Meu querido sonâmbulo 2
30 Meu querido psicopata
Notas iniciais
Kim Shinhye nunca havia percorrido aquele caminho antes e, conforme o fazia, transbordava aquela espécie de sentimento aflito que pairava em seu peito através do aperto um tanto exagerado que exercia no volante do seu carro. Aos poucos, a sempre movimentada vida noturna de Seul foi ficando para trás — as luzes, os carros, as pessoas e, por fim, até mesmo o asfaltamento sob os pneus do veículo preto que a terapeuta já dirigia há alguns anos. Já se passavam das nove horas da noite quando, de repente, a voz um tanto robotizada do GPS ordenou que ela virasse à esquerda em uma rua ainda mais desabitada, deixando-a cada vez mais próxima do seu destino final.
The Magic Land.
As coordenadas que Namjoon havia lhe enviado por mensagem de texto pertenciam àquele lugar, o que a Kim estranhou de primeira. Por mais que nunca tivesse ido ao tal parque de diversões antes, ela conhecia a famosa história do mesmo e do seu abandono por causa do repentino desaparecimento dos seus donos. Pelo o que tinha escutado na sua infância, o boato que corria pelas vielas de Guryong era de que o casal dono do parque havia fugido depois de diversas acusações judiciais de sonegação de impostos; deixando para trás, inclusive, o próprio filho pequeno que tinha sido fruto daquele casamento aparentemente conturbado. Como já fazia muitos anos que Shinhye tinha escutado aquela história, não se lembrava ao certo se, mais tarde, a justiça tinha encontrado o tal casal de donos ou se, ao menos, alguém sabia do paradeiro da criança abandonada, o que obviamente tornava o local uma incógnita ainda maior para a Kim.
Por que diabos Kim Namjoon tinha escolhido um parque de diversões abandonado como ponto de encontro?
Quando questionou aquilo via mensagem, ela obteve como resposta o próprio Min Yoongi. De acordo com as palavras digitadas pelo Kim, o mais velho estava usando aquele lugar como esconderijo desde o ataque a Song Donghae e, por isso, Namjoon havia encontrado ali algumas evidências que tinham o forte potencial de finalmente incriminar o Min pelos seus atos bárbaros. Aquilo, de fato, fazia sentido, e no fim das contas Shinhye acabou sendo convencida pela ideia bastante tentadora de finalmente poder dar um fim àquela brincadeira pavorosa de gato e rato com Yoongi.
De repente, o GPS apitou a chegada ao destino da terapeuta e ela logo se viu, ainda que não fosse realmente necessário, procurando um lugar para estacionar o carro em meio àquele chão de pedras e de um capim alto que rodeava a macabra fachada do parque de diversões — ainda mais macabra considerando aquele horário da noite, obviamente. Acabou parando o veículo de frente para a entrada principal do parque, que agora não passava de alguns ferros retorcidos e um letreiro enferrujado pela ação do tempo e desuso, e aproveitou para iluminar o máximo que podia do lugar com os faróis antes de ter que desligar os mesmos.
— Melhor deixá-los ligados. — sussurrou para si mesma quando percebeu que, sem a luz daquele potente par de lanternas, não teria como enxergar sequer o que estava a um par de passos diante de si.
Talvez, quando finalmente se encontrasse com Namjoon, ele soubesse como acender alguma luz para tornar aquele lugar um pouco mais acessível, nem que fosse a de algum brinquedo abandonado daqueles.
De repente, a mão da terapeuta travou na maçaneta da porta do carro no meio do caminho para abrir a mesma. Seu extinto aguçado, especialmente a parte do mesmo que tinha herdado do seu treinamento na academia de polícia, estava lhe fazendo hesitar naquele momento e deixava o seu corpo tenso. Em estado de alerta, algo em seu interior praticamente lhe gritava que havia alguma coisa errada em toda aquela situação, mas... Que saída exatamente a Kim tinha? Ao conversar com Taehyung um par de horas atrás, o mais novo havia lhe contado como todas as atenções policiais estavam voltadas para a segurança de Lee Jihoon naquele momento, até mesmo a sua própria, já que Yoongi havia anunciado abertamente para Namjoon que o promotor seria o seu próximo alvo. O que significava que, naquela noite, até mesmo o Min estaria ocupado com os seus próprios planos, então só restavam ela e Namjoon naquela equação.
