Meu querido sonâmbulo 2
15 Minha querida ajuda
Notas iniciais
O clima na sala de estar da casa da família Kim tinha se tornado extremamente pesado e desagradável com a abrupta chegada de Kim Namkyu, a mais nova da família. Diferente da personalidade tranquila e compreensiva do irmão mais velho, Kim Namjoon, a garota não media suas palavras e era sempre firme no que pensava e dizia, desagradasse a quem pudesse desagradar. Na verdade, ela nem sempre fora assim, tão direta e intransigente com suas opiniões, mas os traços mais fortes e até um pouco desagradáveis da sua personalidade tinham aflorado após o acidente do irmão — quando, ainda no começo da sua pré-adolescência, ela descobriu que a vida não era o mar de rosas no qual estava acostumada a se banhar dentro de casa e com os melhores amigos do colégio.
— Kim Namkyu, certo? — Shinhye foi a primeira a se pronunciar, quebrando a nítida tensão que se instaurara entre mãe e filha. — Eu me chamo Kim Shinhye, estou aqui como médica do seu irmão.
A garota, que ainda estava parada na soleira da porta, franziu o cenho.
— Médica? — questionou. — Aconteceu alguma coisa com o Namjoon-oppa?
Shinhye respirou fundo antes de responder. Se já não se sentia no direito de mentir para a mãe de Namjoon, quem dirá para a irmã mais nova já nitidamente tão abalada do mesmo; mas o que não significava que ela poderia contar toda a verdade para as duas. Por isso, a terapeuta forçou em seus lábios o sorriso mais tranquilo e acolhedor que conseguiu e fitou a menina.
— Nada que eu já não esteja trabalhando duro para conseguir resolver. — respondeu, por fim, o que não diminuiu muito a desconfiança da mais nova. — Na verdade, eu vim procurar o seu irmão, porém, acabei iniciando uma conversa sobre o passado dele com a sua mãe, pois é algo que poderia ajudar bastante no tratamento do Namjoon.
— É por isso que vocês estavam falando sobre o traste do Min Yoongi quando eu cheguei? — a garota perguntou e, automaticamente, recebeu um olhar repreensivo de sua mãe.
— Sim. — Shinhye respondeu rapidamente, impedindo a Sra. Kim de repreender a filha verbalmente. — Min Yoongi, Jung Hoseok e Kim Seokjin são peças importantes do passado do Namjoon que, provavelmente, o influenciam até hoje. Aparentemente, esses três são parte do problema que eu estou tentando resolver e, por isso, eu preciso saber de toda a verdade, até o que vocês nunca contaram para o próprio Namjoon.
— E por que nós deveríamos lhe contar essas coisas? — Namkyu rebateu, séria, e cruzou os braços.
— Porque nós queremos a mesma coisa. — a terapeuta respondeu e, imediatamente, a perspicaz Namkyu entendeu que a desconhecida se referia ao melhor para Namjoon. — E, além disso, eu só quero ajudar o seu irmão. Jamais faria nada de mal para ele.
Dito isso, a Kim mais nova permaneceu por mais um par de segundos em silêncio, apenas analisando a situação e a própria Shinhye sentada no sofá da sua sala de estar. Em seguida, dando-se por vencida, ela caminhou até o centro do cômodo, deixando a mochila do colégio cair de seus ombros em algum canto do mesmo. Sentou-se na ponta oposta do mesmo sofá no qual Shinhye estava sentada, acabando por ficar entre ela e a sua mãe.
— Shinhye-ssi, espero que você mantenha em mente que a minha filha é apenas uma adolescente magoada pelo o que aconteceu ao seu irmão mais velho. — a Sra. Kim iniciou, mas não atraiu o olhar de Namkyu para si. — Nem tudo o que ela diz está totalmente correto, apenas...
— Parece que nós temos um impasse aqui. — Shinhye interrompeu a mais velha, parecendo pensativa. Seu olhar alternava cuidadosamente de uma Kim para a outra. — Sinceramente, eu não gosto do Yoongi, mas isso não significa que eu deixarei o meu julgamento ou as minhas ações serem influenciados por isso. Creio que, o que acontece aqui, é que a senhora tem pena do menino injustiçado que o Yoongi parece ter sido e, por outro lado, a sua filha aparentemente o odeia por ter feito algo com o seu irmão. Por isso, ouvindo o que as duas têm a dizer e conhecendo as duas versões da história, acho que posso chegar à essência da mesma.
