Meu querido sonâmbulo 2
2 Meu querido assassinato
Notas iniciais
Depois de estrelar a cena um tanto peculiar e degradante junto do atendente da cafeteria no meio da rua (o qual, à propósito, ela genialmente tinha se esquecido de perguntar o nome), Kim Shinhye recolheu o mero resquício de dignidade que ainda lhe restava, agradeceu ao homem por lhe entregar sua bolsa e voltou com o seu rosto inchado e a passos arrastados para o seu apartamento. Ainda era meio de tarde e, provavelmente, os outros funcionários da clínica estariam esperando pela volta da sua diretora para prosseguirem com os seus trabalhos e consultas, mas a Kim não dava a mínima para aquilo naquele momento — estava se sentindo traída e enganada e, sinceramente, que atire a primeira pedra quem conhecer algo pior do que uma mulher traída.
Imaginem uma Kim Shinhye traída.
Quando finalmente chegou em casa, Shinhye sequer se deu ao trabalho de trocar os saltos sujos da rua pelas suas confortáveis pantufas caseiras da cor azul bebê, até porque, quando se deparou com o enorme e surrado chinelo de Jungkook casualmente posicionado ao lado das mesmas, teve de controlar a súbita vontade de chutar tudo para fora do apartamento sem dó e nem piedade. Assim, a tão respeitada terapeuta do sono apenas se lançou como estava no seu aconchegante sofá da sala e por lá ficou, perdendo completamente a noção do tempo. Afundada nas almofadas fofas avermelhadas, não tinha nada em mente, apenas um enorme vazio que a impedia de pensar em qualquer coisa e até mesmo de sentir raiva do Jeon. Permaneceu assim por vários e longos minutos, talvez horas, até o céu lá fora começar a escurecer e o vazio dentro de si começar a se transformar em uma espécie de solidão inexplicável.
Quando, inconscientemente, a primeira lágrima escorreu pela sua bochecha direita, Shinhye resolveu dar um basta naquilo.
— Nada disso, Kim Shinhye. Chega dessa palhaçada. — falou num tom imperativo para si mesma, levantando-se do sofá num único pulo indignado. — Você não vai derramar mais uma lágrima sequer por causa de macho traidor, entendido?
Assim, determinada, a mulher secou a bochecha e se dirigiu para o banheiro de sua suíte, ficando lá por mais de uma hora sob a água quase fervente do chuveiro. Deixou que a água corrente removesse todas as impurezas do seu corpo e cabelos, mas permaneceu inquieta por dentro.
Ou seja, de nada adiantou. Precisava de mais, pois não aguentava mais encontrar uma parte de Jungkook para onde quer que olhasse dentro do seu próprio apartamento. Os livros do estudante espalhados pelo quarto, os jogos virtuais no chão da sala, a caneca que ele sempre usava para tudo e nunca lavava, essa esquecida suja dentro da pia... De repente, se pegou imaginando o que diabos tinha visto no Jeon ao ponto de aceitá-lo em sua casa. Céus, quem visse de fora pensaria que ela cuidava de um filho ao invés de um namorado e, sinceramente, Shinhye não estava mais nem um pouco disposta a seguir com aquilo — ainda mais agora tendo que carregar um par de chifres em sua cabeça.
Aquecida pelo seu roupão felpudo e com uma toalha enrolada no cabelo ainda molhado, ela colocou as mãos na cintura e respirou fundo, decidida.
— Jeon Jungkook, não vai sobrar um resquício de você dentro desse apartamento para contar a história de como eu fui corna.
