indignado — Isso é um monte de mentiras... o Vampy ainda não largou as fraldas!
–Quem escreveu esse lixo? — quis saber Davien, pegando o jornal das mãos de Nick e procurando o nome do autor — Ah, eu sabia! Aquele vermezinho do Dream...
–Eu vou ter que falar com ele — Donnie suspirou — Não só por causa do conteúdo, porque até que é um pouco da verdade. Mas é a maneira como ele escreve. Não tem organização própria pra um informativo, sem falar nas repetições e na falta de organização das falas. Isso nem de longe se parece com um jornal. Vou dar uma boa bronca nele.
–Você devia expulsar ele de uma vez — Davien sugeriu. Donnie balançou a cabeça — Ah, qual é? O cara não escreve nada que preste, e agora começa a falar do Vampy! Vou dizer o que você devia fazer: chamar ele, colocar outro membro no comando do jornal e levar...
Mas ele se calou com o olhar frio que o rapaz dirigiu a ele.
–Minha missão neste fórum é ajudar os que querem escrever — ele explicou friamente — E não deixar somente os melhores. Em vez disso, eu procuro ajudar os mais incapazes, para que possam se tornar fortes um dia. Se é o que você fazia com os alunos que não dessem conta das tarefas da seção Warrior, está explicado por que você não é mais tutor. Mas não venha me dizer o que eu devo fazer na minha seção, por favor.
Thugles se segurou para não rir, e Davien cerrou os punhos. Tentou parecer sério e desafiador, mas o efeito não ficava muito bom quando se estava com um garoto desacordado nos ombros. Ele não se assustava apenas com olhares feios, mas ele conhecia bem o Donnie. Sabia que ele não era alguém com quem ele gostaria de arranjar briga.
–Bom, eu vou voltar lá pra seção Archer — Sheddeer anunciou, quebrando a tensão entre o grupo — Não temos nada melhor pra fazer aqui, então eu vou arrumar algumas coisas lá. Se forem comer pizza, me chamem. Sem trocadilhos.
Nick se preparou para acompanhá-lo.
–Eu vou também. Está na hora da aula de cura do Nuck. Como não tem ninguém no fórum, ele decidiu continuar as aulas, já que agora ele tem um pouco mais de tempo.
–Sei não — murmurou Arroiz, pensativo — Se tem uma coisa que eu acho que o Nuck não tem, é tempo.
–Ah cara, é Natal! — reclamou Thugles — A gente devia fazer uma festa, com muita pizza, doces, refrigerante e...
Nuck apareceu à frente deles.
–Olá — cumprimentou. Nick e Sheddeer, que conversavam a meio caminho das suas seções, voltaram a se juntar ao grupo — Presentium Allegratium.
–Nã... — Nick arregalou os olhos, mas era tarde demais. A tontura o envolveu e o chão sumiu de repente. Quando voltou, ele se desequilibrou e caiu no chão.
–Nossa! Que magia incrível!
–Ããã...
Nick fez uma careta ao se levantar, a cabeça ainda girando por causa do repentino teletransporte. Presentium Allegratium é um feitiço que teletransporta um grupo inteiro de pessoas perto do conjurador para vários lugares diferentes ao mesmo tempo. Era preciso que a pessoa estivesse pensando onde cada um deveria estar, por isso, quanto mais pessoas, mais difícil era. Era preciso ter bastante poder para conjurar aquela magia, ainda mais com um grupo de mais de cinco pessoas.
O problema era que esse tipo de teleporte deixava as pessoas com uma dor de cabeça quase insuportável.
–Eu odeio essa magia — ele disse, ouvindo o eco da própria voz. Ele provavelmente estava em algum lugar bem amplo, mas não sabia dizer ainda.
–Como você pode dizer isso? Nunca tinha visto um teleporte tão perfeito assim antes... e você é só um garoto! Eu devo ter a mesma idade que você, será que também vou ficar assim? Ah, e prazer, meu nome é Marina.
Nick olhou vagamente para a pequena garotinha de cabelos azuis escuros parada na frente dele. Usava apenas um vestido fino branco por cima dos pés descalços, e quando o garoto finalmente conseguiu focalizar seu rosto, encontrou um par de grandes olhos azuis gentis, as sombrancelhas erguidas em uma expressão de animação e felicidade. De cara, ele simpatizou com ela. Era claramente muito simpática, só de olhar o rosto e ouvir a vozinha doce quando ela falava.
