Meu nome não é Kyle

14 Capítulo 13: Come with me, if you want to live


Notas iniciais
Esse capítulo é continuação direta do anterior. Esse capítulo e o último postado, apresentam três personagens importantes. Amanda Forbes, Adam Rhodes e Landon Smith.

Você sabe que está no fundo do poço, quando descobre que está prestes a fazer dezessete anos e nunca pulou um muro antes em toda a sua vida. Agora estou aqui, diante de um muro de dois metros e meio — eu acho — E nem sei por onde eu deveria começar a escalar. Fugir já estava começando a parecer uma péssima ideia, mas então avistei algumas lixeiras. Eram algumas dessas latas de lixo de coleta seletiva, peguei a amarela que estava escrito metal na frente. Tentei subir em cima dela, mas ela começou a balançar demais, então desci antes que quebrasse. Fico tentando pensar em um jeito de pular esse muro. Olho pro deck da piscina. Há uma mesa e algumas cadeiras lá. Caminho discretamente, pé por pé tentando não ser visto, pego a cadeira e a levo até onde eu pretendo usá-la.

Encosto-a no muro, subo e consigo alcançar o topo. Projeto o meu corpo pra cima e acabo derrubando a cadeira, com muito esforço eu consigo me sentar. Agora eu tenho certeza que foi mesmo uma péssima ideia. Daqui parece muito mais alto, e não há nada lá em baixo além da calçada. Estou preso aqui em cima, visto que a cadeira caiu no chão e não tenho onde me apoiar pra descer. O único jeito é pular, não há outra maneira, posso pular pro lugar onde estava ou simplesmente saltar pra liberdade. Por fim respiro fundo e me jogo lá de cima.

A queda foi mais dura do que eu imaginei, cai em pé, mas minhas pernas falharam e acabei de bunda no chão. Me apoio no muro tentando me levantar, mas um enorme feixe de luz invade o meu rosto. Quando consigo focar vejo que a luz vem de um refletor, e tem um monte de gente vindo pra cima de mim. São os repórteres, não posso crer que eles nos seguiram até aqui.

– Porcaria — Começo a correr com o sapato em minhas mãos, eles me seguem, mas eu não vou falar com eles nem morto, eles devem ter filmado eu pulando o muro. Porque ninguém me deixa em paz?

Continuo correndo o mais rápido que posso, não sei se eles continuam a me seguir. Antes que eu perceba já estou longe da rua da casa dos Forbes, devo agora estar atravessando a segunda quadra agora, olho pra trás enquanto corro, pra ver se tem alguém no meu encalço. Não há ninguém. Quando olho pra frente já é tarde demais. Acabo me chocando com alguém que estava virando a rua. Nós dois caímos no chão, totalmente atordoados.

– Droga! Você não olha por onde anda não? — Diz o garoto a minha frente, ele está com o rosto todo suado. Ele usa um short, tênis e uma jaqueta de moletom cinza. Acho que estava fazendo uma corrida noturna.

– Me desculpe, eu... eu... — Estou sem fôlego pra conseguir falar, sinto que eu vou ter um filho pela boca.

– Você... Você... O que? — Diz ele, levantado-se rapidamente, e me ajudando a ficar de pé.

– Eu... Eu estava fugindo...

– De quem? Ladrão? Assalto? — Disse ele, secando o suor com a manga da blusa. Devo confessar que por trás do look "acabei de correr uma maratona" ele é bem bonitinho.

– É... — Digo, ofegante — Tipo isso... Ladrões de privacidade.

Enquanto eu tento estabelecer algum tipo de comunicação com ele vejo que uma das vans de reportagens que estavam hoje de manhã em frente a minha casa se aproxima. Pra que correr atrás de mim se eles tem carros pra isso, não é mesmo?

– Droga são eles! — Digo eu, amaldiçoando todos eles em pensamento.

– Eles quem? — Pergunta o garoto confuso.

Não vai dar tempo de correr, eu nem sei se consigo, pois eu ainda estou um pouco sem fôlego, eu preciso pensar rápido se quiser sair dessa.

– Me dá o seu moletom! — Digo a ele, arrancando rapidamente o Blazer que Nicole me deu e o jogando perto da árvore — Rápido!

– O que? Por que eu preciso te dar o meu moletom? — Disse ele, olhando pros lados.

