A mesa do jantar na casa dos Mascarenhas não tinha a mesma alegria de antes. O cheiro do café com cuscuz ainda estava lá, mas o silêncio era pesado. Antonella tinha acabado de soltar a "bomba": a proposta de Ji-hoon. Ela contou sobre a transferência para a universidade em Seul e o cargo na Kang Corp.

O pai dela, que estava com a caneca de café na mão, colocou-a sobre a mesa com um barulho seco.

— Coreia, Antonella? — ele perguntou, a voz carregada de uma decepção que doeu mais que qualquer grito. — Você quer atravessar o mundo para viver em um lugar onde não conhece ninguém, não fala a língua direito e onde a família desse rapaz nos olha como se fôssemos nada?

— Pai, eu falo a língua, eu estudei lá! E o Ji-hoon está me dando todo o apoio... — Antonella tentou argumentar, mas sua mãe a interrompeu com um olhar preocupado.

— Apoio de quem, minha filha? De um namorado? — a mãe questionou, segurando a mão de Antonella. — Homem é homem em qualquer lugar do mundo, mas lá você não tem sua tia para correr se precisar, não tem seus irmãos se algo der errado. Você vai estar na casa deles, sob as regras deles. Se esse rapaz decidir que não te quer mais lá, você fica à mercê de quem?

Seus irmãos, que costumavam brincar com tudo, estavam sérios. O mais velho cruzou os braços.

— A gente viu como ele é, Bella. Ele é legal, mas o mundo dele é diferente. Aqui você é a Antonella Mascarenhas, futura psicóloga respeitada. Lá, você vai ser "a protegida do herdeiro". Você realmente quer trocar sua independência por uma vida de luxo onde você é a estrangeira que ninguém quer por perto?

— Não é sobre luxo! — Antonella exclamou, sentindo as lágrimas arderem. — É sobre uma oportunidade profissional incrível e sobre estar com o homem que eu amo. Ele quer mudar a empresa, ele quer minha ajuda.

— Ele quer um pedaço do Brasil para não se sentir sozinho naquela redoma de vidro dele — o pai sentenciou, levantando-se da mesa. — Eu não acho uma boa ideia. É um salto no escuro sem paraquedas. Você é jovem, tem um futuro brilhante aqui. Não jogue tudo para o alto por um conto de fadas que pode virar pesadelo assim que você pisar naquele aeroporto.

Antonella olhou para a família. Ela entendia o medo deles; era o medo do desconhecido, o medo de perder a "alegria da casa" para um país frio e distante. Pela primeira vez, a proposta de Ji-hoon, que parecia um sonho em Seul, começou a pesar como uma âncora em Maceió.

Ela subiu para o quarto e olhou para a janela, vendo o balanço dos coqueiros lá fora. O celular vibrou. Era uma mensagem de Ji-hoon: "Já sinto falta do seu barulho. Mal posso esperar para ter você aqui todos os dias."

Ela sentiu o coração dividido ao meio. De um lado, o amor e a carreira dos sonhos. Do outro, o apoio incondicional e o calor das suas raízes.

Essa tensão que se arrasta por dias é muito real. Não é uma decisão que se toma em um jantar, especialmente em uma família unida como a da Antonella. O clima na casa mudou; o café da manhã ficou silencioso e cada olhar do pai dela parece um pedido mudo para ela não ir.

Aqui está o desenvolvimento desse embate emocional:

Os dias que se seguiram foram os mais longos da vida de Antonella. A proposta de Ji-hoon não era mais um segredo, era um elefante na sala. Em Maceió, o sol continuava a brilhar, mas dentro da casa dos Mascarenhas, o clima era de despedida antecipada — ou de resistência.

— Você já pensou no frio, Antonella? — a mãe perguntou enquanto dobravam as roupas, uma conversa que já tinham tido dez vezes. — Você reclama quando o ar-condicionado da sala está no vinte. Lá neva. Você vai ficar trancada em prédios de vidro.

— Mãe, eu aguento o frio. O que eu não sei se aguento é ficar aqui pensando no "e se" — Antonella respondeu, tentando manter a calma.

...

Na terceira noite de discussões, o pai de Antonella a chamou para a varanda. Ele estava sentado na mesma cadeira onde Ji-hoon tinha enfrentado o "interrogatório".

— Eu não dormi direito pensando nisso, Bella — ele começou, a voz cansada. — Eu passei a vida toda trabalhando para que você e seus irmãos tivessem voz. Para que ninguém nunca mandasse em vocês. Minha preocupação não é a distância... é que lá, você vai ser "a namorada do dono". Se ele for um bom homem, ótimo. Mas se ele não for? Você vai estar em um país onde a lei é dele, o dinheiro é dele e até o ar que você respira vai ser pago por ele. Isso não é vida para uma mulher como você.

— Pai, o Ji-hoon me respeita. Ele quer que eu trabalhe na empresa, que eu termine minha faculdade com o meu mérito...

— Ele pode querer agora, minha filha. Mas e a família dele? — o pai insistiu. — A gente viu nos jornais quem é o pai dele. Aquele homem é um tubarão. Ele vai te engolir viva só para proteger o sobrenome deles. E a gente não vai estar lá para te defender.

