Meu porto seguro
28 O lugar onde tudo começou
Notas iniciais
Outubro... Um ano havia se passado desde que Sasuke ficara doente. Ele teve melhoras significativas. Já andava sem apoio, embora não conseguisse andar muito rápido ou fazer muito esforço. Também já tinha um controle maior sobre a sua bexiga. Não subia escadas, o que o obrigava a continuar no quarto de hóspedes, que agora já era seu. Sasuke dizia que se acostumou tanto, que nem sabia se um dia iria querer voltar para o seu antigo quarto.
Era feriado e eu estava entediada em casa, jogada na minha cama, olhando para o teto após ter zerado o meu último jogo... Precisava desinstalar alguns jogos e instalar novos.
Foi quando a minha mãe apareceu no meu quarto, abriu a porta sem sequer bater, o que é típico de mães. Ela segurava o celular próximo ao ouvido, obviamente estava falando com alguém, sem falar que nem entrou no quarto.
— Filha, o Itachi tá perguntando se você quer ir pra fazenda — Disse ela.
— Agora ? — Indaguei.
— Sim, agora — Ela respondeu — Se eu fosse você, iria. Tá aí sem fazer nada, vai passar o feriado com os seus amigos.
— Tudo bem — Assenti.
— Itachi — Minha mãe colocou o celular no ouvido e já foi saindo do quarto — Ela vai.
Arrumei as minhas coisas e coloquei numa mochila. Tomei um banho, vesti uma saia jeans com uma blusa preta, calcei um par de sapatilhas vermelhas com bolinhas pretas e fiz um rabo de cavalo no cabelo.
Não demorou muito para que eles chegassem, mas quando abri a porta do banco de trás do carro e entrei, percebi que o tio Fugaku e a tia Mikoto não estavam lá. Itachi dirigia e Sasuke estava sentado no banco do carona, sem falar que no banco de trás tinha uma sacola enorme com massa de pizza, Nutella, biscoito e várias besteiras.
— Ora essa, aonde estão os pais de vocês ? — Perguntei.
— Papai viajou e mamãe não quis vir — Itachi respondeu enquanto dava partida no carro — Somos só nós três, rosinha.
— E a tia Mikoto deixou vocês irem sozinhos para a fazenda ? — Perguntei desconfiada.
— Não estamos sozinhos, estamos com você, que tem mais juízo do que nós dois juntos — Disse Sasuke. Realmente ele estava certo. Itachi por exemplo, já tinha 21 anos, mas juízo que é bom, nada.
— Mereço — Revirei os olhos — Quer dizer que a tia Mikoto deixou vocês irem só por que eu vou junto ? — Arqueei a sobrancelha — Duvido.
— Sakura, minha mãe confia em mim — Disse o Uchiha mais velho — Eu prometi que cuidaria do Sasuke e ela deixou.
— Depois de muita insistência, drama e chantagem emocional — Completou o mais novo.
— Eu já devia imaginar — Bati na minha própria testa e os garotos riram.
[...]
Quando eu falo que o Itachi não tinha juízo algum, realmente eu não estou exagerando. Estávamos indo para o rio, Itachi carregava o irmão nas costas, uma vez que Sasuke não conseguia usar sandálias de borracha; na verdade ele ficava descalço sempre que podia, pois dizia que os calçados machucavam seu pé. Apenas tênis eram confortáveis para ele, ainda assim não gostava muito, mas preferia.
— Itachi, acho melhor não irmos para o rio — Falei receosa enquanto caminhávamos, mas os dois Uchiha não me davam ouvidos.
— Não seja boba — Disse Sasuke, que só estava nas costas do irmão por causa das pedras. Não deixaríamos o rapaz ir andando para pisar em pedras ! — O rio não é fundo e quase não tem correnteza.
— Sakura, eu te ensinei a nadar — Disse Itachi — Você não aprendeu tão bem, mas até que tem jeito pra coisa.
— Idiota — Bufei, fazendo os dois rirem.
Itachi sentou o irmão no tablado e ele, lentamente, colocou os pés e a metade das canelas para dentro da água. Percebi que Sasuke fez uma careta, como se aquilo fosse um incômodo.
— Algum problema, Sasuke ? — Perguntei preocupada.
— Não se preocupe — O moreno balançou a cabeça em sinal negativo — É que a água tá fria.
É verdade, a sensibilidade dele ainda não tinha normalizado e uma água muito fria o incomodava bastante, demorava um pouquinho para ele se acostumar.
Entrei no rio, cuja água batia no meu umbigo, e apoiei os cotovelos no tablado de madeira, perto de Sasuke.
— Quer ajuda pra entrar ? — Itachi perguntou após se sentar ao lado do irmão.