Ele queria tê-la encontrado em outra ocasião, exceto naquele momento onde estava se controlando pra não vomitar em cima do vestido da menina.
–Nick — ele conseguiu dizer, lutando pra não cair. Ele percebeu vagamente que a garota segurou a cabeça dele com as duas mãos.
Ela fechou os olhos e começou a cantarolar em algum idioma ininteligível, quase que um sussurro. Entre as delicadas mãozinhas de Marina, uma luz azul envolveu a cabeça de Nick, e lentamente, ele recuperou o equilíbrio.
–Melhor?
–Nossa, muito melhor! — ele disse espantado. Agora que a dor sumira, percebeu que estava numa das arenas da seção Magician: um enorme aposento circular feito inteiramente de pedra — Você é uma das alunas da aula de cura do Nuck? Bela magia!
–A sua que é legal! — ela lembrou, muito animada — Você tem que me ensinar a teletransportar desse jeito! Eu posso me curar dessa dor de cabeça que ela dá, mas...
Nick ergueu a mão para interrompê-la. Não adiantou.
–Na verdade, eu não sei me teletransportar — admitiu Nick em tom de desculpas — É uma magia do Nuck, Presentium Allegratium. Eu sou bom mesmo e com magias de raio e de gelo.
Isso não diminuiu a animação de Marina.
–Um mago de gelo? Que legal! Eu nunca tinha visto um antes... como você luta? Você grita "Gelo faz... LANÇA!" e coisas assim?
–Eu prefiro não usar palavras mágicas — retrucou ele com um leve sorriso — Você sabe que elas não fazem tanta diferença se você souber mentalizar o feitiço, não é?
Marina fez que sim com a cabeça.
–Eu sei disso! Mas eu gosto de cantar enquanto uso minhas magias, pra dar sorte, sabe. Minha mãe dizia isso... quer dizer, antes de...
Ela baixou o olhar com tristeza. Nick não conseguiu deixar de sentir pena dela. Alguma coisa lhe dizia que, se Marina tivesse seus dois pais ainda vivos, eles não a deixariam ir sozinha até ali, e teriam vindo junto com ela.
–Entendo — ele disse com simpatia, colocando fim ao assunto — Bem, me desculpe, mas não sei se posso ajudar você. Quer dizer, você quer ser clériga, não é? Mas eu não sei nada sobre magias de cura.
Como se respondendo àquela pergunta, Nuck apareceu na sala. Marina o olhou muito animada.
–Meu Deus, essa magia é muito incrível! Você consegue mesmo usar teletransporte com tanta facilidade assim? Como você faz? Será que pode me ensinar?
Nuck olhou para seu tutor com um olhar cheio de perguntas, mas o garoto apenas sorriu e deu de ombros. Nuck olhou pra garota.
–Você foi a única que veio pra aula de cura — ele disse, enquanto ela o olhava muito ansiosa: ele flutuava a meio metro do chão, como sempre gostava de fazer — Eu poderia ensinar você, mas estou muito ocupado com os afazeres do fórum.
Nick sabia bem o que eram os "afazeres" a que ele se referia. Mas Marina achou que fosse apenas as obrigações rotineiras do fórum o olhou cheia de pena.
–Puxa, mas você não tem folga nem no Natal? — ela lamentou, e Nuck fez que não com a cabeça — Quando eu crescer e souber bastante sobre magia, vou ajudar você. Assim você vai poder visitar sua família no Natal! Não tem problema pra mim, já que eu não tenho nenhum parente, então eu poderia ajudar!
Ela falava aquilo cheia de otimismo, mas os dois magos se sentiam muito mal por ela. Marina conseguia enxergar um ponto positivo na perda dos pais, mas aquilo era horrível. Sozinha no mundo, naquela idade... era incrível como ela conseguia se manter animada.
Nuck forçou um sorriso. Não queria desagradar a menina.
–Vai sim, com certeza. Mas ainda falta muita dedicação e treino, por isso, que tal se começarmos agora mesmo?
–Sim, estou pronta!
–Ótimo. Marina, quero que conheça seu professor: Donnie Nirvana.
Nuck sorriu ao vê-la rodear a sala com os grandes olhos ansiosos, procurando uma terceira pessoa ali na sala. Então, tão repentinamente quanto Nuck chegara, ele apareceu.
