Mil Milhas de Tensão
6 O Horizonte de Pajuçara
Depois do "show" de autoridade de Ji-hoon, o clima entre os dois ficou carregado de uma energia nova. Antonella não parava de sorrir, e Ji-hoon, embora tentasse manter a cara séria de executivo, estava secretamente satisfeito por ter afastado o gringo.
— Para compensar o seu estresse de "máfia coreana", vamos fazer o passeio de verdade — Antonella disse, apontando para as jangadas coloridas que balançavam suavemente perto da orla. — As piscinas naturais nos esperam.
Eles subiram na jangada de um dos conhecidos de Antonella. Ji-hoon olhava para o fundo da embarcação de madeira com uma mistura de fascínio e dúvida.
— Isso é... seguro? — ele perguntou, segurando na borda enquanto o jangadeiro começava a empurrar o barco com a vara de bambu.
— Mais seguro que o seu jatinho particular, pode apostar — ela brincou, sentando-se ao lado dele.
Conforme se afastavam da areia, a cor da água mudava de um verde esmeralda para um azul turquesa transparente. Quando chegaram às piscinas naturais, o mar batia apenas na cintura. Eles desceram da jangada e, por um momento, parecia que estavam sozinhos no meio do oceano.
— É inacreditável — Ji-hoon murmurou, olhando os peixinhos coloridos nadando ao redor de suas pernas. — Eu já viajei para as Maldivas, para a Riviera Francesa... mas nada tem essa energia. É como se o mundo tivesse parado.
— É o efeito Maceió, Ji-hoon — Antonella se aproximou, deixando a água envolver os dois. — Aqui o tempo não é dinheiro. O tempo é vida.
Ji-hoon a puxou pela cintura, aproximando seus corpos sob a luz clara do sol. Ele olhou nos olhos dela e, pela primeira vez, a sombra da volta para a Coreia apareceu em seu rosto.
— Antonella... — ele começou, a voz mais baixa. — Meus dez dias estão acabando. Em quarenta e oito horas, eu volto a ser o vice-presidente da Kang Corp. Volto para as reuniões, para o gelo de Seul e para as expectativas do meu pai.
Antonella sentiu um aperto no peito, mas manteve o sorriso.
— Eu sei. O pinguim precisa voltar para o iceberg dele.
— O problema — ele disse, colando sua testa na dela — é que eu não acho que caibo mais naquele iceberg. Não sem você para me lembrar de como é a sensação do sol na pele.
Ali, no meio do mar de Pajuçara, o beijo que trocaram foi doce e urgente ao mesmo tempo. Era uma promessa silenciosa de que as mil milhas de distância que estavam por vir não seriam páreo para a tensão que eles construíram em Alagoas.
O momento mágico no meio do mar de Pajuçara foi brutalmente interrompido por um som que parecia um alarme de incêndio no meio de uma catedral: o toque personalizado do celular de Ji-hoon. Mesmo dentro da bolsa impermeável, o aparelho vibrava com uma urgência que só uma pessoa no mundo ousaria ter.
Ji-hoon travou. Ele conhecia aquele toque. Era a linha direta da presidência em Seul.
Ao abrir a bolsa e ver o nome "Pai" na tela, o rosto de Ji-hoon mudou instantaneamente. O brilho relaxado sumiu, dando lugar à máscara de herdeiro que Antonella tanto detestava. Ele atendeu, falando em um coreano rápido, seco e carregado de uma reverência que parecia mais medo do que respeito.
Antonella ficou ali, com a água pela cintura, observando a transformação. Ji-hoon nem parecia o mesmo homem que, horas atrás, estava rindo e comendo cuscuz.
— Entendo... sim, senhor... eu estarei lá — foram as únicas palavras que ela conseguiu identificar pela entonação.
Quando ele desligou, o silêncio que se seguiu foi pesado. O jangadeiro, percebendo o clima, começou a preparar a volta para a areia.
— Ele descobriu? — Antonella perguntou, a voz calma, mas firme.
— Ele sabe de tudo — Ji-hoon disse, guardando o celular com as mãos levemente trêmulas. — Sabe que eu não estou no retiro em Jeju, sabe que estou no Brasil e... — ele hesitou, olhando para ela — ...sabe que estou com você. Alguém da equipe de segurança em Seul rastreou meus gastos. Meu pai está furioso. Ele disse que eu estou manchando a imagem da família agindo como um "turista irresponsável".
— Irresponsável por querer viver dez dias da sua vida? — Antonella cruzou os braços, a indignação subindo.
— Para ele, o tempo de um Kang pertence à empresa. Ele enviou o jato particular. Ele pousa no aeroporto de Maceió em seis horas. Eu não tenho quarenta e oito horas, Antonella. Eu tenho que ir agora.
O trajeto de volta para a areia foi regido por uma tensão insuportável. Ao pisarem no chão firme, o carro oficial já estava parado na calçada, com o motorista coreano de terno preto pronto para levá-lo.
Ji-hoon parou diante dela, o sol de Maceió ainda brilhando, mas ele já estava envolto na sombra de Seul.
— Ele acha que você é uma distração — Ji-hoon disse, segurando o rosto de Antonella com força. — Mas ele está errado. Você foi a única coisa real que aconteceu na minha vida em vinte e seis anos.
— E o que você vai fazer? — Antonella perguntou, os olhos marejados. — Vai voltar e pedir desculpas por ter sido feliz?
— Eu vou voltar porque eu preciso proteger o que nós temos. Se eu não for agora, ele vai tornar a sua vida um inferno, e eu não vou permitir isso. Mas escute bem: mil milhas não são nada perto da distância que eu já percorri para te encontrar.
Antes de entrar no carro, ele tirou do bolso uma caneta de ouro com o emblema da família e colocou na mão dela.
— Guarde isso. É a garantia de que o pinguim vai voltar para buscar o que deixou no sol.
O carro arrancou, deixando para trás apenas o rastro de poeira e o som das ondas. Antonella ficou ali, sozinha no calçadão, sentindo o peso da caneta na mão e o vazio súbito no peito. O herdeiro tinha partido, mas a guerra entre o dever e o desejo estava apenas começando.
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