Meu namorado (im)perfeito
1 1 – A vida tem dessas coisas (I)

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Levy McGarden era a típica garota de dezessete anos que passou a vida inteira focada nos estudos, e nada mais do que isso lhe interessava. Como se não fosse bastante ter as melhores notas do colégio mais caro e conceituado do Japão, esse ano estava disposta em entrar na faculdade de Jornalismo da Universidade de Tóquio e, como era pobre, estava se empenhando mais do que o comum em receber uma generosa carta de recomendação. Isso tornaria as coisas mais fáceis e a Universidade de Tóquio, como uma das mais importantes do mundo, só queria os melhores.
E, mesmo que seu dia estivesse escalado em uma rotina intensa de estudos, sempre estava desempenhando diversas outras atividades nos intervalos. O balé fazia parte das suas atividades extracurriculares do colégio e lhe caía como uma luva, por exemplo. Principalmente porque era pequena e delicada como uma bonequinha de porcelana, exceto pelo seu exótico cabelo azul. A ideia foi de Lucy, sua melhor amiga, que achou que combinaria com ela e que precisava se soltar para o mundo. Aquela cor estranha de cabelo era algo como “ei, estão me vendo? Eu existo!”.
Todavia, não amava o balé, embora gostasse, mais do que escrever. Pelos corredores podia-se ver uma garota muito pequena para lá e para cá com o seu bloquinho de notas na mão. Se não fosse ele, estava sempre carregando livros grossos e pesados que escondiam o seu rosto. Por isso, os que sabiam que ela existia, sempre a viam somente com o bloco. O bloco e aqueles óculos fundo de garrafa que ela usava.
Oh, pobre Levy! Estava sempre sendo vítima de chacota e bullying. Certo dia, quando estava muito atrasada para uma prova, acabou perdendo o horário porque antes tinha que limpar o seu armário com aquela pizza impregnada na porta. Estava fedendo e pobre, e o inspetor não queria saber quem foi que fez o serviço. Ela tinha que limpar e pronto! Quando não era algo relacionado com o seu armário, cismavam com suas roupas. Na educação física da escola já obrigaram-na ter que vestir um maiô minúsculo que deixava bem à mostra os seios que tinha. Ou, corrigindo, os que não tinha. A menina era uma verdadeira tábua e morria de vergonha disso!
Porém nem tudo era esse mar de horrores. O que Levy tinha de inteligente, também tinha de astúcia. Apesar do pequeno tamanho, sabia se defender e sua mãe sempre lhe disse para que não ficasse por baixo. Ninguém nunca soube se ela estava tirando sarro do tamanho da filha, mas Levy encarou isso como algo bom, como uma lição de vida. E a prova disso eram as suas constantes brigas com Gajeel RedFox, um grandalhão que estava sempre amedrontando os fracos e oprimidos. E, entre estes, estava ela.
Gajeel era aquele cara que passou a vida inteira colado em Levy, mas não de uma forma boa. Desde a quinta série, estava sempre usando ela como um saco de pancadas. Roubava seu lanche, jogava terra no seu cabelo, colocava apelidos sem nexo e xingava a sua doce mãezinha. E o mais importante de tudo era que Levy revidava da mesma forma, embora ele fosse quase um metro mais alto do que ela. Mas ela se lembrava: “Nunca fique por baixo, Levy!”. E ela nunca ficava, exceto quando se metia no meio de suas pernas para lhe dar um chute no escroto.
Como todas as manhãs, Levy estava fazendo a sua oração matinal.
Estava discutindo com Gajeel.
— Idiota! — Ela cuspiu nele. Não literalmente, ela cuspiu a palavra. — Você tem um cérebro do tamanhinho de um amendoim, por que não sai daqui? Eu te odeio mais do que jiló!
E, cara, como ela odiava aquilo.
Ele revidou da mesma forma, olhando ela lá do alto. — Você fala como se eu te amasse, não é, tampinha? Gi-hi! Compre uma escada pra falar comigo.
Ela contou de um até dez na mente e suspirou cansada. Estava se autocontrolando para parar por ali mesmo aquela confusão, porque Lucy estava cansada e estava há meia hora implorando para que eles parassem e ela e Levy pudessem ir para casa.
— Cocô de cachorro é mais importante do que você, sabia? Eu me sinto uma insignificante quando estou falando com você, parece até que perdo 75% do meu QI. Vamos, Lucy. Eu não quero ficar burra, e ignorância parece ser contagiosa hoje em dia. — Ela ajeitou os óculos que estava escorregando pelo nariz. — Não vamos nos misturar com essa gentalha!
