Miguel

4 A Outra Amiga do Herói


Depois de andarem mais ou menos um pouco mais de uma hora, em silêncio, Júnior acabou de comer sua barra de chocolate amargo. Assim que saiu de seu transe apreciativo, Júnior se lembra que não estava viajando sozinha e vê que sua companheira está de olhos fechados, suspirando enquanto carregando o Miguel.

— Ela é mesmo a melhor sonâmbula que eu já vi na minha vida.

— Eu estou acordada! — disse Bela, abrindo os olhos pela primeira vez desde que começara a tentar, inutilmente, ignorar o barulho altíssimo que Júnior fazia enquanto comia.

—Então porque você estava de olhos fechados?

— Eu estava pensando.

— Pensando em mim?

— Era o que eu estava tentando evitar…

Júnior para, olha para cima e espera Bela se virar, dizendo com toda a coragem que tinha:

— Escute, eu não tenho nada contra mulheres que gostam de outras mulheres, mas eu particularmente não sou uma delas, então se você está apaixonada por mim...

— O que?! Claro que não estou, sua doida. Eu já não gostava muito de você pelas coisas que você falava e nas últimas horas você se comportou parecendo um animal muito nojento que eu ainda não vi na minha vida, comendo essa maldita barra de chocolate amargo!

— E você gosta mais de mim por isso? — pergunta Júnior, assustado.

— Não, eu estava ignorando o barulho e… Foda-se!

As duas continuam andando, agora com Bela olhando para o chão. Júnior, começando a use sentir culpada por provocá-la propositalmente parecendo um idiota acidental, pergunta com sua voz séria:

— O que foi, Bela?

— Você!

— Eu te interrompi, não foi?

— Não, não interrompeu não. Desculpa, eu que fui meio grossa.

— No que você estava pensando?

— Em nada, só estava evitando pensar, já falei.

— É o tampinha, não é?

— Não… não!

— Nós talvez tenhamos que andar com esse cara pelo resto da vida. Se você tem algum problema com ele você vai ter que resolver isso mais cedo ou mais tarde. Se você resolver agora, é quase certeza que todos nós vamos passar menos raiva.

— É que… Miguel me traz algumas lembranças.

— Você já teve problemas com atlantes!

— Teve um atlante. A história é meio grande…

— Falta muito pra chegarmos em Gyn City e, pela experiência, acho que ainda temos algum tempo até o tampinha acordar.

— Ok. Tudo começou há onze anos, quando a minha mãe teve a péssima idéia de liderar uma caravana de comércio. Era a primeira com a qual ela lidava desde que eu tinha nascido. Meu pai estava ocupado cuidando da nossa escola, no país dos espadachins. Ele era um dos sete grandes mestres e não podia deixar a região a menos que fosse chamado, então ele não foi com a gente. Não era uma caravana grande, devia ter umas quinze pessoas. Nós íamos a uma cidade próxima e voltaríamos rápido. Naquela época a estrada que seguíamos era considerada segura e minha mãe resolveu me levar com ela. Assim meu pai não precisaria se preocupar em tomar conta de mim e poderia continuar treinando para, quem sabe, se tornar o próximo Soldado Divino da região. — Júnior interrompe:

— É verdade, um dos grandes mestres é sempre um Soldado Divino. Acho absurdo esse favoritismo. — interrompeu Júnior

— Os espadachins daquele país tiveram um papel fundamental na Titanomaquia!

Júnior, querendo que a história acabasse logo pra poder abrir a próxima barra de chocolate amargo diz:

— Ta certo, continue a história.

— Acho que eu parei na parte do meu pai ter ficado. Bem, meu pai ficou lá na capital do país dos espadachins enquanto minha mãe liderava uma caravana de comércio numa estrada que acreditávamos ser segura. Ah, eu tinha cinco anos na época.

Não lembro exatamente que horas eram, eu já estava dormindo. A primeira coisa da qual eu me lembro é de quando eu fui derrubada da carroça em que eu estava deitada. Eu vi umas sombras, atacando as pessoas no escuro. Depois de olhar um pouco eu vi minha mãe com um buraco na barriga. Acho que já estavam todos mortos quando uma das sombras que estavam atacando tomasse forma sobre a luz e eu visse o rosto dele…

— Ele era atlante?

— Não, eu não sei! Esse cara veio na minha direção com um olhar estranho e me esfaqueou também. Foi quando um adolescente de terno e cabelo branco surgiu na minha frente e com um soco, quebrou o braço dele. Ele me disse alguma coisa que eu não consigo me lembrar e começou a brigar sozinho com todos eles, na minha frente. A última coisa que eu me lembro daquela noite, foi de ver duas espadas entrando nele.

