Meu querido sonâmbulo 2
31 Minha querida partida
Notas iniciais
Quando a respiração de Shinhye começou a falhar, como se o oxigênio presente no ar que a rodeava estivesse fugindo da mesma da forma mais agonizante e dolorosa possível, a sua visão também começou a escurecer do exato mesmo modo. Remexia-se no chão, mas a dor na cabeça era tamanha que ela não conseguia fazer mais do que aquilo, nem mesmo gritar por socorro — o que muito provavelmente seria inútil naquela área abandonada e afastada da civilização, porém, ainda assim, a ajudaria a lutar pela sua própria vida.
Lutar. Era naquela palavra em específico que residia a maior falha das crenças da Kim: ela sabia lutar por si própria, tinha sido fisicamente treinada para isso na academia de polícia, mas nunca precisara, de fato, colocar esses conhecimentos em prática. Tinha sido ensinada e recebera o conhecimento necessário para atuar em campo como policial, mas nunca estivera em ação — e, no caso, teria sido justamente na prática que ela teria conhecido pessoas com mentes semelhantes à de Min Yoongi, inclusive vindo a aprender como até as pessoas mais capacitadas poderiam se tornar completamente cegas diante do poder de manipulação de criminosos como o Min. E agora, à beira da perda completa de todos os seus sentidos, aquela era uma das poucas coisas das quais a terapeuta ainda conseguia se dar conta.
Ela não era a super-heroína que achava que fosse.
— Sabe de uma coisa? — a voz satisfeita de Yoongi soava um tanto distante aos ouvidos de Shinhye, mas ainda nítida o suficiente para que ela conseguisse captar, ao menos, a essência das suas palavras. — Fazia muito tempo que eu não me sentia tão bem assim.
Uma gargalhada alta e macabra foi ouvida, cuja qual pertencia ao próprio Min.
— Kim... — a terapeuta sussurrou em meio aos seus gemidos de dor, mas aquilo era o máximo que conseguia falar.
Em algum momento, ambos tinham se arrastado pelo chão o suficiente para que já estivessem bastante próximos do carro de Shinhye, o que fazia com que as luzes dos faróis refletissem na pele alva do rosto do mais velho.
— A última vez foi quando eu dei a primeira facada em Jung Hoseok. — o Min prosseguiu, jogando em êxtase aquelas palavras ao vento. — Vê-lo lutando inutilmente pela própria vida, exatamente como você está fazendo agora, foi ainda mais satisfatório do que sentir a ponta da lâmina entrando pelas costas dele... Eu usei esse mesmo canivete naquele dia, sabia? — riu e se inclinou na direção da Kim, não se incomodando com as luzes que atingiam diretamente os seus olhos pequenos e igualmente assustadores. — A mesma lâmina que eu enfiei no Seokjin, inclusive... Engraçado como um pequeno canivete é capaz de resolver todos os meus problemas, não é mesmo? Acho que eu deveria ter atacado o Juiz Song com ele também, talvez o meu plano tivesse dado certo naquela noite.
Yoongi pensava alto enquanto parecia falar aquelas coisas tanto para Shinhye, quanto para si próprio, o que deixava claro que ele estava no meio de algum tipo de surto psicótico. Às vezes ele ria e, em outras, brincava de passar a ponta do dedo indicador pela extensão da lâmina, mesmo que aquilo imediatamente provocasse pequenos cortes na sua digital.
— Kim... — Shinhye tentou novamente, mas acabou se engasgando com a própria saliva e tossindo algumas vezes por causa disso, o que só fez aumentar ainda mais o fluxo do líquido quente e viscoso que escorria do ferimento exposto em seu couro cabeludo.
Sangue.
— O que você tanto murmura aí, Shinhye-ssi? Por acaso, gostaria de dizer as suas últimas palavras? — o mais velho perguntou de uma forma bastante irônica. — Bem, talvez eu devesse ajudá-la com um último ato de caridade.
Shinhye já não raciocinava mais direito àquela altura do campeonato e, por isso, não entendeu o que o Min quis dizer com aquilo — apenas sentiu uma outra onda de dor lhe atingindo logo em seguida, dessa vez na boca do estômago. Depois de dar um chute na barriga da mulher já ferida, Yoongi gargalhou de forma assustadora e se sentiu ainda mais satisfeito em ouvi-la gemendo mais alto de dor.
