Meu querido sonâmbulo 2
1 Meu querido começo
Notas iniciais
Olá, caro leitor. Caro e corajoso, pois uma boa dose de coragem será necessária para manter-se firme ao longo dessa história, isso eu já aviso de cara. Sente-se e se acomode confortavelmente acompanhado do seu tira-gosto favorito, pois essa história — essa mesma, a que eu estou prestes a lhe contar — será do tipo que lhe dará fome, raiva, alegria, provocará algumas risadas e, possivelmente, pode fazer um ou outro cair da cadeira como alguém que nós conhecemos bem.
Pois bem, antes de mais nada, eu gostaria de informar também que sou o que vocês costumam chamar carinhosamente de narrador intrometido. Posso estar ou não na história e, apesar de não ser um dos personagens principais, lhes garanto que sei muito bem o que se passa na cabeça desses dois. Ah, sim, são dois. Um mais desregulado da cabeça do que o outro, eu já adianto logo. Mas enfim, creio que será divertido explanar o que cada um pensa e sente, ou talvez seja só o meu extinto fofoqueiro falando mais alto... De um jeito ou de outro, vamos lá?
Vamos começar por Kim Shinhye.
Kim Shinhye era, no mínimo, uma mulher um tanto peculiar. Ao contrário da maioria dos coreanos — ah sim, essa história se passa na Coreia do Sul. Em Seul, mais especificamente — e as suas preferências por cafés diferenciados e até mesmo exóticos, Shinhye detestava qualquer café que não fosse preto, amargo, quente e estivesse em uma pequena xícara branca. Só por aí creio que já deu para notar que a Kim não era uma mulher fácil de agradar, tanto que apenas uma única cafeteria em toda a capital coreana era capaz de lhe vender o café horrível que ela tanto adorava saborear — e é exatamente nesse lugar que nós conhecemos Kim Namjoon, nosso outro protagonista.
Kim Namjoon era, no mínimo, o ser humano mais disperso desse mundo. Tanto que, pasmem, ele trabalhou na tal cafeteria por longos dois anos e nunca, jamais, notou a presença de Shinhye — e, bem, eu não posso negar que se tratava de uma mulher extremamente bonita e que costumava chamar atenção para si por onde passava. Ser atendente na tal cafeteria não era exatamente o sonho de Namjoon, mas o sonho do Kim é lã para um outro novelo, o qual nós só desenrolaremos mais tarde, mas isso também não significava que ele não trabalhava com seu belo sorriso no rosto todas as manhãs; e o par de covinhas, claro, essas sempre estavam lá também. Mesmo assim, Shinhye nunca parou para prestar atenção no porte alto do rapaz, sua pele levemente mais bronzeada do que a maioria dos coreanos e seus cabelos tingido de um cinza quase prateado. Ela não era uma pessoa dispersa, contudo, era sempre extremamente focada no que fazia — e foi justamente isso que lhe impediu de notar o atendente da cafeteria.
Sabendo disso tudo, vocês me perguntam: então, como diabos esses dois finalmente notaram a existência um do outro? E eu, eficiente como sou, lhes respondo agora mesmo.
Vamos lá trás para um dia distante, há alguns bons anos atrás. O dia no qual Kim Shinhye descobriu que era corna, mais especificamente. Desculpe, isso foi um pouco rude da minha parte.
Contudo, eu juro que não foi pior do que o que JeonJungkook fez com ela.
— Uma xícara de café preto, por favor. — Shinhye pediu no balcão da cafeteria, inclusive diretamente para o Namjoon o qual ela nunca havia notado. — Bem quente, por favor.
Internamente, Namjoon achou o pedido engraçado. Estavam no meio do verão e, com o calor descomunal que fazia lá fora, eram extremamente raras as vezes as quais as pessoas lhe pediam alguma bebida quente às duas da tarde.
— Sim, senhora. — respondeu educadamente e anotou o pedido no computador.
