Meu porto seguro
29 Nosso primeiro beijo
Notas iniciais
Estávamos terminando de fazer um trabalho de biologia, assim como todo trabalho em dupla, Sasuke e eu estávamos juntos.
— Então você usa "A" pra gene dominante e "a" pra gene recessivo — Falei, mas parecia que eu falava com a parede, uma vez que Sasuke não parava de olhar para as escadas.
Ambos estávamos na sala estudando, Sasuke dizia que já tinha mofado tempo demais dentro do quarto, agora ele transitava pela casa toda, com exceção do andar de cima, uma vez que ele ainda não subia escadas.
— Terra chamando — Estalei os dedos, fazendo com que Sasuke voltasse sua atenção para mim.
— Sim — Ele me encarou e fez uma cara de quem estava entendendo tudo, mas ele realmente não estava — Genótipo é...
— Sasuke — Interrompi — Não tô mais falando disso.
— Desculpa — Ele abaixou a cabeça, fitando a mesinha de centro lotada de livros e cadernos abertos — Eu estava distraído.
— Por quê você estava olhando dessa forma pra escada ? — Indaguei curiosa.
— Se eu te pedir um favor, você me promete que não vai me xingar, nem ficar puta comigo e nem contar pra minha mãe ? — Sasuke pareceu meio nervoso e inseguro, mas eu assenti — Me ajuda a ir até o meu antigo quarto ?
— Sasuke !
— Já tá ficando puta comigo — Ele revirou os olhos e eu bufei indignada — É sério, Sakura. Me ajuda.
— É só a sua mãe sair que você resolve aprontar, mas ela disse que não ia demorar.
— É rapidinho — Ele uniu as mãos e fez uma carinha de cachorrinho abandonado — Por favor, Sakura... Eu quero muito ir lá...
— Ah, Sasuke — Suspirei pesadamente — O que eu não faço por você, heim ?
O moreno sorriu alegre. Me levantei do chão e fui ajudá-lo a se levantar também. Sei que aquilo era loucura, mas Sasuke estava bem mais forte, então talvez não tivesse problema subir as escadas com a minha ajuda.
Paramos de frente para o primeiro degrau da escada, Sasuke parecia encará-lo por um tempo, como se estivesse numa espécie de luta interior.
Ele segurou no corrimão com uma mão, com a outra ele segurava a minha mão; colocou um pé no degrau e subiu. Não foi difícil, não precisei segurá-lo com muita força, ele conseguiu quase que sozinho.
— Vai até o final ? — Indaguei receosa enquanto ele encarava o segundo degrau.
— Vou sim — Sasuke assentiu com a maior convicção do mundo.
O Uchiha arriscou o segundo degrau, e o terceiro, o quarto, o quinto... Devagar, Sasuke foi até o final e, assim que chegamos lá em cima, ele olhou para baixo, encarou os degraus e sorriu vitorioso.
Tenho certeza de que, para o Sasuke, aquilo foi mais do que simplesmente subir uma escada; foi como se ele estivesse provando para si mesmo que é capaz de superar os obstáculos e vencer os degraus, seja eles quais forem.
— Estamos aqui em cima — Falei, tirando o moreno de seus pensamentos.
Por um momento ele pareceu até ter esquecido de que estava lá para ver seu quarto, parece que olhar para baixo, encarando os degraus que conseguiu finalmente vencer, estava mais divertido pra ele. Mas logo a tia Mikoto chegaria, ou seja, precisávamos ser rápidos.
— Certo — Sasuke assentiu.
Fomos andando até o antigo quarto de Sasuke. Deixei que ele abrisse a porta e, depois de muito encará-la, Sasuke o fez.
Entramos juntos no cômodo quase vazio, só tinha um guarda roupa e a cama de solteiro, o resto das coisas estava no novo quarto, que ficava no andar de baixo.
— Nossa... — Sasuke se sentou na cama e passou a mão pelo colchão coberto por um lençol azul — É até estranho voltar aqui depois de tanto tempo — O rapaz olhou para as paredes, ainda cobertas pelo mesmo papel de parede listrado de verde com azul — Me acostumei tanto com o outro quarto que nem sei se volto pra cá algum dia, mas ainda assim eu sinto saudade.
— É, você dormia nesse quarto desde que nasceu — Sentei-me seu lado, colocando a minha mão sobre a dele — Eu sei que, no fundo, você tinha mais vontade de subir as escadas do que de voltar para o seu antigo quarto.