– Não me faça perguntas! — Digo de maneira suplicante, mas não estou com a menor paciência, ou tempo pra explicar alguma coisa. Então eu mesmo avanço e começo a arrancar o moletom dele, rezando pra que ele não engrosse ou faça um escândalo.

– Você é algum tipo de maluco?

– Desculpa... — Visto o moletom com agilidade, coloco o capuz na cabeça e ainda não satisfeito, o pego pelos ombros e o coloco em minha frente, de modo que dificulte a visão deles sobre mim. A van se aproxima em baixa velocidade, procurando por mim eu imagino. No fim eles acabam por passar direto e não me veem.

– Vai me explicar agora porque tirou a minha roupa? — Perguntou ele, num tom de voz baixo, quase sussurrante. Devo dizer que ele perguntou da pior maneira possível, agora o meu rosto está queimando de vergonha.

– Desculpa... Eles são repórteres e estavam me perseguindo, eu não faço esse tipo de coisas, eu devo ver filmes demais — Começo a tirar o moletom pra entregar a ele, ele pega a jaqueta nas mãos, enquanto fica me analisando por alguns segundos.

– Espera ai... — Disse ele, vestindo a jaqueta novamente. Eu junto o Blazer do chão — Eu sei quem você é... É aquele menino...

– Sim! Você esta certo! Sou eu, Kyle Marshall, o menino sequestrado, e estou indo embora, mais uma vez obrigado pela jaqueta — Digo apático girando nos calcanhares e começando a caminhar. Que pena que ele me reconheceu, eu estava quase gostando dele.

– De nada! — Gritou ele, enquanto me observava andar — A propósito, eu sou o Landon!

– Valeu Landon! — Gritei de volta, acenando com a mão, enquanto virava a esquina.

Agora eu estava caminhando calmamente pelas ruas do bairro, eu não estava perdido, eu sabia exatamente onde estava indo, graças ao celular de ultima geração que Nicole me presenteou que tinha GPS. Será que eles já deram por minha falta? Acho que não. Nicole já teria me ligado se isso tivesse acontecido. Quando eu chegar em casa eu vou ligar pra eles e dizer que o sapato estava me fazendo calos e eu não estava me sentindo bem.

Agora que a raiva que a Charlotte me proporcionou estava começando a passar, eu estava me sentindo um babaca. Que tipo de pessoa foge do próprio jantar assim? Pulando muros e parando pessoas na rua? A minha vida se transformou em algum tipo de piada. Ouço um barulho de pneus cantando. Quando olho pra trás eu vejo que é a van de reportagem de novo.

– Ah! Fala sério! — Reclamo em voz alta falando sozinho, um câmera man e uma moça saem de dentro do veículo, eles estão gritando o meu nome. Já sei o que eu vou fazer, eles querem tanto uma declaração, então vão ter uma, e não vão gostar nada dela. Paro na calçada e cruzo os braços, esperando que eles me alcancem.

Quando eles ainda estavam atravessando a rua, outro carro surge freando. É um carro desses antigos, laranja e preto. Ele para bem em minha frente. No volante está Adam. Ele me olha pelo vidro abaixado.

– Venha comigo se quiser viver! — Grita ele, abrindo a porta.

Eu não posso acreditar nisso, é a minha salvação. Entro no carro de Adam e fecho a porta enquanto vejo o pessoal da reportagem voltar correndo pra van. Solto uma enorme gargalhada quando Adam arranca com o carro, não só porque os abutres foram feitos de bobo, mas também porque ele citou "O exterminador do futuro".

– Fugindo? — Perguntou ele, olhando pelo espelho retrovisor de teto, provavelmente conferindo se estávamos sendo seguidos.

– E você? — Devolvo a pergunta.

– Minha mãe me expulsou de lá, eu estava chamando a atenção — Disse ele, trocando de marcha — Não é como se eu tivesse ficado triste, odeio esses jantares. Só fui porque ela me obrigou a conhecer você.

– Que trágico...

– Espera, eu não quis dizer dessa forma... Me expressei mal.

– Está tudo bem, tem gente demais querendo me conhecer, parece que ninguém mais tem outro assunto — Respiro aliviado me recostando no banco — Bonito Cadilac...

– Não é um Cadilac, é um Opala.