Shinhye o fitou, seus cabelos cinzas refletindo na luz forte da tarde. Ele não deveria ser mais novo do que ela, então por que diabos lhe chamava de senhora?
Estaria envelhecendo tão rápido assim? Talvez fosse o estresse do trabalho, mas, bem, lidar com pessoas dormindo não era exatamente algo estressante de se fazer...
De repente, seus pensamentos foram interrompidos por uma figura alta e loira. A jovem, que parecia ter seus vinte anos, sentou-se ao lado de Shinhye no balcão e, com um aceno, chamou Namjoon para pedir algo. Na verdade, o lugar parecia mais um balcão de bar, mas o clima ainda era agradável o suficiente para atrair os amantes de café.
— Um americano gelado e um caramelo machiatto, por favor. — ela pediu, sorridente e simpática.
Caramelo machiatto. Ao ouvir o nome, Shinhye automaticamente balançou a cabeça em negação. Aquele era o café favorito de Jeon Jungkook, seu namorado, e, sinceramente, ela não conseguia entender como as pessoas conseguiam beber café com caramelo dentro. Tinham até discutido por causa disso uma vez, mas Jungkook acabou cedendo e dando o braço a torcer pelo fim da discussão — ele era quatro anos mais novo do que ela e, no auge dos seus vinte e um anos, não tinha exatamente uma voz ativa na relação. O Jeon era um rapaz um tanto fofo, mesmo que não admitisse, e que ainda estava no seu segundo ano de faculdade... Não tinha como competir com Shinhye, que já gerenciava sua própria clínica e era uma mulher extremamente independente, então ele sempre optava por desistir no meio das brigas.
E era como se pensar nele fizesse o rapaz acordar. Assim que a jovem loira fez o pedido ao seu lado, o celular de Shinhye vibrou no bolso da sua calça branca. Era uma mensagem de Jungkook.
Jungo: Você está trabalhando hoje, né?
Engraçado, ultimamente ele vinha checando demais a rotina dela. Será que estaria preparando alguma surpresa? Se fosse o caso, aquela seria a primeira em três anos de namoro, diga-se de passagem.
Shinhye: Sim, por que?
Jungo: Por nada. Trabalhe bastante e não pule refeições, nos vemos de noite!
Bem, alguma coisa realmente estava estranha naquela história, mas Shinhye apenas guardou o seu celular e voltou sua atenção para o café que Namjoon colocava à sua frente. Preto, com um cheiro forte e soltando fumaça... exatamente como ela gostava. O pedido da loira chegou alguns minutos depois e ela permaneceu no balcão parecendo esperar por alguém, o qual logo apareceu também.
Para a surpresa de Shinhye.
O sino da porta do estabelecimento se fez ouvir e, por algum motivo, Shinhye rompeu a sua concentração na xícara diante de si e olhou de relance para a porta. Foi rápido, pois a loira ao seu lado logo se levantou e cobriu o seu campo de visão com toda a sua altura, mas Shinhye tinha certeza de que tinha visto Jungkook. Contudo, sequer teve tempo de se animar achando que ele estava ali para lhe fazer alguma surpresa, pois, ao invés de desviar da jovem que estava basicamente entre eles, o Jeon foi até a mesma sem parecer notar a presença da Kim por trás daquela muralha loira.
— Meu amor! — a jovem exclamou e se pendurou no pescoço do rapaz com alegria, o qual retribuiu o gesto com afeição e que também tinha um sorriso estampado em seu rosto.
O mesmo sorriso que ele costumava exibir para Shinhye.
E, então, Jungkook finalmente notou a presença de Shinhye ali. Apenas um banco de balcão de bar os separava e, quando se deparou com o olhar mortal da Kim, o rapaz se separou da jovem loira como se ela tivesse alguma doença contagiosa.
Estava completamente ferrado e sabia disso.
— Shinhye? — indagou, surpreso. — O que você está fazendo aqui?
