Miguel
6 A Maga Branca e o Herói - Parte I
Após terem alcançado e acorrentado Jack, Miguel, Bela e Júnior continuam seu caminho em direção ao orfanato. O loiro, volta e meia, se debate e pergunta o porquê deles estarem fazendo isso. Às vezes, seus raptores respondem que é porque ele fala demais.
Em dado momento, Miguel decide satisfazer uma curiosidade que vinha tendo há alguns minutos e pergunta:
— Júnior, eu sei que aparência não é tudo, etc, mas você é uma pessoa bem pequena e não parece ser musculosa. Como você consegue arrastar um homem de dois metros de altura com tanta facilidade.
Bela estranha a pergunta, Júnior ri e Jack diz:
— Eu sei a resposta.
Miguel encara Jack, com descrença, e pergunta:
— Qual é, Jack?
Jack, satisfeito em poder compartilhar sua sabedoria, diz:
— É o poder do dragão!
Miguel abaixa o olhar e, imaginando que havia recebido uma informação aleatória, pergunta:
— Dragão?
Júnior, rindo sarcástica, diz:
— Não importa se você perdeu a memória, estou certa de que se você batesse menos a cabeça em paredes você saberia o que isso quer dizer!
Miguel balança a cabeça e pergunta:
— Do que você está falando?
Bela, querendo ser solidária com Miguel, que ainda era o seu pretendente, explica:
— É da história da criação da humanidade, você sabe?
Miguel balança a cabeça novamente e responde:
— Não.
Bela coça a cabeça e pensa por alguns segundos sobre como contaria a história e, logo, responde:
— Há milhares de anos, a humanidade não existia, então um meteoro caiu e, como filha do Universo com a Terra, veio ao mundo a primeira humana. Ela, que já havia nascido adulta, foi vista por um dragão, o último da sua espécie, que, se sentindo sozinho, muda para uma forma semelhante a dela e se aproxima. Vendo que ela não sabia nada sobre o mundo ao seu redor, ele a ensina a falar, escrever, cultivar e, com o tempo, os dois se apaixonam e tem seiscentos filhos ao longo de trezentos anos. Cada um de seus filhos nasceu com uma habilidade natural, assim como sua mãe, que possuía um poder que a permitiu proteger todos os seus filhos dos perigos do mundo, e com a habilidade de desenvolver mais força, resistência e agilidade, através de um treinamento, que poderia despertar o poderes semelhantes aos do dragão do qual descendiam. Essas duas capacidades foram transferidas a cada um de seus descendentes, incluindo nós e, por isso, podemos adquirir forças inimagináveis mesmo não tendo músculos grandes, apenas usando o poder do dragão do qual descendemos.
Miguel, agora mais curioso, pergunta:
— Eu tenho uma habilidade natural?
Bela, calma, explica:
— Todos tem, aparentemente a sua é a de copiar a das outras pessoas. Você também possui poder do dragão, é assim que você consegue quebrar paredes com a cabeça e todas essas coisas. Foi estranho você não saber disso porque é algo que você usa constantemente.
Miguel, ainda intrigado, comenta:
— Espere, se todos tem esse poder do dragão, por que vocês ficaram tão surpresas quando eu quebrei a parede?
Júnior, nervosa, explica:
— Todos podem aprender o poder do dragão, mas é particularmente raro alguém conseguir o bastante para quebrar uma parede com a cabeça.
Miguel sorri, era uma história interessante, apesar de estranha. Logo ele pensa em mais uma dúvida que deseja tirar, quando ele sente uma presença estranha e diz:
— Tem alguém por perto.
Os quatro ficam alertas, até que Bela veja uma silhueta a nordeste e grite:
— Lá está ele!
Miguel corre na direção dele e, ao chegar perto, golpeia-o com força na cabeça, antes que tivesse tempo de desembainhar sua espada. Ele parecia ser um samurai, mas não um muito forte.
Bela se aproxima de Miguel e do homem caído e comenta:
— Essas roupas... Ele é do país dos espadachins. Ele deve ser um batedor, estamos bem perto.
Júnior se aproxima dos dois, arrastando Jack e pergunta:
— Ok pessoal, vocês já se divertiram bastante vendo o loiro se debater, acho que já está na hora de soltar ele!
Bela, irritada, diz:
— Ele vai fugir!
Júnior olha torto para Bela, enquanto diz:
— Ele pode fugir!
Jack se senta, ainda preso pelas correntes e diz:
— Eu não vou fugir!
Os três olham para Jack, que fica de pé e diz:
— Aquela garota estava ajudando órfãos, ela é boazinha e eu recebi para salvar ela. Eu não vou deixar ela presa.
Miguel sorri e diz:
— Ele é um homem bom, é por isso que eu trouxe ele.