— Não, eu consigo sozinho — O mais novo respondeu — É só que a água tá me incomodando um pouquinho... Já eu me acostumo.
Eu pegava um pouco de água com as mãos e jogava nas pernas do rapaz, para que ele se acostumasse com a temperatura. Ele fazia várias caretas, parecia estar incomodado, sem falar que a água fria resultava em alguns movimentos involuntários de suas pernas.
Sasuke resolveu entrar na água, o rio não era muito fundo, o que pra mim era realmente um alívio, já que não sei nadar muito bem. Itachi também resolveu entrar, logo estávamos os três dentro da água.
— Vamos mais pro fundo — Sugeriu o Uchiha mais velho. Sim, Itachi é meio louco, já deu pra perceber.
— Itachi, você prometeu pra sua mãe que cuidaria do Sasuke, o que você acha que ela pensaria se soubesse disso ? — Briguei. Sinceramente eu não compreendia aquele instinto protetor que eu tinha para com o Sasuke, mas eu sentia que devia cuidar dele para que não corresse perigo.
— Sakura, você não precisa assumir o papel da minha mãe — Itachi retrucou, juro que a minha vontade foi de afogá-lo. E se o Sasuke se machucasse ou algo do tipo ?
— Eu vou pro fundo — Disse Sasuke, outro doido da cabeça — Vamos, Sakura.
Eu sabia que Sasuke já estava bem melhor, mas essa idéia louca me deixava aflita, preocupada... Se eu pudesse amarrá-lo naquele tablado, com certeza o faria, mas não podia impedi-lo.
— Toma cuidado, por favor — Falei aflita e ele riu.
— Sakura — O moreno se aproximou de mim e me deu um beijo na bochecha — Relaxa, tá ?!
— Mas é claro que a rosinha vai com a gente ! — Itachi falou e praticamente me puxou para segurar em seu pescoço.
Fomos nadando até a parte mais funda do rio. Quer dizer, os rapazes foram nadando, eu estava agarrada no Itachi e morrendo de medo, uma vez que aquela parte era tão funda que sequer dava para encostar os pés no chão. Entretanto, tinha um tronco de árvore caído por ali, era onde poderíamos ficar de pé.
— Achou o tronco, Sasuke ? — Itachi indagou, visto que Sasuke já se encontrava de pé, com a água batendo em seus ombros.
— Já sim, tá aqui — Ele respondeu.
Sasuke me puxou para cima do tronco e Itachi também ficou de pé sobre o mesmo. Aquilo foi um alívio, era horrível ficar dentro da água sem conseguir encostar os pés no chão, sem falar que eu sempre imaginava que uma cobra pudesse puxar minha perna a qualquer momento, embora nunca tivesse aparecido uma por lá. Mas ainda assim dava um certo medo, já que todo rio costuma ter cobra, por mais que ela não dê as caras.
— A gente tá longe do tablado — Comentei meio amedrontada — Vem cá, eu tenho certeza de que a tia Mikoto fez vocês prometerem que o Sasuke não entraria no rio.
— Fazer uma loucura de vez em quando não faz mal a ninguém — Itachi retrucou, parecia criança — A mamãe se preocupa muito. O Sasuke sabe nadar.
Realmente, Sasuke estava nadando do mesmo jeito que nadava antes da Mielite, talvez seja pelo fato de que ficamos mais leves na água, não sei... Mas era bom vê-lo daquele jeito, acredito que aquela loucura estava fazendo bem para ele.
— Eu tô inteiro, Sakura — Sasuke riu — Pode ficar de boa.
Passamos um tempo ali, mas quando começou a esfriar nós precisamos voltar para a casa para nos secar e colocar roupas quentes.
Vesti uma calça de moleton vermelha e uma blusa rosa de mangas compridas, na fazenda dos Uchiha costumava fazer bastante frio quando começava a anoitecer.
Fui para a cozinha e vi que Itachi colocava uma pizza de calabresa para assar, detalhe que a criatura ainda estava do jeito que voltou do rio. Aí, quando uma pessoa dessas adoece não sabe por que.
— Vai acabar ficando resfriado — Comentei enquanto abria a geladeira para pegar uma jarra de água.
— Eu ajudei o Sasuke a tomar banho e se vestir, mas preferi deixar pra tomar o meu banho depois de fazer a pizza.
— Hum... — Coloquei a água num copo de vidro e bebi — Cadê o Sasuke ?
— Tá sentado lá fora — Itachi respondeu.
O moreno foi tomar seu banho, enquanto eu fui para a varanda procurar pelo Sasuke.
Vi meu amigo sentado num grande banco de madeira, desses que também são um balanço. Ele estava com a cabeça escorada na corrente, parecia pensativo e, ouso dizer, triste.
— Atrapalho ? — Perguntei, tirando Sasuke de seus pensamentos.