–BU!
Donnie materializou-se exatamente em frente à menina, que pulou pra trás de susto. O rapaz riu e a segurou pelo braço antes que caísse.
–Eu me chamo Donnie — apresentou-se — Eu já sei que você é a Marina. E não, não sei ler mentes — ele acrescentou antes que ela pudesse perguntar exatamente aquilo — Nuck me contou.
–Você vai me ensinar magias de cura? — ela quis saber, animada. Donnie assentiu.
–Você é de Ellinia, não é? — ele adivinhou, olhando para os longos cabelos azuis que lhe caíam até a cintura.
–Ah, sim! — ela assentiu várias vezes, sorrindo alegremente — Você é um dos primeiros que percebem... meu cabelo é natural assim mesmo, sabe. Não gosto de tinturas, prefiro ele natural.
–E eu também não gosto de lentes — Donnie devolveu o sorriso, percebendo que Marina prestava atenção nos seus olhos cor de violeta — Filhos de Ellinia sempre nascem com alguma cor incomum.
–Falando em Ellinia, eu vi pouca gente que sabe teletransportar que nem você! — ela se lembrou — É muito incrível! Nunca tinha visto um teleporte direito, e hoje eu vi três?
–Por que está impressionada? — ele quis saber, dando um largo sorriso para a menina — Afinal, você vai saber usar essa magia daqui a poucos anos.
Ela se recuperou imediatamente.
–Vou mesmo? — ela perguntou, e Donnie teve vontade de apertá-la. Era muito fofinha. Pra quem entende, ela tinha uma expressão parecia com um emoticon julia**.
–Claro que vai! Mas primeiro, preciso ver se você é capaz de dominar o que é realmente importante. Estou com um corte horrível ardendo muito no meu braço, você consegue me ajudar...?
Ele arregaçou a manga esquerda, e Nick estremeceu ao ver o corte longo e fino que percorria quase todo o braço do rapaz. Não era profundo, mas ele tinha uma sensação estranha... era como se o próprio Donnie o tivesse feito de propósito com uma faca.
Uma aula prática era sempre muito boa, mas aquilo...?
–Tem certeza que é uma boa idéia deixá-la com ele? — ele perguntou em voz baixa, enquanto Marina segurava o braço de Donnie.
Nuck pareceu estranhamente ofendido.
–Claro que sim! Ele é um dos mais capazes que eu conheço, afinal, é um clérigo. Mas ele está um pouco estranho... nunca vi ele tão animado desse jeito.
–Talvez ele seja assim com as crianças — Nick concordou. Ele queria ver o brilho da magia que ela iria usar, mas no segundo seguinte ele não estava mais na sala. Haviam se teletransportado novamente.
Eles estavam agora no topo de um morro solitário. Abaixo deles, a terra se curvava e ondulava em vários outros morros muito mais baixos do que aquele. Tudo era coberto de verde, exceto por uma mancha azul a alguns quilômetros que delimitava um lago.
–Onde estamos? — perguntou Nick, curioso. Pelas árvores ao longe, que ele podia ver um uma dar direções, ele achava que estavam ao sul da floresta Minar. O que foi confirmado pelas próximas palavras de Nuck.
–Aqui é uma parte ao sul de Minar. Eu precisava de um lugar bem isolado pra te ensinar algumas coisas.
Nick o olhou com curiosidade.
–Que coisas?
Mas ele vacilou diante do olhar sério e preocupado do líder.
–Os Black Wings — ele contou, devagar — Eu mandei Sheddeer liderar um grupo de reconhecimento ao redor da região, e o Vampiritico está agora mesmo atualizando e reprogramando as armas fixas, embora não tenha ficado muito feliz quando Donnie o fez acordar. Thugles está vendo se consegue alguns navios piratas pra nos ajudar, e Davien e Arroiz estão indo pra Perion recrutar novos soldados.
Fazia sentido. Nuck não podia se teletransportar para tão longe assim.
–E eu estou aqui sem serviço — Nick resmungou, então se lembrou de uma coisa — Por falar nisso, por que você me levou pra junto da Marina, e não o Donnie?
O bispo conseguiu até dar um leve sorriso ao ouvir aquilo.