Naquele momento, o esforço de Shinhye em passar uma imagem estritamente profissional e neutra para mãe e filha parecia estar valendo a pena — ainda que ela estivesse quase sendo consumida silenciosamente pelo seu nervosismo e curiosidade em seu interior — já que ambas trocaram olhares de concordância entre si após a fala da terapeuta. Como a Sra. Kim já tinha começado a sua parte da história, permaneceu em silêncio e permitiu que a filha tivesse a palavra daquela vez.
E, influencia pela Kim desconhecida, a mais nova resolveu se esforçar para não destilar toda a raiva que sentia de Yoongi através de suas palavras, contando tudo o que sabia e do que se lembrava do modo mais racional possível.
— Basicamente, o Yoongi e os outros dois colegas de classe dele, Hoseok e Seokjin, nunca se derem bem. O Yoongi os odiava por terem tudo que ele nunca tinha tido e, os outros dois, odiavam o Min por ser alguém que não tinha nada. Era uma guerra por conta de status social que, obviamente, Yoongi perderia por estar do lado mais fraco da corda. — Namkyu iniciou a explicação, séria. — Até que, certo dia, o Namjoon-oppa viu o Hoseok e o Seokjin dando uma surra covarde no Yoongi e resolveu intervir, mesmo sem conhecê-los direito. Ele ajudou o Min a se livrar dos dois e, a partir daí, acabou virando alvo deles também.
— Contudo, pelo o que eu sei, eles nunca conseguiram fazer nenhum mal de fato ao meu filho, pelo menos naquela época. — a Sra. Kim continuou. — O Namjoon era um dos alunos mais aplicados e preferidos dos professores e, por isso, os mesmos sempre acabavam lhe dando razão, por mais que o Hoseok e o Seokjin fossem filhos de pessoas importantes na cidade.
— E eu suponho que isso só aumentou o ódio dos dois pelo Namjoon, certo? — foi a vez de Shinhye se pronunciar, ainda que já soubesse a resposta para a sua pergunta.
— Exatamente. — Namkyu lhe respondeu. — E foi justamente aí que o Yoongi encontrou no meu irmão um escudo. Eles até podiam ser amigos, que seja, mas o Min não hesitava em usar o meu irmão contra os seus dois maiores pesadelos quando precisava.
— Como assim? — Shinhye perguntou quando viu que a Sra. Kim estava prestes a contradizer a filha, muito provavelmente em defesa de Yoongi. Entendia o lado da mulher, afinal, ela aparentava ter um enorme coração de mãe que em algum momento acabou por adotar o Min também, mas não era aquele lado da história que a terapeuta buscava descobrir.
Queria a realidade.
— O pior e último atrito que aconteceu entre os quatro foi justamente por isso. — a Kim mais nova afirmou. — A escola do meu irmão era muito rigorosa, assim como as suas punições para as infrações dos alunos. Certo dia, o Yoongi foi até a diretoria depois de uma prova para denunciar que o Hoseok e o Seokjin tinham colado durante a mesma. O diretor ficou furioso, óbvio, mas pediu uma prova ao Min, caso contrário, não poderia tomar nenhuma atitude. E qual foi a prova que ele apresentou? —a garota pausou, precisando se controlar para não deixar o sangue subir para a cabeça apenas ao se lembrar do que tinha acontecido naquela época. — O meu irmão.
— O Namjoon disse que ouviu os dois planejando aquilo no banheiro, antes da tal prova. — a Sra. Kim interrompeu a filha. — Ele nunca teria mentido sobre isso.
Namkyu respirou fundo e, por um breve momento, fechou os olhos para reunir a coragem da qual precisava para contar aquilo para a mãe. Para a Sra. Kim, as coisas eram muito mais claras e fáceis de entender do que realmente eram, mas já estava na hora da sua filha mais nova abrir os seus olhos para algumas verdades. Sabia que magoaria a mãe, contudo, se aquilo era necessário para ajudar o irmão no que quer que ele estivesse passando, não poderia pensar duas vezes para fazê-lo.
— Mas mentiu, mãe. — a garota admitiu e abaixou a cabeça, evitando o olhar da mais velha. — Você sabe como nós sempre fomos próximos, não é? Ele me contava tudo sobre si, inclusive sobre quando mentiu para o diretor do colégio dizendo ter escutado algo que nunca escutou. O Namjoon-oppa não queria ter feito aquilo, mas o Yoongi conseguiu convencê-lo.