— Sakura ? — Ele pareceu surpreso ao me ver — Senta aí.
Me sentei perto de Sasuke e ele deitou no banco, usando minhas coxas como travesseiro. É, ele sempre foi meio folgado assim mesmo... O moreno estava deitado de lado, parecia meio atordoado e estava com a cara emburrada.
— Que foi ? — Indaguei enquanto fazia carinho nos cabelos dele — Você tá triste, não adianta negar.
— Não tô triste — Sasuke respondeu — Tô lembrando de umas coisas...
— De que ? — Fiquei realmente curiosa.
— Bem — Ele respirou fundo — Foi aqui que tudo começou, lembra ?
Foi quando percebi que, há um ano atrás, estávamos naquela fazenda quando Sasuke começou a ter os sintomas da Mielite. Não me admira que o rapaz tenha tido lembranças ruins. Acho que suas memórias estavam mais presentes do que nunca... As dores, dormência, a paralisia... Tudo começou ali.
— Lembro — Respondi cabisbaixa.
— Há um ano atrás... — Sasuke se sentou, escorando as costas no banco de madeira e fitando o chão com uma expressão triste — Há um ano, nessa fazenda, esse inferno começou — Ele fechou os punhos sobre suas coxas, apertando a calça de moletom verde musgo que vestia — Eu gosto desse lugar, mas é inevitável que essas lembranças venham...
— Shiiii... Não fique assim — O puxei para perto de mim, apoiando sua cabeça em meu peito, e o abracei — Vamos fazer o que você está fazendo, ok ? Vamos olhar para trás... Agora vamos analisar como você estava há um ano atrás e como você está agora, se recuperando cada vez mais.
— Eu sei — Ele suspirou — Vejo o quanto estou melhorando e fico feliz por isso... Mas não posso impedir que essas lembranças ruins invadam a minha cabeça. Dá um aperto no coração, se eu pudesse deletar as minhas memórias referentes à essa doença, não pensaria duas vezes... Mas não posso. Eu não posso...
— Essas memórias servem e servirão para você ver o quanto é forte, Sasuke. Se algum dia você duvidar da sua própria força, ou capacidade, olhe para trás e veja que você é a pessoa mais forte do mundo... Você surpreendeu até os médicos, você é a prova viva de que podemos ir além daquilo que os outros esperam de nós. Então não pense que essas lembranças ruins só servem pra te deixar triste, pois elas tem uma função muito maior.
— Você é um anjo, sabia ? — Ele perguntou com a voz risonha e eu senti algo molhado em meu peito. Sasuke estava chorando ?!
— Vamos matar a broca ? — Itachi apareceu na varanda, nos dando um susto. Ele ficou meio sem graça por ter nos visto abraçados daquela maneira, acho até que pensou besteira — Podem continuar de onde pararam, finjam que eu não estive aqui.
— Idiota — Sasuke passou as mãos pelo rosto rapidamente, limpando as poucas lágrimas que tinha derramado — Vamos comer, meu estômago já está quase digerindo a si mesmo.
— Depois tá aí passando mal — Revirei os olhos enquanto me levantava junto com Sasuke.
Comemos a pizza inteira. Não era tão grande, mas ainda assim foi muito para apenas três pessoas. O que posso fazer se estava uma delícia ? Itachi fez um molho magnífico, o tempero estava ótimo.
Sasuke queria que nós fôssemos dormir numa barraca lá fora, como já fizemos várias vezes, principalmente na infância. Só que a situação era diferente agora, Sasuke não conseguiria levantar sozinho caso dormisse no chão (ele poderia sentir vontade de ir ao banheiro de madrugada, por exemplo), sem falar que o colchonete era muito fino, poderia machucar suas costas mesmo que estivesse forrado por edredons.
Por mais que Sasuke quisesse dormir lá fora como nos velhos tempos, teria que esperar...
[...]
— E então, o espírito dela assombra aquele lugar até hoje — O garoto, que estava com o rosto iluminado por uma lanterna, concluiu a sua história de terror.
— Ai Sasuke, não sei se vou conseguir dormir depois dessa — Falei amedrontada.
— É só uma lenda, Sakura — Itachi falou como se fosse óbvio e pegou a lanterna das mãos do irmão caçula — Agora é a minha vez.
— Não, já tá tarde — Falei — Vamos dormir e chega de histórias de terror, lendas urbanas e essas coisas macabras aí...
— Eu te protejo de qualquer fantasma que ousar chegar perto da nossa barraca — O pequeno Sasuke falou cheio de coragem.
— Você não se protege nem do cachorro — Itachi revirou os olhos e apontou para o curativo no queixo de Sasuke.
