Meu nome não é Kyle
4 Capítulo 3: A better target
Notas iniciais
O tempo e o relógio pareciam estar congelados durante a aula de literatura da senhorita Mays, eu estava sentado em minha cadeira, com as mãos no queixo e não pensando em nada especificamente, apenas esperando o barulho do sinal tocar, pra poder sair da sala e não ter que olhar Becca Hastings, a sempre tão perfeita estrela do clube de teatro, ler pra nós mais um trecho interminável de ''Grandes Esperanças''. Eu costumava adorar literatura, mas isso foi antes da senhorita Mays assumir nossas aulas – Devo dizer que chamá-la de senhorita é uma grande bondade, tendo em vista que ela já deve ter uns quarenta anos, mas como ela mesma diz não ser casada – Ela assumiu essa aula durante o recesso do senhor Duran, o nosso professor oficial dessa matéria, pois ele quebrou a bacia em um acidente com um teleférico no Colorado. Anabelle Mays é professora do clube de teatro também, e sempre tenta deixar nossas aulas um tanto quanto teatrais. Acho que eu nem preciso dizer que nossa visão teatral é muito diferente.
– Nossa como ela consegue ser tão canastra? – Resmungou Joan a minha frente, ela estava na mesmo posição que eu, além de estar mexendo em uma mecha de cabelo – toda vez que a Becca abre a boca, Shakespeare se revira no túmulo.
– Isso não é Shakespeare, é Charles Dickens – Disse eu, logo após soprar lentamente o ar de meus pulmões pra fora.
– Que seja, os dois eram velhos e já morreram.
– Pode se sentar agora Becca – Disse a senhorita Mays, com sua voz esganiçada e seu sorriso sempre cheio de dentes – Muito obrigada por essa magnífica representação.
Assim que ela fechou a boca, a porta da sala se abriu e Billy Duchannes entrou com um bilhete nas mãos. Ele caminhou em direção à professora e entregou o papel a ela, logo após isso, Rick e Brad entraram também, e fizeram a mesma coisa. Ela balançou a cabeça negativamente e os mandou se sentar, Billy passou por mim e se sentou no fundo da fileira ao meu lado, durante o trajeto ele me encarou e eu pude sentir que Rick e Brad me encaravam também do outro lado da sala.
Aquilo me incomodou de um jeito terrível, porque o diretor não os havia suspendido? O vídeo deixava bem claro que o que aconteceu na fonte era muito grave. Era pra eles estarem em casa agindo como macacos, ou seja lá o que eles fazem quando não estão importunando inocentes nos corredores do West Side. Joan me olhou e sussurrou:
– Porque eles não foram suspensos?
– Eu não sei, será que o Oliver foi? – Perguntei, e ela franziu o cenho.
– Porque ele seria suspenso Jude? Ele foi claramente a vítima – Seria mesmo um absurdo Oliver ser suspenso no lugar dos agressores. Eles ficaram quase uma hora na sala do diretor desde o incidente e no momento tudo que me interessava era saber o que tinha rolado lá dentro. Quando o sinal do intervalo tocou e nós saímos da sala, Joan queria ir direto ao refeitório, pois estava morta de fome como sempre. Estávamos indo até lá, mas então eu vi Oliver no bebedouro.
– Joan espera – Ela continuava me puxando pelo braço, mesmo após eu falar – Joan...
– O que foi? Eu estou tremendo de fome – Ela parou e olhou em direção ao Oliver.
– Vamos falar com o Oliver, quero saber o que aconteceu – Eu queria aproveitar que ele estava fora da sala, pois nosso intervalo não é junto com o dos calouros. Caminhamos até o bebedouro, as outras turmas também estavam saindo para o intervalo e aos poucos o corredor estava ficando cheio.
– Ei Oliver – Falei, fazendo ele se virar.
– Ah, oi... Jude – Respondeu ele, com sua voz fina. – Eu preciso agradecer vocês pelo que fizeram, obrigado.
– Não foi nada, bela blusa – Disse Joan, apontando o suéter com cores natalinas e com desenhos de renas que ele estava usando.
– Isso? Ele é mesmo um horror – Oliver deu de risos – como minha roupa molhou eles me emprestaram essa do achados e perdidos, alguém perdeu e não quis encontrar.
– E ai cara? O que aconteceu lá na diretoria? — Ele me olhou e depois olhou pra Joan, secou a boca com manga da blusa e respondeu:
– Nada... – Ele baixou o olhar por meio segundo e continuou a falar – eles se safaram... A conselheira Moreno pegou o vídeo com um dos alunos e mostrou pro diretor Heller, ele estava prestes a suspender os três pelo que aconteceu. Mas então o pai do Billy chegou e eles começaram a conversar, ele disse que o Billy não podia ter aquela mancha no histórico e que ia atrapalhar na busca por universidades, disse que se sentia envergonhado pelo acontecido e que como forma de retratação ele iria doar uniformes e equipamentos novos pro time. Então o diretor voltou atrás.
– Porque eu não estou surpresa? – Disse Joan, ela estava com tanta fome que roía a unha do dedão – Os atletas mandam nessa escola. O Heller deixa eles fazerem o que quiserem, desde que tragam títulos e prestígio pra carreira acadêmica decadente dele.
– Você precisa contar isso aos seus pais Oliver, se os seus pais vierem aqui na escola e exigirem uma punição, o diretor Heller vai ser obrigado a tomar uma medida mais severa.
– Eu não posso contar isso aos meu pais Jude – Disse ele em um tom amargo – Eles jamais se dariam o trabalho de vir aqui por causa disso. Meu pai provavelmente diria que eu que causei tudo, que a culpa é minha, que a culpa é sempre minha. E a minha mãe ia concordar com ele, por que é o que ela faz... Eu não suportaria ouvir isso deles mais uma vez, e além do mais, o pai do Billy o fez jurar na frente dele que ia me deixar em paz.
