Miguel
5 O loiro e o herói
Já era por volta das dez da manhã quando Miguel despertou sentindo um desequilíbrio. Quando conseguiu se concentrar e entender o que está enxergando, ele viu-se sendo carregado no ombro de Bela, no meio da floresta, com Júnior fazendo piadinhas ruins sobre madeira comestível e pessoas com estatura baixa, sempre respondidas com um sinal de “aham”, feito com a cabeça, pela garota.
Quando Miguel conseguiu adquirir confiança no que estava vendo, pergunta:
— Por que você está me carregando?
— Ah, é! Você pode se mover. Desculpa, é força do hábito. Dos últimos dias… — disse ficando corada e devolvendo Miguel ao chão.
Júnior, que estava sentada logo ao lado, se sentindo excluída da conversa, olhou para os dois e falou:
— Só espero que essa coisa de comer madeira não vire hábito também. — terminou a frase fazendo um bico de insatisfação. Miguel e Bela comeram sua última barra de chocolate amargo na noite anterior e ele acabara de experimentar o café da manhã do dia: churrasco de madeira.
Miguel percebeu que Bela ainda estava com a sua camisa vermelha e, um pouco preocupado, indagou:
— Pensei que seu vestido já estaria seco a essa hora.
— E estava, mas a Junior vestiu o urso com ele e ele ficou todo relaxado. O meu vestido preferido!
Júnior passou a mão num roxo que estava na sua barriga inteira. Bela teve que prometer que doaria um rim e uma parte do fígado se ela precisasse, para que ele não a dedurasse para a líder da organização e ela perdesse sua reputação como “membro que menos enche o saco de toda a organização”.
Bela se virou e Miguel, que sabia que a curiosidade matou o gato e que este já não tinha mais sete vidas, evitou perguntar mais sobre o assunto.
Quando todos já estavam preparados e de pé, começaram a caminhar juntos em direção a Gyn City.
Depois de intermináveis piadas sobre pessoas de baixa estatura, pedaços de madeira comestíveis e dois pescoços ficarem muito doloridos, eles finalmente chegaram a cidade. Precisando de informações sobre lojas que vendem vestidos que, com certeza, seriam chineses, se houvesse China nesse planeta, e para comer qualquer coisa que não desse origem a mais piadinhas por parte da Júnior, os três entraram em um bar.
Já estavam sentados, avistaram um rapaz de cabelo loiro, de mais de um metro e noventa, com uma espada um pouco maior que ele presa em suas costas.
Bela, ficando vermelha após ver o rosto e o tamanho da espada dele, rapidamente inventou uma desculpa para convidá-lo a se sentar com eles. Miguel, que não foi com a cara do cara, sem fazer idéia do porquê, rapidamente inventou uma desculpa para não chamá-lo até eles. Júnior, acreditando ter o “Voto de Minerva” na situação, rapidamente pensou em um discurso longo e demorado sobre a questão, cheio de piadinhas e com a finalidade de fazê-los entender que se amam e que deveriam esquecer essas coisas pequenas e ficar juntos para sempre.
Antes que os três pudessem se decidir se era melhor falar ou não com ele, o homem loiro andou em direção aos três e falou:
— ...
E foi interrompido por um chute, em sua boca desferido por Miguel, caindo de costas em uma mesa
— Por que você fez isso? — perguntou Bela, paralisada.
— Eles tão de zoeira que nossa missão é proteger esse monstro! — exclamou Júnior, abandonando o chocolate amargo que acabara de comprar (sinal de que estava muito nervosa).
— Tem alguma coisa de errado com ele! — gritou Miguel!
— Tem alguma coisa de errado com você inteiro e até agora ninguém reclamou disso! — berrou Bela, revoltada.
O loiro começou a recuperar os sentido e Miguel, quando percebeu isso, foi pra cima dele, mas recebeu um soco do imenso braço do seu oponente quando chegou perto. Miguel rapidamente se equilibrou e preparou para avançar, quando viu o loiro pegando sua imensa espada e conseguindo impulso para atacá-lo.
Bela prendeu a respiração, Júnior esqueceu onde estava o chocolate, e todos no recinto fecharam os olhos. Todos, incluindo os dois que estavam de olhos abertos, só puderam perceber um barulho horrível de uma espada tocando levemente o chão. Miguel estava sorrindo como um demônio, com o braço esquerdo riscado de cima a baixo com um corte e o loiro agitando a mão com que segurava a espada. Todos saquearam e depois saíram correndo do bar, enquanto isso os dois continuaram completamente parados. Estranhamente, o tempo parecia esfriar.
Bela, depois de permanecer algum tempo parada também, começou a falar:
— Incrível! Ele avançou em cima do loiro enquanto ele estava atacando e socou as mãos dele!
— Isso não é tão incrível! Você já viu o jeito que ele se mexe?
— Mas mesmo sendo tão rápido, se ele tivesse hesitado por um momento, ele teria sido cortado em dois!
— Você vai dizer que ele é foda porque ele se jogou contra uma espada sem medo de ser morrer?
