Ao contrário das outras vezes, eu não estava nervoso, apenas curioso. Os dois primeiros encontros não haviam sido muito espetaculares e de um a dez poderia classificá-los com um seis e meio. Haviam durado, em média, vinte minutos. Não podia reclamar muito, afinal eram dois rapazes lindos e bem “diferentes”. Eu ainda mantinha contato com Sungjin e Dowoon, mesmo que o primeiro sempre demorasse a responder por que estava ocupado com os cães e o segundo puxasse pouco assunto por achar que estava sempre atrapalhando. A situação estava ligeiramente crítica e eu tentava não desanimar.

Esse terceiro encontro, no entanto, me enchia de esperança. Park Jaehyung parecia lindo pelas fotos e sabia conversar bem. Pelo menos pelo chat do site de relacionamentos ele sabia. Como estava fazendo um calor infernal na Coreia havíamos combinado de nos encontrarmos em uma sorveteria perto do meu prédio. Eu observava os carros na rua quando ele chegou trajando uma camiseta rosa, calça jeans e óculos de graus redondos. Passou as mãos pelos cabelos tingidos de loiros brevemente, arrumando-os, e então se aproximou com um sorriso polido nos lábios cheios.

— Kim Wonpil, estou encantado. É um prazer. — segurou minhas mãos de uma forma estranha e levou-as até os lábios. Eu me senti uma donzela por um momento. Tentando disfarçar o estranhamento, puxei-o para frente o forçando a sentar na cadeira e empurrei o cardápio de sorvetes para que olhasse. Seus olhos não desgrudaram de mim um milésimo de segundo sequer. — Já escolheu?

— Escolhi sim.

— Estou em dúvida: escolho o picolé ou a banana-split? — poderia ser uma pergunta extremamente normal se não fosse o sorriso sacana que moldava sua boca. Eu arregalei os olhos e me senti esquentar, começando pelo rosto e então o resto do corpo. UAU!

— Jaehyung...

— Não precisamos de tanta formalidade. Pode me chamar de Jae, será um apelidinho nosso. — piscou o olho direito para mim e escorregou sua mão até estar em cima da minha, dando uma apertada leve nela em seguida. Senti todo o meu rosto formar em seguida uma carranca incomodada e ele se afastou, chamando a garçonete.

Eu estava dividido entre espantado e atordoado; o loiro realmente era incrível quando conversávamos por mensagens, mas ao vivo ele agia como se tivéssemos muita intimidade e parecia ser do pior tipo de canalha possível. “Isso não vai prestar” era tudo o que eu pensava enquanto analisava sua figura alta, magra e elegante sentado como um príncipe em minha frente.

— Quer conversar sobre o quê? — indagou para mim após pedir os sorvetes. Sorri amarelo e balancei os ombros. — Vamos lá, quero saber mais sobre você e aposto que quer saber sobre mim também.

— Você... Trabalha em um restaurante, não é?

— Sim, no centro da cidade. A comida é ótima e nossas mesas são enormes, posso afirmar que dá até para deitar em cima delas tranquilamente. — sorriu de um jeito estranho para mim mais uma vez e desviei meu olhar para minhas próprias mãos levemente trêmulas em meu colo. Um era atrasado, o outro morria de vergonha e esse parecia um pornô ambulante. O que esse site tinha contra mim? — E você vive do quê?

— Eu trabalho em uma agência de modelos buscando novos talentos. Às vezes faço algumas fotografias também.

— Parece divertido. — comentou distraído, jogando uma piscadinha em minha direção. Qual é... — E você já pensou em modelar?

— O quê? Não, nunca quis.

— É uma pena, adoraria te ver em uma capa de revista. — um som encantador saiu de seus lábios e fiquei como bobo apreciando sua risada. Sua estranheza estava passando para mim, com certeza. Abri a minha boca para agradecer o elogio incomum quando ele parou de me hipnotizar com o seu riso, no entanto as próximas palavras dele me forçaram a continuar em silêncio: — Nu, de preferência.

A garçonete deixou os sorvetes na mesa e pude enfiar uma grande colher na boca para me acalmar e ao mesmo tempo não grudar na jugular daquele ser abusado. Quando caminhávamos para algum assunto legal, ele desviava. Seria meu destino ter sempre primeiros encontros ruins ou estranhos?

— Você parece incomodado. Peço desculpa, meu jeito sincero pode deixar algumas pessoas com medo. Vamos falar sobre algo mais leve: por que terminou seu último namoro?

OK! Eu jurei que um alarme barulhento soou em minha cabeça juntamente com algumas luzes vermelhas piscantes. Aquele assunto era proibido até entre meus amigos; eu odiava lembrar dos únicos dois amores que tive na vida. Um havia sido no comecinho da adolescência e dói sempre que falo sobre, afinal amor platônico já é traumático o suficiente quando acontece. O segundo havia sido com um garoto da faculdade que me traia com todos os meus colegas de classe. Desde então não havia saído com mais ninguém e mexer nessas feridas estava longe de ser confortável para um primeiro encontro “amigável e divertido”.

— Nossa, eu que peço desculpas... — sacudi a cabeça em negação e desesperei-me de vez. Fingi observar o relógio em meu pulso, sem nem enxergar as horas direito, e levantei-me. Metade do meu sorvete ainda estava no pote e joguei algumas notas na mesa para pagá-lo. — Preciso voltar para o escritório. Foi um prazer Jae.

O loiro me acompanhou até a porta e parecia estar se divertindo com tudo aquilo, o que fez minha raiva aumentar ainda mais. Mesmo sendo incrivelmente bonito, eu posso afirmar que era incrivelmente babaca também.

— Quando posso te ver de novo Wonpil?

Eu esperava que não tão cedo. Sua curiosidade e seu jeito “atirado” me deixavam extremamente desconfortável. Sungjin e Dowoon podiam ter seus muitos defeitos, no entanto não haviam invadido meu espaço pessoal daquela maneira. Era meio que “dois pesos e duas medidas” ou algo como “tudo o que é bom dura pouco”; o loira havia se mostrado um ser muito simpático e engraçado pelas mensagens do site, entretanto sua figura real era perturbadora. Pelo menos para mim. Deve ter algum louco que goste, tenho certeza.

— Logo mais. Até! — acenei para sua figura esbelta quando já estava um pouco longe, entrei em meu carro com pressa e sai dali rápido; temia que o abusado viesse atrás de mim e se oferecesse para conhecer meu apartamento. Eu não queria aquilo, não era o que eu buscava. Diferente das outras vezes, eu descartei esse encontro no mesmo dia e salvei o número de Jaehyung apenas por ele ser bonito; provavelmente daria uma boa capa de revista e eu sempre gostei de ganhar dinheiro descobrindo novos talentos. Devo frisar que será uma capa sem nudez, por favor.

Park Jaehyung parecia muito com Flyyn Rider do filme Enrolados e foi assim que o salvei nos contatos.