— Está tudo bem. — falou para si mesma do modo mais firme que conseguiu. — Isso não é hora para paranoias.
Dito isso, Shinhye respirou fundo e reuniu a coragem da qual tanto se orgulhava de sempre ter dito para enfrentar o que fosse necessário. Saltou do carro, deixando para trás o veículo ligado e os seus faróis acessos, e começou a caminhar na direção da entrada do parque. De repente, sacou o celular do bolso traseiro da calça jeans que vestia e procurou no histórico de mensagens pelo número desconhecido que Namjoon havia usado para lhe contactar até então, observando que fora o Kim a enviar a última, já há algumas horas. Digitou que já tinha chegado no local combinado para que eles se encontrassem e enviou a mensagem.
Um som de notificação de celular, apesar de tímido, foi nitidamente ouvido e ecoado em meio àquele silêncio do parque abandonado.
— Namjoon? — Shinhye chamou pelo Kim, mas não obteve resposta.
Pelo som da notificação, ele não deveria estar longe dali — e aquele tinha de ser o telefone dele no meio daquele nada, claro. Com o cenho franzido, a terapeuta escreveu mais uma mensagem rápida e a enviou, ouvindo o mesmo som se repetir um milésimo de segundos depois.
— Kim Namjoon? — ela chamou mais uma vez, mas não recebeu nenhuma resposta novamente.
Como a sua visibilidade era limitada às áreas que os faróis do seu carro iluminavam, Shinhye concluiu que o Kim deveria estar em uma daquelas partes ainda escuras do parque. Por isso, ela optou por retornar ao seu aparelho celular, dessa vez ligando para Namjoon ao invés de enviar apenas mensagens.
E o telefone dele tocou.
Um toque padrão dos modelos mais antigos de celulares fabricados na própria Coreia do Sul vinha de algum canto mal iluminado ao lado direito da terapeuta. Ao ouvir aquilo, ela afastou o celular do ouvido, levando o barulho de chamada para longe, e foi se guiando pela direção do toque constante até avistar uma silhueta alta parada em um ponto escuro o suficiente do parque para chegar a destorcer a sua visão. Espreitou os olhos e, ao perceber uma pessoa de costas para si, franziu o cenho.
— Namjoon? — ela chamou pela terceira vez, agora um pouco mais alto, e não entendeu o porquê de, ainda assim, o Kim não se virar na sua direção.
O aparelho celular continuava tocando, mas era como se Namjoon, estatuificado no meio daquela escuridão, não escutasse nada daquilo. E Shinhye sabia que era ele mesmo parado ali, afinal, reconheceria aquela silhueta sob quaisquer que fossem as circunstâncias.
Farta daquela situação e, ao mesmo tempo, igualmente curiosa, Shinhye encerrou a chamada no seu celular — fazendo com que o toque que ecoava pelo parque também fosse interrompido — e caminhou com firmeza até a figura estática de Namjoon. Ele não estava tão longe e, por isso, ela logo conseguiu o alcançar e levou a mão direita ao ombro do rapaz, que ainda assim não se moveu. Confusa, a Kim deu a volta naquele corpo inerte.
— Yah, Kim Namjoon! — reclamou enquanto o fazia e, só então, se viu de frente para um Namjoon aparentemente desligado da realidade e que olhava apenas para um único ponto fixo acima do topo da cabeça de Shinhye. Aquilo alinhado aos ombros caídos e à imobilidade do rapaz, logo fizeram uma explicação saltar dentro da mente da terapeuta. Além de já ter visto muitas pessoas naquele estado antes, já tinha presenciado o próprio Kim Namjoon se comportando assim. — Você está dormindo...
A sequência de fatos que se deu logo em seguida aconteceu de forma extremamente rápida, quase impedindo os olhos da Kim de captá-la. Quando Shinhye ergueu uma das mãos para tentar sacudir o outro, Namjoon a agarrou pelo pulso e, de forma bastante brusca, virou a terapeuta de costas para si e enganchou os seus braços por dentro dos dela, mantendo-a completamente presa a si. Sem esperar por aquilo e sem reação devido à rapidez e brutalidade do Kim, Shinhye mal conseguiu lutar de volta, sobrando para si apenas o ato de se debater contra a força que Namjoon exercia para mantê-la presa.