— O que eu estou fazendo aqui? — ela rebateu com uma risada amarga e num tom mais alto, o que atraiu a atenção de algumas pessoas ao redor. — Você está claramente colocando um par de chifres na minha cabeça e sou eu quem não deveria estar aqui, Jeon Jungkook?
— Quem é essa, amor? — a loira se fez presente. Naquele momento, Shinhye só conseguia pensar no quanto a sua voz era irritante, provavelmente por conta do sangue que já lhe subia a cabeça. — O que ela está dizendo?
— Agora não, Bomin. — o Jeon sussurrou para ela, que fez um bico em resposta.
— Ah, Bomin! — exclamou e se levantou. — Esse é o seu namorado, Bomin?
— Não é isso que...
— Sim. — a jovem interrompeu um Jungkook que estava prestes a inventar alguma desculpa esfarrapada. — Nós já namoramos há seis meses. Por quê?
O Jeon deu um tapa em sua própria testa, já aceitando que não havia escapatória para aquela situação.
— E nós há três anos! — exclamou novamente, dessa vez rindo de ódio. Bomin franziu o cenho, confusa, e Shinhye achou aquilo duas vezes mais cômico, se não fosse trágico. — Parabéns para a gente, Bomin. Nós somos cornas!
Enquanto Shinhye ainda ria da sua própria desgraça, Jungkook tentava se pronunciar.
— Shinhye, eu posso explicar...
— O que é isso, Jungkook? — Bomin o interrompeu novamente. — É verdade o que ela está dizendo?
— Não é isso, é que...
— Ah, então não é verdade?! — foi a vez de Shinhye de cortá-lo. — O que nós estivemos fazendo nos últimos três anos, então? Brincando de casinha? Aliás, foi para a casa de quem que você fugiu depois que os seus pais o expulsaram de casa por não concordarem com o curso que você escolher? Da sua avó?!
— É justamente por isso que eu não aguentava mais! — o Jeon finalmente explodiu, sério. — Eu saí de casa, mas parece que fui morar com a minha mãe! Você só é quatro anos mais velha, mas acha que são vinte anos de diferença. É sufocante ser sempre tratado como um estudante imaturo enquanto eu preciso ver você exibindo o quão mais velha, bem-sucedida e independente você é!
Shinhye estava pasma com o que ouvia. Ao contrário do que Jungkook imaginava, ele não parecia um bebê chorão diante dos olhos dela, mas sim um macho distorcido que achava mais fácil colocar a culpa dos seus problemas na namorada mais velha ao invés de simplesmente enfrentá-los.
— E qual é o problema com isso? — indagou. — Na verdade, se você se sentia tão incomodado assim pelas minhas conquistas, por que nunca me disse nada? Eu não sei se você sabe, mas as pessoas conversam em um relacionamento, Jeon Jungkook.
— Não em um relacionamento com você. — ele rebateu áspero o suficiente para balançá-la. — Você não enxerga nada além do seu próprio umbigo, Shinhye.
Ah não, aquela era a gota d’água.
De repente, Shinhye se perguntou o porquê de ainda estar ouvindo as baboseiras daquele pirralho traidor que tinha estragado o seu café da tarde.
Café.
A ideia era tão boa, que Shinhye não pensou duas vezes antes de executá-la.
— Não, você está errado. Sabe o que mais eu enxergo além do meu umbigo? — perguntou retoricamente e, por um momento, Jungkook teve medo do olhar destemido e assustadoramente irônico que encontrou o seu. — Os filhos que você nunca vai ter.
Não deu tempo do mais novo perguntar, apenas de assistir em um piscar de olhos a xícara de café quase escaldante de Shinhye voar por completo no seu... Bem, naquele lugar que vocês podem imaginar sem que eu cite diretamente. O Jeon gritou com a dor e a ardência consumindo o seu amiguinho e, por isso, as poucas que ainda não prestavam atenção na discussão, agora os fitavam aterrorizados.