– Desculpa, eu sou péssimo com carros.

– Tic Tac? — Diz ele tirando uma caixinha de Tic Tac do bolso sabor laranja, o meu favorito.

– Sim — Pego a caixinha da mão dele, abro tampinha e pego três balinhas. Vejo que ele está me olhando.

– Que foi? — Pergunto olhando de volta.

– Nada não, reparei que você usou o formato da tampa pra pegar as balas, quase ninguém sabe que a tampa tem esse formato pra isso.

– Eu também não sabia, eu vi isso na internet.

– Então, eu te deixo em casa?

– Tem gasolina que de até Nova Iorque? — Digo olhando pela janela, não adianta, eu sempre vou pensar no Brooklyn quando ouvir a palavra casa.

– Você está bem longe de casa não é? — Diz ele, acho que se arrependeu de ter falado disso comigo.

– Estou mesmo.

– Sabe, eu morei um ano em Nova Iorque, é uma loucura lá.

– Sua mãe me disse, ela também comentou que você largou a escola de artes.

– Larguei mesmo, eles eram legais e tudo, tinha muitos professores inteligentes e muitos professores excêntricos também, mas eles não valorizavam o tipo de arte que eu gostava, então eu saí.

– E que tipo de arte você gosta? — Perguntei, me acomodando no banco enquanto o ouço falar.

– Tatuagem... — Diz ele, sorrindo — Eu estou me tornando um tatuador.

Olho pros braços dele enquanto ele dirige. Não vejo nenhuma tatuagem.

– O que foi? — Agora é ele que pergunta.

– Nada não, é que eu achei que os tatuadores eram cheios de tatuagens.

– Eu tenho tatuagens... Só que elas estão onde você não consegue ver.

Eu analiso aquela mentalmente aquela resposta, aquela conversa. Ele estava me dizendo que tem tatuagens íntimas? Não consigo evitar que minha mente percorra os locais mais exclusos e obscuros daquele corpo belíssimo. Eu preciso me controlar e não dar bandeira.

– Ficou em silêncio de repente... — Disse ele, conferindo o espelho de novo. Eu sou um pouco lento confesso e não tenho a menor experiência em conquistas. Mas se hipoteticamente eu tivesse um Gaydar, "hipoteticamente", o que não significa que acredito nessa baboseira. Ele estaria gritando nesse momento.

– Não é nada não — Digo entre risos — Eu não te agradeci. Muito obrigado pelo salvamento.

– De nada, quando precisar, já sabe... É só você olhar pela sua janela.

– Era você aquele dia? — Pergunto, mesmo achando meio óbvio que sim, já que Cleare não mencionou ter outros filhos.

– Era sim, eu não queria ser intrometido, mas aquela janela esteve vazia por anos... E do nada aparece alguém lá... Fiquei curioso — Ele muda a marcha mais uma vez, nós ficamos em silêncio por alguns segundos — Você não... Se lembra de mim? Certo?

Ouvindo a pergunta dele, acabo por me lembrar que Cleare me disse que eu vivia em sua casa brincando com o filho dela, que deve ser o Adam, a gente deve ter sido amigos. Quer dizer, se é possível considerar alguém amigo aos três anos de idade. Porque é tão fácil pros outros lembrar das coisas e pra mim não? Ele deve ser mais velho que eu, já que morou em Nova Iorque e frequentou a escola de artes. Talvez seja mais fácil pra ele lembrar do garoto que todos sabem que foi sequestrado.

– Eu não me lembro de ninguém, foi mal.

– Péssima notícia... — Diz Adam, me indicando a frente com a cabeça. Nós estávamos parados na esquina de casa. Tem duas vans de reportagem paradas na porta da minha casa. Não tem como eu entrar lá sem ter que passar por eles.

– Droga, o que eu vou fazer agora?

– Bom, se você quiser pode ir pra minha casa. Eu vou com o carro bem devagar sem chamar a atenção deles.

– Por mim tudo bem.

Seguimos para a casa de Adam, me pareceu uma ótima ideia. Não é como se fosse um sacrifício ficar sozinho com ele, sinto que ele é diferente dos outros. Eu vou gostar de conversar com alguém que não seja Daniel, Nicole ou a lunática da Charllote. Além dele ser muito gato, o que eu não me canso de reparar.