Meu querido sonâmbulo 2

8 Meu querido pesadelo


A polissonografia de Namjoon vinha correndo estranhamente bem e, sinceramente, não havia necessidade sequer da presença de um especialista em sono na sala de exames para determinar tal fato. O Kim demorara pouco mais de quarenta minutos para finalmente cair no sono — o que, até então, tinha sido a única coisa a chamar a atenção de Shinhye — e, desde então, um par de horas mais de tarde, não havia se movimento nem mesmo o suficiente para amassar o lençol impecavelmente branco e esterilizado que cobria a cama onde estava deitado. Shinhye observava a movimentação monótona nas máquinas ligadas ao corpo de Namjoon pelos eletrodos e, se já não estivesse acostumada a passar noites em claro enquanto observava o sono de outras pessoas, certamente já teria caído no sono ela própria. O bip constante e eletrônico, típico de um paciente desacordado, denunciava a pacificidade do sono do Kim e frustrava as expectativas de Shinhye, de um certo modo. Bem, para quem tinha acabado de presenciar algo próximo de um show de horrores na sala ao lado justamente por causa de um paciente sonâmbulo, ela esperava, no mínimo, algo que pudesse apontar alguma anomalia em Namjoon; mas nada de diferente parecia dar sinal de que estava prestes a aparecer.

Shinhye respirou fundo e fitou a figura em sono profundo do outro lado do vidro. A conversa que tivera com Namjoon pouco antes do início do exame ainda rodeava os seus pensamentos, especialmente pelo fato do homem sequer se lembrar de quem costumava ser antes do seu acidente tão repentino e trágico. Se o Kim Namjoon atual, aquele que estava deitado diante de si justamente por ser suspeito de um assassinato, era aquele, quem teria sido o antigo?

— E se eu realmente estiver errada sobre o atual? — questionou a si mesma enquanto suas palavras, ainda que sussurradas, reverberavam pela sala vazia.

Não importava como olhasse para o Kim, ainda que não o conhecesse tão bem, não conseguia enxergar nele um assassino. Tinha tratado de todos os tipos de sonambulismo ao longo de sua vida, dos mais comuns aos mais excêntricos, e agora, vendo-o dormir tão pacificamente enquanto grudado a quase meia dúzia de máquinas, a sua experiência como terapeuta do sono se aliava ao seu instinto de uma quase-policial: ele tinha que ser inocente.

Céus, se ela ao menos tivesse algum sinal de Taehyung e dos documentos que o mesmo prometera.

Suspirou, porém foi outro barulho o responsável por quebrar o silêncio que reinava em ambas as salas, cada uma do seu lado específico do vidro. A máquina que monitorava os sinais vitais de Namjoon emitiu um som mais alto do que o normal, indicando que o sono do rapaz começava a se agitar, o que automaticamente colocou de pé a terapeuta que o observava. O Kim começou a se remexer sobre a cama e também a gemer baixinho, como se estivesse sentindo alguma dor. Shinhye fitou a máquina que vinha monitorando a sua atividade cerebral e, assim como a outra, também apontava o início de uma agitação anormal. Os sinais vitais de Namjoon começaram a acelerar, o que fez a Kim prender a própria respiração em um misto de ansiedade e nervosismo.

— Por que eles fizeram isso comigo? — Namjoon sussurrou ao se contorcer sobre a cama. Ele realmente parecia estar sentindo dor, ainda que não houvesse nada ao seu redor que pudesse estar o machucando. — Eu não fiz nada de errado... Eu só queria que aquilo parasse... Por quê?!

Depois da primeira exclamação um tanto revoltada, vieram as primeiras lágrimas e só então Shinhye se deu conta do que estava acontecendo com o Kim. Não se tratava de algo presente naquela sala o ferindo ou colocando em risco a sua integridade física, mas sim de uma dor psicológica. As lágrimas começaram a surgir descontroladamente pelos olhos ainda fechados de Namjoon e, enquanto soluçava, ele também continuava a gemer de dor. O lençol da cama, antes praticamente intocado, agora começava a ser arrancado da mesma devido à toda aquela agitação.

E então, quando se deu por si, Shinhye estava invadindo às pressas a sala de pacientes e indo na direção do Kim sem saber ao certo o que estava fazendo. Ela deveria ter o deixado sozinho pelo bom andamento do exame, não importava o quanto estivesse sofrendo em seu sono. Ele claramente estava sonhando e não havia nada ao seu redor que pudesse machucá-lo, contudo, aquele pensamento racional simplesmente não cruzou os pensamentos repentinamente afobados e preocupados de Shinhye. Quando finalmente alcançou Namjoon, ela o segurou pelos braços, primeiramente impedindo que ele continuasse a se debater e remexer.

