Meu nome não é Kyle
15 Capítulo 14: You know nothing,Jude Miller
Notas iniciais
– Adoro essa cena, pra mim essa é a melhor luta — Adam pausou o filme, agora ele morde o último pedaço da pizza de calabresa — Vou pegar mais disso, ainda estou com fome.
– Não sei o que me deixa mais chocado, ela derrotar um monte de japoneses fodões armados com katanas, ou o fato dela estar passando trabalho pra derrotar essa ninfeta nipônica.
– Você ainda não viu nada, espera aparecer mais oitenta e oito desses, vai explodir sua mente.
Adam se levanta do chão. Sai do quarto enquanto eu fico observando. Lembro que quando eu estava na sexta ou sétima série minha professora disse uma vez "o caderno é o espelho do aluno" era uma forma dela dizer que se nosso caderno era organizado, nós éramos organizados também. Mas essa regra se aplica muito melhor ao quarto, porque se quiser saber mais sobre uma pessoa observe o quarto dela. O quarto de Adam era um misto de organização e bagunça, as paredes eram azuis, mas onde ficava a cama tinham um papel de parede que imitava um muro de tijolos. Nessa mesma parte da parede havia uma bandeira do reino unido. O restante das paredes eram decoradas com desenhos em preto e branco de dragões, árvores secas, pessoas rodeadas por fogo e paisagens com aspectos sombrios, que eu imagino que ele mesmo tenha feito. Tinha muito da personalidade dele naquele lugar. Olho a tela do celular, já são onze da noite. É possível que as vans de reportagem já tenham deixado a frente da casa. Assim que chegamos, eu liguei para Daniel e expliquei o que aconteceu.
– Filho onde você esta? — Perguntou Daniel logo que atendeu, provavelmente já tinha notado o meu sumiço.
– Eu estou com o Adam, na casa dele.
– O que esta fazendo aí? O jantar esta quase sendo servido.
– Eu sei mas... Eu não estava suportando toda essa atenção, o sapato estava me fazendo calo, então eu pedi ao Adam que me levasse pra casa pra calçar algo mais confortável, mas tinham repórteres lá, então eu vim pra cá — Rezei pra que ele tivesse sentido minha falta apenas depois de Adam ter saído de lá.
– Tudo bem, eu explico a sua mãe — Disse ele, pude ouvir quando ele engoliu em seco a saliva após dizer.
– Está muito decepcionado? — Perguntei a ele.
– Não estou decepcionado filho, mas não faça mais isso, tudo bem? Só Deus sabe o que eu sinto quando fico sem saber onde você está — Senti um tom de desapontamento em sua voz, mas entendi os motivos dele, afinal eu também estava um pouco desapontado comigo mesmo a respeito do jantar.
– Eu estou bem, estamos vendo Kill Bill, diga a eles que não me senti bem. Sei que todos vão entender.
Adam entrou no quarto com outra caixa de pizza, me tirando dos meus pensamentos. Ele está com um sorriso tão lindo estampado em seu rosto, mas eu me controlo pra não ficar tão animado, eu não sei muito bem como agir nesses casos, no carro eu poderia jurar que tinham pitadas de flerte em suas conversas, mas aqui ele esta me tratando como um velho amigo.
– Como você é esfomeado, é a segunda caixa, vou fazer o mesmo na sua casa só pra me cobrar do prejuízo — Disse ele ao se sentar ao meu lado. Ele tira o filme da pausa e logo a pancadaria começa.
Nós continuamos a ver o filme e comer a pizza, entre risadas e comentários sobre as cenas eu vou relaxando, sinto que essa é única vez em que eu estou verdadeiramente a vontade, é como se eu estivesse em casa.
– Então... me conta, como foi que te acharam? — Perguntou ele, tomando um gole da coca cola.
– Na delegacia, eu fui levado pra lá e colheram minhas digitais, elas dizem tudo sobre nós.
– Delegacia? Interessante. É fichado? — Disse ele, em um tom brincalhão.
– Acha que eu tenho cara de bandido? — Perguntei, franzindo a testa.
– Sinceramente? Não com esse rostinho. Como foi parar lá?
– Soquei meu professor de educação física, ele era um imbecil.
– Bateu no seu professor? Por quê?
– Já disse, ele era um imbecil. Mas naquele dia ele ultrapassou todos os limites, então eu soquei a cara dele. Fui levado à delegacia pra maiores esclarecimentos, me fizeram esperar umas oito horas. Então me jogaram a bomba. "Boom" você não é você, conheça seus novos pais e seja feliz — Ele me olha fixamente enquanto eu falo, mas não me irrito com essa atenção. Até fico feliz por alguém realmente escutar, todo mundo finge que escuta, mas na verdade não estão interessados na minha parte da história, aparentemente a parte em que eu volto pra casa e pra minha família é mais interessante de se ouvir — Eu falando assim parece mais patético do que realmente foi.
– E os seus pais? Digo, os que te criaram?
– Éramos apenas eu e minha mãe. E ela fugiu assim que avisaram que eu estava na delegacia. Pode acreditar nisso? Eu passando pelo pior dia da minha vida e ela fugiu, e depois disso eu nunca soube mais nada dela. Nenhum telefonema, nenhuma mensagem, nada. Se foi como se nunca tivesse estado lá — Foi surpreendentemente bom pra mim, finalmente dizer como eu me sinto de verdade em relação a ela.