— Consegue falar agora?! — ele exclamou completamente descontrolado, fazendo até com que algumas gotículas de saliva pulassem inconscientemente pelos seus lábios. — Fala alguma coisa, Kim Shinhye! Matá-la assim será extremamente sem graça...
Sentindo que estava prestes a se engasgar de novo, Shinhye reuniu as míseras forças que ainda lhe restava para cuspir a onda repentina de saliva que havia tomado conta do seu paladar, só então percebendo que se tratava de mais sangue deixando o seu corpo, agora pela boca. O gosto era horrível, contudo, aquele era literalmente o menor dos seus problemas naquele momento.
— Kim... — murmurou novamente, o que fez com que Yoongi se inclinasse ainda mais na direção do seu corpo caído para tentar ouvi-la. — Kim Namjoon...
Sem conseguir acreditar no que tinha acabado de ouvir, Min Yoongi soltou um riso nasalado um tanto sarcástico.
— Que patética. — cuspiu as palavras, irritado. — Que fim patético você terá, Kim Shinhye. E sabe qual é o pior disso tudo? É que absolutamente ninguém vai saber o que aconteceu com você, nem o próprio Namjoon. Nem depois de você ter lutado tanto por ele.
As lágrimas escorriam de forma involuntária pelo rosto sujo de Shinhye, deixando para trás pelo mesmo rastros um tanto tortos antes de pingarem diretamente no chão. A Kim não aguentava mais aquela dor, aquela impotência e, principalmente, o fato de que estava prestes a morrer em vão. Para que tinha feito tudo aquilo, se nem mesmo Namjoon ela tinha conseguido salvar?
Por que?
Sem nenhuma pressa, Min Yoongi empunhou o canivete que, apesar de visivelmente limpo, agora teria mais um DNA adicionado ao seu histórico sanguinário, e se ajoelhou no chão para alcançar a Kim, colocando uma perna de cada lado do corpo já praticamente imóvel da terapeuta. Ela não planejava mais fugir dali, porém, aquele momento consagrou o fim completo das suas últimas esperanças. Apesar da dor na cabeça e os sentidos completamente perturbados, Shinhye ainda conseguia ver um pequeno e simplório filme da sua vida passando diante dos seus olhos já fechados.
Como ficaria Taehyung depois que ela morresse daquele jeito tão traumático? Céus, ela deveria ter lutado mais por ele também...
Por fim, Yoongi segurou o canivete com as duas mãos e ergueu o objeto sobre a sua cabeça, ganhando mais força e velocidade para atingir em cheio o peito da Kim, e logo em seguida um baque alto e oco foi ouvido — porém, Shinhye não sentiu nada além das dores que já sentia. Estaria anestesiada por conta dos seus ferimentos ao ponto de sequer sentir mais uma lâmina penetrando a sua carne? Na verdade, ao contrário da morte certeira que já esperava, ela sentiu o peso do Min sumir de cima do seu corpo como se tivesse sido removido à força.
E fora, de fato.
Yoongi teve a lateral do seu corpo atingido por algo que o pegara completamente desprevenido e viera de fora do seu campo de visão, deixando-o em imediato estado de choque. Primeiro, ele pensou ter sido atacado por algum animal selvagem dada a força com a qual tinha sido empurrado para longe de Shinhye, mas a surpresa mesmo veio quando, após rolar no chão com aquela criatura presa em si, ele se deparou com um par de olhos raivosos, porém não selvagens como ele esperava. Olhos castanhos que o Min conhecia muito bem, apesar de nunca ter visto aquela faceta obscura dos mesmos antes.
Os olhos de Kim Namjoon.
Abertos e vivos.
— O que? — Yoongi indagou completamente descrente do estado de Namjoon, que deveria ter continuado inconsciente por mais, no mínimo, um par de horas. — Como você...
O mais velho não conseguiu terminar a frase, tendo a lateral do rosto atingida por um soco que lhe tirou de órbita nos primeiros instantes. Ambos estavam caídos no chão, mas Namjoon estava sobre o Min exatamente na mesma posição da qual o mais velho tinha acabado de ser arrancado. O Kim parecia, de fato, um animal selvagem, e o seu ataque de fúria não acabou no primeiro soco.
Outro, exatamente no mesmo lugar.
— Você ia matá-la?! — foi a primeira coisa que Namjoon disse, berrando a plenos pulmões. — Seu desgraçado!
Mais um golpe, agora na outra lateral do rosto pálido e já bastante machucado do Min.