Júnior solta Jack das correntes, enquanto diz:
— Ah, Miguel, para de querer aparecer! Há meia hora você estava gritando pra eu prender ele porque ele ia fugir.
Bela, irritada, grita:
— Pessoal, chega! Estamos bem perto de um lugar que está cercado de espadachins excelentes, precisamos de um plano?
Miguel, curioso, pergunta:
— Espadachins excelentes? Por que você acha que eles são excelentes?
Júnior balança a cabeça e diz:
— Ela é do país dos espadachins, para ela, os espadachins de lá são melhores, a terra de lá é melhor, os cortes de carne são melhores!
Bela, possessa, diz:
— Os espadachins e... os cortes de carne são realmente melhores, mas não importa. Nós precisamos de uma estratégia para combater um inimigo organizado.
Júnior, entediada, decide resolver aquele impasse logo, para que eles derrotem os espadachins e procurem um hotel para passar a noite, antes que seja noite, e diz:
— Está bem, vamos logo fazer esse plano: Estamos esperando encontrar vários espadachins tipo esse, que podem ser derrotados em um golpe, alguns que precisem de mais trabalho e um ou dois que realmente precisem de atenção. Quando chegarmos lá os mais fracos vão na frente, então dois de nós vão se dedicar a lutar contra eles, enquanto os outros dois vão atrás dos mais fortes, que estarão recuados, procurando aberturas para agir. Alguém tem alguma questão?
Miguel fica impressionado com a estratégia de Júnior. Era certamente boa, até onde podia entender, mas parecia dissonando em relação ao comportamento que ela geralmente tinha. Ela era realmente uma mulher complicada. Sem querer atrasar o processo ainda mais já que ele, assim como Júnior, queria encontrar um hotel para dormir a noite, diz:
— Eu e Bela vamos procurar os espadachins mais fortes, vocês dois seguram os mais fracos.
Júnior, satisfeita com a determinação de posições, que aproveitariam melhor suas habilidades para combater múltiplos inimigos e a garantiam um protetor para que pudesse as usar em segurança, concorda, dizendo:
— Ótimo! Vamos! E você, trate de mostrar que valeu a pena o esforço que eu fiz para trazer você!
Jack, confuso, diz:
— Mas eu podia ter vindo andando!
Miguel, determinado, diz:
— Não importa, vamos!
Bela bate algumas palmas, enquanto diz:
— Isso vai ser divertido!
Já havia muito tempo que Bela não lutava com espadachins de verdade. Ela estava realmente ansiosa para saber se o seu treinamento lutando com criminosos sem rumo havia valido a pena.
Em poucos minutos, os quatro veem uma construção branca, de dois andares, com a silhueta de várias pessoas se afastando dela e parecendo maiores, enquanto se aproximam deles.
Seguindo o plano, Miguel e Bela correm rapidamente em direção aos espadachins, esquivando deles enquanto tentam se aproximar do orfanato e tentam identificar quem são os inimigos de nível mais alto. Júnior se aproxima com mais calma, seguida por Jack, para quem diz:
— Vai, você fica na minha frente!
Jack, confuso, pergunta:
— Por que eu fico na frente?
Júnior, irritada e incrédula, diz sarcasticamente:
— Eu sou bonita demais pra morrer!
Jack começa a analisar Júnior para ver se aquilo é verdade e ela, revirando os olhos, corre para trás dele enquanto os inimigos chegam até eles. Ele tem que sair de seu estado contemplativo e a batalha começa.
Miguel e Bela, por sua vez, derrotam alguns poucos espadachins que haviam corrido na direção de Júnior e Jack e são atacados por um homem e uma mulher. Nossos heróis ficam paralisados ao verem o rosto dos inimigos. Eles eram realmente muito feios.
O homem, sério, pergunta:
— Quem são vocês e o que estão fazendo aqui?
Miguel, querendo extrair mais informações da pessoa a sua frente, diz:
— Eu poderia lhe fazer a mesma pergunta. Por que uma tropa de espadachins cercaria um orfanato?
A mulher ri, com seus lábios demasiadamente grandes, e diz:
— O pai de uma mulher que está dentro desse lugar está pagando uma recompensa altíssima por quem puder encontrar e convencer a sua filha a voltar para casa. Ren, você não precisava ter perguntado quem eles eram, apenas quem ele era. Essa garota pode estar mais velha, mas é difícil esquecer de uma criminosa como você!