–Ah, pois é... — Nick se surpreendeu com o tom de desculpas do bruxo — Eu ia mandar cada um de vocês pros lugares certos, mas acho que ainda não dominei completamente essa magia. Davien foi parar nos estaleiros e Sheddeer na sala de controle. E não sei por que, mas o Thugles caiu dentro da caixa de gordura da cozinha.
Nick riu com vontade, imaginando a cena.
–E quanto a você... — ele continuou, fazendo o garoto ficar sério novamente — Você está aqui por causa do seu desempenho, na última batalha. Foi muito bom — acresentou ele rapidamente ao ver a cara de desapontamento do garoto — Mas é que você, como mago de gelo e de raio, deveria saber umas coisinhas.
–É que ainda sou muito novo — Nick se defendeu, embora soubesse que não adiantaria. Óbvio que Nuck sabia disso.
Para um mago, a magia é como a vida. É sempre bom começar logo quando criança, embora não seja nada recomendável abusar. Nick tinha apenas catorze anos. Nessa idade, o corpo ainda é muito frágil, e pode acabar se machucando ao usar muita magia. Magia não dependia apenas de capacidade e conhecimento de feitiços, nem só de poder mágico. Também envolvia certa resistência física.
Nuck suspirou e olhou para as montanhas à frente e abaixo deles.
–Eu sei disso, mas não temos tempo pra esperar você crescer. Precisamos de todas as nossas forças, e você é o mago mais capacitado em quem confio.
Verdade seja dita, Nick se sentiu muito orgulhoso com o elogio. Mas ainda assim, ele não aceitou totalmente.
–O Donnie é muito mais capacitado do que eu — indagou. A risada de Nuck foi mais seca do que divertida.
–Ele não precisa disso — respondeu.
Ele então se virou para encarar o pequeno garoto. Fechou os olhos e fez tocou a própria testa, depois a de Nick, depois novamente a dele, enquanto murmurava palavras desconhecidas, como as que Marina havia cantarolado. Só que aquilo não era apenas uma musiquinha pra dar sorte. Eram palavras antigas, secretas e cheias de poder.
Um anjo dourado surgiu no céu acima deles. Se é que era possível, ele era menor que Helena uma criancinha de dois anos. Carregava uma bacia cheia de algum líquido dourado, suas asas brilhando com centenas de pontinhos piscando à luz do sol. Era uma cena lindamente poética — Nick não conseguiu deixar de pensar no que Pizza diria — e maravilhosa, mas então o anjo jogou todo o conteúdo da bacia em cima dele, sem cerimônia.
Entretanto, Nick não estava molhado. O que quer que o anjo tivesse jogado nele, o garoto pareceu absorver, e no mesmo instante, ele sentiu algo diferente. Sentiu-se muito poderoso, como se seu poder mágico tivesse triplicado. O anjo e a luz já haviam sumido, mas Nick sentia como se uma aura de poder o estivesse envolvendo.
–Meu Deus — exclamou, olhando as próprias mãos. Sentiu que poderia fazer praticamente o que quisesse — O que é isso?
Nuck olhou para ele com certa estranhez, e Nick não pôde deixar de pensar que ele estava verificando se ele não havia se dissolvido ou coisa parecida.
–Bênção do Sacerdote — explicou Nuck, satisfeito com o resultado — Não é uma Bênção do Bispo, mas ainda assim é muito poderosa, e difícil de ser conjurada. Como você é um mago e tem bastante poder mágico, foi mais fácil.
–Puxa, e o que ela faz? — Nick quis saber, ansioso para usar o que quer que ele tivesse ganho. Ele estava bem animado pra isso, mas tinha medo de conjurar uma bola de neve e seu corpo se derreter ou algo parecido.
Nuck riu.
–Ela não faz nada — replicou o bruxo mais velho, apontando para o imenso espaço de terra que se estendia abaixo do morro onde estavam — É você quem faz. Use alguma magia poderosa, uma que deixaria você cansado só de pensar em usar.
Nuck flutuou até ficar vinte metros acima dele, só por precaução.
–Certo — ele pra si mesmo, olhando fixamente para a frente. Já sabia exatamente qual magia iria usar, e não perdeu tempo.
Nick ergueu os braços para trás, e então os jogou para a frente. À sua volta, um círculo de gelo surgiu aos seus pés, e dele, saíram dezenas de lanças feitas de gelo, em todas as direções. Nuck conjurou uma esfera alaranjada à sua volta bem a tempo de evitar uma delas.