— Você fez tudo o que fez comigo durante todos esses anos... Eu confiei em você! — o Kim prosseguiu com os gritos de desabafo e, de repente, lágrimas de ódio começaram a brotar em seus olhos e escorrer pelas suas bochechas sem a sua permissão. — Mas se você tivesse destruído só a minha vida, mexido só comigo... Você ia matar a Shinhye! Por que machucar pessoas que não tem nada a ver com a sua história perturbada?
— Foi você quem meteu ela nisso, Kim Namjoon! — Yoongi conseguiu rebater apesar dos machucados no seu rosto. O punho cerrado de Namjoon parou suspenso no ar ao ouvir aquilo, enquanto Yoongi cuspia para o lado um filete de sangue. Segurado pelo colarinho do seu moletom, ele fitou o Kim sobre si com ódio nos olhos. — Pensa comigo: fui eu quem fui atrás dela? Por que diabos eu iria atacá-la sem motivos?
— O que você quer dizer com isso? — o Kim rangeu entre os dentes, porém, visivelmente afetado pela fala do psicopata.
— Que você é o culpado pela Shinhye ter acabado naquele estado. — o Min respondeu completamente seguro do que dizia e apontou na direção da Kim caída e que, aparentemente, já não expressava mais nenhum sinal de consciência. Namjoon seguiu o seu indicador e, ao se deparar com aquela cena, sentiu o seu interior se contorcer e partir por completo. — Por que você aceitou a ajuda dela? Não tinha absolutamente nada de errado com você, mas, ainda assim, você a deixou se meter nos nossos assuntos... Você a arrastou para essa lama!
Aquilo não era, nem de longe, a verdade por trás de toda aquela história, mas a mente confusa e perdida de Namjoon não conseguiu evitar de acabar sendo manipulada pelas palavras precisamente escolhidas de Min Yoongi. O aperto na gola do moletom do Min foi gradativamente se afrouxando, ao passo que o Kim entrava em um conflito interno entre a necessidade de correr até Shinhye para ajudá-la e, do outro lado da balança, o pavor instintivo de em qual estado a encontraria se fosse até lá. E, num momento de descuido muito parecido com o de Shinhye num passado bastante recente, Namjoon tirou os seus olhos de Yoongi, abrindo a janela exata da qual o Min precisava para se livrar do mais novo.
No meio da briga dos dois, o canivete do mais velho havia sido lançado para longe da sua mão, porém, não havia caído tão longe assim de si. Esticando a mão esquerda, justamente aquela que estava fora do campo de visão do Kim, Yoongi conseguiu alcançar o canivete esquecido no chão e, num movimento extremamente rápido, acertou o único ponto do corpo do outro dentro do seu alcance e que ele sabia que o imobilizaria no mesmo instante: o joelho direito, aquele com a mobilidade já afetada pelo atropelamento há alguns anos atrás.
Namjoon não se lembrava de ter sentido tamanha dor em toda a sua vida, o que o fez soltar um grito instintivo no momento do ataque. Yoongi tinha conhecimento anatômico o suficiente para saber que tinha acertado o exato ponto que o médico, na época do atropelamento, atestara que jamais voltaria ao normal no joelho do rapaz — tanto que, vez ou outra, o Kim costumava reclamar de dor após fazer qualquer movimento mais brusco com o mesmo.
Assim, imediatamente o Kim se tornou uma figura impotente e Yoongi não tardou a conseguir empurrá-lo de cima de si, se livrando do corpo grande e bruto de Namjoon com certa facilidade, apesar das dores que ele mesmo sentia. Sua respiração estava ofegante e, ao ver o mais novo caído no chão ao seu lado enquanto gemia alto de dor, o Min se sentiu extremamente traído. Não havia mais nada diante de si além de uma sede incontrolável por sangue e ódio, sentimento que ele poderia direcionar até para um desconhecido naquele momento.
Estava completamente cego pela raiva.
— A última vez que eu fui traído assim, foi quando os meus pais me largaram aqui nesse maldito parque e fugiram para não ter que acertar, literalmente, algumas contas com a justiça. — o Min rangeu. — Você não devia ter me decepcionado assim, Namjoon–ah. Assim, você vai me obrigar a fazer algo que realmente não estava nos meus planos...
E havia, de fato, uma pequena e insistente parte do Min que não queria ter de fazer aquilo com a única pessoa a quem ele já havia chamado de amigoem toda a sua vida — porque na mente perturbada do mais velho, aquilo fazia sim completo sentido. Por isso, Yoongi chegou a hesitar em erguer o canivete na direção de Namjoon, mas acabou o fazendo mesmo assim.