— O que diabos você está fazendo, Namjoon?! — ela questionou ofegante e num misto de surpresa e raiva, se perguntando como uma pessoa pacífica e que deveria estar dormindo conseguia fazer aquilo.
E foi então que, quando o Kim a rodou praticamente arrastada na direção de onde ela tinha acabado de vir, Shinhye deu exatamente de cara com a resposta para todas as suas perguntas.
Min Yoongi.
O mais baixo parecia ter sido engolido pelo conjunto de roupas longas e pretas que usava; inclusive, peças que o camuflavam perfeitamente bem em meio a toda aquela escuridão do parque abandonado. Ele estava de costas para a luz dos faróis do carro de Shinhye e, por isso, seu semblante também estava escurecido e distorcido pelas sombras, estando visíveis com nitidez apenas a palidez do seu rosto e o brilho assombroso dos seus pequenos olhos. De repente, quando o Min deu um passo para frente, Shinhye parou de se debater nos braços de Namjoon, que não parecia ter a intenção de afrouxar aquele aperto nem tão cedo.
— O que você fez com ele? — a terapeuta rangeu ao finalmente se dar conta de que o Min era quem estava por trás daquele estado assustador de inércia de Namjoon, que não emitia sequer um único som. Fitou os olhos vazios do Kim por cima do ombro e voltou a fitar Yoongi novamente. — O que você fez, seu psicopata?!
— Sabe o que eu mais odeio nos seres humanos? — foi a primeira coisa que Yoongi disse, ignorando completamente a pergunta da Kim, e na sua voz havia rastros de uma calmaria totalmente fora do contexto da situação, assim como de um certo rancor. Deu outro passo para frente, cada vez mais próximo da figura imobilizada de Shinhye. — A capacidade de destruir coisas que, até então, funcionavam perfeitamente bem. Esse parque mesmo, por exemplo, costumava ser o meu lugar preferido quando eu era criança. As luzes, a música, as outras crianças correndo de um lado para o outro e rindo... E tudo acabou destruído e vandalizado depois que ele foi fechado.
Mesmo com toda aquela adrenalina correndo pelas suas veias, possibilitando até mesmo que a Kim fosse capaz de ouvir as batidas aceleradas do próprio coração naquele momento, ela franziu o cenho quando finalmente ligou as interseções daquela história.
— Você é a criança que foi deixada para trás. — ela concluiu em voz alta, pasma. — Você é o filho pequeno que os donos desse parque abandonaram quando fugiram, não é?
Mesmo com toda aquela escuridão rodeando o seu semblante, Yoongi exibiu um sorriso de canto brilhante e macabro o suficiente para que Shinhye conseguisse vê-lo com clareza. Enquanto isso, Namjoon continuava parecendo não estar realmente presente ali, naquele momento, por mais que o seu corpo fosse visível e palpável.
— Você é realmente mais esperta do que eu esperava. — o mais velho disse e riu, sarcástico. — Lee Hayun e Min Inpyo desapareceram do mapa fugidos da justiça no início dos anos dois mil, deixando para trás esse parque e, também, o único filho do casal, quem mal havia completado sete anos na época... Eu me lembro como se fosse ontem da minha mãe me colocando no carrossel e prometendo que, depois daquela volta, ela estaria me esperando com o meu sorvete favorito na saída. O que, obviamente, nunca aconteceu. — pausou, sério. — Foi quando eu fui morar com a minha avó em Daegu e, anos mais tarde, conheci o Namjoon e a sua família. Eles salvaram a minha vida, Kim Shinhye, mas as pessoas tinham que tentar destruir o que estava funcionando perfeitamente bem.
De repente, ao contrário do que Yoongi esperava, a Kim imitou a sua risada amarga.
— E por que você está me contando tudo isso? — a terapeuta não demorou a cuspir as palavras por entre os dentes. — Você achou mesmo que isso me faria entender o porquê de você ter feito as atrocidades que fez? Ou, por acaso, achou que me faria sentir pena de você?