– E você acreditou? – Perguntou Joan, era o que estava pensando em dizer.
– Não sei, mas é a melhor chance que eu tenho.
As palavras de Oliver ficaram matutando em minha cabeça, me imaginei no lugar dele, tendo a visão que ele tem dos pais. Eu imagino que pra ele pensar dessa forma ele já deve ter ouvido muita coisa ruim da boca deles. Mas apesar disso ele tem coragem de ser como ele é, de usar as roupas que curti, de usar o cabelo de forma moderna e usar maquiagem. Eu não tinha ideia que envolvia tanta coragem, foi então que eu percebi que o Oliver ser tão feminino nunca me incomodou de verdade, só era meio esquisito, só isso.
Eu caí na pilha de uma sociedade opressora e decidi não ir com a cara dele. Uma vergonha, eu sei. Mas o pior de tudo foi perceber que eu tinha uma sorte que eu não valorizava, foi perceber que minha mãe ser tão cabeça e lidar tão bem com a minha homossexualidade, não era motivo pra eu ficar constrangido. Ela só estava lidando com tudo de uma forma natural. Pensei que talvez Oliver desse tudo pra ter uma mãe como a minha.
Joan e eu seguimos pelos corredores até o refeitório, esperamos na fila para nos servirmos como sempre, a comida parecia estar com uma cara ótima, mas eu não peguei o suco de cadeia que eles servem, além de ter sempre o mesmo gosto de nada, uma vez uma garota encontrou uma coisa não identificada em sua bebida, uns dizem que era um pedaço de queijo velho, mas também há quem diga que era chiclete. Na dúvida eu prefiro gastar dinheiro com a minha latinha de coca cola. Joan e eu sempre ficamos na mesa perto de onde tudo é servido. Na nossa mesa geralmente se sentam outras pessoas de nossa classe, mas a gente só conversa um com o outro, vez ou outra entramos no assunto que rola na mesa.
Assim que terminei de me servir eu peguei a bandeja e segui pra mesa, Joan estava a minha frente e quando ela já tinha largado sua bandeja, eu senti um soco me atingir, bem no meio do peito. O ar me fugiu dos pulmões e eu senti como se meu coração tivesse entrado em curto circuito e estivesse enviando pulsos elétricos por todo o meu corpo. A dor foi tão forte que era como seu tivesse sido golpeado com uma faca, senti a bandeja escapar das minhas mãos e cair sobre os meus pés. Na minha frente estavam Billy, Brad e Rick. Foi Billy quem me deu um soco.
– E ai viadinho? – Disse ele, seguido da risada dos seus dois seguidores. Eu nunca pensei que sentiria tanta raiva de alguém como senti dele naquele momento. Senti meu rosto ferver e era como se meus olhos borbulhassem por dentro. Na mesma hora eu o agarrei pelo colarinho, e ele se surpreendeu com minha reação, visto que na mesma hora segurou minha mão. – Quer mesmo fazer isso? Eu não estou sozinho. Confessa vai, confessa que você é um Viadinho...
– Para Jude! – Joan me abraçou e ficou entre Billy e eu, ela estava muito assustada e tremia tanto quanto eu foi o que eu pude sentir. – Não entra na dele, vai embora! Deixa a gente em paz!
– Sabe... Eu nunca tinha reparado muito em você – Disse ele soltando um pequeno riso de deboche – Você tem um jeitinho bem estranho, graças a você eu peguei quinze dias de detenção, e fiquei sem ter com quem me divertir.
– Olha quer saber Billy, não que seja da sua conta – Comecei a dizer, e a me preparar pro que eu precisava fazer, eu sei que se eu disser em voz alta nesse momento, tudo vai mudar e todos vão saber. Mas eu não posso deixar isso me atingir mais. Lembrei de uma coisa que eu aprendi assistindo Game of Thrones, parece besteira...Mas ao mesmo tempo faz muito sentido, é algo como ‘’Nunca esqueça o que você é. O resto do mundo nunca esquecerá. Use isso como uma armadura e isso nunca poderá ser usado contra você’’. Se algo tão profundo funciona numa guerra épica em terras fantásticas, deve funcionar na minha vida – Eu sou gay sim, e não há nada que você possa dizer sobre mim que vá me atingir. Porque ao invés de cuidar da minha vida, ou cuidar da vida do Oliver, você não começa a buscar respostas sobre si mesmo? Por que esta bem claro que essa sua homofobia deve ter um motivo enrustido.
– Cala a boca! – Ele me segura pela gola da minha blusa, e levanta seu punho preparando um soco, ele continua me encarando fixamente e eu não baixo meu olhar, nunca vou baixar meu olhar, mesmo que isso me custe os meus olhos.
Eu fechei meus punhos com força, ele é maior que eu, ele é mais forte que eu, e esta em maior número. Mas se eu acertá-lo com toda a minha força eu sei que poderia pelo menos quebrar o nariz dele. E por um momento é o que eu quero fazer. Seus olhos continuam fixados nos meus, são os olhos da intolerância que me olham com tanto ódio, eu posso sentir mesmo que ele me odeia, tanto ou mais do que eu o odeio, então passo a temer o que vai me acontecer se eu acertá-lo, aos poucos vou tentando recuperar o folego, tentando me acalmar. Devagar ele vai fazendo o mesmo, soltando minha gola, ele não prossegue com o Bullying. Pelo menos naquele momento, ele se vira de costas e sai seguido de seus seguidores. Me deixando no refeitório sobre os olhares curiosos dos alunos que estão ali. Acho que ele vai mesmo deixar Oliver em paz, mas é porque encontrou um alvo melhor.
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