— Kim Namjoon! — chamou, forçando-o a ficar parado. — Kim Namjoon, acorda! Namjoon!

E então, num único pulo assustado e repentino, o Kim de algum modo colocou-se sentado sobre cama e de olhos abertos. Os gemidos e soluços pararam quase que instantaneamente, ao passo que o homem demorou alguns segundos para se localizar e se dar conta de que tinha acabado de acordar de um pesadelo. Pendeu a cabeça para o lado vagarosamente e, com o rosto ainda coberto por lágrimas, fitou Shinhye com toda a confusão dentro de si transbordando pela expressão pasma.

— O que aconteceu? — ele perguntou em meio a um soluço.

De repente, percebendo o estado no qual se encontrava, seus olhos voltaram a ficar marejados sem a sua permissão — contudo, dessa vez, ele estava consciente o suficiente para realmente estar sentindo vontade de extravasar tudo o que sentia em formato de lágrimas. Vendo aquilo e no calor do momento, Shinhye não pensou duas vezes antes de fazer o mesmo que o Kim tinha feito por ela quando a viu sofrendo e puxou-o para um abraço. Inicialmente, os braços da Kim envolveram os ombros largos de Namjoon e ambas as suas mãos repousaram em suas costas; contudo, a mão direita da mulher logo se voltou para os cabelos do Kim, deixando ali um afago solidário. Ele, por sua vez, estava tão exausto e confuso que apenas aceitou o gesto, permitindo-se fungar algumas vezes contra o jaleco bem passado da terapeuta.

— Vai ficar tudo bem. — ela repetiu, num sussurro, a frase que certa vez tinha ouvido da boca do próprio Namjoon, na época um mero desconhecido.

Os dois permaneceram naquela posição por mais alguns instantes, ambos esperando pacientemente que Namjoon se acalmasse. Quando percebeu que os soluços haviam cessado, Shinhye foi a primeira e interromper o abraço. Cuidadosamente, ela afastou o Kim de si e o fitou, analisando-o.

— Você teve um pesadelo no meio do exame. — explicou com calma, tentando não o assustar ainda mais.

Contudo, ao contrário do que ela esperava, ele concordou com um aceno de cabeça.

— Eu sei. — afirmou e agora, já separado da Kim, fitava o pequeno espaço vazio entre os corpos dos dois para não precisar encará-la diretamente. — Não é a primeira vez que isso acontece, mas fazia tanto tempo desde a última que eu... Não sei, acho que eu tinha esquecido como era horrível ter esse tipo de sonho.

— Você já teve pesadelos antes? — Shinhye indagou e ele voltou a concordar com a cabeça. — E foram todos iguais?

— Eu não sei, não consigo me lembrar de nada depois que eu acordo. Só sei que tive um pesadelo por causa do estado em que eu acordo, como você pode ver. — respondeu, frustrado.

Shinhye não precisou fitá-lo para saber sobre o que ele estava falando, afinal, fora justamente por isso que acabara abandonando a sala de exames para, ao contrário do que ditava a sua ética profissional, acordá-lo e tirá-lo daquele sofrimento tão nítido e agonizante. A polissonografia tinha sido basicamente desperdiçada por conta do seu ato impensado, contudo, a Kim não se arrependia nem um pouco de ter feito o que fez.

— Você disse que tinha muito tempo que isso não acontecia... — ela iniciou, percebendo algo. — Você faz ideia do porquê de os pesadelos terem parado até então?

— Na verdade, os pesadelos pararam depois que o Yoongi-hyung me deu um remédio fabricado pelo laboratório farmacêutico em que ele trabalha. Ele disse que serviria para melhorar a qualidade do meu sono ou algo assim. — o Kim respondeu sem pensar duas vezes. — E tem funcionado, de fato, pois eu nunca mais tive pesadelos depois que eu comecei a tomá-lo. Deve ter acontecido hoje porque eu saí de casa às pressas e esqueci de trazer o comprimido que eu deveria ter tomado antes de me deitar para dormir.

— Um comprimido para dormir? — a Kim indagou com o cenho franzido. — Há quanto tempo você está tomando esse remédio?

Namjoon pensou por um momento antes de responder.

— Há uns seis meses, talvez um pouco mais do que isso. — afirmou. — Por que? Você acha que pode estar interferindo em alguma coisa?