Aquilo, entretanto, não era uma magia que cansasse Nick. Assim que as lanças voaram pelo ar, ele aproveitou o círculo de gelo no chão ao redor dele, o gelo do círculo começou a se erguer até formar uma esfera congelada. Nick então explodiu a esfera, fazendo gelo voar em todas as direções, como agulhas.
Mas aquilo era algo que ele usaria apenas se estivesse cercado de inimigos. Não poderia se arriscar a usar aquilo no meio de um combate no MinarForest sem acertar os outros. A magia da lança, por exemplo, ele teria feito uma linha ao invés de um círculo, para que elas fossem apenas em uma da direção: a dos inimigos.
Ele respirou fundo, e então, lançou um de seus ataques mais mortais. Com um grito que valia mais do que cem palavras mágicas, Nick bateu as duas palmas da mão como em um aplauso.
O ar à frente de Nick pareceu se contorcer em uma incrível ventania. A umidade do ar se convertia em fagulas de gelo, cada uma delas carregada de eletricidade. A nuvem cheia de pontinhos azul-claro foi pra frente, estranhamente pequena naquela imensidão verde, mas intensamente perigosa contra uma massa de monstros que estivessem atacando o fórum.
–Muito bom! — Nuck elogiou quando achou seguro descer. Nick o olhou cheio de animação. Seus olhos estavam determinados e alegres, e ele não tinha uma gota de suor no rosto.
–Essa sua bênção é... uma bênção! — ele comentou, eufórico — Sinto como se pudesse aguentar isso o dia todo! Puxa, Nuck!
–Ela é boa mesmo — concordou o mago — Mas por que parar por aí? Estamos apenas começando!
Nuck o segurou, e os levou até o chão. Às costas deles, estava o morro onde tinham estado segundos antes. À frente deles, um conjunto de rochas que não demoraram a serem congeladas e destruídas por um raio.
–Nada mal. Mas quando são pedras inofensivas, fica fácil. Quero ver o que você faz com isso.
Nuck conjurou quinze anjos como os que o haviam ajudado na batalha: brancos, do tamanho de um ser humano, asas douradas e espadas prateadas. Não eram anjos de verdade, era apenas a luz moldada naquela forma. Não que isso as deixasse menos mortais. Mas sabendo daquilo, Nick poderia atacá-los sem remorsos.
–Deixa comigo — ele olhou desafiadoramente para as figuras aladas. Ele se lembrou de Marina e decidiu brincar um pouco — Gelo faz... LÂMINA!
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Como Vampiritico havia dito que os Black Wings não teriam nenhuma invasão programada para aquele dia, Nuck havia despachado as ordens a eles, seguro de que ninguém saberia que o fórum estava praticamente desprotegido.
Mas se Nuck havia pensado que o espião desconhecido deixaria de agir com o fechamento do fórum(pois seria mais fácil ser descoberto quando ele tinha menos de dez pessoas do que quando tinha milhares), estava errado.
Como se soubessem que não havia quase ninguém para defendê-los, um grupo de Tauros e Córneos disparou o alarme ao chegarem nos dois quilômetros que demarcavam a área de segurança do fórum. Menos de dois minutos depois, Donnie os encarava.
Os monstros pareceram rir do garoto parado à frente deles. Eram duzentos, no mínimo, e parecia haver metade Córneos e metade Tauros, mas não era tanto quanto da última vez. Talvez os Black Wings estivessem sem tropas, já que os milhares de monstros que eles tinham enviado haviam sido completamente massacrados.
"Ou talvez estejam guardando pra verdadeira invasão ano que vem", Donnie pensou.
Ele não perdeu tempo encarando os inimigos como fariam nos filmes. Puxou logo uma flecha etérea e a soltou no primeiro dos monstros. Isso os enraiveceu, e investiram da direção dele. Porém, eles encontraram o vazio, porque um enorme círculo roxo surgiu à frente deles. Mais de vinte monstros, todos Tauros, caíram no infinito, depois o círculo sumiu.
Em seguida, Donnie convocou uma barreira de luz dourada, que impediu os monstros de chegarem perto dele.
