Estacionada na órbita da Lua, a Estação Musk fora construída na época das primeiras minerações espaciais na década de 40, era ponto de parada obrigatório para todas as naves, com destinos além da Terra. Não por acaso era a maior e mais povoada de todas, era considerada a primeira cidade construída no espaço sideral.

Ao atracar na plataforma 12, os dois desceram flutuando seguindo as placas holográficas até o vão principal do setor de mesmo número da plataforma antes citada.

– Caramba! — exclamaram em uníssono.

A parte mais nova da estação era um cilindro com cinco quilômetros de diâmetro, que girava ao redor de si mesmo com o auxílio de velas solares. As lojas, mercados, serviços de manutenção e outras coisas mais, foram erguidos nas paredes do cilindro. Garantindo uma gravidade equivalente a da lua.

No interior da estação, centenas de pessoas voavam lentamente em tubos transparentes com corrimões até seus destinos.

– Então? — começou Michael — Para onde vamos? Só falta me dizer que alguém está nos seguindo...

– Na verdade, acho que sim! — sussurrando Juan.

– Sério?

– Só estou brincando, vamos encher a barriga!

Muito engraçado!

Pessoas de diversas nações voavam vagarosamente, entre uma loja e outra (na maioria mulheres), entre uma farmácia e outra (ambos os sexos). Os desconfortos no espaço eram bastante comuns: dores nas articulações, enjoo, náuseas e ás vezes alucinações.

Normalmente, as companhias espaciais aconselhavam as suas passageiras evitarem usarem saias ou vestidos, por motivos óbvios. Lembrem-se senhoras, as passarelas no espaço são tridimensionais!

Mas isso não impede que homens (ou mulheres) tenham uma visão muitas vezes esplêndidas, por assim dizer.

– Nossa! — assoviou Juan.

Não demorou em Michael se juntar a ele, contemplando a visão de uma mulher, aparentemente jovem, correndo atrás de seu filho levado. Bom menino!

– Pervertidos! — ecoou uma voz, por detrás deles.

Michael achava que ele e Juan seriam os únicos do tipo deles ali, mas estava enganado.

– Juanito Cortéz — falou o garoto, como se estivesse pego alguém num flagrante -, voltou para se desculpar?

– Nem que queimassem a minha bunda no Sol! — respondeu Juan num tom fingindo de raiva.

Os dois caíram na gargalhada.

– Ah?! — Michael não estava entendendo.

– Nossa que cabeça minha... Meu nome é Erik, sou da Suécia, como deve dar pra notar no meu sotaque!

– Michael, Brasil! Sem querer ser ignorante... Você é um...

– Eu sou que nem você amigo! — os dois se cumprimentaram com um aperto de mãos — Não estão com fome?

Juan confirmou, e Erik levou os dois para um restaurante, que piscava incessantemente em tons de púrpura e laranja.

– De onde o conhece? — perguntou Michael, sussurrando para seu amigo.

– Trabalhamos juntos na Planetary Resources em 2037 se não me engano, eu era técnico de informática e ele era projetista. Depois que o salvei de uma briga, viramos amigos.

– Pelo que eu me lembre foi eu que te salvei! — falou Erik.

– Também me lembro de que estava bêbado, então como pode se lembrar? — devolveu Juan.

Ao chegarem ao restaurante principal: La Andrômeda. Estava cheio, o jeito foi se espremer em um beco onde ficava um bar.

Só tinha uma única opção de bebida: uma aguardente horrível, mas era isso ou água... Quente e de origem duvidosa, poderia ter vindo de qualquer lugar...

– Desculpe a péssima hospitalidade! — lamentou a barwoman — Mas estamos em crise por aqui!

Tá... Então dê três sanduíches! — falou Erik.

– Também não temos isso! — replicou a mulher.

O trio saiu triste e com fome.

– Todos os lugares decentes estão lotados... — reclamou Juan — Pelo jeito as coisas não são mais como antigamente!