— Talvez. Sem querer ofender o seu amigo, mas não deixa de ser um remédio que não foi receitado por nenhum especialista no seu problema. — a terapeuta explicou, agora assumindo um ar nitidamente mais profissional. — Como sua médica, eu vou precisar dar uma olhada nesse remédio.

O Kim levou alguns segundos para processar aquela informação; agora tinha uma médica. Não se lembrava de ter sido cuidado e tratado daquele modo, pelo menos não pelo o que a sua curta memória o permitia lembrar. Pela primeira vez desde que acordara após o acidente, estava vendo alguma luz no fim do túnel, mesmo que essa ainda se mostrasse um tanto distante.

— Tudo bem. — concordou, por fim. — Já que eu não me lembro do nome direito, posso trazê-lo para você ver.

Shinhye concordou com um aceno de cabeça, agradecendo mentalmente por Namjoon ser do tipo de paciente que cooperava e era compreensível — coisa que ela não encontrava com tanta frequência quanto se era esperado. De repente, ela sentiu o celular vibrar no bolso do jaleco e o alcançou, pedindo licença para deixar Namjoon alguns passos para trás e ver do que se tratava. Abriu o aplicativo de mensagens que costumava usar e nele encontrou um aviso que havia acabado de ser publicado no grupo que reunia os moradores do seu prédio, enviado pelo síndico do mesmo. O senhor, já de idade, havia digitado um texto tão formal quanto sensível para informar sobre o velório de Kim Seokjin, que ocorreria próximo ao horário do almoço daquele mesmo dia.

“Infelizmente, um dos nossos moradores nos deixou de forma tão trágica, repentina e traumática. Aqueles que puderem, compareçam ao velório do mesmo como forma de prestar uma última homenagem a alguém que nunca deixou a desejar como nosso vizinho.”

Era com aquelas palavras que o homem terminava o pequeno texto e fora justamente as mesmas que mais impactaram Shinhye. Teria tempo para ir ao velório se quisesse, contudo... deveria ir? Fitou Namjoon por cima do ombro, que ainda se recuperava do pesadelo tão dolorido que tivera. Mesmo que acreditasse na inocência do Kim, o modo como havia o encontrado e ainda por cima tão próximo do corpo de Seokjin o tornavam suspeito demais no meio de todo aquele caos. E se ela estivesse ajudando o assassino do homem para o qual estava indo prestar uma última homenagem?

Virou-se para Namjoon, repentinamente decidida. Uma ideia estava passando pela sua cabeça e ela simplesmente resolveu agarrá-la, decidindo que lidaria com as consequências mais tarde.

Quanto mais demorasse a tomar uma decisão, mais hesitaria.

— Kim Namjoon. — ela o chamou, atraindo a atenção do homem para si. — Eu sei que isso é um tanto repentino, mas... Eu preciso ir a um lugar hoje e gostaria que você me acompanhasse.

O Kim a fitou, franzindo o cenho.

— E que lugar seria esse?

***

Quando Shinhye estacionou o carro de Haechan — infelizmente, ela ainda estava dependendo da boa vontade do seu assistente, pelo menos até que o seu próprio carro e vítima das barbeiragens de Jungkook ficasse pronto — Namjoon fitou a casa funerária com uma expressão um tanto espantada exposta nos seus pequenos olhos.

— Nós estamos indo a um velório? — indagou, confuso.

A Kim pigarreou, um tanto sem jeito. Sua ideia poderia ser de fato útil, contudo, colocá-la em prática lhe demandaria uma dose extra de coragem.

Respirou fundo.

— Sim. — respondeu. — Eu sei que isso pode parecer estranho, mas...

— Tudo bem. — o Kim concordou, a interrompendo. — Não é a minha primeira vez em um velório e muito provavelmente não será a última. Eu realmente não me importo em acompanhá-la caso você precise.

Shinhye o fitou, surpresa. Namjoon era verdadeiramente uma pessoa fácil de se lidar e não parecia se deixar esgotar com as coisas tão facilmente, o que a Kim apreciava e muito. Isso tornava a convivência entre os dois bem mais fácil, o que contribuía consideravelmente para os planos e investigações de Shinhye.

— Obrigada. — ela agradeceu a prestatividade do Kim, oferecendo um sorriso de fato sincero como acompanhamento.

Logo em seguida, os dois já estavam do lado de fora do veículo e caminhavam lado a lado em direção à casa funerária, sendo essa um tanto impressionante. O local era grande e trazia em sua faixada traços da arquitetura grega, o que não era muito comum em construções coreanas e, de cara, já denunciava que ali eram veladas pessoas que realmente tinham condições de receberem tal despedida.