Ren sorri. Ele não havia percebido ao ver pela primeira vez, mas ela era Bela, a Retalhadora. Havia uma recompensa por ela também, no país dos espadachins, acreditando que aquele era o dia em que eles começariam a, finalmente, parar de depender do dinheiro dos pais para contratar espadachins e começar a fazer dinheiro com esse negócio de caçadores de recompensa, diz, enquanto gesticula com suas mãos demasiadamente pequenas:
— Eu não me importo mais com quem é ele, não quando dá para pegar a recompensa dela, Sharon.
Miguel ri e, intrigado, pergunta:
— Que crime você cometeu, Bela?
Bela franze a testa e, irritada com a situação, diz:
— O de agir de maneira lógica.
Miguel estava com relação aos motivos de Bela, mas isso podia ser esclarecido depois. Ren estava desembainhando a sua espada. A batalha dos quatro começava agora.
Júnior e Jack já estavam em combate há alguns segundos, que pareciam intermináveis na mente da jovem maga e inexistentes na de do loiro.
Jack havia ficado no meio dos espadachins quando a batalha começou e ele, ainda pensando em qualquer coisa aleatória que tinha em mente, desembainha sua espada de dois metros e gira com ela, em reflexo ao ataque deles. Cortando todos que estavam por perto e sem sofrer dano, devido a vantagem de alcance dada pela sua lâmina gigante.
Júnior, mais atrás, já podia ver que espadachins estavam evitando Jack, e sua espada injustamente grande, e corriam em sua direção. Ela coça a cabeça. Seria muito difícil derrotar tantos inimigos sem liberar muito fogo e isso derreteria todas as suas barras de chocolate amargo. Uma delas era raríssima, chocolate com sementes de girassol, e Miguel, que era o responsável por tudo isso, não estava pagando. Ela, ao mesmo tempo triste e furiosa, acaba deixando uma lágrima escorrer entre o seu rosto enquanto inspira profundamente e sopra uma imensa labareda sobre os guerreiros que tentaram atacá-la.
Grande parte deles já é posto fora de combate por esse ataque, individualmente, quatro, possivelmente mais fortes, escapam e pulam na direção dela, que recua rapidamente e lança suas correntes na direção deles e, ao amarrá-los faz correr fogo pelas correntes, que põe todos eles fora de combate.
Com alguns segundos de folga até que mais espadachins se aproximem dela, Júnior percebe que Jack está usando gelo enquanto luta e, lembrando-se do que aconteceu em Gyn City, grita:
— Jack, se coloque dentre de uma esquife.
Jack, sem entender, mas disposto a colaborar, já que ela era realmente bonita demais para morrer, firma sua espada no chão e se coloca dentro de uma esquife de gelo, enquanto Júnior, ansiosa para terminar esse combate, pula sobre ele, que está cercado de inimigos e grita:
— Combustão!
Mais uma vez, Júnior inspira profundamente, mas dessa vez, o fogo que sai de sua boca se expanda mais rápido e a uma temperatura maior. Todos os inimigos próximos a ela haviam sido postos fora de combate e Jack, completamente encharcado, com o gelo derretido da esquife em que havia se colocado, olha ao redor, sem entender muito bem, e corre na direção da maga de fogo, que caia sentada. Ela havia usado toda a sua magia naquele ataque.
Mais a frente, a batalha entre Bela e Sharon começara. A Retalhadora, ao mesmo tempo irritada e distraída pela sua oponente, desembainha suas duas espadas, segurando-as com o gume para baixo, esforçando-se para não rir dos lábios gigantes de sua inimiga.
Sharon sorri e, debochada, diz:
— Me dá vergonha alheia ver uma desertora do Reino dos Espadachins desembainhar espadas para lutar.
Bela pensa em virar o rosto para não ver os lábios de Sharon se mexendo, mas sua oponente a havia ofendido e ela deveria permanecer focada e, assim, ela retruca:
— Me da vergonha alheia ver alguém se metendo no que não é da sua conta sem saber o que aconteceu.
Bela pula sobre a inimiga, enquanto ataca com uma espada por cima, dizendo:
— Ataque Reverso.
Sharon se defende do primeiro ataque, mas tem que se desviar do ataque da segunda espada, que vem por baixo e corta levemente a sua perna.
Sharon, agora levando Bela a sério, diz:
— A única coisa que eu preciso saber é que a filha de um dos sete espadachins, a única herdeira do estilo, abandonou o país logo após a morte do seu pai, dando fim a uma tradição de mais de mil anos.
Sharon segura a espada lateralmente e avança, atacando com força. O ataque era simples e Bela pôde se defender, mas a força com a qual ele foi executado a intimidou. Se todos os golpes desferidos pela sua oponente fosse como esse, cedo ou tarde ela perderia o equilíbrio se defendendo e esse seria o seu fim.
