Michael

2 O Caminhoneiro


O vento fresco bagunçava seus cabelos como dedos fantasmas, pouco a pouco a visão retornava, coqueiros balançavam lentamente, o cheiro de terra e de excrementos de cavalo enchia o ar.

O robô!

Ao tentar se levantar, gemeu de dor e olhou ao redor. Estava em uma fazenda ou algo do tipo.

– Mas... — a cabeça latejava e o cheiro não ajudava em nada.

– Bom dia, Bela Adormecida! — disse Juan com a camisa rasgada e com os cotovelos lanhados.

– Cadê eles?

– Você não vai acreditar na nossa sorte... Ah! Você acredita em sorte?

Michael olhou para outro. — Mas que sorte? Fomos atacados, quebraram a MINHA moto, estamos sozinhos numa maldita BR... Nossa que sorte a nossa!

Em vez disso apenas acenou com a cabeça.

Juan apontou para trás de si, o loiro não podia acreditar no que estava vendo. Acho que a bolada me deixou delirando...

Uma Falcon Z303 reluzia debaixo de uma mangueira, ela era famosa por alcançar 316 km/h em apenas dois segundos.

– Você roubou? — exclamou Michael boquiaberto.

– Não, estava no fundo da carreta, tinha ainda uma Ferrari e mais cinco andróides, daqueles que nos atacou! — respondeu o outro.

– Por que não pegou o carro?

– Estava descarregado.

– O que você fez com o motorista e com aquela merda? — Michael se levantou com uma mão nas costas doloridas e outra apoiada num coqueiro.

– O androide estava destruído, não era problema... Já o motorista... Bom! Me livrei dele!

– Ótimo! Agora vamos ter a polícia na nossa cola!

Juan caminhou até a moto e montou nela: — Por isso precisamos ir para Socorro o mais rápido possível!

– Peraí, Socorro? Não era Salvador?

O outro sorriu um daqueles seus sorrisos de canto e balançou a cabeça: — Venha Mike, prometo que será apenas uma escala!

Fazer o quê? O loiro deu de ombros.

Pegaram uma velha estrada vazia — dádiva dos autos-carros -, apesar de ser intensamente esburacada.

Pararam para urinar e puderam contemplar o Espaço-porto Virgulino Ferreira, naves abarrotadas de astro-turistas subiam como estrelas ascendendo no céu azulado.

"Como o mundo muda!" Ele lembrou que Daniela havia exclamado uma vez, mas isso fora antes. Em outra vida... A garganta de Michael se fechou e seu coração disparou. Se acalme! O que está no passado pertence a ele...

– Quer ir dá uma olhada?

– Ah... Oi? — falou o loiro voltando à realidade.

– Vamos ver como é lá, ou vai me dizer que tem medo do espaço? — brincou Juan.

Como resposta, Michael subiu na moto: — Desta vez, eu dirijo!

– Não gosta da minha direção?

– Não — respondeu ele rispidamente -, só não gosto que destruam minhas coisas, aliás, esqueceu que me deve uma moto?

...

Localizado ao sul da cidade de Lagarto, o Espaço-porto Virgulino Ferreira, suportava até cinco naves por vez, o que dava a capacidade de lançar até trezentos passageiros por hora. Era o segundo maior do Nordeste, e o quarto do país.

Sua estrutura imitava a curvatura de um chapéu de cangaceiro, justiceiros que circulavam pelo sertão, pilhando, sequestrando, ás vezes ajudando populares, eles eram comuns no início do século XX, o mais famoso deles fora Virgulino Ferreira da Silva, mais conhecido por Lampião. A estrutura de aço e vidro fora nomeada em sua homenagem.

– Mike, estacione aqui mesmo! — sussurrou Juan.

– Tá maluco?

– Por favor, faça o que digo — mesmo sem entender, o outro obedeceu, não sem ficar resmungando.

Atravessaram o estacionamento, ao entrar foram recebidos pelo reconfortante ar refrigerado e pelos empurrões dos passageiros apressados.

Disfarce... — sussurrou Juan.

O loiro olhou para trás de si. Entendi! – O que vamos fazer?

– Vem comigo!

Uma mulher de vestido cinza curto andava graciosamente em cima de seus saltos. Era linda, mas o que denunciava a sua verdadeira natureza era seu rosto sem expressão e o estranho brilho de sua pele.

– Sabia que eles iriam rastrear a moto — falou Juan abrindo caminho pela multidão -, por isso sugeri que viéssemos aqui!

– Mas não tenho créditos, você é que vai pagar! — reclamou Michael, espiando a mulher de cinza.

– Eita pão-duro! Mike você não muda nunca?

Furaram a fila, mas um cara gordo os empurrou para trás: — Esperem sua vez moleques!

– É um caso de vida ou morte — enfatizou Juan, sem sucesso.

– Ali, ali! — gritou Michael, apontando para uma fila curta.

A mulher suspeita parecia estar apressada, os dois também não bobearam.

– Duas passagens! — gritou Juan em meio ao burburinho da multidão.

– Para onde... – entoou o holograma de um homem jovem, com uma voz impossivelmente alegre e disposta.

Os olhos cor de mel de Juan iam para um lado e para o outro, perdidos na decisão.

– Musk... Estação Musk! — decidiu Michael olhando para trás, a mulher vinha empurrando as pessoas — E rápido!

Os dois viram um lampejo e a projeção os indicava o portão de embarque. Rapidamente, atravessaram o saguão lotado, com a perseguidora nos seus calcanhares.

– Merda!

Eles teriam de passar pela fila de verificação, e era longa.

– Faça alguma coisa! — gritou Juan.

– Ah... SOCORRO! Ela está armada, esta...

A mão dela fechou em seu pescoço, e o ergueu, seus pés ficaram balançando inutilmente no ar.

Odeio robôs!

Seu amigo tentava de tudo, mas a máquina era inexorável. Antes que Michael desmaiasse, ela o soltou e desabou inerte no piso de mármore.

– Mike, está bem?

– Estou — o loiro respondeu roucamente -, agora você pode sair de cima da minha mão?

– Ah... Foi mal!

O milagre foi graças ao PEM (Pulso eletromagnetico) lançado por um segurança. O povo já estava ao redor, curioso como de costume. Um dos funcionários do Espaço-porto perguntou se Michael precisava de algo, ele respondeu:

– Me deixe passar na frente?

O pedido foi atendido e os dois seguiram até a zona de embarque. Juan ajudava seu amigo a andar.

– Estação Musk? — zombou Juan.

– Tive que improvisar!

Apesar da espera ter sido consideravelmente curta: doze horas, os dois estavam exaustos, principalmente Michael. A voz anunciou: Passageiros do voo 178. Por favor, se dirijam para o Portão 23.

No lado de fora, seguiram um tapete luminoso avermelhado.

– O faremos lá?

– Não sei ainda Mike...

– Minha lente! — gritou Michael, apontando para uma pequena película transparente, que desaparecia na escada escura.

Juan deu um puxão no cabelo dele, antes que pudesse reclamar, o outro apontou discretamente para três homens que tentavam pular a cerca. — Vai!

Por sorte a espaçonave, levantou voo rapidamente. Pouco depois o Virgulino Ferreira era apenas um ponto prateado no agreste.

– Minha lente! — reclamou o loiro.

Os foguetes forma acionados, logo o céu mudou de azul para um tom acinzentado, depois para negro. Cerca de vinte minutos depois estavam na sub-orbita.

– Você me deve uma lente e uma moto!

Como resposta, Juan mandou um beijo no ar.

Michael resmungou: — Vá se arrombar!