Enquanto a varredura era realizada, Juan catava na geladeira algo para forrar o estomago.

– Cadê a minha torta de limão? — gritou o garoto para a mercenária que estava esparramada em frente a um programa de televisão que era projetado tridimensionalmente no ar.

– Primeiro você usa minha toalha, agora come minhas coisas! — Juan reclamou.

Bruna o encarou, seu rosto sujo com glacê branco. Ela era sua amiga desde quando estourou a Terceira Grande Guerra, que arrasou o continente asiático, a fidelidade dela foi provada em muitos momentos. Em contraste com a postura mais discreta de Juan, ela é bastante sociável, frequentadora inveterada de festas.

– Não acha que está meio gordinho, não? — falou Bruna sarcasticamente.

Ele ergueu as mãos para cima, desistiu de conversar.

– Você tá muito tenso — diagnosticou a garota — Já sei, vou te levar para um baile fodástico!

– Não tenho tempo! — ele tentou se esquivar.

Bruna saltou da cadeira puxou o garoto e exclamou enfaticamente: — Se prepare Alice, por que vamos ao país das Maravilhas!

Era só o que me faltava...

O The Fox é uma casa de shows com mais de um século, o que começou como um salão de festas de vinte metros de área se tornou uma das maiores atrações da noite carioca. Ponto de encontro da elite, de celebridades, costuma também ser palco de eventos sociais e da moda brasileira e internacional.

– Você vai relaxar essa sua cabecinha, porque a noite é uma criança!

– Ok, ok! Agora pode parar com seus clichês! — reclamou o garoto.

Bruna era neta do fundador da casa, Oswaldo Nascimento, já falecido. Logo a entrada é sem muitas complicações, já para muitas pessoas, entrar na The Fox é como ter um convite para entrar no Paraíso.

Ai caramba!

As garçonetes estavam de topless, depois que Juan descobriu que não estavam usando biquíni, era apenas pintura corporal. Quase todos os rostos da casa eram comuns, barões da energia eólica, donos de usinas de dessalinização, cantores, políticos, atores de vários nacionalidades e de todos os gêneros e idades.

– Cintia! — a mercenária gritou para uma jovem que estava escorada no balcão cercada por outras mulheres.

Seres humanos com corpos perfeitos, contas bancárias recheadas... Enquanto o resto do mundo se amontoa em cubículos, eles bebem e comemoram!

– Que gracinha... — as mulheres vieram para ver Juan.

Parece que elas adoram “meninos”... Talvez eu deva mesmo distrair um pouco!

Apesar de esse tipo de transformação ser ainda incomum, muitas mulheres, e homens da alta sociedade gostam de se exibirem com esses transagers, adultos que fizeram a opção de rejuvenescer radicalmente.

Bruna já tinha sumido de vista. Caçando algum par! Juan foi arrastado para a pista de dança.

No alto, na parte central do teto, dentro de uma esfera invisível, estava o que no início do século seria chamado de Dj. Naquela noite era alguém bem conhecido de Juan.

Que mundo pequeno, Erik!

O sueco acenou para o garoto moreno que retribuiu com o dedo médio em riste. Ou ele não viu, ou simplesmente ignorou, mas o disc-jóquei voltou a comandar a mixagem musical através daquelas ondas holográficas.

– Já tinha te visto por aqui — gritou uma das garotas -, sempre me pareceu meio triste!

Como resposta, Juan a puxou para perto, a beijou e beliscou a bunda dela: — Pareço triste?

– Você é apressado!

Mas você tá gostando...

Ela devolveu o beijo.

Nas paredes, figurava a inovação tecnológica do momento: projetores odoríferos, dependendo das imagens demonstradas havia um cheiro correspondente.

Juan nunca fora famoso, mas naquela noite foi notícia principal de muitos aplicativos de fofoca: Olívia sai com transager!

No dia anterior, o apertado apartamento tinha peças de roupa em quase todos os móveis. Juan soltou um suspiro, levantou-se da cama com cuidado para não acordar a jovem. Sua memória estava falha, não se recordava direito da noite anterior, mas isso não o impedi-o que ele acordasse de bom humor.

Meu Deus, que fome...

Olívia se espreguiçou: — Bom dia! — cantarolou.

– Ah... Bom dia! — Juan voltou a fuçar a cozinha que era embutida na parede.

– Acho que já vou... — ele não deu atenção — Ei EI!

Ele olhou para Olívia. Ela estava deitada nua na cama, com seus seios fartos e firmes reluzindo sob a luz interna, sua barriga negra bastante delineada.

– Não quer uma segunda rodada? — a jovem falou usando uma expressão antiga, fazendo Juan pensar se ela era jovem mesmo.

Olívia esticou as pernas bem trabalhadas e piscou os olhos num ar de inocência. O garoto largou o que estava fazendo, estava excitado. Posso comer depois! Decidiu por fim.

O sexo foi lento, os dois fizeram como se estivessem tocando uma música com seus corpos, uma dança conhecida por muitos humanos, mas não no nível em que eles praticavam... Ela soltava gemidos baixinhos e sorria, ele por sua vez, beijava e mordia suavemente os mamilos dela. Antes que chegassem o orgasmo, Juan saltou da cama como um sapo saindo de uma panela fervendo.

– Ah... Hum... AH?! - Olívia não compreendeu — Tá maluco?

A expressão de Juan ficou séria e sombria, seus olhos cor de mel se mexiam ansiosos.

Não posso acreditar...

Sem dar nenhuma atenção para a garota vestiu-se e saiu desembestado.

A chamada demorou a ser atendida: — Tô ocupada... — Bruna reclamou, com uma voz cansada.

– Me encontre no lugar de sempre, NU!

A ligação foi encerrada.

Juan tomou o elevador, se encostou na parede e ficou remoendo aquelas novidades: Ariel, chave, limpeza, Turritopsis...

As portas se abriram, uma família entrou conversando calorosamente. O coração de Juan parecia querer saltar do seu peito. Tomara que ela se apresse...

O garoto torcia para que a mercenária não se esquecesse do código. NU, Notícias Urgentes!

Tentou se acalmar, olhando para a estampa animada da camisa de uma adolescente, que exiba a imagem de um trono com um rei rodeado por seres alados. Anjos! — Juan se lembrou do nome dos terroristas cristãos que assassinavam pessoas consideradas "malignas"!-Logo abaixo apareciam várias figuras monstruosas, sendo queimadas em uma fornalha.

Finalmente!

Disparou pelo saguão do prédio e ativou o seu exocórtex.

Uma ideia o assaltou: Merda!