— Se você não se importa em me dizer... — Namjoon murmurou para a Kim assim que entraram no local onde aconteciam três velórios simultaneamente, cada um em um respectivo andar da construção. — Mas de quem é o velório?

— Do meu vizinho de prédio. — Shinhye respondeu de forma curta e sem maiores detalhes.

Por um outro lado, Namjoon também não fez questão de saber mais do que aquilo e apenas balançou a cabeça em concordância. O velório de Seokjin acontecia no segundo andar e os dois subiram a larga escadaria até o mesmo sem maiores trocas de palavras, apenas respeitando o silêncio que o local pedia. Alcançando a sala onde estava, de fato, ocorrendo o velório de Seokjin, os murmúrios típicos de um sepultamento começaram a serem ouvidos com maior nitidez por ambos os Kim’s, que automaticamente endireitaram suas respectivas posturas. Na porta do salão estavam uma senhora que, já curvada pela idade, abafava os soluços causados pelo choro constante com um lenço de um tecido grosso e tingindo de preto — assim como o restante de sua roupa — e um rapaz mais alto do que a mesma que a apoiava no seu próprio braço. O homem, que tinha os cabelos pintados de um vermelho escuro e igualmente vibrante, logo chamou a atenção de Shinhye pelo modo como parecia estar tomando o posto de anfitrião para si, dado o modo como a mulher ao seu lado parecia desgastada demais para fazê-lo.

Contudo, a coisa mudou de figura quando os seus expressivos olhos castanhos pousaram diretamente sobre Namjoon. Shinhye já o observava à distância quando o homem arregalou os olhos de forma escancarada ao se deparar com o Kim e, rapidamente, disse algo ao pé do ouvido da senhora chorosa antes de sumir do seu campo de visão parecendo apressado. Shinhye estranhou a atitude do desconhecido, porém, não era como se pudesse correr atrás do mesmo em um ambiente como aquele, então decidiu que poderia procurá-lo em um outro momento. Afinal, ele não teria simplesmente ido embora de um velório do qual estava praticamente sendo o anfitrião, certo? Deveria se tratar de uma pessoa próxima de Seokjin e que certamente não abandonaria o falecido assim. De um jeito ou de outro, Shinhye conseguiria encontrá-lo depois.

— Com licença. — a Kim disse formalmente, aproximando-se da senhora que ainda chorava na porta do salão. — É aqui que Kim Seokjin está sendo velado?

A mulher a fitou, afastando o rosto do lenço e fungando algumas vezes seguidas.

— Você conhecia o meu filho? — ela perguntou, abatida.

Então aquela era a mãe de Seokjin.

— Sim, ele era meu vizinho. — Shinhye respondeu e segurou as mãos da senhora com delicadeza. — Eu sinto muito pela sua perda, Sra. Kim.

Namjoon repetiu a frase e, observando-o com cuidado, Shinhye reparou que o Kim não tinha esboçado nenhuma reação fora do normal ao ouvir o nome de Seokjin. Eles não deveriam se conhecer, o que não seria tão inesperado assim.

Enxugando as lágrimas, a mãe de Seokjin pediu para que os recém-chegados entrassem no salão para uma despedida apropriada e assim os dois o fizeram. Shinhye estava assistindo a cada passo de Namjoon com firmeza, inclusive quando o mesmo se deparou com a foto de Seokjin exposta ao fundo do salão, essa rodeada por flores e mensagens de despedida. Ela estava prestes a se ajoelhar e fazer todo o procedimento tradicional coreano no que se tratava de velórios, contudo, parou o ato quando viu a expressão de Namjoon mudar rapidamente da água para o vinho. O Kim, antes calmo e aparentemente inabalado pela situação, agora franzia o cenho enquanto encarava a foto de Seokjin e, inconscientemente, deixava transparecer todo o desconforto que sentia ao se deparar com aquele homem. Na foto, os olhos pequenos e cheios de vida, bochechas um tanto recheadas e o cabelo preto sedoso pareciam completamente inofensivos — contudo, não era exatamente aquela a impressão que aquele olhar, agora já falecido, passava para Namjoon.

— O que foi? — Shinhye perguntou, fitando-o. Havia mais algumas pessoas no salão e, por isso, ela mantinha o tom de voz mais baixo. — Aconteceu alguma coisa?

— Esse olhar... — Namjoon sussurrou não pelo mesmo motivo que a Kim, mas sim por estar perdido demais dentro da própria mente para se dar conta daquilo. — Alguma coisa nesse homem não me é estranha.

— Você o conhece? — a terapeuta insistiu.