E algumas pessoas poderiam, de fato, se apiedar do Min e da sua história de abandono infantil, ainda mais aquelas que não conheciam a sua real faceta; porém, para Shinhye e as condições nas quais ela tinha passado toda a sua infância, absolutamente nada que o Min dissesse naquele momento justificaria os assassinatos bárbaros que ele havia cometido. Se ela e Taehyung tinham sobrevivido a uma infância tão conturbada e de desafetos como a que tiveram, o que transfora Min Yoongi no monstro que ele havia se tornado não fora, de fato, o abandono dos seus pais, mas sim o seu caráter falho e deturpado.
— E para que exatamente eu iria querer a sua pena? — o Min rebateu e riu. Deu mais um passo para frente e, por fim, parou a poucos centímetros de distância do rosto raivoso que escondia bem a faísca de medo que Shinhye não conseguia evitar de sentir naquele momento. — Acontece que você não faz ideia de onde ou com quem se meteu, Kim Shinhye, mas eu achei que poderia fazer a boa ação de lhe explicar.
— Por que? — a Kim murmurou já antecipando a resposta que estava prestes a ouvir.
Yoongi inclinou o tronco para frente, deixando os seus olhos de brilho horripilantes a poucos centímetros da face de Shinhye.
— Porque, de qualquer jeito, você não vai ter a oportunidade de sair daqui e contar nada disso para ninguém mesmo. — o Min esclareceu e deu de ombros.
Foi então que, finalmente conseguindo colocar de lado toda aquela adrenalina e o misto de sentimentos complexos que corria pelas suas veias naquele momento, Shinhye se deu conta do que estava acontecendo bem diante dos seus olhos: o alvo de Min Yoongi naquela noite não era, nem nunca fora, o Promotor Lee Jihoon.
Era ela, quem tinha caído naquela armadilha tão cegamente.
— Você... — a terapeuta iniciou, séria. — Acha mesmo que eu vou aceitar morrer desse jeito?
Ao ouvir aquilo, Yoongi, que ainda estava inclinado na direção da Kim, riu da forma inútil como ela tentava se manter firme e aparentemente forte mesmo sabendo que estava diante dos seus últimos suspiros de vida.
— E que outra opção você tem? — perguntou e arqueou uma sobrancelha.
Shinhye respirou fundo. No fundo, o seu próprio instinto já havia a alertado que aquele momento acabaria chegando. Hora ou outra, Yoongi miraria todo o seu ódio nela, culpando-a por ter destruído os seus planos.
E aquela hora havia chegado.
Aquela era a sua única chance.
— Eu tenho outra opção, sim. — respondeu e encarou o Min no fundo dos seus olhos psicóticos. — A de lutar.
Naquele momento, por mais que tivesse pensado e repassado todos os mínimos detalhes daquele plano para, finalmente, eliminar Shinhye do seu caminho, Yoongi havia se esquecido de uma única coisa: a Kim sabia como lutar e, certamente, não desistiria fácil como ele tinha imaginado. Por isso, logo na sua primeira ação — a de cuspir de modo certeiro naqueles olhos pequenos que a subestimavam — a terapeuta conseguiu desestabilizar o Min, que balançou o corpo enquanto dava alguns passos para trás perdido e surpreso ao mesmo tempo. Com a visão embaçada e obstruída, Yoongi xingou alto por não conseguir ver direito o que se deu a seguir, mas o silêncio do parque abandonado lhe permitiu escutar barulhos do que parecia ser uma luta corporal.
E não deixou de ser, de fato.
Se certificando de que Yoongi estaria ocupado tentando se reestabelecer, pelo menos pelos próximos instantes, Shinhye viu abrir uma janela mínima de tempo para agir — o que implicava em ter que se livrar do aperto de Namjoon primeiro. Então, ela o fez e impressionantemente sem muito esforço. Obviamente, o Kim parecia inconsciente o suficiente para não resistir em nenhum momento o fato de ter tido o corpo girado pela Kim enquanto ela o segurava pelo pulso e, num movimento rápido e certeiro, o fazia cair de joelhos no chão de pó de pedra. Assim, imobilizando Namjoon e verificando rapidamente Yoongi, que ainda estava um pouco atordoado no seu próprio canto, ela sacudiu o Kim pelos braços.
