Meu sonho
33 Lembraças que vão e vem
Notas iniciais
Thomas -
Estou deitado há algum tempo. Arrumei muitas coisas desde que chegamos, demos uma faxina na casa. Lembrei-me do horário e levantei da cama com muito esforço. Tomei uma ducha e peguei a primeira camisa que coloquei no armário. Me lembrei na hora quem havia me dado aquela camisa, era a Fernanda.
— Thomas, e o bolo? – Lucas interrompeu meus pensamentos.
— Vamos fazer amanhã à tarde, então entregamos para ela. Pode ser?
— Por mim está tudo bem – ele pegou uma toalha. – Minha vez de gastar água.
Voltei meu pensamento para a garota que me deu aquela camisa. Lembrei-me um pouco dela e de quem ela namorou. O Iago.
Sentei na beirada da cama e peguei meu celular. Queria muito mandar um e-mail, ou ligar. Em vez disso, decidi ligar para uma pessoa que virou minha amiga com o tempo.
— Gabriela? – falei quando ela atendeu.
— Thomas! Como você está? Chegou bem?
— Estou bem. E o que anda aprontando?
— Meu namorado acabou de sair da minha casa. Mas você não ligou para saber de mim, conta o que está acontecendo.
Nesse aspecto, a Gabriela me conhecia muito bem.
— Estou com medo. E se ela não quiser saber mais de mim?
— Para de graça, Thomas. Se ela realmente quisesse você longe, a amiga dela não ia te convidar para ser padrinho junto com ela.
— É... mas a Fernanda...
— A Fernanda é uma louca que tinha um namorado louco. Você nem gostava tanto daquela menina assim. E o que essa louca colocou na sua cabeça dessa vez?
— Eu só me lembrei dela. Ela nunca esquecia de mim.
— E está na hora de não se lembrar dela também. Olha, essa Olívia não deve ter te esquecido tão fácil assim. Ela deu um ursinho precioso para você, e se lembre do que ela te disse antes de entregar.
— Espero que esteja certa...
— Vou desligar pois minha vó está mandando eu sair. Beijos.
— Até mais.
Assim que Lucas saiu do banho. Eu e ele fomos fazer o jantar. Mas antes, tive que colocar o lixo para fora.
Olívia –
Estava quase na hora do Miguel chegar em casa, e minha mãe fez um interrogatório. Já estou acostumada. Mesmo com quase vinte anos, eu ainda tenho obrigação e dever de dar satisfações aos meus pais. Até porque eu moro no teto deles, preciso de uma ajudinha aqui e ali e pelo respeito também.
Miguel chegou e eu abri a garagem para pegar meu carro.
— Hoje eu posso dirigir? – perguntou Miguel. Eu sempre dirigia quando saímos, e não era lá muitas vezes.
Joguei a chave para ele e esperei do lado de fora, perto do portão. Eu estava distraída quando vejo um rapaz indo até a lixeira.
— Estranho, ele me lembra o...
Ouvi barulhos de buzina e era o Miguel abrindo a porta do carro, desviando completamente meus pensamentos. Entrei, coloquei o cinto e ele logo arrancou.
— O que estava pensando? – ele me perguntou.
— Só estava distraída, nada importante.
— Espero que se distraia porém, comigo.
— Não falo muita coisa a respeito.
Fomos ao cinema e várias vezes fugi dos beijos do Miguel. Parece besteira, mas durante algum tempo eu estive fugindo de muitos beijos. Aquele par de olhos claros estava na minha cabeça. E todos os dias eu me perguntava como ele estava, o que estaria fazendo naquele momento e se... pensava em mim com a mesma frequência que eu pensava nele. Nada fazia sentido, afinal, ele tinha ido. Talvez a culpa fosse minha, ou simplesmente de ninguém.
A noite se passou e quando chegou no portão da minha casa, Miguel tentou me beijar outra vez.
— Miguel, eu...
— Já sei. Você ainda pensa naquele babaca ciumento. Sei todo seu discurso.
— Sinto muito...
— Olha, vai ter um dia que irei me cansar de suas desculpas – ele olhou para o nada. – Eu gosto de você, mas sabe Deus quando eu serei correspondido.
— Eu também gosto de você mas não quero apressar as coisas.