Shinhye deu alguns passos para frente e parou quando seus lábios atingiram o pé do ouvido de um Jungkook curvado que sequer conseguia xingá-la de tanta dor.
— Você sabe quais são os únicos dois tipos de pessoas que resolvem observar seres humanos dormindo e estudá-los como ganha pão? — sussurrou. — As curiosas e as loucas. Infelizmente, Jeon Jungkook, você mexeu com alguém do último tipo. Inclusive, não precisa aparecer no meu apartamento para pegar as suas coisas, pois até você chegar lá eu já fiz uma linda e aconchegante fogueira com tudo. Passar bem, querido.
E então, observando num misto de admiração e medo a Kim deixar o estabelecimento de cabeça erguida depois daquela confusão toda, Kim Namjoon finalmente a notou. Demorado, eu sei, mas pensem pelo lado positivo de que, pelo menos, aconteceu — caso contrário, eu não estaria aqui contando essa história agora.
Sendo sincera, a verdadeira responsável por fazer essa história acontecer foi uma bolsa. Sim, uma bolsa, mais especificamente uma daquelas de marca que custam meio rim.
A bolsa que Shinhye esqueceu na cafeteria naquele mesmo dia.
Jungkook ainda estava gemendo de dor no chão do estabelecimento quando Namjoon, mesmo sendo distraído como era, notou o acessório pequeno e azul escuro esquecido sobre o balcão. O Kim não costumava fazer coisas que iam além do seu dia a dia pacato e monótono, mas um impulso o fez agarrar a tal bolsa e sair correndo rua afora atrás da sua dona. Procurou por um par de quadras, até finalmente encontrá-la de costas para ele num beco sem saída.
— Kim Shinhye-ssi? — chamou-a pelo nome que tinha acabado por pescar no meio da discussão.
— O que foi?! — a mulher berrou virando-se na direção dele, em prantos. Sua maquiagem estava toda borrada pelas lágrimas e, sinceramente, Namjoon a achou mais assustadora chorando do que irritada. — A mulher traída do século XXI não pode nem chorar escondida em paz, é isso?!
— Desculpe, mas... — pausou, pois ela estava realmente assustadora naquele momento, o suficiente para ele encolher seus ombros largos e altos. — Você esqueceu a sua bolsa na cafeteria. Eu só queria devolver...
Ainda fungando, Shinhye pausou o seu choro descontrolado para fitar o balconista — na verdade, foi quando ela finalmente o reconheceu. Honestamente, a mulher já não era cem por centro regulada da cabeça, mas naquele momento em específico ela estava frágil e, consequentemente, pior ainda.
— Você... — pausou para fungar novamente e deu alguns passos na direção do rapaz. — Você só queria devolver a minha bolsa?
— Sim. — respondeu Namjoon, com medo.
E, então, Shinhye voltou a chorar feito um bebê com cólicas.
— Obrigada. — disse em meio a soluços.
Namjoon nunca estivera tão confuso em toda a sua vida. Shinhye chorava, berrava, fungava e soluçava porque tinha sido traída e... por que estava agradecida?
Céus, ele não fazia ideia de onde estava se metendo.
— Desculpe mais uma vez, mas eu preciso fazer uma coisa.
Então, tomado por um impulso, o tímido Namjoon simplesmente caminhou até a mulher e a abraçou. Colocou uma mão educadamente em suas costas e, com a outra, acariciou os longos cabelos castanhos dela.
— Vai ficar tudo bem. — susurrou, tentando consolá-la.
Era a primeira vez que Namjoon fazia aquilo com uma estranha, ainda mais no meio da rua, e sinceramente já esperava apanhar por isso. Contudo, Shinhye, mesmo confusa, apenas aceitou o consolo e se permitiu chorar um pouco mais.
E foi assim que Kim Namjoon, abraçado àquela mulher que chorava mais alto do que a sirene da ambulância que socorria Jungkook, entrou em um caminho sem volta em sua vida.
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