O rosto de Michael era uma máscara de desânimo. Há essa hora deveria estar em Salvador!

– Vá com meu irmão! — tinha dito Dany.

Se eu soubesse que seria uma desventura atrás da outra...

– Não podemos comer, mas não quer dizer que não podemos nos divertir! — declarou Erik de repente — Sigam-me! Depois disto, vocês não vão querer sair daqui...

....

A torcida gritava histericamente em um latim vulgar: Leo, Leo...

Michael portava um tridente e uma pesada rede de aço, estava nu, exceto uma tanga de pele que tinha na cintura e um elmo. Suava bastante, como seu antigo adversário, que agora teriam de ser aliados contras as feras que estavam saindo dos portões laterais.

Os felinos vieram aparentemente com fome, para escapar, Michael rolou na areia escaldante. O leão pareceu não gostar do comportamento de sua presa, atacou novamente. O loiro, agora na pele de uma versão sua como gladiador, girou sobre si mesmo, desviando com maestria e ainda deu uma estocada na fera esfomeada.

Ele esperou que a multidão aplaudisse, o que ele ouviu foi: Ah! E um monte de assovios e vaias.

Não demorou muito para perceber... Que a sua tanga estava a cerca de dez metros atrás dele.

É hoje...

O leão não vacilou, investiu novamente saltando rapidamente. A montanha de carne e pelos caiu inerte no chão da arena.

Seu companheiro de luta tinha lançado uma lança na criatura. Apesar disso, não escapou de ser devorado pelo outro leão.

O imperador trajava uma toga branca com duas listras de fios de ouro, no alto de sua cabaça reluzia uma coroa de prata, era roliço e bebia muito. A plebe se espremia nas arquibancadas, homens, mulheres e uma ou outra criança. Todos pareciam estar gostando do show.

– Parece que você proporciona um bom espetáculo... Soou uma voz desconhecida.

O felino voltou suas garras e dentes para Michael. Este lançou a rede, como distração, não pegou. O leão seguia ele atentamente.

Qual é? Minha bunda branca parece ser tão saborosa assim é?

A fera atacou, o loiro só teve tempo de sacar a lança que estava espetada no outro animal e descrever um arco com os olhos fechados.

O menino sentiu o hálito quente do leão, na sua boca o gosto salgado de sangue fê-lo abrir o s olhos.

Aos seus pés, o cadáver da criatura sangrava aos borbotões. Agora no rosto de Michael estava estampado um sorriso vitorioso.

O Circus Maximus desaparecia em uma nuvem desfocada, logo a imagem de vários rostos flutuava diante dele, alguns sorriam, outros falavam algo, outros apontavam para as calças dele.

Estou de volta!

Foi Erik quem veio ajudá-lo a se levantar, e o encheu de elogios. Juan estava sentado na cadeira ao seu lado imerso em alguma outra dimensão virtual. No alto da cabeça dele, flutuava a imagem de um rio, onde vários navios se enfrentavam, com catapultas, espadas, flechas entre outras armas.

– Onde aprendeu a ser um assassino tão bom?

– Muitos e muitos anos jogando RPG! — respondeu para Erik.

– Quer outra rodada? — perguntou o sueco.

– Não obrigado, não quero perder as calças novamente...

O outro levantou as mãos para o alto: — Ainda bem, se eu tivesse que ver você pelado de novo! Preferia ser jogado no espaço! — e ele saiu gargalhando, outros que estavam presentes o acompanharam.

Pouco tempo depois, as risadas explodiram. Michael abaixou as calças deste, diante dos que transitavam no centro da estação, multiplicando as gargalhadas aos milhares.

– O que eu perdi... — veio Juan saindo da estação de jogos -, Erik meu caro levante isso, estamos num lugar de respeito!

– Ah você me paga! — o sueco ameaçou.

Michael estava — literalmente — rolando de tanto rir, da cara avermelhada do escandinavo.