"O que... o que estou fazendo?", ele disse pra si mesmo, com os braços erguidos e a cabeça voltada para o chão, a boca torcida em uma careta enquanto lutava para segurar a barreira, que estremecia a cada golpe e choque elétrico dos Tauros.
Ele voltou a sentir uma sensação parecida com a que sentira quando matara todos aqueles Black Wings durante a última invasão: o desejo sádico, sem qualquer compromisso ou objetivo de defender o fórum, mas apenas uma vontade insaciável de matar, estraçalhar e aniquilar quem quer que entrasse em sua frente. Embora, dessa vez, fosse apenas uma sombra do que sentira.
Ele quase havia matado aqueles cinco generais. E agora, a sensação voltou. Aquele círculo de magia que havia acabado de conjurar era um exemplo de magia negra, e ele não estava pensando nele.
A magia estava tentando tomar o controle mais uma vez. E os ataques estavam cada vez mais frequentes — tanto dos Black Wings ao MinarForest, quanto à magia no próprio Donnie.
Por um momento fugaz, ele sentiu medo. Será que nunca mais poderia lutar? Será que teria que ficar isolado para sempre, sem poder usar magia, com medo de que a que usava o dominasse?
A magia dominando-o. Foi esse pensamento que o fez desfazer a barreira, e lançar uma onda de luz que cegou os monstros.
–VOCÊ NÃO VAI ME DOMINAR OUTRA VEZ! — ele berrou ensandecido, concentrando-se apenas nas magias de luz.
Como já disse, poucos no fórum conheciam a história de Donnie Nirvana. Para a maioria das pessoas, ele era um clérigo muito fechado e calado, que ficava trancado durante horas lendo — e escrevendo — livros, ou então viajando para coletar informações. Mas eram pouquíssimos os que sabiam da maldição que ele carregava.
Uma maldição que nem o próprio Donnie compreendia por completo.
Ele sempre teve medo que a magia o dominasse. Geralmente, os magos fazem dessa maneira: deixam a magia dominar seus corações, aliando-se a ela, deixando-a penetrar sua alma. Mas ele jamais quis isso. Ele queria controlar a magia, e não que ela o controlasse. E ironicamente, ele tinha uma magia negra dentro dele que ameaçava tomar o controle sempre que ele se exaltava.
Donnie sempre se controlou desde... a última vez, em Orbis. Mas aquilo havia sido há tanto tempo... ele sempre conseguiu se controlar depois disso. Por que agora seu controle estava começando a falhar?
A verdade era que ele não sabia o que era aquela tal magia, e nem por que ela estava lá dento dele. Mas ele continuava ali no MinarForest ao invés de sair procurando alguma explicação, por causa de Gui.
O homem com a venda nos olhos que sempre ficava no Mercado Livre. Ele sempre parecia saber algo sobre ele. Donnie até agora não entendia exatamente aquilo, mas um dia, o homem fora procurá-lo, dizendo que tinha informações sobre seu passado. Ele começou a falar algumas coisas: sobre uma casa em Ariant, os bandidos da areia uma cidade dominada pelo mal...
E sempre que ele dizia aquelas coisas, a mente de Donnie dava um estranho delay, era como se seu cérebro soubesse que aquilo tudo era verdade. Desde então, ele seguia à risca os conselhos e viagens que Gui o mandava fazer, embora nunca soubesse como o homem havia descoberto sobre ele.
Donnie havia conseguido se manter por vários anos. Agora ele estava ali enfrentando uma tropa inteira de monstros vindo de um lugar que ele havia sofrido. E ameaçavam o lugar onde ele sempre encontrara proteção, força e amigos para lhe dar tapas nas costas.
Eram esses pensamento que o impediam de cair nas trevas. Ele usava a magia que fora treinado para usar, a magia divina, embora ela sempre fosse mais estranha. A luz usava pelos clérigos era dourada e branca, e embora fosse agradável, era uma luz muito forte e iluminante. Mas a de Donnie jamais tinha sido assim. A dele era de um dourado escuro, que tinha seu próprio brilho deslocado.
Claro, isso não tornava a magia dele pior do que a dos outros clérigos. Taurolanças, Tauromacis e Córneos eram testemunhas disso. Eram.