Ela tinha dito ao mais novo que não havia necessidade de retornar para o apartamento, pois, quando o fizesse, já seria tarde demais para reaver os seus pertences que já não estariam mais lá; e era isso que pretendia fazer, cumpriria a promessa que fizera em tom de ameaça. Pegou a maior mala de viagem que conseguira encontrar no seu armário e, dentro dela, começou a jogar tudo o que encontrara do Jeon no interior do apartamento. Roupas, livros, jogos, objetos pessoais e até mesmo aquela escova de dentes descabelada que ele ainda insistia em usar alegando que ainda estava novinha em folha... Foi preciso abrir a parte extensora da mala e sentar em cima da mesma para que conseguisse fechá-la, mas, finalmente, Shinhye tinha conseguido juntar todos os trapos de Jungkook em um único lugar e estava prestes a se livrar daquilo tudo. Já era tarde de noite e o movimento em sua rua era quase nulo, mas, mesmo assim, a Kim trocou o seu roupão por um conjunto de moletom, penteou os cabelos e reuniu todas as suas forças para arrastar aquela mala até o elevador.
Quando chegou no saguão do seu prédio, viu o porteiro já idoso lhe olhar assustado; sua fama na vizinhança não era das melhores e, por isso, ela não se importou realmente.
— Não se preocupe, Sr. Choi. — ela disse ofegante enquanto arrastava a mala para fora do prédio. — Apesar estou me desfazendo de algumas roupas, não de um corpo.
O porteiro não pareceu levar aquilo como uma piada e fez uma cara preocupada, mas a Kim continuou não ligando para aquilo. Já do lado de fora do prédio, foi pega de surpresa pela noite gelada de Seul, mas nada atrapalharia a sua meta. Bem, se ateasse fogo em tudo aquilo como havia dito ao Jeon, ali, no meio da rua, provavelmente acabaria presa... Por isso, tentou encontrar uma solução mais discreta, porém igualmente satisfatória.
De repente, lembrou-se de alguns conhecidos que poderiam facilmente lhe ajudar com aquilo e, assim, entrou no primeiro táxi que viu e pediu ao motorista que dirigisse até o bairro mais pobre e abandonado da cidade. O homem estranhou, porém assim o fez e, depois de quarenta minutos de viagem, estava estacionando exatamente onde Shinhye pedira.
— Eu não vou demorar, o senhor pode esperar aqui. — disse e o motorista apenas balançou a cabeça positivamente.
Não demorou muito para que Shinhye encontrasse os moradores de Guryong, uma área de aproximadamente cinquenta e oito mil metros quadrados que, mesmo estando localizada dentro da luxuosa e movimentada Gangnam, era o lar dos esquecidos e marginalizados da grande capital. Ali moravam mais de duas mil pessoas sem nenhum tipo de acesso à saúde, educação ou saneamento básico, aqueles que infelizmente tinham ficado de fora do grande crescimento econômico coreano — na verdade, que tinham sido expulsos pelo mesmo. Tratava-se de um problema muito maior do que o alcance das pequenas mãos de Shinhye, mas ela ainda fazia o que podia por aquele povo.
Afinal, aquele era o seu povo. Tinha nascido ali e, mesmo conseguindo mudar seu destino e alcançar uma vida melhor, ela jamais esqueceria de tudo o que tinha vivido e aprendido ali.
— Senhor Yoo? — Shinhye indagou ao avistar um velhinho andando curvado por uma das várias vielas estreitas do lugar. Conhecia aquele cabelo grisalho e mal cuidado de longe, o suficiente para reconhecer o homem antes mesmo que ele se virasse para ela. — Sou eu, Kim Shinhye. Lembra de mim?
O mais velho tinha uma memória terrivelmente afetada por uma doença degenerativa, contudo, sorriu ao espreitar os olhos na direção da Kim.
— Menina do sorriso bonito? — perguntou animado, o que fez Shinhye sorrir.
A Kim conversou um pouco com o homem, perguntou sobre a sua família e tudo mais e, em seguida, lhe entregou a mala com os pertences do ex-namorado.
— Sr. Yoo, eu trouxe alguns presentes. Na verdade, são coisas que não me servem mais. — disse empurrando a enorme mala na direção do homem. Não era a primeira vez que levava coisas para a vila, por isso, ele não estranhou e apenas aceitou a bolsa. — Dê um bom destino para isso tudo, está bem?