— Como ousa me conhecer tão bem, Sakura Haruno ? — Ele indagou risonho e arqueou a sobrancelha.
— Digamos que nós somos amigos há bastante tempo, ou seja, eu te conheço muito bem... — Eu dizia isso, mas, muitas vezes, Sasuke era uma incógnita.
— Obrigado — Sasuke me encarou com um sorriso de canto — Eu não teria conseguido sem você, Sakura.
— Sinto muito acabar com a sua alegria — Me levantei e estendi mão para ele — Vamos, Sasuke, logo a sua mãe chega.
— Estraga prazeres — Ele levantou emburrado e eu achei graça daquilo, comecei a rir da cara de criança birrenta que o moreno estava fazendo — Como ousa rir de mim, Sakura ?
— Você fica fofo assim, Sasuke — Falei risonha e apertei a bochecha dele.
— Fofo ? — O Uchiha arqueou a sobrancelha. Sem aviso, Sasuke me segurou pela cintura e começou a fazer cócegas em mim — Me acha fofo agora ?
— Ai, Sasuke ! — Comecei a me remexer, assim como qualquer pessoa quando sente cócegas, e gargalhei como uma louca — Para com isso, seu demente ! Sasuke, me solta !
Como eu estava me mexendo, e Sasuke ainda não tinha tanta força e equilíbrio, ele acabou se desequilibrando, e iria se esborrachar no chão se eu não o tivesse segurado.
Assim que percebi que ele iria cair, eu o abracei, impedindo que ele fosse de encontro ao chão. Logo ele recuperou o equilíbrio, o que foi ótimo, já que Sasuke é maior e mais pesado do que eu, consequentemente eu não conseguiria segurá-lo por muito tempo.
— Obrigado — Ele me agradeceu meio sem jeito.
Ainda estávamos abraçados e nossos rostos estavam muito próximos. Não sei explicar o que senti na hora, foi como quando estávamos na fazenda, mais uma vez senti vontade de beijá-lo.
Instintivamente nossos olhos se fecham e eu senti um arrepio quando nossos lábios se tocaram. Embora tenha sido tudo muito rápido, para mim foi como se aquilo tivesse acontecido em câmera lenta.
Não foi um beijo propriamente dito, apenas um roçar de lábios que não durou muitos segundos. Nos separamos e eu notei que o rosto de Sasuke estava muito vermelho, com certeza o meu também estava.
— É... — Ele pigarreou, desviou o olhar e coçou a nuca, completamente sem jeito — Perdão.
— Tudo bem — Falei sem graça. O que fazer quando você beija o seu melhor amigo, que é quase um irmão ? Bem, não há o que fazer, uma vez que o tempo não volta — Vamos descer, logo a tia Mikoto chega.
— Aham — Sasuke assentiu e fomos andando até a escada.
Descer foi mais difícil, ele tinha que flexionar os joelhos, manter o equilíbrio e ao mesmo tempo se segurar para não cair. Juro que fiquei morrendo de medo e o segurei com um pouco mais de força. Demorou mais do que tinha demorado para subir, mas ele conseguiu antes que sua mãe chegasse em casa.
Sasuke caminhou até o sofá, sentou-se e deu batidinhas no mesmo, para que eu me sentasse ao seu lado.
— Sasuke... — Falei apreensiva, me sentei ao lado do meu amigo e escorei a cabeça em seu ombro — Sobre o que aconteceu lá em cima...
— Relaxa, Sakura — Ele riu e passou a mão pelos meus cabelos — Afinal, aquele não foi o nosso primeiro beijo, não é mesmo ?! — Sasuke me mostrou o dedo mindinho e aquilo fez um tsunami de lembranças invadir a minha mente...
[...]
— Sasuke, você não vai acreditar no que eu vi ontem ! — Falei incrédula com o garoto enquanto andávamos pela escola no intervalo, na época chamado por nós de recreio.
— O que ? — Ele indagou, sem esconder sua curiosidade.
— Eu vi o meu pai beijando a minha mãe — Sussurrei para ele, parecia até que eu estava falando de um crime ou algo parecido.
— Já vi meus pais fazendo isso — Sasuke fez uma cara de nojo — Eca ! Por que os adultos fazem isso ? É nojento !
— Sei lá — Dei de ombros — Talvez seja uma coisa boa.
— Ficar se babando e chupando a boca um do outro não me parece uma coisa boa — Sasuke levou o dedo indicador até o queixo e fez uma expressão pensativa — Se bem que os adultos têm gostos estranhos... Eles gostam de coisas que as crianças não gostam...