A sua única chance.
— Acorda, Namjoon! — exclamou, mas o Kim continuou não expressando nenhum sinal de vida. Sentindo o desespero começar a tomar conta de si ao vê-lo naquele estado, Shinhye o soltou e correu para ajoelhar de frente para o Kim, segurando o seu rosto com os seus dedos finos. Mesmo que estivessem exatamente de frente um para o outro, Namjoon não a olhava. — Céus, o que ele fez com você? Por favor, Namjoon, acorda...
E ela continuou suplicando e o sacudindo, mas nada parecia causar uma reação realmente eficaz em Namjoon. Já tinha tratado, ao longo de sua carreira como terapeuta do sono, dezenas dos mais diversos tipos de casos de sonambulismo, mas aquilo... Não havia justificativa exclusivamente natural e biológica para que Namjoon não estivesse acordando daquele jeito. Era como se ele estivesse preso em alguma espécie de transe ou algo do tipo, incapaz de tomar as rédeas do próprio corpo.
De repente, correndo contra o tempo e se encontrando em uma situação de perigo eminente, Shinhye resolveu dar um basta naquilo. Erguendo a cabeça para olhar por cima da figura de Namjoon, ela viu Yoongi já praticamente recuperado e com a postura reerguida, o que significava que ele logo viria atrás dela. Decidiu, então, fazê-lo primeiro.
Quando se levantou do chão, deixando com cuidado o corpo imóvel e relaxado de Namjoon como estava, de joelhos, a Kim parecia uma pessoa completamente diferente. Havia ódio transbordando pelo seu olhar — algo que, naquele canto mal iluminado do parque de diversões, poderia ser facilmente confundido com o olhar do próprio Min Yoongi — e ela passou a mão na primeira coisa que poderia lhe ser útil naquele momento, o que acabou por ser uma estaca de madeira abandonada no meio de alguns entulhos do que parecia ter sido, um dia, uma cabine de venda de bilhetes. E assim, com aquele pedaço comprido e resistente de madeira, ela avançou na direção do Min. Yoongi não teve tempo de se defender ou desviar do primeiro golpe, já que as suas sinapses nervosas ainda estavam no meio do caminho para comunicarem ao seu cérebro de que ele estava prestes a ser atacado.
E, assim, Shinhye acertou primeiro as suas pernas. A estaca de madeira atingiu a lateral da sua perna direita e, também, parte da esquerda, o que o fez gritar de dor e cair ao chão. A Kim poderia não aparentar ser tão forte fisicamente, porém, uma das lições que tinha aprendido na academia de polícia era a de que a verdadeira chave para um ataque como aquele não estava na sua quantidade de força, mas sim em como você deveria usá-la.
Porque Shinhye, ao contrário do que Yoongi esperava, tinha a técnica ideal para descarregar a sua raiva.
— O que você fez com ele, seu infeliz?! — berrou a plenos pulmões. — O que você fez com o Namjoon?!
Outro golpe, porém, dessa vez, Yoongi conseguiu rolar no chão rápido o suficiente para que a estaca passasse a poucos centímetros de distância da altura do seu quadril. Começou a rastejar para longe da Kim conforme a mesma reerguia a estaca.
— Por que você não o deixou em paz?! — continuou gritando e, naquele momento, já estava praticamente cega pela raiva. Semanas e semanas de uma vida completamente revirada do avesso por causa do Min transbordavam pela sua voz histérica. — Por que ele não acorda?!
— É hipnose! — Yoongi finalmente conseguiu dizer, revelando algo surpreendente o suficiente para que Shinhye parasse com a estaca suspensa no ar. Ao se deparar com a expressão confusa da terapeuta, o Min riu como se estivesse aproveitando o melhor daquela situação e por mais que uma de suas mãos estivesse amparando sua perna direita, que latejava de dor. — É isso mesmo que você ouviu, sua vadia. O Namjoon nunca foi sonâmbulo! Era eu quem sempre dopava ele com os remédios que eu conseguia no laboratório e, quando ele pegava no sono, eu começava com a sessão de hipnose. Com a confiança cega que ele sempre depositou em todo mundo, principalmente em mim, foi fácil de convencê-lo de que eu tinha o visto andando pela casa enquanto dormia uma vez ou outra... E ele nunca questionou essa ideia de sonambulismo, só aceitou.