O garotinho emburrou a cara e cruzou os braços, ficava extremamente fofo daquele jeito, mesmo que quase sempre tivesse algum curativo pelo rosto. Naquele dia específico, logo pela manhã, Sasuke estava brincando comigo na varanda, foi a primeira vez que eu fui para a fazenda da família dele; na época tinha um cachorro muito bravo que definitivamente não gostava do Sasuke, e o garotinho adorava perturbá-lo. Enfim, Sasuke começou a encher o saco do cachorro, só que ele escapou da coleira e correu atrás do moreno. Nem preciso dizer que ele tropeçou, caiu e bateu o queixo no chão.
— Aquilo não é um cachorro, aquilo é um demônio em forma de cachorro — O pequeno Sasuke retrucou.
— Não fala em demônio — Pedi amedrontada, aquela história de terror foi de arrasar.
— Já que a Sakura tá com medinho — Itachi abriu o cobertor — Podemos dormir.
— Sakura, dorme do meu lado — Sasuke falou, já me puxando para perto de si. Acho que aquela foi a primeira vez que dormimos juntos.
— Ah, Sasuke — Itachi chamou o irmão — Se você levantar de madrugada pra fazer xixi, por favor, faça longe da barraca. Da última vez você me molhou.
— Itachi ! — O pequenino berrou com raiva e escondeu seu rosto no travesseiro, estava vermelho de vergonha, principalmente por que eu não consegui conter uma risada — Não precisa falar essas coisas na frente da Sakura — Ele falou com a voz abafada pelo travesseiro.
Foi engraçado, Sasuke sempre foi meio encabulado com tudo, e só o fato de o Itachi ter me dito aquilo foi motivo o suficiente pra ele ficar uns três dias sem nem conseguir olhar direito na minha cara. Mas depois de um tempo ele foi mudando, uma vez que nossa amizade também se fortaleceu, mas ainda assim o Sasuke era meio tímido pra quase tudo, quem o conhece bem sabe.
[...]
Já estava bem tarde e, após assistirmos uns três filmes de terror, decidimos que estava na hora de dormir.
Sasuke e eu fomos para o quarto dele, Itachi foi para o seu quarto. Mais uma vez o Sasuke estava emburrado e lá estava eu tendo que lidar com ele.
— Você não precisa ficar assim, Sasuke ! Isso é totalmente desnecessário — Abri meu cobertor sobre a cama e me deitei — Todos já estamos com sono mesmo, principalmente seu irmão que veio dirigindo, nós dois pelo menos cochilamos no caminho.
— Eu não estou com sono — Ele deu de ombros e se deitou ao meu lado — No fundo, nós só não dormimos lá por minha causa.
De fato era verdade... Bem, Sasuke sugeriu de colocarmos os colchões no chão da sala e ficarmos os três lá, vê no filmes até dormir. Seria uma boa, mas seria difícil para o Sasuke se levantar do chão, mesmo que com ajuda; também não iríamos deixar ele dormir no sofá, pois ia amanhecer com a coluna doendo.
Agora ele estava bravo por que não pudemos dormir na sala, o que realmente teria sido legal, mas o Sasuke precisava entender que ainda tinha limitações.
— Não dormir na sala não vai nos matar — Bufei — Relaxa, vai...
— Tá bom... — Sasuke soltou um suspiro alto e sorriu — Só fiquei meio frustrado.
— Pois não fique.
Estávamos deitados lado a lado, bem próximos um do outro. Meu rosto estava virado na direção do dele e vice versa. Sasuke segurou na minha mão, entrelaçando nossos dedos, e encostou sua testa na minha.
É verdade que Sasuke é dono de um belo par de olhos, mas nunca me senti hipnotizada por eles como estava naquele momento. Sentíamos a respiração um do outro, meu coração bateu mais forte... Não consegui compreender o que estava acontecendo comigo, mas, pela primeira vez na vida, senti vontade de beijar meu melhor amigo.
Foi por pouco... Muito pouco...
— É... — Pigareei — Vou apagar a luz.
— Faça isso — Ele respondeu, percebi que seu rosto ficou completamente vermelho.
Me levantei para apagar a luz e depois me deitei novamente na cama. Só que eu não consegui dormir, apenas remoer o que quase aconteceu. Sasuke e eu quase nos beijamos, me senti a pior pessoa do mundo por isso, afinal, ele era meu melhor amigo, quase um irmão.
— Sakura ? — Ouvi a voz rouca de Sasuke me chamar, logo em seguida senti ser abraçada pela cintura — Hum... — Ele deitou a cabeça perto do meu ombro — Assim tá melhor.
— Quanto atrevimento — Falei num tom de brincadeira — Você não se acha muito folgado ?
— Eu não — Ele riu — Boa noite, Sakura.
— Boa noite — Passei a mão pelos cabelos dele e dei um beijo em sua testa — Meu amigo querido.
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