Meu nome não é Kyle
5 Capítulo 4: Being out has never been so in
Notas iniciais
– Não acredito que você saiu do armário na frente de toda a escola – Disse Joan, eu a olhava através do espelho no banheiro masculino. Estava tentando limpar a barra da minha calça que estava suja de comida – Você sabe o que isso significa?
– Que todos sabem que eu sou gay? – Respondi apático, o soco doeu bastante e ela estava toda eufórica como se tivesse visto Jared Leto sem roupa. Será que ela não entendia o drama?
– Também, mas o melhor de tudo é que você não precisa mais fingir ser o que não é, foi tão legal aquela hora que você olhou pra ele e disse ''Hey seu bastardo! Eu sou gay sim, e você é um enrustido de merda!''
– Mas eu não falei nada disso – Olhei sério pra ela, mas tudo que eu conseguia pensar era ''como ela consegue ficar tão confortável no banheiro masculino?''esse lugar é horrível, parece banheiro de rodoviária.
– E dai? Foi quase isso, é a versão pra sua biografia não autorizada, escrita por mim. – Ela cruzou os braços, enquanto eu erguia a camiseta e analisava a região do meu peito que sofreu o impacto. A melhor coisa sobre os atletas, talvez seja que eles possuem corpos bonitos, pois estão sempre fazendo exercícios físicos. A pior coisa sobre os atletas, talvez seja levar um soco de um, pois eles possuem uma força enorme. Eu passo a mão sobre a área avermelhada, só não me sinto mais humilhado porque eu acho que saí por cima. Caso contrário iria pra casa agora mesmo.
– Ei, esse é o banheiro masculino – Disse um garoto a Joan logo que entrou, pela cara dele, devia estar bastante apertado.
– Ah eu tenho um pênis queridinho, deixe eu te mostrar aqui...
– Vamos embora daqui... – A puxei pelo braço e sai do banheiro antes que ela pensasse em desabotoar as calças. O intervalo estava acabando e ainda faltavam as ultimas aulas.
Já estávamos no fim do dia, e eu ainda não sabia direito como me locomover pela escola após o acontecido. Sentia as pessoas me olharem por onde eu andava, e eu não consegui distinguir se eram olhares de reprovação ou olhares de solidariedade. Se antes eu não era muito notado e não fazia nada pra chamar a atenção pra mim, agora é como se tivesse um letreiro de neon pendurado no pescoço.
– Parece aqueles pesadelos em que eu estou só de cueca no meio da Time Square... – Sussurrei perto do ouvido de Joan.
– Eles te amam. Você é tendência, você é urban conceitual, você foi precursor do movimento gay nessa escola, o que vier depois será modinha – Disse ela enganchando em meu braço.
Eu não queria ser percursor de nada, a única coisa que eu queria era não ter que passar pelas coisas que o Oliver passou, ou por essas coisas que a gente vê os gays passando nos noticiários. Eu não queria ser conhecido como o garoto gay do West Side. Sabe, essa não é a única coisa sobre mim, eu não sou só gay. Aqueles olhares teriam acabado com o meu dia, se não fosse por um em especial.
Quando passávamos pelo corredor, Chad Wayland e seu grupinho de amigos vinham em nossa direção. Eu não o vi a tempo de desviar o olhar e fiquei sem saber como reagir, afinal ele estava no refeitório quando eu enfrentei o Billy, e agora ele sabe que eu sou gay. Some isso ás vezes que ele me pegou olhando pra ele, e o resultado não vai ser algo fácil, como a raiz quadrada de pi. Eu pensei se ainda daria tempo de mergulhar na lixeira. No fundo da minha cabeça uma voz me dizia pra eu encara-lo, e foi o que eu fiz de uma maneira sutil. Nós passamos um do lado do outro, e foi quando aconteceu. Primeiro ele me olhou, não foi um olhar de reprovação, ou um olhar de solidariedade. Foi um olhar diferente, depois ele sorriu com o canto dos lábios enquanto me olhava. Tipo aquele sorriso que a gente da quando vê um filhote de coala, ou quando a gente vê aqueles bebês de comercial, eu nem sei o que eu estou pensando direito. Aquilo estava mesmo acontecendo?
Continuei andando após ele passar por mim, e muitas coisas começaram a estourar na minha cabeça igual pipoca. O que significava aquele sorrisinho? Ele sorriu mesmo? Eu estou vendo o que eu queria ver? Eu queria saber. Virei a cabeça e olhei pra trás, e pra minha surpresa ele estava fazendo o mesmo. Parei onde eu estava e olhei pra Joan ao meu lado, ela também parecia estar surpresa.
– Você viu o que... – Quis começar a dizer.
– Cara, ele está tão na sua – Respondeu ela, numa clara referência a nosso seriado favorito, ela me enganchou novamente e começamos a rir, não sei o que pensar, mas eu acho que aquele sorriso realmente significou alguma coisa, eu só não sei ainda o que.
