Meu segundo encontro

2 Wonpil and Dowoon


Dois meses depois do encontro estranho com Park Sungjin, ali estava eu mais uma vez, na mesma cafeteria. A neve já não caía mais do lado de fora e o sol aparecia por entre as nuvens de forma tímida; estava um clima agradável para um encontro. O site de encontros havia me recomendado apenas mais três pessoas que poderiam ser “compatíveis” com meus gostos até aquele momento e eu começava a achar que tinha algum problema comigo.

De qualquer forma stalkeei aqueles três outros rapazes com afinco e havia decidido ir com muita calma, então optei por conversar com o mais novo deles primeiro, deixando os mais velhos por último.

O relógio virou quatro horas da tarde e um jovem passou pela porta, acompanhado de um grupo composto por cinco pessoas. Ele já havia avisado que não viria sozinho, mas garantiu que os amigos não atrapalhariam o encontro em nada; eu só havia concordado na hora, mesmo que no fundo estivesse duvidando daquilo. O jovem veio em minha direção com um enorme sorriso e quanto mais se aproximava mais eu pensava no quão novo ele parecia ser; nas fotos ele não parecia ser tão novo quanto a realidade me mostrava. Levantei-me e fiz uma breve reverência.

— É um prazer conhecê-lo Yoon Dowoon. — estendi a mão e indiquei a cadeira vazia na minha frente, logo sendo ocupada por ele. Dowoon tinha um estilo mais alternativo e divertido; contrastando com o meu moletom cinza, ele vestia um conjunto de jeans claro e uma camisa florida vermelha por baixo. No pescoço havia uma gargantilha preta e vários anéis espalhados por seus dedos. — Desculpa ser repetitivo, mas você tem quantos anos mesmo?

— 23 anos. Terminei a faculdade ano passado. — sua voz era de um tom agradável e baixo. O sorriso enorme não desaparecia de seu rosto, me deixando levemente sem graça. Ele parecia ser cada vez mais novo...

— Ah, é mesmo. Você trabalha em uma loja de instrumentos, não é? — novamente: eu já sabia a resposta, contudo precisava de assunto.

— Sim. E tenho uma banda. — seu rosto adquiriu um tom levemente rosado ao apontar para os amigos que o acompanhavam, todos sentados no balcão gritando e falando alto. — E-Eles parecem animais, desculpe por is-isso.

— Sem problemas. — sacudi as mãos no ar, sorrindo com sua gagueira repentina. Por um momento lembrei-me de Park Sungjin e sua fixação por animais. Será que ele estaria feliz no meu lugar? — Sua banda toca que tipo de música?

— De tudo um pouco. — respondeu simples. — Você toca algum instrumento?

— Bom, eu costumava tocar teclado quando mais novo, mas comecei a trabalhar e acabei parando com as aulas. E você?

— E-Eu sou baterista.

— Que legal. Fez qual curso na faculdade?

— Estudei mú-música mesmo. — pigarreou por um instante, juntando os braços na frente do corpo e os entrelaçando. — Você gostou da faculdade de administração?

— Foi divertido e aprendi muitas coisas que eu não fazia ideia que existiam, mas fazer curso de fotografia foi muito melhor. Não me vejo trabalhando com outra coisa.

Dowoon assentiu com aquele mesmo sorriso petrificado no rosto. Será que suas bochechas não doíam? Pelo menos ele tinha dentes lindos...

Ouvimos um grito preocupante na rua e viramos o rosto no mesmo instante, procurando por algum acidente ou um furto, porém ouvimos risadas e alguns dos amigos do rapaz estavam correndo de um lado para o outro na calçada, dançando e se empurrando. Contive um revirar de olhos com a infantilidade que presenciava; eu não teria paciência de ter amigos assim, sinceramente.

Voltei a olhar para Dowoon e sua expressão parecia meio aflita, as sobrancelhas estavam quase juntas e seus lábios haviam desaparecido em uma linha finíssima. Fiz menção de perguntar o que estava acontecendo, contudo ele me cortou, meio ansioso:

— Você está procurando por a-amigos? Ou quer um re-re... — respirou fundo por um momento, engolindo em seco. As palavras pareciam tropeçar em sua garganta e correr sem rumo para fora de sua boca. — Relacionamento?

A pergunta realmente me pegou de surpresa no momento. Eu havia me cadastrado em um site de relacionamentos para, de fato, encontrar alguém interessante e assim começar um namoro ou coisa do tipo. No entanto eu sabia que os encontros poderiam fracassar e eu poderia ter apenas novos amigos ou poderia continuar sozinho também. Entretanto, quando o próprio site me sugeriu Dowoon e Sungjin como minhas “almas gêmeas”, eu havia deixado bem claro que buscava por algo mais profundo do que só uma conversa de alguns minutos. Inclusive eu havia sido bem claro na minha descrição que queria conhecer novas pessoas, mas também buscava alguém que me interessasse ao ponto de conseguirmos marcar um segundo encontro.

— Para ser sincero eu quero um relacionamento, mas todo casal precisa ser amigo primeiro. As bases de um relacionamento são amizade, amor e companheirismo, acredito eu. E você busca o quê? — eu sabia que era uma resposta tosca, contudo Dowoon também parecia envergonhado com a pergunta tosca que havia feito, portanto não me importei muito com toda a tosquice que nos rodeava. Éramos toscos mesmo.

— Eu sinto falta de gostar de alguém de verdade, a-acho que quero um relacionamento...

— Não quero que pense que sou algum tipo de aproveitador. Eu realmente estou procurando alguém legal para... Passar um tempo legal.

— Eu entendo! Não quero que pe-pense que estou te pressionando, viu? Só quero te conhecer melhor.

Eu abanei as mãos tentando acalmá-lo e dizer que o entendia. Quando caímos no silêncio, desesperei-me tentando buscar algum assunto enquanto o rapaz na minha frente encarava seus sapatos ainda com o sorriso petrificado no rosto e as bochechas coradas. Ah meu Deus, que tipo de encontro é esse?

— Você est...

— Dowoon, nós precisamos ir. O chefe disse que ‘tá movimentado por lá. — fui interrompido por um rapaz baixinho e de cabelos azuis que disse as palavras que me salvaram por um momento. Soltei o ar com força, não disfarçando meu alívio por não precisar matar meus neurônios pensando em possíveis assuntos. Acho que sua timidez estava passando para mim por osmose.

— Posso...? — Dowoon apontou para o meu celular em cima da mesa e depois para o dele. Demorei um tempinho para entender o que ele queria dizer, mas estendi o aparelho de qualquer forma em sua direção. Ele digitou uma sequência de números bem rápido e depois me devolveu, corando mais uma vez e fazendo uma reverência longa. — O-Obrigado Wonpil. E parabéns pelo seu aniversário, mais uma vez, espero que tenha muito sucesso no trabalho e na vida. A-Até a próxima.

Yoon Dowoon me lembrava do anão Dengoso da Branca de Neve e foi assim que salvei seu número nos contatos.