Miguel de repente se virou e gritou:
— Saiam agora daqui!
Bela espantada, não se moveu:
— O que?
— Ele está acumulando energia nesse lugar desde que entrou. Isso tudo vai se tornar um pedaço do ártico em menos de vinte segundos.
— Até hoje só uma pessoa conseguiu perceber isso... — disse calmamente o loiro.
Júnior repentinamente agarrou a mão de Bela e a puxou-a com força para fora do bar.
— Você quer deixar ele encarar aquela coisa sozinho?! — pergunta Bela, gritando.
— Se lembra que nossa missão era a de proteger, alimentar, abraçar, cuidar e matar ele, se necessário? Digamos que é necessário mata-lo e estamos fazendo isso agora...
Dentro do bar, o loiro parou de gerar o fluxo que congelaria o lugar. Miguel o encarava indignado:
— Quem é você, e o que você está fazendo dentro do corpo desse cara?!
O loiro sorriu maliciosamente.
— Como você descobriu?
— A essa altura, eu já teria percebido se você quer mesmo me matar. A aura que você emite está tumultuada.
— Aura! Apenas alguém com muita percepção conseguiria perceber uma vontade assassina, entretanto, alguém com uma percepção muito apurada teria passado pelo tumulto que você sentiu na mistura das nossas duas auras e não saberia se quero matá-lo ou não e, com apenas essa informação, já teria morrido. Salvo pelo nível mediano da habilidade, quem imaginaria isso?
— Quem, é, você?!
— Meu mestre quer jogar um pouco com você. Começar agora, entretanto, seria muito sem graça, já que você é um rei selado, com apenas dois peões, enquanto do nosso lado, há um rei, famoso como o mais forte do mundo, seguido por várias peças da segunda fila. Então eu vim aqui te entregar um peão com potencial para virar algo quando chegar ao outro lado do tabuleiro, como aqueles dois que já andam com você.
— Por que ele quer jogar isso comigo?
— É um jogo, é feito como entretenimento. Não precisa de uma razão.
— E se eu não quiser jogar esse jogo?
— Infelizmente, você não tem força o bastante para controlar o próprio destino.
— Ele querer jogar esse jogo comigo, tem alguma relação com quem eu sou?
— Não, na verdade, ninguém sabe quem você é. Há alguns dias atrás você surgiu do nada, sem anuncio, nome ou memória, e mesmo assim, já está tirando o sono de centenas de pessoas. Devia estar orgulhoso.
— Eu não estou.
— Como o esperado, de uma pessoa com quem valha à pena se preocupar.
Um corvo saiu do peito do loiro e Miguel o segurou, quando este caiu inconsciente. Ele sentou na cadeira do bar por um momento e olhou para os lados. Ele não conseguia se lembrar de nada. Quem quer que tenha possuído o rapaz havia dito que o homem mais forte do mundo estava atrás dele. Isso era horrível. Por que ele não se sentia ameaçado? Um olho castanho e outro azul, cicatrizes imensas recobrindo cada parte do seu corpo. Como alguém com características tão únicas poderia surgir do nada, sem que ninguém soubesse quem ele era?
Bela e Júnior esperavam apreensivas do lado de fora do bar congelando. O vestido que Bela comprou da vendedora que encontrou na rua estava demorando demais para chegar e Júnior ia ter que começar a se comportar, caso Bela não conseguisse o vestido que queria e ficasse possessa, de novo.
Não mais que alguns minutos depois, o vestido chegou, Bela vestiu-o sobre a camiseta que usava e fez um estranho malabarismo para tirá-la, com a peça de roupa por cima. Enquanto fazia isso, Miguel saiu do bar, carregando o loiro sobre os ombros.
Júnior, aliviada, reparou que Miguel estava chegando, pegou a camisa na sacola onde o vestido da Bela veio e jogou para ele, enquanto perguntava:
— Se resolveu com o bonitão?
Miguel agarrou a camisa dizendo:
— Ele não é bonitão. Qual é a da camisa?
— Ah, é. Esqueci que você quase não fica vestido.
— Não é isso. Agora que a Bela conseguiu o vestido dela, eu vou ter minha camiseta de volta, não vou?
Bela finalmente tira a camisa de Miguel e devolve para ele, enquanto diz:
— Obrigada. Achei que você ia ficar bonito com uma camisa branca aberta sobre a camisa aberta.
Miguel mudou de expressão e perguntou:
— Sério?
Júnior, percebendo a presença de um clima, interrompeu:
— Miguel, você ainda não explicou qual é a do bonitão.
Miguel, irado, largou o loiro no chão:
— Ele não é bonitão!
— Eu sou bonitão! — Disse o loiro que despertou depois de ser derrubado.
Bela, que viu novamente o rosto e o tamanho da espada do loiro, aproximou-se dele amistosamente:
— Olá. Qual é o seu nome?
O loiro, levantou-se, meio desajeitado e ainda sonolento:
— Boa tarde. Meu nome é Jack. Qual é o seu nome?