Os Tauros lançavam raios contra Donnie, mas ele havia conjurado três anjos que usavam as espadas como pára-raios sempre que tentavam. Já os Córneos, armados com duas espadas, investiam rapidamente para a frente, mas o rapaz estava preparado. Atirava com suas flechas etéreas, e quando algum deles chegava perto demais, ele envolvia seu cajado com uma luz que era forte como uma lâmina, e a usava como espada.
A luta continuou por mais alguns minutos até ele derrotar todos. Ofegante e muito cansado, ele se ajoelhou.
"Perdendo o jeito, hein?", pensou ele, sorrindo para o chão. Quando se preparava para retornar ao fórum, entretanto, ouviu gritos.
Ele se virou e deu com os trinta e cinco membros da Guarda Oficial do MinarForest. Donnie franziu a sombrancelha ao vê-los. Havia se esquecido completamente de que estavam ali.
–Pô cara, nem pra deixar alguns pra gente! — reclamou um dos cinco veteranos, os que haviam lutado junto com ele durante o último ataque.
–Culpa de vocês, viessem me ajudar mais cedo! — ele devolveu, rindo das caras desapontadas mas ao mesmo tempo aliviadas. Podiam gostar de combater, era verdade, mas não ficavam felizes com uma invasão.
–Não, eu acho que a gente veio bem na hora certa — disse um outro veterano, olhando para o céu e preparando sua espada.
Eles se viraram e viram o prato principal. Eram apenas trinta ou quarenta deles, mas não eram Tauros nem Córneos.
Eram humanos.
Com as espadas e cajados claramente à mostra, os homens se aproximaram surgindo do horizonte. Usavam as costumeiras roupas pretas com botões dourados e o seu chapéu inconfundível. Estavam em formação de ataque e avançavam sem pressa.
–Em formação! — ordenou o homem que ralhara com Donnie. Os outros guerreiros juntaram-se em fileiras de cinco.
–Eu estava brincando aquela hora — o homem disse olhando para o rapaz solitário ao lado dele — Pode usar alguma magia pra detê-los se quiser. Eles também parecem ter magos.
Mas Donnie não respondeu. Nem sequer pareceu ouvir. Aquelas tropas marchando daquele jeito... era diferente. Quando o fórum foi atacado antes, eles já estavam em formação prontos para lutar. Mas agora, eles marchavam, ainda à distância.
Ele imaginou a areia substituindo a terra, e casas de tijolos construídas de maneira organizada dos dois lados da tropa... pronto. Era mais uma lembrança. Donnie tinha certeza de que, em algum lugar de Ariant, ele vira uma tropa de Black Wings marchar quase exatamente daquele jeito. Mas ele não conseguia lembrar...
Com gritos de guerra, a guarda oficial correu para atacar os invasores, mas alguma coisa dizia a Donnie que não era uma boa idéia. Ele tentou se lembrar do que era... e então a imagem atingiu sua mente com a força de um trasgo desembestado.
Anos atrás, um lugar muito longe dali. Sete Black Wings batendo os cajados na areia. O chão se abrindo, e pilares de luz negra surgindo das aberturas, bem no meio de uma massa de guerreiros de roupas leves, raios negros saindo por todo o lado, massacrando a todos, enquanto os gritos ensurdeciam os atacantes, que tinham olhares frios e deliberados...
Donnie olhou para a tropa com os olhos arrelagados. Ele pôde ver claramente alguns dos Black Wings erguerem os cajados. Eles o bateram no chão...
Mas logo a expressão indiferente de sete homens ficou gratadivamente surpresa. Eles bateram os cajados mais uma, duas vezes. O chão tremia, mas fora isso, nada aconteceu.
–PAREM DE OLHAR PRA MIM E LUTEM! — Donnie gritou para os homens que haviam parado para olhá-lo. O chão havia começado a tremer(eram os pilares se preparando para sair da terra), mas nada aconteceu.
Entretanto, parar toda aquela magia sozinho foi demais. Donnie estava caído em um estado de semiconsciência, contorcendo-se no chão e gritando como um louco. Mas ele teria que esperar. Os dois lados da batalha haviam acabado de se encontrar.
Para convocar aquela poderosa — e um tanto covarde — magia dos pilares, gastava bastante poder, e os magos Black Wings estavam quase esgotados. Com Donnie a situação era parecida, só que... ele havia usado magia negra para segurar outra magia negra. Quando ele usava esse tipo de magia, ele se sentia bem, era como... como um viciado que estivesse uma semana longe da droga. Quando ele consegue um pouco, sente-se muito bem, mas então vêm os efeitos colaterais porque, afinal, é uma droga. Era quase exatamente a relação entre Donnie e aquela magia negra.