— Como assim, Sasuke ?
— Meus pais gostam de alface, por exemplo — Ele falou, ainda pensativo — E, mesmo sendo obrigado a comer, nunca consegui gostar daquela coisa verde e sem gosto...
— Não tô falando de salada — Revirei os olhos.
— Só tô comparando — Ele explicou — Acho que nós só vamos saber quando formos adultos, Sakura.
— E se... — Minhas bochechas ficaram extremamente vermelhas e eu desviei o olhar por uns segundos — E se for bom mesmo ?
— Hum... — Sasuke me encarou pensativo antes de segurar no meu braço e correr comigo até o bequinho que ficava atrás das salas de aula da educação infantil — A gente... — Ele deu uma última conferida ao redor, não tinha ninguém ali perto — A gente pode descobrir.
— Sasuke ! — Levei as mãos até a minha boca, estava completamente chocada — Sério ?
— Se você quiser... — Ele falou meio desconcertado — Eu juro que nunca vou contar pra ninguém.
— Jura ?
— Juro — Ele me mostrou o dedo mindinho, eu fiz o mesmo e nós entrelaçamos nossos dedos, afinal, uma promessa de dedinho nunca pode ser quebrada, isso é sagrado para uma criança.
— Tá bom — Aquela promessa me deixou mais confiante, eu tinha certeza de que Sasuke jamais a quebraria. Respirei fundo e moreno fez o mesmo, nos encaramos e ele balançou a cabeça em sinal positivo — 1... 2... 3...
Sasuke e eu fechamos os olhos antes de unirmos nossos lábios, foi apenas um selinho de uns cinco segundos ou até menos, mas foi o suficiente para caretas horrorosas surgirem nos nossos rostinhos infantis após separarmos nosso "beijo".
[...]
— Sasuke — Falei risonha e entrelacei meu mindinho com o dele — Você ainda lembra daquilo ?
— Claro — Ele riu — O primeiro beijo a gente nunca esquece.
— Tínhamos uns seis ou sete anos — Sorri — Nem foi um beijo, não conta.
— Ora essa, durou uns cinco segundos, acho que conta sim — Ele riu da minha cara. Ora essa, Sasuke era como um irmão, falar sobre beijo com ele era algo realmente constrangedor.
— Bobo — Desviei meu olhar para os nossos dedos entrelaçados — Sua boca estava suja de doce.
— Sério ? — O moreno começou a rir — Disso eu não me lembro... Provavelmente eu devia ter levado algum bolo pra lanchar.
— Bolo de chocolate — Completei — Você nunca quebrou a sua promessa... Aquilo morreu naquele dia mesmo, nunca mais tocamos no assunto.
— É porque eu nunca quebro uma promessa, Sakura. Principalmente se for uma promessa de dedinho.
— E qual vai ser a promessa dessa vez ?
— Bem — Sasuke me olhou nos olhos e sorriu — Não precisamos esquecer, só... só... — Ele mordeu o canto do lábio inferior, sinal claro de insegurança e nervosismo — Só guardar a lembrança... Tipo, foi instintivo, não queríamos, mas aconteceu, certo ?!
Apenas assenti, mas percebi que Sasuke parecia um pouco nervoso, e, o fato de eu conhecê-lo há muito tempo apenas fez com que uma dúvida cruel surgisse... Será mesmo que o Sasuke não teve a intenção de me beijar ?
— Claro, afinal, não tivemos a intenção — Falei antes de me sentar no chão da sala, de frente para a mesinha de centro — Agora, precisamos terminar o nosso trabalho. Precisa de ajuda pra sentar ?
— Não — Ele se apoiou na mesinha e conseguiu se sentar no chão sem problemas. Sasuke já estava cada vez mais independente — Consigo sozinho, viu ?!
— Fico feliz de presenciar os seus avanços — Sorri satisfeita — Você não sabe o quanto isso me alegra.
— A mim principalmente — Sasuke esboçou um sorriso sincero e tímido ao mesmo tempo.
A semente da dúvida realmente estava plantada em meu coração. Aquele beijo, que mal foi um beijo de verdade, mexeu um pouquinho comigo e despertou em mim um desejo que eu jamais havia sentido por ninguém. Desde a fazenda, quando eu senti vontade de beijá-lo, que aquilo ficou martelando na minha cabeça, e agora eu estava sentindo um gostinho de quero mais... Uma vontade de beijá-lo de verdade, mesmo não tendo certeza de nada.
Será que eu estava começando a me apaixonar pelo Sasuke ?
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