A próxima coisa que eu me lembro é de estar sendo carregada pelo adolescente de cabelo branco. É até meio estranho o jeito que eu me lembro dessa cena. Ele com cabelo branco até os ombros, é do cabelo dele que eu mais lembro. Ao lado dele estava um adolescente moreno, com o mesmo terno que ele e um cabelo rastafári e uma garota com cabelos cacheados e um vestido verde. Eu vi que havia um tubo ligando meu braço a uma veia do rapaz de cabelo branco e alguém perguntando sobre quando eles iam saber se funcionou.

Depois disso, eu lembro de já estar na minha casa, com o meu pai conversando com os três e eu deitada na cama. Quando eu tentei me levantar, senti uma dor no lugar onde havia surgido uma nova cicatriz na minha barriga, do corte de quando o cara me esfaqueou.

O cara de cabelo branco passou alguns meses lá em casa. Ele cuidava de mim e treinava esgrima com meu pai. Eu me lembro que ele estava quase o tempo todo sorrindo e as vezes levava broncas por passar muito tempo brincando comigo. No dia em que ele decidiu partir, eu já o considerava quase um irmão, então ele me deu um colar com duas espadas juntas, moldadas em madeira, que ele mesmo fez. Ele me beijou na testa, falou que um dia ele iria voltar e partiu da cidade com os dois amigos com quem ele chegou.

Alguns anos depois eu estava voltando pra casa. Eu devia ter uns nove anos. Quando eu abri a porta gritando que tinha chegado eu vi o mesmo rapaz de cabelo branco, com o mesmo terno, a garota de vestido verde colada a parede, paralisada de medo, e meu pai, coberto de sangue, com o peito aberto.

O garoto de cabelo branco lambia a espada e quando ele me viu correndo para encontrar meu pai ele me segurou e, com uma expressão sádica, ele disse “Calma, pra que a pressa? Ele já morreu, Bela”. Então ele arrancou o colar que ele me deu do meu pescoço. Eu reagi pegando as duas espadas que eu levava na minha cintura. Com uma mão ele tirou as duas espadas de mim e me olhou com um olhar horrível. Eu tinha certeza que ia morrer ali....

Nesse momento um enorme círculo de magia surgiu no chão de todo o cômodo onde estávamos e a garota no vestido verde disse “Se você tocar nela eu mato todo mundo nessa sala!”. Então o rapaz riu. “Você é tão engraçada”. Ele se afastou de mim dizendo “A gente se vê”, e foi embora.

Depois de alguns segundos de silêncio, Júnior concluiu que a história dela tinha acabado e lançou a pergunta que tinha desde que o rapaz foi descrito pela primeira vez:

— O cara de cabelo branco, era o Hell, a garota de vestido verde é nossa chefe, Andressa e o de rastafári é Lucas, certo?

— Como você sabia?

— Você disse que ele era atlante e descreveu o homem mais forte do mundo e seus companheiros de viajem. No lugar onde eu passei a minha infância, os três eram um assunto constante. Você se lembra, os três juntos fizeram o mundo tremer a uns oito anos ou nove anos atrás. Antes que se tornassem Soldados Divinos. Hell, O Copiador, Lucas, O Vermelho Fervente e Andressa, O Tornado. Três dos catorze Soldados Divinos, surgindo ao mesmo tempo e trabalhando juntos. Foi um caos aquela época.

— Isso foi logo antes do incidente com o meu pai. Hell estava, diferente.

Logo após a última frase, uma lágrima começa a descer do olho de Bela, que começa a se lembrar do passado e da vida que tem levado até ser interrompida por Miguel dizendo:

— Desculpa, Bela.

— Desculpa pelo que?

— Fui eu que fiz você se lembrar de tudo isso. A última coisa que eu queria era te deixar assim.

Miguel tira a lágrima do rosto da Bela com o dedo, a garota sorri e Júnior diz:

— Perai, a quanto tempo você esta acordado?

— Ah, desde que ela falou que tinha cinco anos?

Bela abandona as lembranças passadas e pergunta:

— Miguel, por que você não me avisou que tinha acordado, pra eu parar de te carregar?

— Eu estava querendo ouvir o final da história, eu não queria atrapalhar o seu raciocínio.

Bela joga o Miguel no chão e grita:

— Você ta de brincadeira comigo?

Júnior tem uma idéia e, voltando para sua personalidade imbecil, fala:

— É a hora perfeita!

—Perfeita pra que?

—Pra explicar pra ele o que está acontecendo.

Miguel se mete na conversa e pergunta:

— O que está acontecendo?

Júnior, mais empolgado fala:

— Eu não disse?

Bela, já cansada de tudo isso, fala:

— Escutem, vocês dois! Eu estou escutando um rio. Eu vou lá pegar água, vocês dois vão arrumar algo pra comer e nem pensem em ir pro lado em que eu fui, entenderam?