Resumindo, ele não poderia ajudar na batalha.
A luta não era justa. Os Black Wings, por mais treinados que fossem, não esperavam tanto da Guarda Oficial, já que haviam sido informados de que eram inúteis, e que um deles havia até morrido por um Wyvern naquele dia. Mas agora, era diferente.
Eles não estavam enfrentando um bando de inimigos que voavam e ficavam fora do alcance. Eles estavam enfrentando um número quase idêntico de seres humanos armados, mas em terra. Seria um combate de igual pra igual, sem truques, mas a Guarda estava em vantagem pelo maior treinamento.
Nenhum homem da Guarda Oficial morreu ou foi gravemente ferido naquele dia. Não era coincidência que três dos cinco veteranos que Donnie havia escolhido para lutar com ele eram conhecido como Espartanos.
O principal objetivo deles era vencer a luta com a menor perda de soldados possível. Isso exigia que um soldado mantivesse os olhos no outro, e se concentrasse em mais de um inimigo ao mesmo tempo. Não era muito sensato, mas com o passar dos anos, a técnica se trona automática. Aqueles trinta e cinco guerreiros não foram selecionados por acaso.
Depois do ataque dos Wyverns, eles haviam passado horas discutindo técnicas e estratégias de combate entre eles. Cada guerreiro vigiava a si mesmo e o homem à sua direita, ou esquerda dependendo dele ser destro ou canhoto. Dessa forma, sempre que um era ferido, seu "vigia" rapidamente o ajudava, para que ele pudesse ser tirado dali em segurança.
Naquela luta, apenas dois precisaram sair do combate, um com um corte no braço, o outro, com um ferimento ao lado da barriga. Nenhum dos dois era grave, mas sangravam bastante. E os outros membros da guarda tinham certeza de que poderiam lidar com o resto.
Finalmente, restavam apenas nove Black Wings, em formação de linha defensiva. Três deles pareciam incapazes de continuar a lutar. Decidindo que poderia evitar mais mortes, um dos líderes da Guarda deu ordem para suas tropas recuarem.
Eles ficaram se encarando, os trinta e três guerreiros e os nove atacantes restantes. Não tremiam, mas estavam claramente com medo. Eram homens que não exatamente se acovardavam, mas sabia que não poderiam vencer aquela luta. Havia corpos de mais de cinquenta colegas ao lado deles, e eles não haviam conseguido derrubar nenhum.
–Vocês lutam mal pra caramba — debochou o general, acompanhado de risos dos colegas. Os Black Wings não se moveram — Mas nós vamos lhes dar uma chance: Virem-se agora mesmo e voltem para o lugar sujo de onde vieram. Se insistirem... não vamos ter misericórdia.
Os atacantes não disseram nada, apenas olhavam nervosamente para a tropa quase completa à frente deles, mais ainda, para os cinco generais à frente. Os rostos duros e cobertos de cicatrizes não demonstravam nenhuma hesitação. De uma coisa era certa: se ficassem ali, iriam morrer antes mesmo de conseguir dar três golpes.
Realmente, aquela não havia sido a melhor invasão deles. Mas afinal, os Black Wings não eram uma organização do mal perfeita que causava temor sempre que atacavam. Eles também erravam. Só que daquela vez, erraram feio.
Eles hesitaram, e então os generais deram um passo à frente, as armas prontas. Foi o suficiente para eles. Decididos, eles se viraram e voltaram para o norte, quase correndo, ouvindo os gritos e vaias por parte das tropas.
Mas a corrida foi interrompida por uma figura que apareceu do nada à frente deles.
–Nenhum de vocês sai vivo daqui — disse a voz fria de Donnie Nirvana, as roupas rasgadas como se ele tivessem sido rasgadas por um animal, os olhos violeta cintilando com uma luz assassina. Decidindo que qualquer quantidade de guardas do MinarForest seria mais segura do que aquele cara, que sozinho havia parado uma magia de sete pessoas e agora os olhava cheio de ódio, eles quiseram dar meia-volta, mas era tarde demais.
O meio círculo roxo-escuro na direção dos pescoços deles foi a última coisa que eles viram na vida.
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