Mil Milhas de Tensão

7 Fuso Horário do Coração


Em Maceió, o sol estava começando a se pôr, tingindo o céu de Pajuçara com aquele tom de rosa que eles viram juntos. Antonella estava sentada na areia, observando o mar e segurando a caneta de ouro que ele deixou, sentindo um vazio que nem a brisa marinha conseguia preencher.

Do outro lado do mundo, em Seul, eram seis da manhã. Ji-hoon estava em seu escritório no 50º andar, cercado por papéis, relatórios e a pressão gélida de seu pai, que exigia foco total na próxima fusão. Mas ele não conseguia ler uma única linha. O cheiro de café caro o fazia lembrar do cheiro de água de coco, e o silêncio da sala o fazia sentir falta das risadas altas da família Mascarenhas.

Sem conseguir aguentar mais um minuto de fingimento, ele pegou o telefone pessoal e discou.

— Alô? — a voz de Antonella veio baixa, carregada de surpresa.

— Eu não consigo — Ji-hoon disse, sem nem ao menos dizer oi. A voz dele estava rouca, despida de qualquer autoridade executiva. — Eu estou em uma reunião de diretoria, cercado pelas pessoas mais influentes da Ásia, e a única coisa que eu consigo pensar é na areia que ficou no meu sapato e no gosto daquela tapioca de coco que você me deu.

Antonella soltou uma respiração que nem sabia que estava segurando, um sorriso triste e aliviado surgindo em seu rosto.

— Ji-hoon... você deveria estar focado no seu império. Seu pai vai te matar se souber que você está ligando para o Brasil agora.

— Que ele mate — ele rebateu, e Antonella pôde ouvir o som de uma cadeira de couro girando. — Ele pode controlar minhas ações, meu horário e meu sobrenome, mas ele não controla o que eu sinto. Antonella, eu passei vinte e seis anos sendo um robô programado para o sucesso. Mas em dez dias, você me desmontou por completo.

Houve uma pausa longa, onde apenas o chiado da ligação internacional preenchia o espaço entre Seul e Maceió.

— O que você está dizendo, "pinguim"? — ela sussurrou.

— Estou dizendo que estou apaixonado por você — a confissão saiu pesada, real e definitiva. — Eu não consigo te esquecer. Eu fecho os olhos e vejo você rindo do meu buggy morrendo na duna. Eu abro os olhos e este escritório parece uma prisão de vidro. Eu não sei como vamos resolver isso, ou como vou enfrentar meu pai, mas eu precisava que você soubesse: o herdeiro da Kang Corp se perdeu em Maceió e não quer ser encontrado.

Antonella sentiu uma lágrima solitária escorrer. O homem mais difícil do mundo tinha acabado de se entregar.

— Eu também não consigo te esquecer, Ji-hoon. A minha casa ficou silenciosa demais sem você tentando entender o que é um espeto de carne.

— Espere por mim — ele pediu, com uma urgência que fez o coração dela disparar. — Eu vou dar um jeito. Eu sempre dou um jeito nos negócios, e você é o melhor investimento que eu já fiz na vida. Não suma, Mascarenhas.

Uma semana após a ligação, Antonella estava saindo da faculdade de Psicologia, com a cabeça cheia de teorias sobre comportamento humano, quando viu um entregador de terno parado ao lado de sua bicicleta. Ele segurava um envelope preto fosco com um selo de cera dourado — o emblema da família Kang.

Ao abrir, ela não encontrou uma carta de amor tradicional, mas algo muito mais prático e audacioso: um cartão magnético preto e um itinerário de voo em seu nome, com data aberta e assento na primeira classe.

No verso do cartão, uma letra elegante e firme dizia: "Para que as mil milhas sejam apenas um detalhe. Escolha o final de semana. O jatinho estará te esperando em Recife ou o voo comercial sairá de Maceió. Eu não aceito um 'não' como resposta. — J."

...

Três semanas depois, Antonella estava atravessando o portão de desembarque do Aeroporto de Incheon, em Seul. O choque térmico foi imediato — o ar gelado da Coreia era o oposto do mormaço de Alagoas. Ela usava um casaco pesado que Ji-hoon tinha enviado previamente, mas ainda se sentia deslocada naquele cenário cinza e ultra-tecnológico.

Até que ela o viu.

Ji-hoon não estava em um carro luxuoso esperando do lado de fora. Ele estava parado ali, no meio da multidão, vestindo um sobretudo longo e escuro que o deixava com cara de protagonista de drama coreano. Quando seus olhos se encontraram, a postura rígida de executivo dele quebrou.

Ele caminhou rapidamente até ela e, sem se importar com os fotógrafos de tabloides que viviam caçando deslizes do herdeiro, ele a tirou do chão em um abraço apertado.

— Você veio — ele sussurrou contra o cabelo dela, sentindo o cheiro de um perfume que o levava direto para a orla de Pajuçara.

— Eu disse que queria ver se você era tão bom anfitrião quanto eu — Antonella brincou, mas seus olhos brilhavam. — Mas já vou avisando: se aqui não tiver nada parecido com cuscuz, eu volto no próximo voo!