Miguel diz “Sim” e Júnior diz “Não”, só pra pirraçar. Bela deixa os dois sozinhos e vai em direção ao rio.

Júnior, que não agüenta ficar em silêncio começa a falar:

— Pois é, como eu disse, essa é a hora perfeita para explicar o que está acontecendo.

— Não é melhor fazer o que a Bela mandou?

— Procurar comida? Não! A explicação é mais importante! Eu tenho certeza!

— Mas você é doida!

— Eu não sou doida!

— Então por que você quase me bateu naquele bar porque eu falei que eu não gostava de chocolate amargo?

Depois de alguns segundos de silêncio, um enorme urso surge dentre as árvores e pula na direção do Miguel, que vendo que não há tempo para esquivar, se agacha, e quando o animal chega a seu alcance, ele o toca pela barriga e o empurra contra uma árvore. Miguel se preparava para mais um combate, enquanto Júnior gritava “Comida!”.

O urso tenta acertar o Miguel usando suas patas e este vai se esquivando até achar uma abertura, empurrar as patas do urso com seus antebraços e tomar impulso para bater com a cabeça no peito do animal raivoso, que para por alguns segundos. Júnior grita:

— Vamos, matar ele logo, antes que ele fuja!

— Mas o objetivo não é esse!

— Mas ele é nosso jantar!

— Eu não vou comer ele!

— Por que não?

— Porque não!

Júnior, revoltado, pega na gola da camiseta do Miguel e começa a falar:

— Você, nesses últimos três dias, já matou direta e indiretamente, mais pessoas que da pra contar nos meus e nos seus dedos juntos! Qual é o problema em matar o maldito urso?

— Não me parece certo. Digo, ele não está fazendo isso por razões pessoais fúteis. Ele é um urso, ele não conhece outra forma de viver além do instinto. Sem dúvida nós estamos invadindo o seu território e…

O urso raivoso cai no chão, se levanta ainda mais depressa e corre a velocidade sobre humanas na direção de Miguel e Júnior.

— Isso não é um urso, certo?

— Quem se importa? Vamos embora!

Desesperados, nossos heróis correm na única direção que lembravam de ter alguma referência, mesmo sendo a referência para que eles não fossem para lá.

Bela estava feliz. Pela primeira vez em vários dias pôde tomar um banho decente. “Será que vai manchar?”, pensava preocupada. Sua roupa ficou meio roxa após a batalha no castelo do Manopla e ainda estava criando coragem para ir começar a lavar sua roupa e descobrir se ia ter que mudar de estilo ou não. “Não se fazem roupas desse jeito por aqui”, pensava preocupada, com relação ao seu vestido que seria certamente chinês, se houvesse China nesse planeta.

Enquanto desfazia o coque para começar a lavar o cabelo, um estranho barulho começa a surgir na floresta. Antes que Bela pudesse pensar em pular fora da água e colocar seu vestido ainda seco, Miguel e Júnior saem da mata.

Júnior vê que Bela está nua no rio, vê o vestido dela no chão, muda de direção para escorregar nele e cai na água com a peça de roupa, agora completamente suja. Miguel, consegue parar na beirada do lago e, logo após ver sua companheira, a primeira coisa que pensa é que nunca mais precisaria imaginar como era. A segunda foi que ela estava desarmada e indefesa na água, junto com Júnior, que sendo uma maga de fogo, ficava sem ação debaixo d’água.

Miguel se volta para a floresta, prestando atenção no som da madeira derrubada e se prepara para socar a criatura quando ela saísse da floresta, bem na sua frente. A criatura, entretanto, tinha outros planos e pulou do meio da floresta, direto para o meio do rio.

Vendo a fera indo na direção de Bela, Miguel se concentra e, de alguma maneira, consegue fazer a mesma coisa que fez quando Manopla o cercou, mas dessa vez, mudando adquirindo os poderes do próprio e socando o ar, na direção da fera com penas. Cinco mini-socos atingem o urso, que perde o controle do pulo e simplesmente cai, na direção da garota.

Miguel, percebendo isso, rapidamente salta numa trajetória de colisão com o animal e o soca, logo acima da cabeça de Bela, jogando a criatura indefinida para longe enquanto um corvo sai de dentro do seu peito, e Miguel cai, ele mesmo sobre ela.

Miguel ajuda a garota a se levantar debaixo da água, logo depois de derrubá-la.

Enquanto Bela decidia se agradecia Miguel ou começava a xingar Júnior e todos os seus ancestrais de nomes bem feios, ela foi capturada pelo olhar do seu salvador, completamente preso a ela. Antes que pudesse tomar coragem para falar alguma coisa, Miguel percebe que ela está ficando vermelha e fala a primeira coisa que veio a sua mente, que não receberia como resposta um tapa:

— Sabe, eu prefiro você assim, Bela.

— Assim como? — pergunta Bela, desconcertada.