Por um momento de choque inicial, Shinhye não soube sequer o que dizer. Agora, sabendo daquilo, algumas coisas faziam muito mais sentido, como o fato de Namjoon sempre ter dormido perfeitamente bem no seu apartamento ou, ainda, tido apenas um pesadelo na clínica do sono... Mas nunca nada além disso. Muito provavelmente, o Kim ainda estava dopado quando ela o encontrou pela primeira vez, caído no beco ao lado do seu prédio, e por isso não expressava nenhuma reação aos seus chamados.
Exatamente como naquele momento.
— Você... — a Kim murmurou, pasma. — Você é um monstro. O Namjoon confiou em você.
— E do que você sabe?! — Yoongi gritou ainda mais alto do que Shinhye havia feito há pouco e, num ato de ódio, conseguiu reerguer o tronco do chão o suficiente para ficar sentado. Suas roupas estavam cobertas de poeira e o seu peito subia e descia de forma irregular. — Eu fiz tudo isso por ele! Enquanto todo mundo estava lá mentindo para ele ou, pior ainda, conspirando para que aqueles que destruíram a sua vida saíssem ilesos daquele julgamento, eu fui o único que tentou ajudá-lo.
— Ajudar com o que, exatamente? — a terapeuta rebateu. — A torná-lo um fugitivo da polícia?
O Min riu, desgostoso.
— A encontrar alguma paz. — respondeu enquanto parecia realmente cansado, tanto no seu estado físico quanto no psicológico. — O Namjoon que você conhece hoje é só um terço do Namjoon que acordou do coma depois do atropelamento. Ele não falava, não olhava diretamente nos olhos das pessoas... Estava completamente perdido e perturbado, e tudo isso por culpa deles! Tudo o que eu fiz foi tentar ajudá-lo e, principalmente, retribuir por ele ter salvado a minha vida naquele dia.
— Você já ouviu falar da palavra “obrigado”? — Shinhye rebateu ironicamente, porém, ainda chocada em como a mente perversa e completamente deslocada da realidade do Min trabalhava. — Teria sido muito melhor e menos doentio do que obrigá-lo a machucar pessoas.
— Aí é que está. — o Min murmurou. Permaneceu em silêncio por um par de segundos e, só então, voltou a encarar Shinhye, que agora tinha sua figura completamente iluminada pelos faróis do seu carro depois de ir atrás de Yoongi, que tinha se arrastado para longe para tentar fugir dos seus ataques. — Esse idiota nunca machucou ninguém.
— O que? — a Kim indagou, novamente pega de surpresa. Acreditava na inocência de Namjoon, claro, mas ouvir o Min lhe dizer aquilo tão diretamente lhe parecia um tanto surreal. — Mas e o sangue nas roupas dele? E as digitais no corpo da vítima?
Outra risada amarga.
— Ele nem deve se lembrar disso, mas o sonho do Namjoon desde pequeno era ser paramédico. — o mais velho contou como se, de certa forma, estivesse zombando da escolha de carreira que o Kim fizera quando ainda era criança. — Eu nunca entendi o porquê direito, mas ele tinha essa vontade estúpida e altruísta de salvar pessoas, o que aparentemente ele esqueceu, mas não morreu dentro dele.
— Então ele... — Shinhye iniciou, mesmo que ainda estivesse no meio do seu raciocínio. Seus braços abaixaram e a estaca de madeira ficou pendurada em uma das suas mãos, inerte. — Tentou salvar aquelas pessoas?
— Inacreditável, não é mesmo? — Yoongi retrucou e riu. — Mesmo dopado, sob o efeito da hipnose e tudo mais, ele além de permanecer imóvel nas duas vezes que eu ordenei que atacasse aqueles dois, o Namjoon ainda tentou salvá-los. Ele estava dormindo, mas continuava lutando e fazendo ressuscitação cardíaca... Ele tentou socorrer as duas pessoas que tentaram matá-lo sem dó e nem piedade.