Mesmo sentido aquela dor indescritível e que parecia enraizar lentamente para o restante da sua perna direita, o Kim conseguiu fitar diretamente os olhos do outro e retomou a sua expressão dura.
— Acontece que eu estou farto de não conseguir lutar sequer por mim mesmo. — Namjoon disse, firme.
Poderia ser uma batalha perdida, contudo, mesmo assim, Kim Namjoon lutaria por si próprio e principalmente por Shinhye, que era quem mais precisava dele naquele momento. Acostumado a ser sempre ajudado por ela, ele sentia que deveria, no mínimo, retribuir os seus atos; e, principalmente, a sua confiança nele. Não só por gratidão, mas algo dentro dele apenas necessitava que aquela mulher não tivesse a sua vida ceifada naquele momento de modo tão cruel, ainda mais por sua causa — nem que ele tivesse que dar a sua própria para isso.
Mas, no fim, Namjoon não precisou chegar às vias de fato como imaginava.
Tudo aconteceu muito rápido e abruptamente, porém, assim que o Kim fez menção de avançar na direção de Yoongi com todas as forças e raiva que lhe restavam, um barulho único, porém absurdamente alto, se fez presente e assustou até mesmo a distante vizinhança daquele parque: um tiro. De primeira, Namjoon apenas fechou os olhos num ato instintivo, mas não sentiu o corpo ser atingido por nada — quando os abriu, porém, se deparou com o corpo caído e imóvel de Min Yoongi ao seu lado. Aparentemente, ele ainda respirava e tinha os olhos entreabertos, mas uma quantidade assustadora de sangue logo começou a surgir por debaixo do seu corpo, revelando que ele sim havia sido a pessoa atingida pelo disparo.
Em completo choque, Namjoon ergueu o tronco do chão e fitou o local de onde julgava que o tal tiro tinha vindo, automaticamente se deparando com uma figura envolta pelas sombras além das luzes dos faróis do carro de Shinhye. O Kim não sabia o que fazer, estava um tanto paralisado naquele momento, quando finalmente conseguiu identificar o autor dos disparos, que surgiu por detrás do veículo até finalmente ser iluminado pela luz que o mesmo emitia.
Kim Taehyung.
Taehyung estava fardado e ainda tinha a sua arma de trabalho em punho quando, após atestar que Yoongi não teria realmente como se recuperar daquele tiro certeiro para atacar mais alguém ou, até mesmo, acabar fugindo do local onde cometera inúmeros crimes, ele finalmente se deparou com o corpo da irmã caído bem diante dos seus pés, imóvel.
— Noona! — ele exclamou e correu até a mesma, jogando-se de joelhos ao seu lado e colocando a arma de volta no coldre com a habilidade de quem tinha prática visível naquilo.
Num mísero segundo de hesitação, Taehyung teve medo de mexer no corpo da irmã e acabar piorando a sua situação, mas era impossível não deixar que o seu emocional falasse mais alto naquele momento. Por isso, o Kim a segurou em seus braços enquanto vasculhava a mesma com os olhos para poder encontrar onde ela poderia estar machucada. Porém, quando o sangue ainda quente que escorria pela cabeça da irmã começou a ensopar o braço da camisa de manga longa do seu uniforme, ele entrou em pânico ao finalmente se deu conta de o quão grave poderia ser o ferimento da mais velha.
— Noona... Noona, fala comigo! — Taehyung implorava, mas a irmã parecia não o ouvir. — Por favor, aguenta firme.
Com a mão trêmula, Taehyung alcançou o celular no bolso da calça do uniforme e, sem nem saber realmente como estava fazendo aquilo, conseguiu ligar para a emergência e pedir uma ambulância urgente para aquela localização. Durante todo o tempo, porém, ele manteve o corpo da irmã dentro dos seus braços, tentando inconscientemente protegê-la, apesar de já ser tarde demais para evitar que algo de ruim lhe acontecesse. Quando encerrou a chamada com o serviço de emergência, jogou o celular para o lado e voltou-se inteiramente para a irmã.
Atrás de si, assistindo àquela cena em completo choque, Namjoon via o desespero do Kim mais novo mesmo que ele estivesse de costas para si. Naquele momento, Namjoon tinha se esquecido até mesmo da dor absurda em seu joelho para apenas rezar para qualquer entidade possível para que Shinhye, no mínimo, abrisse os olhos — mesmo que não fosse uma pessoa nem um pouco religiosa no seu dia a dia.
