Meu sonho
32 Uma outra visão
Notas iniciais
– Thomas, querido, poderia pegar a chave do carro para mim? Vou na garagem procurar um documento.
– Sim, mãe.
Sentei na cadeira perto da escrivaninha que há no meu quarto, olhei em volta. Minha casa. Um lugar que eu nunca queria ter saído e, ao mesmo tempo, nunca queria ter voltado. Agora aqui, sentado, olhando aquele ursinho, veio um sopro de lembranças...
Entrei no carro com o rosto pálido. Sentia as lágrimas descerem sem eu perceber, e uma coisa ecoava na minha mente: “Você é meu sonho, Thomas”. Deixar ela não era uma coisa que eu queria fazer, mas deveria, a mesma havia me pedido. Isso que me encantava nela, querer ajudar as pessoas...
– Thomas... – Lucas passou a mão pelo meu braço, em sinal de força.
Encostei na janela e tentei imaginar que em um mês eu consegui amar. É pouco tempo, mas eu sentia que era ela... uma garota espontânea, valentona, linda, tão boa...
Quando dei por mim, já estávamos no portão da minha antiga casa. Minha mãe provavelmente alugaria a outra de BH. A casa estava a mesma de quando a deixamos. Não demorou muito para arrumar as coisas no guarda-roupas, comer algo, tomar um banho e ir para a casa da Gabriela. Dava para ir a pé, duas ruas acima da minha.
– T-Thomas... – ela disse quando entrei.
Estava muito pálida, com os lábios em tom roxo, estava usando um lenço por cima dos poucos cabelos. Ela continuava bonita, mesmo estando doente. Trocamos algumas palavras, o bastante para ela perceber que não queria nada com ela além de ser prestativo. Isso a deixou triste, claro, mas tentei animá-la como eu costuma fazer.
Eu mantinha um certo contato com a Olívia, mas sempre eu estava na casa da Gabriela, e isso significa coisas a fazer. Então, quando estávamos conversando, a Gabriela inventava alguma dor, ou uma obrigação. Eu não a deixava de lado, por mais que eu sabia que era uma mentira, isso porque se algo fosse real, eu seria o culpado. Com o tempo, paramos de conversar. Eu estava muito atrasado em relação as matérias da escola, e tive que repor minhas notas perdidas. Eu me sentia um verdadeiro babaca por ter deixado a Olívia sair por entre meus dedos, nada justificava. Pensei em ligar muitas vezes e quando me dei conta, eu já estava na faculdade cursando Matemática.
Gabriela havia se curado do câncer em dois anos. Meus pais e eu decidimos ficar em Bom Despacho, eu já tinha firmado uma vida lá. Mas, nada me fazia esquecer ela, o seu cabelo cacheado e comprido, aquela pele morena e seus lindos olhos. Tentei desviar meus pensamentos dela para seguir minha vida. Namorei por 3 meses uma garota chamada Fernanda. Terminamos por um erro: ela não era a Olívia.
Depois dessas lembranças, decidi olhar meu e-mail e dei de cara com um que havia recebido. Era de Rosa, uma amiga da Olívia. O e-mail dela continuava o mesmo, meio sem noção.
De: Rosa — rosinhabonita@hotmail.com
Para: Thomas – thferreira@gmail.com
Enviada: 03 de janeiro – 15:10
Assunto: Meu casamento
Anexo: convite.docx
Thomas!! Quanto tempo! Espero que esse seja mesmo seu e-mail. Bom, estou aqui para te convidar para meu casamento, não só você como seus pais e seu irmão. Eu sei, eu sei, não precisa agradecer. Mas além disso, queria te convidar para ser meu padrinho junto com a Olívia. Achei que seria uma ótima oportunidade para vocês se reencontrarem, sei que tem muito o que colocar em dia.
Esse e-mail será curto. Qualquer coisa você me manda outro e-mail. O convite do casamento segue anexo, com a data e tudo o mais.
Abraço,
Rosa.
Ao ler, parecia que eu tinha viajado o futuro. Casamento. Era mais fácil eu pensar na Thalia se casando do que a Rosa.