— Então você esfaqueou Kim Seokjin e Jung Hoseok. — ela concluiu em voz alta um tanto horrorizada. Tinha visto muito naquela vida, mas era a primeira vez que encontrava alguém como Yoongi. — Você planejou os dois assassinatos e dopou o Namjoon e o arrastou até lá para que ele executasse o seu plano, mas ele, além de ter lutado contra tudo isso inconscientemente e se negado a machucar alguém, ainda tentou ajudá-los. O Namjoon nunca teve culpa nada...
Era como se Shinhye estivesse assistindo ao mais perverso dos filmes de investigação, cheio de reviravoltas, sangue e suspense. Como poderia existir uma mente como a de Min Yoongi? A perversidade das suas ações, o ódio na sua voz pelos seus planos terem falhado e, principalmente, o fato de que ele realmente acreditava que estava fazendo a coisa certa e ajudando Namjoon eram simplesmente inacreditáveis e irreais. Ele era, de fato, um daqueles psicopatas de quem Shinhye só havia escutado falar na academia de polícia, mas que os próprios alunos na época não acreditavam que fosse capaz de existir.
E fora na própria academia que ela aprendera a principal estratégia para lidar com aquele tipo de ser humano: nunca acredite que você já o venceu, pois você certamente não o fez.
E acontece que, de fato, Shinhye ainda não tinha vencido Min Yoongi — mas pareceu, infelizmente, se esquecer daquilo diante de todas aquelas revelações que o Min estava despejando sobre ela. Um tanto atordoada e não muito ciente da situação na qual ambos se encontravam, estando ela com uma estaca esquecida em mãos e ele ainda sentado no chão para se recuperar, a Kim não conseguiu prever qual seria o próximo passo de Yoongi. Fora do seu campo de visão, porém perto o suficiente para conseguir alcançá-la, o Min escorregou as pernas na direção de Shinhye e conseguiu lhe dar uma rasteira certeira, fazendo com que a terapeuta sequer entendesse o que estava acontecendo até que o seu corpo batesse bruscamente contra o chão. No ápice da adrenalina, o Min conseguia ignorar a dor nas suas próprias pernas o suficiente para se erguer na mesma velocidade com que Shinhye batia a cabeça contra o chão.
Em um pedregulho, mais especificamente.
Já fazia algum tempo que um grupo de adolescentes locais via algum prazer excêntrico em vandalizar o parque abandonado algumas vezes por mês, especialmente à noite, e a última façanha dos mais novos tinha sido destruir em vários pedaços desuniformes um banco de concreto que costumava ficar logo na entrada do parque, antigamente decorado por cores vibrantes e luzes que piscavam. Com isso, os pedaços de cimento bruto tinham ficado espalhados pelo chão, e fora justamente em um deles que Shinhye batera a cabeça ao cair. A dor fora tão intensa que, no primeiro segundo, a Kim sequer sentiu nada, completamente anestesiada pelo sentimento insuportável que viria a seguir. Sua mente parecia latejar, inclusive embaçando a sua visão e a fazendo perder completamente a noção do espaço onde estava. Doía o suficiente para que ela sequer conseguisse gritar, apenas ficou caída no chão grunhindo de dor.
E, de repente, uma figura distorcida tomou conta do seu campo de visão. De pé diante dela, que se remexia no chão sem sequer saber ao certo o que estava sentindo, Yoongi sacou do bolso do casaco de moletom um canivete que parecia antigo, mas que a lâmina brilhava afiada o suficiente para que até mesmo a própria Kim conseguisse identificar o objeto. Ela não conseguia ver a expressão do Min por conta da cabeça ferida e que havia a deixado completamente fora de órbita, mas podia ser considerado uma dádiva não ser capaz de enxergar o sorriso demoníaco que o mais velho exibia com orgulho naquele momento.
Ela tentou rastejar para longe, mas qualquer movimento piorava ainda mais aquela dor agonizante.
— Eu avisei, Kim Shinhye. — Yoongi disse enquanto se aproximava calmamente do corpo incapaz da Kim. — Eu disse que você não sairia viva daqui hoje.
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