— Isso não é possível. — a Sra. Kim rebateu num misto de certeza e choque de realidade, parecendo um tanto perdida. — O meu filho nunca faria isso...
Por fim, Namkyu a fitou.
— O Min disse a ele que haveria consequências para eles dois se o diretor descobrisse que a sua denúncia era falsa, enchendo a sua cabeça de péssimos cenários até o meu irmão finalmente aceitar contar aquela mentira. — a mais nova revelou. — Por fim, o Namjoon-oppa foi até o diretor e disse exatamente o que o Yoongi lhe mandou dizer, o que resultou na quase expulsão do Seokjin e do Hoseok do colégio. A coisa toda só não foi pior porque as duas famílias resolverem intervir, mas os dois ainda acabaram suspensos por um bom tempo.
— Então, o meu filho... fez mesmo isso? E por causa do Yoongi? — a Kim mais velha indagava, parecendo estar em conflito consigo mesma. — Eu aceitei aquele garoto dentro da minha casa, eu... eu cuidei dele como se fosse o meu próprio filho. Eu tive pena dele esse tempo todo.
— Desculpa, mãe. Eu realmente peço perdão por não ter lhe contado isso antes. — Namkyu murmurou, nitidamente arrependida. — Eu só não queria que a senhora acabasse como eu, tão cheia de rancor.
— Mas você ficou assim porque teve que carregar a verdade sozinha por todos esses anos... — a mãe murmurou, ainda abalada pelo o que tinha acabado de descobrir.
Poderia não parecer muito aos olhos alheios, contudo, a Sra. Kim naquele momento era uma mãe descobrindo sobre como o filho tinha sido covardemente manipulado bem debaixo do seu nariz, isso tudo sem que ela sequer percebesse. Namjoon nunca teria mentido sobre algo tão sério, mas a influência de Yoongi sobre a sua inocência tinha o levado a fazer tal coisa. Por isso, na cabeça da Sra. Kim, ela se culpava. Poderia ter educado melhor Namjoon, conversado mais com ele, tê-lo feito alguém mais forte ou, simplesmente, notado o tipo de pessoa que o Min realmente era — mas, ao invés disso, ela cozinhava deliciosos cafés da manhã toda vez que o garoto dormia em sua casa.
Estava tomando para si, como mãe, a sua própria parcela de culpa no acidente do filho.
— Mas ela não estava sozinha. — foi Shinhye quem se pronunciou, atraindo o olhar entristecido e igualmente confuso das outras duas Kim’s presentes. — O Yoongi também sempre soube, mas nunca contou a ninguém, não é mesmo? Assim como não contou que o Namjoon acabou sendo atropelado por causa da mentira dele.
Depois de escutar toda a história, não tinha sido difícil para Shinhye chegar àquela conclusão. Diante de si, agora, ela via mãe e filha se culpando e sofrendo por algo no qual não tinham exatamente nenhuma culpa, o que fazia com que se sentisse extremamente inconformada. Dos três verdadeiros causadores de todo aquele caos no passado de Namjoon, dois estavam mortos e, por fim, apenas um seguia com a sua vida enquanto sabia de toda a verdade e, mesmo assim, permanecia em um suspeito silêncio.
Por isso, cada vez mais, Shinhye acreditava que Yoongi tinha muito mais culpa do que realmente aparentava ou se tinha conhecimento sobre.
— Eu não faço ideia de qual era a intenção daqueles dois bastardos, mas o Yoongi contou à polícia que o meu irmão salvou a sua vida. — Namkyu contou com a voz embargada. — O Namjoon-oppa o empurrou para longe quando viu o carro se aproximando em alta velocidade e, por isso, acabou sendo atropelado sozinho, enquanto o Min saiu sem nenhum arranhão. Novamente, o meu irmão só tinha boas intenções, mas acabou realmente se machucando dessa vez por causa disso.
Como Shinhye podia tê-lo abandonado daquele jeito?
Era exatamente o que se passava na cabeça da terapeuta naquele momento, que se sentia arrependida pelo modo como tinha tratado Namjoon. Tinha cuspido informações demais para o sonâmbulo confuso e que sofrera tanto ao longo dos anos, piorado as coisas e o feito fugir daquele jeito, tudo isso porque tinha tomado conclusões precipitadas. Tudo o que Namjoon tinha feito era contado uma mentira por influência de uma terceira pessoa que acreditava ser seu amigo, coisa que muitos adolescentes da sua idade já faziam naturalmente, e as consequências para aquilo tinham sido horrivelmente desonestas. Ele tinha mentido, claro, mas a retaliação que sofrera fora cruel demais para alguém que sequer conhecia as maldades do mundo.