— Não. Quer dizer, não que eu me lembre. — ele respondeu ainda sem desviar os olhos da fotografia. — Mas algo no olhar dele simplesmente faz com que eu me sinta mal. Eu não me lembro de ter sentido algo assim antes fora dos meus pesadelos, sendo sincero.

Aquela era uma informação a qual Shinhye não poderia deixar passar despercebida nem mesmo se quisesse. Por que Namjoon se sentia como em um dos seus pesadelos diante da fotografia de Seokjin? Ela tinha presenciado, apreensiva, a agonia do Kim preso naquele sonho ruim, então imaginar que ele pudesse estar sentindo algo parecido, como se gritasse de dor internamente naquele momento, era algo que ela não estava esperando quando teve a ideia de traze-lo ao funeral de Seokjin. Poderia ser só uma coincidência, claro, mas Shinhye não era do tipo de pessoa que acreditava no acaso. Talvez, Namjoon não conseguia se lembrar de Seokjin por tê-lo conhecido antes da sua perda de memória, o que era algo a se considerar na cabeça da Kim.

Contudo, vendo o desconforto tomar cada vez mais conta da expressão de Namjoon, fazendo-o até mesmo encolher o próprio corpo, Shinhye decidiu que o melhor a se fazer naquele momento seria tirar o Kim dali.

— Vamos fazer isso rapidamente, está bem? — ela sugeriu já se ajoelhando e, mesmo contrariado, Namjoon logo fez o mesmo.

Ela poderia ter sugerido que o Kim a esperasse do lado de fora, contudo, chamaria e muito a atenção dos presentes se ele apenas tivesse entrado na sala para sair menos de dois minutos depois, isso sem sequer demonstrar respeito diante do falecido. Velórios eram algo extremamente sério na Coreia e, por isso, as pessoas ali presentes logo começariam a apontar o dedo na direção de Namjoon; o que era a última coisa da qual ele precisava naquele momento. Os dois terminaram toda a formalidade com rapidez, porém, ainda de forma sutil, e logo estavam caminhando para fora do salão. Enquanto Shinhye se despedia brevemente da mãe de Seokjin, Namjoon instintivamente olhou para trás uma última vez, deparando-se novamente com aquele olhar que o tinha incomodado de um jeito que ele sequer sabia como descrever.

— Kim Seokjin. — Namjoon sussurrou o nome do rapaz como se o ato pudesse lhe trazer a resposta da qual ele precisava. — Será que, algum dia, nós nos conhecemos?

O Kim permaneceu com os olhos fixos na foto de Seokjin, mas logo teve seu momento interrompido por Shinhye, que invadia o seu campo de visão e se colocava entre ele e a tal foto sem sequer perceber. A Kim estava disposta a procurar pelo desconhecido ruivo de antes e, ao se despedir da mãe de Seokjin, descobriu que o mesmo tinha dito à senhora que iria ao banheiro. E descobriu, também, o nome do tal homem.

— Ah, o Hoseok? — a Sra. Kim disse quando Shinhye perguntou discretamente pelo ruivo. — Ele e o meu filho eram tão amigos... Ele sofreu tanto quando soube da morte do Jin, quase tanto quanto eu mesma.

Hoseok. Shinhye não sabia o seu sobrenome e achou que a senhora desconfiaria se perguntasse, contudo, ter um primeiro nome significava já ter um ponto de partida.

Era o suficiente, pelo menos por enquanto.

— Namjoon, você se importa de me esperar no carro? — a Kim indagou enquanto cobria a visão que Namjoon tinha da foto emoldurada de Seokjin. — Eu preciso ir ao banheiro antes de ir embora.

O Kim concordou com um aceno de cabeça e logo estava seguindo na direção oposta da de Shinhye, que pretendia seguir o caminho feito pelo tal Hoseok. De costas um para o outro, os dois já estavam a alguns bons passos de distância quando Shinhye ouviu a voz de Namjoon fazer-se presente no corredor em alto e bom som.

— Yoongi-hyung! — o Kim exclamou, o que automaticamente fez com que Shinhye se virasse para fitá-lo. Ela encontrou Namjoon ainda de costas para si, porém acenando para um rapaz mais baixo, de pele pálida e cabelos descoloridos num tom de loiro extremamente claro, quase mesclando-se com o seu tom de pele. Então aquele era o tal Yoongi? — O que você está fazendo aqui?

De uma distância considerável, ao contrário do que Shinhye esperava ao observar dois amigos se encontrando sem nenhum planejamento antecipado, ela viu com clareza nos olhos de Yoongi algo que a pegou de surpresa: medo.

Notas finais
E então, o que acharam? Já quero saber das teorias! Até breve ♥