...

Enquanto isso, em Seul, o fuso horário torturava Ji-hoon. Ele percebeu que as mensagens de Antonella estavam curtas, hesitantes. Ele sabia que a família dela era o ponto central da sua vida. No 50º andar da Kang Corp, ele olhou para o itinerário da sua próxima viagem de negócios e tomou uma decisão drástica.

Ele ligou para ela tarde da noite.

— Antonella, eu ouço o peso na sua voz daqui — Ji-hoon disse, assim que ela atendeu. — Seus pais ainda acham que eu sou o vilão que vai te sequestrar para uma torre de marfim?

— Eles estão com medo, Ji-hoon. E, honestamente? Eu também estou um pouco. Eles acham que eu vou perder minha identidade lá.

Houve um longo silêncio do outro lado.

— Eu não quero que você venha fugida, Antonella. E não quero que você venha sem a benção deles. Eu vou fazer o seguinte: eu vou voltar. Não para férias, mas para conversar com seu pai de homem para homem, com um documento de compromisso, se for preciso. Eu vou mostrar para eles que você não vai ser minha "protegida", mas minha parceira.

Antonella sentiu o coração disparar. O herdeiro estava disposto a cruzar o mundo de novo, apenas para enfrentar o sogro na varanda de Maceió.

— Ji-hoon, meu pai é teimoso...

— E eu sou um Kang, Antonella. Eu não aceito perder o que é mais valioso para mim.

A tela do tablet estava apoiada em cima da mesa de cuscuz. De um lado, no mormaço de Maceió, o pai de Antonella — o Sr. Mascarenhas — com sua regata e o semblante fechado. Do outro, no frio da madrugada de Seul, Ji-hoon vestia um terno impecável, mas tinha o nó da gravata frouxo, sinalizando que aquela era a conversa mais importante do seu dia.

Antonella estava na cozinha, com o ouvido colado na porta, o coração saindo pela boca.

— Sr. Mascarenhas — começou Ji-hoon, fazendo uma reverência formal diante da câmera, o que surpreendeu o pai dela. — Eu sei que o senhor não me vê como a escolha ideal para a sua filha. O senhor vê a minha conta bancária, o meu sobrenome e a distância, e sente medo por ela. Eu respeito isso. Um homem que não protege a própria família não é um homem de verdade.

O pai de Antonella cruzou os braços, observando o rapaz pela tela.

— Você fala bonito, rapaz. Mas palavras o vento leva daqui até a Coreia. Minha filha é estudante de Psicologia, ela cuida das pessoas. Lá, ela vai ser cuidada por quem? Pelos seus seguranças? Pelos seus criados?

— Ela não vai ser cuidada, senhor. Ela vai ser respeitada — Ji-hoon disse, inclinando-se para a câmera. — Eu não estou pedindo que ela mude para ser minha acompanhante. Eu assinei um termo de compromisso com a universidade daqui como fiador da transferência dela, mas a conta será no nome dela. Eu abri uma conta de emergência em nome da Antonella, com fundos suficientes para ela voltar para Maceió a qualquer hora, em qualquer dia, sem precisar me pedir um centavo ou uma autorização.

O Sr. Mascarenhas arqueou a sobrancelha. Ji-hoon estava garantindo a independência dela caso o relacionamento falhasse.

— E sobre meu pai... — Ji-hoon continuou, a voz mais firme. — Ele é um homem difícil. Mas eu já deixei claro para ele: Antonella não é um negócio. Se ele tentar interferir na vida dela, ele perde o único herdeiro dele. Eu estou disposto a renunciar ao meu cargo se for preciso para garantir que ela tenha paz em Seul.

Houve um silêncio longo. O pai de Antonella olhou para a porta da cozinha, sabendo que a filha estava ouvindo. Ele viu a seriedade no olhar do coreano. Não era o olhar de um CEO comprando um ativo; era o olhar de um homem com medo de perder a mulher que ama.

— Escute bem, Ji-hoon — o pai finalmente falou, apontando o dedo para a tela. — O Brasil é longe, mas meu braço alcança onde for preciso. Se eu souber que ela chorou por sua causa, ou que ela se sentiu inferior naquela sua terra de gelo, eu vou buscar minha filha e você nunca mais vai ouvir o nome dela. Estamos entendidos?

— Senhor — Ji-hoon respondeu, com um suspiro de alívio que quase o fez desabar na cadeira — o senhor tem a minha palavra de honra. Eu não quero que ela mude. Eu quero que ela leve o sol de Maceió para o meu mundo.

O pai de Antonella deu um meio sorriso, o primeiro em dias.

— Pois então trate de mandar o itinerário de novo. E se não tiver cuscuz naquele avião, eu mesmo vou aí levar.

Notas finais
Gente, o Ji-hoon jogou a carta da "conta de independência"! 💳🔥 Isso foi o xeque-mate. Ele mostrou para o pai dela que não quer prendê-la, mas sim dar asas para ela voar ao lado dele. O respeito foi conquistado e o passaporte da Antonella está pronto para ser carimbado!