E Shinhye, que prometera ajudá-lo a descobrir toda a verdade sobre o seu sonambulismo e tudo mais, não tinha feito nem mesmo um porcento daquilo.
Ainda.
— E por que o dois foram inocentados do atropelamento, no fim das contas? — a terapeuta perguntou depois de alguns minutos em silêncio, respeitando a dor que mãe e filha nitidamente sentiam ao relembrar aquela história.
Diante da pergunta de Shinhye, a jovem Namkyu deixou escapar uma risada amarga.
— Porque, de acordo com o juiz, apenas o testemunho de Yoongi não era o suficiente para condená-los, nem o fato de que o veículo do pai do Seokjin nitidamente tinha sido o mesmo que atropelou o meu irmão. — a garota respondeu. — Mas o que esperar de um juiz que era amigo de ambas as famílias, certo? O Sr. Kim era um delegado influente aqui na cidade e o Sr. Jung, pai do Hoseok, naquela época era desembargador na capital. A verdade, infelizmente, é que o meu irmão nunca teve chance contra aqueles dois.
— E o Namjoon nunca soube disso? — a terapeuta questionou. — Digo, ele me disse que o motorista nunca havia sido pego.
— Nós decidimos não contar para ele. — foi a mãe dos irmãos Kim quem respondeu. — Ele estava tão perdido quando acordou... E não tardou a se mudar para Seul, por isso, acabou não descobrindo por ninguém daqui também.
Então aquela era toda a verdade, pelo menos sobre o passado de Namjoon. Ainda havia muito para Shinhye descobrir, contudo, relacionado ao que tinha acontecido para que o Kim acabasse como acabou, ela pelo menos já tinha os fatos bem mais esclarecidos do que antes. Sabia, de fato, que tipo de pessoa Namjoon ao menos costumava ser, o que fazia com que torcesse para que ele não tivesse mudado depois de acordar do coma. Porque lhe faltava, agora, descobrir quem Namjoon era hoje e, o mais importante, sob a influência de quem sua possível nova personalidade havia sido construída e moldada.
Respirou fundo e, percebendo que tanto mãe quanto filha já estavam nitidamente mais calmas — ou pelo menos, menos em choque — Shinhye chegou a abrir a boca para lhes dizer alguma palavra de conforto e, ainda, agradecê-las por terem confiado nela o suficiente para contar tudo aquilo, mas foi impedida pelo barulho da porta da frente. Risadas masculinas tomaram conta do silêncio do ambiente e, logo, a Sra. Kim já estava se recompondo para encontrar quem sabia que tinha acabado de chegar, pois não podia deixar que nem o marido e muito menos o filho lhe vissem tão abalada daquele jeito.
E não tardou para que as duas figuras altas aparecessem na sala de estar, sendo Namjoon alguns poucos centímetros maior do que o pai. Na verdade, os dois eram bem parecidos fisicamente, inclusive no tom de pele mais moreno e no porte esguio; e no olhar confuso quando se depararam com a figura de Shinhye sentada no sofá, obviamente, apesar do Sr. Kim nunca ter visto a terapeuta antes.
Quando Namjoon pousou os olhos em Shinhye, ele sequer soube qual reação deveria esboçar.
— Shinhye? — o Kim mais novo perguntou, surpreso. — O que faz aqui?
***
— Então... você quer que eu volte para Seul? — indagou, confuso. — E com você?
Para o Kim, até então, o maior desejo de Shinhye ao mandá-lo embora do seu apartamento seria de nunca mais vê-lo; e, sinceramente, ele entendia a decisão da terapeuta. Se ele próprio estivesse no lugar dela, tentando ajudar alguém que logo se revelara um assassino em potencial, possivelmente teria feito o mesmo. Namjoon não fazia ideia de quais eram as suas ações quando estava dormindo e, podendo representar um perigo para aqueles que o rodeavam, sentia por si só a necessidade de se afastar dessas pessoas.