Ji-hoon riu, um som que parecia estranho naquele aeroporto tão sério.

— Eu mandei importar farinha de milho e carne do sol em um contêiner refrigerado, Mascarenhas. Minha cozinha nunca mais foi a mesma.

Eles saíram do aeroporto de mãos dadas, sob os olhares curiosos de Seul. Ji-hoon tinha montado um esquema de "visitas mensais". Ele pagaria todas as passagens, organizaria os horários e, em troca, ela traria um pouco de cor para a sua vida cinzenta. Era uma solução cara, absurda e completamente apaixonada.

Mas, enquanto entravam no carro, Antonella viu pelo retrovisor um veículo preto seguindo-os de longe. Ela sabia que o pai dele não ia desistir fácil, mas olhando para Ji-hoon ao seu lado, ela percebeu que a "tensão" agora tinha um novo significado: era a força que os mantinha unidos, não importa o fuso horário.

Essa proposta é o passo definitivo para o Ji-hoon tentar unir os dois mundos de vez! Ele não quer mais apenas visitas; ele quer que a Antonella faça parte da vida dele no dia a dia. Mas, para uma mulher livre como ela, aceitar isso significa mudar tudo.

Aqui está o desenrolar desse convite:

O apartamento de Ji-hoon em Seul era um monumento ao minimalismo e à tecnologia, com uma vista de tirar o fôlego para o Rio Han. Mas, naquela noite, o ambiente estava diferente. O som de uma playlist de MPB baixinha preenchia a sala, e o cheiro de café (que ele agora fazia questão de preparar do jeito que ela gostava) trazia um calor humano que aquele lugar nunca teve.

Eles estavam sentados no parapeito da janela imensa, observando as luzes da metrópole. Antonella usava um moletom dele, que ficava enorme nela, e segurava uma xícara quente entre as mãos.

— Dez dias não são suficientes, Antonella — Ji-hoon começou, sem tirar os olhos das luzes da cidade. Sua voz tinha uma seriedade que não era de negócios, mas de alguém que estava expondo o coração. — Toda vez que você entra naquele avião para voltar, sinto que uma parte do que eu me tornei vai embora com você.

Antonella suspirou, encostando a cabeça no ombro dele.

— Eu também sinto isso, "pinguim". Mas a minha vida, meus estudos, meu estágio... tudo está lá, no mormaço de Maceió.

Ji-hoon se virou para ela, segurando suas mãos com firmeza.

— Eu estive pensando. Não quero mais que você seja uma visita no meu calendário. Eu quero que você fique. Eu andei pesquisando... a Universidade Nacional de Seul tem um dos melhores programas de intercâmbio e graduação em Psicologia do mundo. Eu posso conseguir a transferência para você terminar seus estudos aqui. Você teria os melhores professores e uma experiência internacional única.

Antonella abriu a boca para falar, mas ele continuou, a urgência brilhando em seus olhos escuros.

— E não é só isso. A Kang Corp está abrindo uma nova divisão de RH focada em bem-estar e psicologia organizacional. Eu quero que você venha trabalhar comigo. Não como "namorada do herdeiro", mas como a profissional brilhante que eu sei que você é. Você me ajudaria a mudar a cultura dessa empresa, a ensinar essas pessoas a... como você disse? A respirar.

O silêncio caiu sobre a sala. Antonella olhou para as luzes de Seul e depois para o homem ao seu lado. O convite era tentador: uma carreira brilhante, estudos de alto nível e o homem que ela amava. Mas ela sabia o que isso significava.

— Ji-hoon... você está me pedindo para trocar o meu sol pelo seu gelo — ela disse, com a voz embargada. — Você sabe que o seu pai nunca aceitaria isso. Ele me veria como uma infiltrada. Se eu vier, vai ser uma guerra.

— Então que seja a nossa guerra — ele respondeu, aproximando o rosto do dela. — Eu passei a vida fugindo de conflitos com ele. Mas por você, eu transformo Seul inteira em um campo de batalha. Eu não quero que você mude por mim, Antonella. Eu quero que você mude comigo.

Antonella olhou para a caneta de ouro que ele lhe dera em Maceió, que agora estava sobre a mesa de centro. Ela percebeu que a viagem no avião nunca terminou de verdade; eles ainda estavam cruzando oceanos um pelo outro.

— Você tem certeza de que aguenta uma psicóloga alagoana bagunçando o seu império todos os dias? — ela perguntou, com um sorriso desafiador e os olhos cheios de lágrimas.

Ji-hoon sorriu, aquele sorriso raro que só ela conseguia arrancar.

— Eu conto com isso.

Notas finais
MEU DEUS! 😱💖 O Ji-hoon jogou pesado! Ele quer a Antonella em Seul, estudando na melhor universidade e trabalhando ao lado dele. É o sonho de qualquer dorama, mas a gente sabe que na "vida real" dessa fanfic, o Papai Kang vai ter um surto quando souber desse plano!