“Sim, mamãe. Gentalha! Gentalha!” Ele pensou mentalmente e começou a rir do nada. Imaginou por uns dez segundos Levy caracterizada como Dona Florinda do seriado mexicano Chaves e viu uma visão do inferno, nas suas palavras.
— Levy, para de implicar com ele! Vamos embora! — Lucy bufou quase choramingando. Definitivamente, aquele dia não tinha sido um dos melhores e estava farta de ainda ter que aturar as rixas entre sua amiga e o grandalhão da escola.
A loira tinha acabado de sair de um mal bocado, porque flagrou o cafajeste do namorado transando com outra garota no banheiro feminino. Uma cena muito provável, uma vez que ele sempre foi esse tipo de homem. Mas a menina era boba e cega, e amava ele como ninguém. Chegou a dizer que a garota era quem estava assediando ele, vejam só!
Depois de três tapas na cara, Levy fez ela acordar pra vida, porque amiga é pra essas coisas.
— Vamos mesmo, Lucy. Eu não quero mais ter que respirar o mesmo ar que esse brutamonte aqui. Está poluído, fétido. Nem mesmo os urubus merecem essa carniça! — Ela olhou pra ele com uma cara de desprezo da cabeça aos pés, como se ele fosse mais insignificante do que uma barata morta.
UUUUUUUH! Gajeel não ia deixar essa barato!
— Quem você chamou de brutamonte, sua fedelha nanica? — Ele perguntou indignado e segurou a menina pela gola do uniforme escolar, tirando seus pés do chão e balançando ela no ar como um saco de farinha. — Eu devia quebrar isso que você chama de cara!
Mas longe disso! Ele não era o tipo que deixava rostinhos de meninas desfigurados. Apesar de todo o bullying, e de ter batido em Levy quando ainda eram muito novos, ele não fazia isso. Tudo não passava de ameaças. Seus socos eram mais de palavras, mas dizem por aí que as palavras doem mais...
Só que, Deus, como ela odiava aquele cara! Desde o primário! Só o nome Gajeel RedFox já era sinônimo de vômito para ela. Assim que ouvia, automaticamente sentia a vontade de colocar o dedo na garganta e colocar todo o almoço pra fora. Desde pequena — ou quer dizer, quando cursava o ensino básico, porque pequena ela sempre foi — estava sempre fazendo essa associação. E para completar, Gajeel ainda era amigo e primo do namorado — ou ex — de Lucy, que não era boa peça; isso aumentava as chances de o mal ser de família. Assim não tinha cura que desse jeito.
Sabe o ditado, Diz-me com quem andas que direi quem tu és? Levy acreditava 100% em sua veracidade.
— Foi você mesmo que eu chamei de brutamonte, grande poste! — Ela voltou a irritá-lo com todas as forças da alma, tanto quanto podia. — Você parece um gorila! Corte esse cabelo, selvagem! Sai da selva e acorde que isso aqui é civilização.
Em parte ela estava certa, mas não sabia bem o porquê. Na sua cabeça, ele não cortava o cabelo porque não gostava de tomar banho e era o pior tipo de homem da face da terra, mas não era bem assim. Devido às influências do tio, que foi um importante guitarrista de uma banda de rock metal muito famosa nos anos 80, ele sempre gostou do estilo musical e passou a adotá-lo desde cedo como um estilo de vida também.
Entretanto, ele não era o tipo punk. Seu vestuário era 70% metal, que iam desde braceletes a botas com objetos perfurocortantes. Seu visual era estranho para alguns e se assemelhava muito aos integrantes da banda Kiss, exceto pelo rosto pintado que não apresentava. Nem pintava as unhas, achava que isso era coisa de mulherzinha. Mas o cabelo... Bem, o cabelo chegava até quase a cintura e muitas mulheres que gostavam de cabelos grandes mais tinham inveja do que apreciavam, porque, apesar das críticas de Levy, ele era muito cedoso e bem cuidado. Era de um negro brilhoso e intenso.
Levy não. Levy tinha o cabelo curto, azul, repicado e mal cuidado, na maioria das vezes. Dizia ela que não tinha tempo para hidratações. Vinte minutos de hidratação seriam mais bem gastos resolvendo questões de matemática analítica.