Bela, determinada, encara Sharon e retruca:
— Meu pai morreu quando eu tinha doze anos, ele ainda não havia me ensinado o Ougi. Sem que eu conhecesse a técnica suprema do estilo Retalhador de Almas, ele já estava morto. Valia muito mais a pena aprimorar minha técnica viajando e lutando contra inimigos em combate reais que ficar vivendo como uma lembrança de uma linhagem outrora importante naquele país.
Sharon sorri, com seus lábios incrivelmente grandes e provoca Bela, dizendo:
— Então você não aprendeu o Ougi? Você não tem chance contra mim!
Sharon ataca, agora com a espada posicionada acima e, dessa vez, quase desequilibra Bela quando ela defende. Bela, mais motivada que nunca, ri, e diz:
— Você ouviu o que eu disse? Eu viajei pelo mundo aprimorando minha técnica. Não preciso de mais que alguns anos de experiência em combate para vencer alguém como você!
Bela se afasta de Sharon e se prepara, colocando suas duas espadas, viradas com os gumes para baixo, acima de seu corpo. Quando sua oponente ataca, Bela defende com toda sua força, usando uma espada, e se aproxima do corpo da inimiga, enfiando a outra espada nas costas dela rapidamente, enquanto diz:
— Contra ataque final!
Sharon, com uma perfuração em suas costas, cai no chão, sangrando, enquanto Bela retira a espada de seu corpo e a balança, para limpar o sangue, dizendo:
— Não é sábio subestimar o poder, nem mesmo de uma aprendiz, do estilo Retalhador de Almas.
Miguel assiste Ren posicionar sua espada para o ataque, atento as suas minúsculas mãos. O herói não sabia se aquelas mãos pequenas poderiam significar algum perigo extra. Não havia como saber. Ele jamais havia lutado contra alguém com as mãos tão pequenas.
Ren, reparando que Miguel olhava para suas mãos, fica irritado e, pretendendo terminar aquela luta em um golpe, ataca com uma estocada, focando a cabeça de seu oponente.
Miguel esquece das mãos de seu inimigo e desvia do primeiro golpe de sua espada. Ele estava em desvantagem. Seu inimigo era rápido e o risco de receber um ataque enquanto avançava na direção dele era alto.
Ele precisava pensar em uma estratégia consistente enquanto desviava dos ataques sucessivos de Ren. Depois do terceiro ataque sucessivo, o espadachim já estava nervoso e Miguel já tinha um plano.
Nosso herói salta uma grande distância para trás e copia a habilidade de Júnior, ficando com olhos castanho avermelhados e criando correntes com seus braços, que usa para atacar o homem de mãos pequenas enquanto ele se aproxima.
Ren, preparando um ataque, que acredita ser impossível de desviar, esquiva das correntes e pula sobre Miguel, que copia a habilidade de Manopla e acerta cinco mini socos em seu corpo, fazendo com que ele caia sem controle e receba um chute fortíssimo do nosso herói antes de tocar o chão.
Ren rapidamente se recupera e, desesperado, lança mão da sua habilidade, que fazia o possível para manter em segredo, criando cinco ilusões dele mesmo.
Miguel se espanta. Ele não sabia se eram cinco cópias ou ilusões da imagem de Ren e a primeira opção seria um problema grave. Logo o homem de mãos pequenas ataca, juntamente com suas imagens e Miguel, tentando desviar de todos recebe um pequeno corte no braço.
Ren sorri, acreditando que sua estratégia havia tido sucesso, sem imaginar que aquele corte dava a Miguel toda a informação de que precisava para combatê-lo.
Miguel havia desviado de Ren de maneira que receberia um pequeno corte de cada um de seus possíveis inimigos e, ao receber um único corte, naquele lugar, sabia exatamente qual deles era real e quais deveriam ser ignorados.
Nosso herói espera o próximo ataque de Ren, que avança confiante com suas cópias, e lança os cinco mini socos no que sabia que era real. O homem de mãos pequenas cai e, ciente que Miguel havia descoberto qual deles era real, junta as imagens nele e as refaz, criando novamente a dúvida sobre qual deles deveria ser atacado.
Miguel, percebendo que o inimigo havia se misturado de novo entre as ilusões, percebe que precisa de outra estratégia para descobrir qual é o real, visto que ser cortado toda vez que ele ataca poderia acabar ferindo-o muito até o final da luta e, já com um plano em mente, espera que ele se aproxime novamente e copia a habilidade de Júnior, lançando cinco correntes, uma em cada um dos inimigos que via.
Quando Miguel viu que o original foi capturado, trocou rapidamente de habilidade, lançando os cinco mini socos em Ren e completando o ataque enquanto ele não podia se defender, com uma rasteira, um chute e um soco em seu rosto, que o colocou fora de combate.
Os olhos de Miguel brilham e ele cai no chão, desacordado.
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