— Acontece que já espero há algum tempo, e isso está me fazendo um trouxa.
Fiquei calada. Era verdade, ele estava sendo um trouxa naquele momento. Queria poder dizer a ele que seria diferente e eu mudaria, e foi exatamente o que eu disse.
— Tudo bem. Um beijo no rosto de despedida?
Ele me beijou e vi Rafael dentro do carro esperando o irmão. Dei um “oi” e segui para dentro de casa. Minha mãe logo me pegou de conversa.
— Se não gosta do menino, por que demora tanto com ele?
— Eu gosto dele...
— Desde que Thomas foi embora, você não se apaixonou por outro.
— Thomas foi um menino da minha entrada para a adolescência. Ele ficou quase um mês aqui em casa e...
— E você amou ele.
— Não seria amar, seria... outra coisa.
— Olívia, eu te conheço. Você sofreu quando ele se foi, evitava falar dele e quando eu falava, você fingia que não escutava. Ele marcou sua vida. Ele foi o marco.
Não queria concordar com aquelas palavras. Mas, eram todas verídicas. Ele foi o marco.
— Eu... só acho que ninguém é igual a ele – uma lágrima brotou mas logo a limpei. – Pensava que nos distanciar seria fácil, mas cada dia se tornou difícil e doído. Queria tanto que ele entendesse o que eu sinto agora.
— Garanto para você que para ele não deve ter sido fácil. Para nenhum de vocês.
— Principalmente para mim...
— Tome um banho e durma bem.
Nos primeiros dias da ausência de Thomas, andar pela casa era a pior tortura que existia. Cada canto me lembrava ele. A sala, onde sentávamos no sofá e disputávamos o controle da televisão. Na cozinha, quando eu lavava as louças e ele me abraçava, jogava um pouco de água nele. Quando eu ia escovar os dentes no banheiro e ele me observava pelo corredor, e sorria. Íamos na varanda para pegar as roupas do varal. O quarto era o que mais me deixava deprimida. Evitava ficar lá e mesmo assim, foram noites e mais noites mal dormidas. Com o tempo, fui me acostumando com aquele vazio, mas ele ainda estava ali, em cada cômodo.
Depois daquela conversa com minha mãe, ficou mais claro que eu deveria seguir minha vida com o Miguel. Ele é uma pessoa boa, legal, gentil, incrível em todos os aspectos. Só tinha um defeito, ele não era o Thomas.
Não era muito tarde da noite, então liguei para Thalia.
— Oi?
— Thalia, desculpe ligar a esse horário, espero que esteja no seu quarto e ninguém esteja nos escutando.
— Olívia? Não, todos estão dormindo. Mas, tudo bem? Como foi o encontro?
— Esse é o problema. Tudo estava bem até eu perceber que não consigo seguir minha vida sem aquele cara do passado.
— Eu imagino quem. Me explica.
— Percebi que ainda não esqueci mesmo depois de tudo. Eu não fiquei com o Miguel hoje, e ele está cobrando minha parte.
— Olívia, já tentou entrar em contato com o seu passado?
— Não! Eu não quero saber dele.
— Então, tenta não lembrar. Sei o quanto foi lindo tudo que viveram, mas você está no presente agora.
— Só que...
— Vocês se amaram, e ainda acredito que um dia irão se acertar. Lembra daquele livro?
— Lembro. Espero que ele possa ser o mocinho dele, que depois de anos o amor não acabou.
— Apenas se lembre, que tudo foi verdade e que um dia você achará sua felicidade. Dê tempo ao tempo.
— Obrigada, Thalia. Deixarei você dormir...
— Tem certeza que está bem?
— E-eu tenho. Boa noite.
— Boa noite, meu bem.
Desliguei o celular e dormi. Sonhei com o dia que ele estava indo embora, e me lembrei de todas aquelas palavras.
Meus pais estavam saindo e eu fiquei sozinha em casa. Ouvi uns barulhos vindos do portão. Mesmo com pijama, eu fui abrir. Dei de cara com um garoto alto, loiro... era o meu menino dos olhos claros.
— Oi...
— Ai meu Deus! Me diz que ainda é um sonho...
— Eu ainda sou seu sonho?
Fim do capítulo 33.
Fale com o autor