— Com… o cabelo solto. — fala Miguel, com a expressão mais normal que consegue fazer.

— Mesmo? — pergunta Bela, sorrindo.

— Eu não gosto disso, Bela! — fala Júnior, se afastando.

— O cabelo solto? — pergunta Miguel, achando estranho.

— Não, seus mamilos! Eles são horrivelmente grandes!

A expressão de Bela muda. Falar de um complexo que Bela tem desde o começo da adolescência não ajudou em nada o seu humor, já bem fragilizado. A água do rio começa a girar em torno dela. Em alguns segundos a água adquire velocidade e agarra Júnior e Miguel. Logo o curso da água muda e a tormenta, se levantando para fora do eixo normal do rio, joga o Júnior para fora da correnteza, batendo com força em uma árvore e logo depois, Miguel, batendo com força em Júnior.

Algumas horas depois, Júnior acorda em volta de uma fogueira com duas pessoas assando carne pendurada em pedaços de madeira. Faminto e esperançoso, Júnior se levanta e sente sua cabeça girar. Miguel o segura para não cair e diz:

— Eu bati com um pouquinho de força na sua cabeça depois dela já ter batido na árvore, então acho que você arrumou um traumatismozinho craniano, mas é coisa à toa e você já está sarando, tudo bem?

A visão de Júnior começa a desembaçar e, após enxergar o que estava de fato acontecendo, pergunta:

— Vocês tão comendo um pedaço de pau?

Miguel suspira e explica:

— É madeira comestível. Não me pergunte como eu sei disso.

Júnior vê Bela sentada usando a camiseta vermelha que antes estava com o Miguel, que agora estava sem camisa.

— Ué, Bela? Cadê o seu…

— Morra! — falou bela, sem tirar os olhos do pedaço de pau que estava comendo.

Miguel, ignorando tudo que acontecia ao redor, falou:

— Agora que todos nós já nos entendemos, aqui está a sua madeira.

Júnior, confusa:

— Mas eu não estou entendendo nada.

— Não, relaxa, esse é o traumatismo craniano falando. Só come, que amanhã nós te tratamos em Gyn City.

— Mas, por que o urso está dormindo do meu lado?

— Não sei ao certo. Acho que ele se afeiçoou a você depois de tudo.

Júnior pensa em alguma resposta indecente para dar, mas o traumatismo craniano estava falando muito alto no seu ouvindo para que ela pudesse se concentrar em qualquer coisa.

Depois de Júnior acabar de comer a madeira comestível e desmaiar em cima do urso ao seu lado, Miguel pega uma barra de chocolate amargo que pegou do seu mais novo amigo e ofereceu a Bela:

— Você quer?

— Isso é bom?

— É ruim, não da pra comer!

— Sério?

— Não, mas eu tenho que aproveitar a inconsciência da Júnior pra falar esse tipo de coisa.

— Eu ainda não quero. Estou me sentindo mal.

— O Júnior se recupera rápido, até eu, que considero ele metade dos amigos que tenho, não estou preocupado com ele.

— Não é com isso que eu estou preocupada.

— Você ainda está pensando naquela coisa de eu ser atlante?

— Não, é que eu não sei por que, eu estou com tanto medo agora.

Miguel abraça Bela e encara um corvo que estava logo atrás dela. O animal voa fazendo barulho.

— Você ainda está com medo?

— Não… será que eu estava com medo do corvo?

— Não, você passou por um dia difícil, lembrando de muitas coisas ruins. Você só precisava de um abraço.

Bela sorri e beija Miguel na bochecha enquanto ainda estão abraçados. Logo depois, ela deita do lado oposto da fogueira ao qual Júnior estava deitado.

— Bela, você não quer deitar um pouco mais pra cá? Acho melhor nós três ficarmos mais juntos.

— Se você diz…

Bela se arrasta para um pouco mais perto do Miguel, que se sentou ao lado do Júnior. A garota dorme rapidamente e logo depois Miguel pega em sua mão e no ombro do seu amigo de manto vermelho.

“Aquele corvo, não pode ser um animal de verdade. Nenhum animal teria uma vontade tão terrível e logo a mesma daquela criatura que saiu de dentro do urso. Alguém tem que estar fazendo isso.”, pensava Miguel, preocupado. Alguém tinha vindo atrás dele. “Mas quem?”. Sua memória falhava. Seja lá quem fosse o corvo, ou seu dono, era alguém vezes mais forte que o Manopla ou os gigantes, e alvo era ele, ou será que não?

Miguel passou o resto da noite em claro. Dormiu apenas quando tinha certeza que Bela já havia acordado, se assegurando que ela pensasse que ele estava dormindo também. Não queria preocupá-la. Pelo que parece, ela não fez nada para que não merecesse dormir em paz. Já ele, ele não sabia…