E foi justamente por isso que ele se surpreendeu tanto ao encontrar Shinhye dentro da sua própria casa, ainda mais acompanhada da sua mãe e irmã mais nova. Quando foram deixados sozinhos pelo restante da família, na varanda da residência, a Kim logo explicou que tinha o procurado por toda parte até, finalmente, imaginar que ele tivesse voltado para casa, para as suas raízes. Ele não chegou a questioná-la sobre como ela sabia o seu endereço, afinal, aquilo não lhe importava realmente.
Vê-la apenas acendeu dentro de si um fio de esperança, ainda que frágil.
— Primeiro de tudo, eu quero me desculpar pelo modo que agi da última vez em que nos vimos. — ela iniciou e, sentada em uma das cadeiras de ferro que a família usava para decorar a varanda da casa, o fitou. — Eu estava exausta, assustada e confusa, mas não deveria ter dito o que disse e como eu disse.
— Você não precisa se desculpar por isso. — Namjoon afirmou. — Qualquer um no seu lugar teria feito o mesmo, não foi errado.
— Foi errado a partir do momento que eu quebrei a minha promessa. — ela rebateu, séria. — Eu disse que iria ajudá-lo a descobrir o que estava acontecendo com você e, de repente, ignorei completamente a minha palavra.
Dito isso, o Kim respirou fundo e se manteve em silêncio por um longo momento. Olhou para o céu e, ao contrário do que era normal em áreas de interior como aquela, não encontrou nenhuma estrela brilhando naquela imensidão escura.
— Você não precisa fazer isso, de verdade. — disse e respirou fundo novamente, em nenhum momento tendo coragem de fitar a mulher sentada ao seu lado. — É perigoso. Eu sou perigoso, na verdade. Sei que está com pena de mim, mas precisa ter em mente que ninguém sabe como eu sou quando estou dormindo.
— Pena? — Shinhye rebateu, séria. — Quem disse que eu tenho pena de você?
Em resposta, o Kim rio fraco e descrente.
— E não tem?
— Não. — respondeu sem pensar duas vezes, finalmente atraindo o olhar de Namjoon para si. — Infelizmente, eu perdi essa habilidade quando ainda era muito jovem, quase uma criança. Fui criada de um jeito que me fez acreditar que as pessoas podem muito bem lutarem por si próprias, então não, eu não tenho mais pena dos outros.
— Então por que veio atrás de mim? — o Kim a questionou. — Por que insiste tanto em me ajudar?
Quando perguntada sobre aquilo, Shinhye, que até então imitava Namjoon ao olhar para o céu escuro e ausente de estrelas, voltou a fitá-lo também.
— Porque eu sei como é sentir o tipo de abandono que você está sentindo agora. — ela respondeu, por fim. — Ninguém sabe o que está acontecendo com você, mas você sente que, se soubessem, ninguém acreditaria na sua inocência. Você não acredita em si mesmo. — pausou. — Não é pena o que sinto, mas sim, empatia.
Porque ela, de certo modo, se via nele.
— Você acredita mesmo em mim? — o Kim indagou, ainda um tanto descrente.
— Estou disposta a tentar. — a terapeuta afirmou. — Mas, para isso, vou precisar que você volte comigo para podermos enfrentar isso juntos.
De fato, Namjoon não podia crer que alguém realmente acreditava nele daquele jeito, em especial Shinhye. Ela era a única pessoa de todas as outras bilhões existentes no mundo, de sua família e até mesmo do seu reduzido círculo de amigos, que sabia sobre o que estava acontecendo com ele — sobre o sonambulismo, as manchas de sangue, os corpos e o seu desespero. Por isso, ele sentia que, por mais que estivesse apavorado com o fato de que poderia vir a machucá-la fisicamente algum dia quando inconsciente, ele não tinha como resistir àquele voto de confiança tão tentador. Aquela mulher, a qual ele havia consolado por causa de uma traição sem sequer conhecê-la e a mesma que, mais tarde e por uma obra pirracenta do destino, representava a sua única chance de descobrir quem realmente era e o que tinha feito enquanto dormia.
Porque, claramente, ela sabia mais sobre si do que ele próprio.
Por esse motivo, naquele momento, Namjoon fez uma promessa silenciosa de que jamais encostaria um dedo em um único fio de cabelo sequer de Shinhye, fosse consciente ou não. Mesmo dormindo, o Kim nunca machucaria a única pessoa que ignorava as provas mais lógicas contra si para, mesmo assim, lhe estender uma mão de socorro.
— Juntos. — o Kim concordou, por fim, e um esboço de um sorriso chegou a ocupar os seus lábios inconscientemente. — Faremos isso juntos.
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