Chequei o convite e vi que o noivo tinha o nome Rafael. Será o mesmo de cinco anos atrás? Não importava. Fui na garagem e vi minha mãe sentada no carro, mexendo no celular . Pelo visto ela achara o documento, mas se distraiu.
– Mãe, eu preciso conversar com a senhora.
Ela me deu atenção e eu expliquei tudo.
– Thomas, você já tem vinte anos, isso não sou eu que devo resolver para você. Mas já que me consultou, acho que deveria ir e aceitar o convite. Lembra aquela nossa antiga casa que ficamos pouco tempo? Ela está vaga, o antigo inquilino se mudou tem poucos dias, não contei né? E sabe que ela está toda mobiliada – ela fez uma pausa para retomar o assunto. — Vá para lá semana que vem, com seu carro e suas coisas, fique o resto do mês lá. Você precisa de descaço e merece. Se quiser levar seu irmão também – fiz sinal que não. – Certo. Verei com seu pai se passamos umas “férias” lá também.
Dei um beijo em sua testa e corri para responder o e-mail.
De: Thomas – thferreira@gmail.com
Para: Rosa –rosinhabonita@hotmail.com
Enviada: 05 de Janeiro – 14:47
Assunto: Re: Meu casamento
Rosa, você sumiu! Ou que sumi...
E é claro que eu irei e serei o padrinho. Fico contente por você. Semana que vem irei para BH, segunda para ser mais exato. Poderia manter esse segredo? Queria me reencontrar com a Olívia também... que tal você me ajudar? Sei que está muito ocupada com os preparativos. O que me diz? Ah, e logo comprarei os presentes. Faça um chá de casa nova para minha chegada haha.
Até logo!
Thomas.
Assim que recebi a resposta de Rosa, fui conversar com meu pai e meu irmão.
– Por favor, Thomas, me deixe ir! – ele dizia se encostando no sofá.
– Por quê?
– Quero ir ver a Marjorie, o Gustavo e... a Olívia
Eu engoli à seco. Ouvir o nome dela ainda me fazia ter um frio na barriga. Eu pensava que ele havia esquecido dela.
Com muito esforço, Lucas me convenceu de deixá-lo ir.
Aquela semana passou com um sopro. Minhas coisas estavam arrumadas, do meu irmão também. Um dia antes fui ao mercado comparar mantimentos, uma verdadeira compra do mês. Minha mãe havia me dado dinheiro para gasolina e para cuidar do Lucas. Eu tinha umas economias do estágio. Dava para sobreviver. Passei em meu quarto para ver se tinha esquecido algo, ao me deparar novamente com aquele ursinho. Peguei uma sacola, daquelas presenteáveis, e o coloquei.
Após me despedir dos meus pais, coloquei o pé na estrada e a mão no volante. Demoraria 2 horas e meia para chegarmos lá, isso se não pararmos em algum lugar para lanchar.
– Thomas – meu irmão começou a falar depois de alguns minutos de viagem. – Qual a primeira coisa que vamos fazer quando chegarmos?
– Antes, iremos passar no shopping para comermos algo. Depois eu vou dormir muito, e você?
– Acho que o mesmo... mais tarde poderíamos fazer um bolo? Lembra quando a Olívia fez um e mandou para nós?
Lembro, o dia que eu a ignorei.
– Sabe fazer bolo?
– Nós aprendemos, olhamos na internet. Algo assim. Vamos fazer um tradicional, um que ela ama.
Um que ela namorava só de ver.
– Cenoura com cobertura de chocolate – falei sorrindo ao me lembrar dela colocando uns três pedaços no prato.
– Sim! Daremos nosso melhor!
Naquele instante, eu quis saber como ela estaria. Se continuava ainda mais linda do que antes, estudiosa, se queria me ver, se teria ganhado um irmão, ou se... teria um namorado. Tentei focar na estrada e tirar aqueles pensamentos da minha cabeça.
Depois de ir ao shopping, meu irmão e eu chegamos na rua. Mal me lembrava que tinha um morrinho, fiquei com muito medo do carro descer. Sou mesmo um babaca. Coloquei o carro na garagem e tirei as coisas. Encostei na parede quando vi a casa dela. E baixinho eu disse:
– Lar é onde você quer estar...
Fim do capítulo 32.
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