– Eu te entendo — Ele bebe mais um pouco — E como está indo? Você e sua nova casa?
– Bem, eu acho — Suspiro, e continuo — Daniel é legal, ele é preocupado sem ser muito pegajoso. Nicole é legal também, mas é um pouco controladora. Minha irmã me odeia e é basicamente a versão adolescente da Belatrix Lestrange.
– Essa foi boa, Charlotte é um pouco temperamental mesmo.
– Um pouco? Ela trocou a numeração do meu sapato. Ela é uma sádica, e eu tenho dois calos enormes que provam isso — Ele ri do que eu falo — Tudo bem, me desculpe, vocês pareciam ser amigos no jantar e eu estou aqui falando mal dela.
– Nem tanto. Nossos pais são melhores amigos, a gente meio que cresceu junto. Não foi fácil pra ela, ser a filha substituta, por isso ela vive querendo chamar a atenção. — As palavras "filha substituta" ecoam em minha mente. Foram as palavras que eu usei contra ela, mas vendo por essa perspectiva, não parece tão engraçado agora.
Nós ficamos em silêncio por alguns segundos, voltando nossa atenção ao filme.
– Ah, qual é? Isso não aconteceria de verdade, ela morreria nessa parte em uma luta nessas condições — Digo a ele, ao ver a cena onde a Uma Thurman luta com um monte de adversários.
– Por isso essa cena é genial, ela vence oitenta e oito caras em menos de oito minutos, olha todo esse sangue, toda essa técnica, levou umas seis semanas para o diretor construir essa cena.
– Sabe, eu não entendo todas essas pessoas apaixonadas por Tarantino, eu achei esse filme muito confuso, alguns diálogos são sofríveis.
– Mas aí é que está, é uma porcaria tão bem feita e tão bem dirigida que se torna algo muito bom, olha só isso — Agora Uma Thurman está no chão, rodando como um peão enquanto corta as pernas dos inimigos — É quase um "break" da morte. Você já viu Pulp Fiction?
– Hum, eu não sei... John Hughes talvez? Curtindo a vida adoidado, O clube dos cinco, Gatinhas e gatões. Esse sim sabia como transformar porcaria em algo bom.
– John Hughes era bom, mas nem tem como comparar. Você não sabe de nada, Jude Miller.
Me recosto ao lado da cama enquanto ouço ele falar. Minhas mãos encostam em alguma coisa que está embaixo da cama. É um livro de capa azul. "George R. R. Martin – A game of Thrones".
– Olha, você curte Game of Thrones — Digo, pegando o livro nas mãos. É um livro enorme e com uma capa bonita.
– Muito, eu tenho todos os livros lançados. Você gosta?
– Eu nunca li nenhum dos livros. Apenas vi a série, mas mesmo assim eu adoro.
– Se quiser emprestado, pode levar, apesar de que se você acompanha a série já sabe o que acontece, mas os livros são outro nível. Pode apostar.
– Eu vou querer sim, obrigado.
– Não por isso...
Nós continuamos a assistir o filme. Quando ele chega ao fim, sinto que é uma deixa.
– Acho que eu já vou — Digo me levantando do chão e pegando o livro.
– Mas já? E quanto a parte dois? Tem mais filme.
– Eu sei, mas já esta tarde eu tenho aula amanhã cedo. Sabe como é, primeiro dia...
– Tudo bem, a gente vê o filme outro dia então.
– Certo... Mais uma vez obrigado por me tirar daquela encrenca, e obrigado pela pizza.
– Pode voltar quando quiser. Se quiser conhecer o estúdio onde eu trabalho qualquer dia desses... Fica na rua da sua escola.
– Com certeza eu irei.
Descemos as escadas e ele me acompanha até a porta. Ele sorri antes de fechar. Gostei de ter passado essas horas com ele. Sinto que seremos bons amigos. Os urubus resolveram largar a carcaça e saíram da frente de casa. Agora o caminho está livre. Eu caminho pela calçada de tijolos alaranjados até a porta de casa. Quando eu estou chegando, ouço um barulho nos arbustos perto da cerca viva. Eu paro onde estou e começo a observar. Uma sensação ruim toma conta de mim, a mesma sensação de quando os repórteres estão por perto. A sensação de que estou sendo vigiado. O barulho se repete mais uma vez só que mais forte, acredito ter ouvido passos também. Destranco a porta rapidamente com a cópia da chave que Daniel me deu, e entro em casa. Tento me livrar dessa sensação. "Não era ninguém" repito a mim mesmo, estou sobre muito stress e não vai ajudar se eu começar a pirar. Respiro fundo e subo pro meu quarto. Tudo que eu preciso agora é de uma boa noite de sono.
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Jude Miller entrou em casa assustado, ele olhou algumas vezes ao redor pra ter certeza que não havia ninguém ali junto dele. Mas o que ele não sabia é que ele estava certo. Pouco tempo depois dele fechar a porta alguém emergiu das sombras, alguém que estava a sua espreita a poucos metros dele. A figura toda de preto correu por entre os arbustos tentando sair sem ser vista. Mas isso não significa que ela não voltará.
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