O homem abriu um sorriso de orelha a orelha e logo sumiu pelas vielas escuras enquanto arrastava a enorme mala consigo. Por maior que fosse a raiva que estivesse de Jungkook, não era o tipo de pessoas que fazia coisas apenas movida pelo desejo de vingança ou algo do tipo — estava vingada, sim, pois agora o Jeon que voltasse se arrastando para a casa dos pais e arrumasse tudo de volta sozinho, mas também estava feliz por ter feito mais alguém feliz com isso.
Tinha sido uma ação equilibrada na sua balança interna, então poderia dormir tranquila quando voltasse para casa.
E por falar em voltar, o motorista do táxi realmente tinha lhe esperado e agora a Kim já estava no seu caminho de volta. Estava satisfeita consigo mesma, mas não teve uma boa sensação quando o motorista parou o carro repentinamente antes mesmo de entrar na sua rua.
— Desculpe, moça, mas eu não posso passar daqui. — disse e a fitou pelo espelho retrovisor interno. — A rua está interditada.
Shinhye franziu o cenho e se perguntou o que diabos estaria acontecendo justamente na sua rua. Pagou a corrida e, ao descer do carro, se deparou com uma estranha aglomeração de pessoas junto de algumas luzes que piscavam a alguns metros adiante de si — luzes de giroflex. Estranhou, mas como não havia nenhum caminho alternativo até o seu prédio, foi obrigada a seguir na direção da confusão mesmo que estivesse pronta a sair correndo a qualquer minuto.
No meio do caminho, acabou esbarrando em alguém, mas a culpa não era exatamente sua dado o fato de que a tal pessoa — que aparentava ser um homem de estatura mediana — estivesse vestida de preto da cabeça aos pés no meio de uma rua não tão bem iluminada assim como era a sua. Inclusive, o capuz de moletom preto lhe cobria a cabeça e uma máscara da mesma cor acobertava o restante do rosto, deixando de fora apenas os seus olhos marrons arregalados.
— Desculpe. — o homem disse e, num piscar de olhos, desapareceu da frente da Kim.
Não era incomum que os adolescentes de hoje em dia andassem vestidos daquele jeito nas ruas, mas a tal voz não parecia ser de alguém tão jovem assim; era rouca e baixa e provavelmente pertencia a alguém com os seus vinte e tantos anos. Contudo, naquele momento, Shinhye tinha mais com o que se preocupar, pois acreditava que os policiais em sua rua certamente eram mais importantes do que um rápido esbarrão em um desconhecido.
Se ao menos ela tivesse prestado mais atenção... Mas enfim, nós ainda não chegamos nessa parte da história.
O aglomerado de pessoas estava justamente diante do seu prédio, o que instintivamente a fez parar também.
— O que aconteceu aqui? — indagou para uma senhora aleatória que estava ao seu lado enquanto tentava enxergar algo além das pessoas diante de si.
Não era exatamente o tipo de pessoa curiosa que parava para ver acidentes nem nada do tipo na rua, mas aquela confusão toda não deixava de estar acontecendo justamente na frente do seu prédio.
— Alguém foi assassinado. — a mulher respondeu sem rodeios, o que fez Shinhye arregalar seus olhos. — Parece que um rapaz foi esfaqueado aqui mesmo, na porta desse prédio.
— Céus... — Shinhye sussurrou e, de repente, desejou que não visse absolutamente nada da cena. Havia uma pessoa morta ali e sua mudava tudo. — Era morador do prédio?
Talvez fosse algum vizinho seu e esse pensamento lhe fez arrepiar da cabeça aos pés.
— Ninguém sabe. — a senhora deu de ombros, mesmo que sua voz estivesse repleta de traços de medo.