_ _
Cheguei em casa após mais um dia infernal no ensino médio, e eu precisava de um banho urgente, mas antes eu queria ver como andavam as coisas no único lugar onde as pessoas tem coragem de falar o que pensam sem usar nenhum filtro. A internet. Loguei com o meu facebook e tive uma grande surpresa ao ver que tinha cinquenta novas solicitações de amizade. Eu não me considero um cara excluído, eu até tenho muitos amigos no facebook, se é que a gente pode chamar os amigos do facebook de amigos porque a maioria das pessoas só estão ali pra encher a lista e nunca curtiram ou compartilharam nada que eu coloquei ali. Mas eu também não acho que eu tenha colocado nada que merecesse tanta atenção, sei lá, apenas acho que o termo ''amigo'' não se enquadra pras pessoas que estão ali. Toda hora chegavam mais e mais solicitações, mais ninguém mandava mensagem ou curtia nada, eu entendi que o que eles querem mesmo é saber sobre mim, acompanhar as coisas que eu coloco pra rirem ou apenas matarem a curiosidade.
Não sei se invadido é a palavra pra definir como eu estou me sentindo nesse momento, não é como seu estivesse mal com essa situação. Sai do facebook e fui direto ao banho, tirei a camisa e analisei novamente o soco que o Billy me deu. Não estava apenas vermelho, as bordas estavam ficando esverdeadas, um pouco azuladas, estava se transformando em um hematoma. Me sinto um lixo cada vez que me lembro o que aconteceu no refeitório, nunca mais vou passar por algo assim novamente, não importa o quão errado eu vou estar por isso, mas eu juro que na próxima vez, eu vou revidar. A água cai quente cai sobre o meu corpo tenso me deixando relaxado. Todo mundo aproveita o banho pra pensar na vida, é o que eu faço também.
Enrolei minha toalha na cintura e fui pro quarto procurar uma camiseta que não ficasse roçando no meu machucado. Escolhi uma camiseta velha que eu tenho do filme Pássaros, estou me preparando pra me vestir, quando minha mãe abre a porta.
– Por Deus Mãe, você quase me viu indecente.
– Desde quando você é religioso? Nada disso é novidade pra mim – Disse ela entrando no quarto – Acabei de chegar, eu estou com preguiça de cozinhar, quer pedir pizza ou comida japonesa?
– Pizza esta bom pra mim.
– O que é isso no seu peito? – Perguntou ela, esqueci que estava sem camiseta, agora vou ter que explicar. Vou ter que mentir.
– Não é nada, foi uma bolada na aula de educação física, nada demais.
– Como se alguma vez você já tivesse jogado bola na sua vida – Ironizou ela, ela estava errada eu já joguei bola, mais odeio jogar. Ela se aproximou e começou a analisar – Isso foi um soco, acha que pode mentir pra uma enfermeira?
Fiquei em silêncio por alguns segundos, eu nunca consegui mentir pra minha mãe, nem mesmo quando eu achei que tinha conseguido eu realmente tinha. Ás vezes ela fingia acreditar pra não estender as coisas.
– Vai me contar como conseguiu esse hematoma Jude? – Perguntou ela enquanto cruzava os braços.
Sentei–me na cama e senti meus olhos ficarem carregados, respirei fundo. Não quero chorar. — Eu tive um dia péssimo, você...pode me dar um minuto?
– Querido o que aconteceu? Você nunca escondeu nada de mim, sabe que não precisa – Virei meu rosto e continuei respirando, ela passou os dedos sobre os meus cabelos molhados penteado pra trás – Isso tem haver com aquele menino que a Joan falou? Ele fez isso?
– Não – Dei de risos, mesmo não sendo engraçado – Ele nem sabe que eu existo, foi outra pessoa...
– Então o que aconteceu?
– Quando Joan e eu chegamos na escola, Billy um garoto do nosso ano estava torturando um dos calouros. É um menino que tem jeito... A gente sabe que ele é gay mesmo ele nunca tendo dito isso, entende? Nós o defendemos e...
– E ele te bateu?
– Não foi assim, me deixa terminar. Eles foram mandados pra direção e não foram suspensos, mais eles me marcaram. Dai no intervalo o Billy me acertou. Começou a me chamar de veadinho na frente de todo mundo no refeitório...
– E o que você fez?
– Disse que não era da conta dele, mas eu era gay sim, que ao invés de cuidar da minha vida ele deveria buscar respostas sobre si mesmo, que a homofobia dele tinha um motivo enrustido.
Ela soltou uma risada e pouco depois eu também, não sei sobre o que exatamente estamos rindo – Eu não teria pensado em algo melhor – Disse ela – O que ele fez depois?
– Foi embora do refeitório, matou as duas ultimas aulas.
– Foi melhor do que qualquer soco que ele pudesse ter dado em você – Ela me abraçou pelo pescoço e encostou sua cabeça na minha – Você socou a intolerância dele. Mais antes eu preciso saber, eu tenho que ir a escola? Acha que ele vai seguir com isso?
– Não tenho certeza, acho que não, se for preciso eu te aviso.
– Você precisa de gelo, isso pode acabar inchando – Ela se levantou e foi caminhando em direção a porta.
– Mãe...
– Sim querido?
– Acha mesmo que eu fiz certo? Quer dizer...todo mundo sabe agora.
– Não eduquei você pra fugir de uma situação dessas, você fez o que tinha que ter feito, eu não esperaria menos de você.
– Eu te amo.
– Eu também – Ela sorriu e piscou – Vai ganhar borda extra por essa.
– Beleza.
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