Jack apoiou um joelho no chão, pegou a mão da Bela e beijou-a:
— É um prazer conhecer uma dama tão bela quanto você.
Miguel puxou Jack pelo cabelo e o arrastou enquanto caminhava. Júnior ria. Bela, estranhando tudo, perguntou:
— O que está acontecendo? Por que você está arrastando ele? O que aconteceu lá no bar?
Miguel, sério, respondeu:
— Nós temos que continuar andando. Ele vai viajar com a gente.
Bela franziu a testa:
— Espere. Ele tentou nos congelar, então saímos, você conversou com ele por dez minutos e decidiu que ele vai com a gente? O que ele tem de tão especial?
Jack levantou-se e fitou Miguel interrogativo:
— Por que você tem olhos de cores diferentes?
Bela explicou pacientemente a sua hipótese:
— Ele deve ter herdado um do pai e outro da mãe.
Jack ficou surpreso:
— Seus pais morreram e deixaram um olho de cada pra você?
Júnior refletiu séria :
— Ele com certeza é especial.
Jack balançou a cabeça e disse:
— Espere, eu não vou com vocês!
Miguel, perguntou impaciente:
— Por que não?!
Jack novamente fitou o rapaz:
— Eu aceitei um trabalho de um cara com um corvo no ombro para salvar uma maga branca, que está presa em um orfanato.
Miguel franziu a testa sem entender:
— Maga branca?
Júnior, quase séria,completou:
— É uma maga especializada em curar as pessoas. Você sabe, o tipo de pessoa que tem que seguir você pra evitar que a sua jornada se torne um genocídio.
Bela ficou curiosa:
— Por que ela está presa lá?
Jack, sorrindo, responde:
— Ela veio a cidade há alguns meses e encontrou esse lugar, onde haviam várias crianças doentes. Ela curou as crianças e decidiu ficar lá. Ela não disse porque, mas estava lá de graça, então ninguém se incomodou . Há dois dias espadachins cercaram o lugar e estão esperando eles se renderem.
Miguel tentou imaginar o que estava acontecendo:
— É um orfanato, porque os espadachins cercaram o lugar em vez de entrar e pegar o que queriam?
Jack, respondeu confuso:
— Parece que ela jogou um ataque de luz que pôs vários deles fora de combate e eles estão com medo dela. Eles devem ser bem brancos, então lutar com alguém que joga luz deve queimar bastante.
Miguel, arqueou a sobrancelha, aquela estória estava muito estranha:
— Ela jogou luz, não magia do elemento luz?
Bela já estava ficando impaciente e perguntou a Jack:
— Você se lembra onde é o orfanato?
Jack, sem pensar, apontou explicando:
— Estava do lado de fora da cidade, eu lembro que quando ele apontou, foi para o lado que o Sol ficava.
Bela cruzou os braços:
— Do lado em que fica o Sol durante a manhã ou a tarde?
Júnior, não aguentando mais aquilo, assume novamente sua personalidade séria:
— Nós viemos pelo Leste e não vimos nada, então só pode estar do lado ao oeste da cidade. Mas nós estamos indo pra lá? Estou começando a ficar cansada de arrumar confusão por causa do Miguel e agora eu terei que cansar a minha infinita beleza para arrumar confusões de mais uma pessoa?
Miguel, pensativo, comenta:
— Se a sua beleza é infinita, então como ela se cansa?
Júnior, ainda séria, responde:
— Não se faça de bobo, Miguel! Você entendeu o que eu disse!
Jack, serio, comenta:
— Ele está certo, se ela infinita, como ela se cansa?
Miguel se coloca entre Júnior e Jack e pergunta:
— Se nós ajudarmos você, você vem com a gente?
Jack pareceu refletir por alguns segundos:
— Por que vocês querem que eu os acompanhe?
— Existe alguma razão pra você não ir?
— Não.
— Então, não ter uma razão para não ir, não é uma razão para ir?
— É?
— Você pode pensar nisso no caminho para o orfanato.
Miguel começou a andar em direção a oeste, quando Bela segurou-o pela mão e perguntou:
— Espera, por que ele vem com a gente?
Miguel respirou fundo, olhou para Bela:
— Eu não sei como explicar, a razão parece loucura... Você confia em mim?
Júnior, debochada, disse:
— É claro que confia! Ela jogou a fita que usava pra prender o cabelo fora só porque você disse que ela ficava melhor de cabelo solto.
Bela, vermelha, rosnou:
— Não foi por isso.
Miguel ficou sem graça e pensou em algo para dizer para apaziguar as duas, quando viu Jack indo embora e perguntou:
— Você não vai esperar a gente?
Jack virou a cabeça:
— É claro que não! Eu posso estar errado, mas se eu não estiver, essa madeira mordida saindo da sua mala foi comida por vocês e... Vocês comeram madeira, vocês são doidos!
Miguel, Júnior e Bela gritam ao mesmo tempo:
— O que?
Jack correu em direção a oeste e os três correm atrás dele. Não faltava muito para que chegassem ao orfanato e o herói encontrasse a maga branca.
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