De repente, a Kim simplesmente quis sair daquele lugar. A imagem de um homem esfaqueado com certeza não seria nada agradável e, conhecido ou não, ela provavelmente ainda ficaria com aquilo na cabeça por um bom tempo. Decidiu que, por hora, o melhor a se fazer era apenas voltar para o seu apartamento e tentar relaxar, mesmo com o caos que ainda estavam as coisas lá embaixo. Contudo, seria impossível entrar pela porta frente que estava cercada de policias e completamente isolada por se tratar de uma cena de crime, então, se quisesse mesmo entrar em casa, teria que usar a entrada alternativa praticamente esquecida nos fundos do prédio. Na verdade, se tratava da saída de emergência do prédio, mas lhe daria acesso às escadas e também ao elevador de qualquer jeito.
Por isso, mesmo com o coração na mão, Shinhye ignorou toda aquela multidão e se enfiou no beco escuro que cercava a lateral do prédio, já que aquele era o único caminho até a porta dos fundos. Havia uma dezena de policiais naquela área e, por isso, ela acreditava que não haveria perigo em passar por ali àquela hora da noite, já começo da madrugada.
Infelizmente, aquela certeza não durou mais do que alguns segundos.
Já na metade do beco, Shinhye acabou tropeçando em algo. Não se tratava de nada demais e ela teria seguido o seu caminho normalmente, isso se não tivesse visto, mesmo com a pouca luz do lugar, no que tinha tropeçado: uma perna.
— Ah não, não é possível... — sussurrou sozinha, desesperada. Talvez fosse um brinquedo, certo? Errado. — Eu não tenho estômago para filme de terror, por favor...
Com as mãos trêmulas, ela pescou o celular no bolso do casaco de moletom e, mesmo a contra gosto, ligou a lanterna do mesmo. Deparou-se, então, com uma verdadeira cena de filme de terror. Havia um homem sentado do lado de uma caçamba de lixo, recostado na parede do seu prédio e com as pernas esticadas no chão, além das roupas repletas de manchas de sangue. Seus olhos estavam abertos e o único motivo pelo qual Shinhye não acreditou com certeza que o tal rapaz estava morto, era porque seu peito descia e subia calmamente, como se o mesmo estivesse apenas cochilando ali no beco com toda a casualidade do mundo.
Sem saber exatamente o que fazer, a Kim mexeu os braços inquieta algumas vezes, só então abaixando-se ao lado do homem.
— Com licença... — disse num murmúrio trêmulo e assustado. — Você está... bem?
Que pergunta idiota, sinceramente.
Contudo, o mais chocante de tudo não foi que houvesse um homem morto bem na frente do seu prédio e nem um outro desacordado e coberto de sangue bem ali, na sua frente — mas sim o fato de que ela finalmente estava reconhecendo o desconhecido ensanguentado. Ao apontar a lanterna para o rosto do homem, lembrou-se das feições bem marcadas e igualmente gentis de hoje mais cedo.
As mesmas que tinham corrido atrás dela pelas ruas de Seul por causa de uma bolsa.
— Espera aí... Você é o atendente da cafeteria! — exclamou e, em seguida, cobriu a boca como se estivesse fazendo algo de errado. Criando coragem, cutucou o ombro do homem, mas ele não se moveu.
Era como se ele estivesse realmente dormindo. Céus, estaria em coma ou algo do tipo?!
Obviamente, Shinhye nunca tinha vivenciado nada sequer parecido com aquilo em toda a sua vida e, na verdade, não fazia ideia se o sangue que manchava as roupas do homem era do próprio ou de outra pessoa... Contudo, se havia uma coisa sobre qual Kim Shinhye, uma renomada especialista em terapia do sono, entendia, essa coisa era justamente o sono. O caso diante dela era nítido como água, o que tornou toda a situação duplamente mais bizarra.
Percebendo do que se tratava, ela arregalou os olhos em surpresa.
— Você... — inclinou-se ainda mais na direção do homem, o qual permanecia de olhos abertos, porém parecendo não fitar nada em particular exatamente como se estivesse preso em uma espécie de transe. — É sonâmbulo!
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