— Noona? — Taehyung chamou novamente, agora com a voz falha. Estava apavorado em ver a irmã mais velha naquele estado, porém, acima de tudo, seu maior medo era de perder as esperanças em vê-la acordando novamente. — Por favor, não me deixe sozinho. Eu a tratarei melhor, eu prometo. Quando você acordar, serei o irmão mais novo que você sempre quis ter e nunca mais irei reclamar de nada, então, por favor... Só acorde, está bem?
Taehyung nunca fora, de fato, uma criança — ou, pelo menos, nunca tinha se sentido como uma. Era como se a própria vida tivesse o obrigado a deixar as fraldas de lado para focar nos estudos e dar o seu máximo para ocupar o papel que o seu pai nunca ocupara dentro de casa. Ele tentou, por muitos anos, agir como o irmão mais velho de Shinhye, sempre cuidando da mesma do seu próprio jeito torto e utilizando da sua capa de indiferença; cuja qual era, no fundo, apenas uma farsa para fazê-lo parecer um irmão melhor e que não precisava de cuidados. Mas a verdade era que sim, ele precisava, e Shinhye sempre estivera lá para oferecê-los. No fundo, enquanto Taehyung estava crente de que era ele quem ocupava o lugar de irmão mais velho e protetor naquela família de dois, ele sempre estivera sendo cuidado pela irmã sem sequer se dar conta daquilo. Shinhye tinha sido, além de sua irmã mais velha durante todos os seus anos de vida, a sua mãe e o seu pai também, e perdê-la significava para o Kim mais novo perder toda a sua família de uma única vez.
Por isso, ele apenas continuava implorando para que ela acordasse. Como quer que fosse, com qualquer sequela que fosse, ele apenas precisava da irmã viva ao seu lado. Não por ele, mas porque ela não merecia nada daquilo.
— Por favor... — sussurrou e soluçou, só então se dando conta de que estava chorando.
Não se lembrava de ter chorado daquele jeito antes em toda a sua vida, muito mal havia derramado um par de lágrimas no velório do seu pai.
— Tae Tae...
A voz extremamente fraca e falha de Shinhye se fez presente, o que voltou a alimentar as esperanças já quase perdidas do irmão mais novo. Ela o chamava pelo seu antigo apelido de infância, o qual costumava usar antes deles começarem a se tornar os irmãos distantes e um tanto frios que eram hoje.
— Noona? — ele a chamou num misto de descrença e alívio. Quis abraçar a irmã com força, mas teve medo de machucá-la. — Não se esforce, por favor. A ajuda já está vindo, você vai ficar bem, eu prometo.
— Tae Tae, você... — a terapeuta iniciou e, por muito pouco, conseguia manter os olhos entreabertos. De repente, um sorriso fraco e quase imperceptível tomou conta dos seus lábios já pálidos pela falta de sangue. — Você já é o irmão que eu sempre quis ter.
Ao ouvir aquilo, o mundo ao redor de Taehyung apenas parou de girar, como se nada mais existisse naquele momento — nem mesmo um homem baleado e outro esfaqueado a poucos passos atrás de si. No lugar mais profundo do seu coração, o Kim mais novo sempre quisera ouvir aquilo, mas jamais imaginaria que aconteceria sob aquelas circunstâncias horrendas. Sua irmã estava ali, sangrando nos seus braços e se segurando em um mísero fio de vida que lhe restava, mas ele estava tendo o privilégio — entre muitas aspas, claro — de ouvir aquilo que secretamente sempre quisera ouvir de sua irmã. E aquilo não era nem um pouco justo com ela.
Taehyung nem imaginava que, por outro lado, Shinhye estava extremamente feliz e aliviada que, caso aquelas fossem as suas últimas palavras, ela partiria tendo dito a única coisa que sempre quisera dizer em voz alta para o caçula, mas nunca conseguira. Por fim, a Kim acabou perdendo o restante das suas forças e sua cabeça pendeu para o lado, permitindo que a sua visão turva encontrasse, finalmente, a silhueta alta e assustada de Kim Namjoon.
Outro sorriso fraco.
Para ele, infelizmente, a Kim não teve forças para dizer nada, mas também se sentia mais tranquila em vê-lo de pé: Namjoon estava bem e era isso que importava.
Se fosse para partir, partiria em paz.
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