— Vou te mostrar quem é o grande poste... — Ameaçou espumando de raiva pela boca. Ele chacoalhou ela no ar de novo até que ficasse bêbada e bateu suas costas na parede não o suficiente para machucar de verdade ou quebrar uma costela. Era só para assustar. Ele era muito grande e forte, e ela, pequena como era, não tinha muito como se defender. A não ser com palavras, como vinha fazendo anteriormente.
Ela olhou de esguelha os seus braços fortes que prendiam ela naquele lugar e tinha que admitir que ele tinha belos senhores músculos, mas a vontade foi de mordê-lo e deixá-lo sangrando para ele aprender o que era bom, mas nem isso ela conseguiu fazer. Ela só sabia ameaçar como um gato miando em noite de chuva. Mas Gajeel era o cachorro pitbull e seus latidos amedrontavam muito mais.
— Você vai bater nela? — Lucy estava começando a achar que aquela briga rotineira estava começando a ficar tensa demais e resolver intervir. — Que covarde, Gajeel! Solte ela agora mesmo! Eu não quero ter que chamar o inspetor, não me obrigue a fazer isso. Eu só quero almoçar, ok? Meu estômago está roncando há meia hora e eu só vou poder comer quando você soltar Levy.
Lucy se meteu no meio da briga como já era de costume. Por seu namorado ser amigo e primo dele, ela tinha alguma moral com ele; e, vejam só, eles se davam super bem! Levy nunca aprovou essa amizade, mas ela não podia controlar as amizades da amiga. Ela tinha liberdade para ser amiga de quem quisesse, e até mesmo para namorar um cachorro, como ela julgava ser o namorado dela. Ou ex.
— Salva mais uma vez, tampinha... — Ele soltou Levy no chão com um baque. — Mas não pensei que vai se safar da próxima vez! Reze para que Lucy não esteja com você, porque eu só não te mato em respeito a ela.
Soltando fogo pelas ventas, ele deixou a quadra esportiva. E quando ele passou pelos grandes portões que davam acesso à área, as pessoas se afastaram do seu caminho, porque ninguém era louco o suficiente trombar com um cara daquele tamanho, ainda mais com aquele humor todo.
Levy estava saindo de mais uma aula de balé quando ele chegou para implicar. Normalmente, ela estaria ensaiando nos estúdios, mas eles estavam passando por uma reforma para troca de barras e espelhos, então a professora Cleide resolver que teriam que usar a quadra de esportes do colégio.
— Ele parece estar mais chateado do que o normal... — Lucy refletiu ajudando Levy a se levantar. — O que foi que você fez?
Ela lançou para a amiga um olhar desconfiando, como se soubesse que naquele mato tinha cachorro. Digamos que Levy também não dava trégua. Mesmo quando Gajeel estava em períodos mais estáveis e calmos, e resolvia não implicar tanto com ela sabe-se lá por que, ela ia cutucar a onça com vara curta. Lucy podia jurar que ela uma baita masoquista que gostava que ele a tratasse mal.
— Foi a coluna... — Ela disse tentando sufocar com dificuldades o riso que ameaçava sair descontrolado. — Descobriu tudo.
— A COLUNA?! — Lucy esbugalhou os olhos não acreditando naquilo. — Levy, eu não acredito que você fez isso! Mulher, você está pedindo pra morrer!
Vamos explicar as coisas.
Como aspirante à jornalista, Levy obviamente deu um jeito de fazer parte do jornal da escola, o “Café com notícia”, mesmo sem ser muito popular entre a galera. Ela achou que o quadro “Miss Glitter” da Sherry estava fútil demais e fazendo com que o jornal perdesse audiência e credibilidade. Ela pensou que ele precisava de uma reforma e que deveria coisas mais relevantes e que fosse do interesse de todos.
Ela implorou e apelou muito para entrar até que conseguiu um espaço e criou o quadro “Tudo a cada segundo”, que foi batizado por ela mesmo com o nome, ou ainda, “A coluna da Levy-chan”, como muito chamavam carinhosamente. Ela escrevia de tudo lá, tudo mesmo. Desde dicas de moda — nisso ela pedia uma ajuda a Lucy, porque julgava não entender quase nada e, embora ainda duvidasse do gosto de Lucy, porque foi ela que teve a maravilhosa ideia de pintar o seu cabelo de azul — a acontecimentos bombásticos da escola, dicas de leitura, cronograma de estudo, notícias acerca de alunos e professores destaques, refeições, saúde, entre outros.
Há uma semana ela tinha tomado a liberdade de colocar uma pitada mais forte de opinião de escritora na coluna e abordou o tema “Populares ou idiotas?”, no qual Gajeel aparecia com o codinome “Brutamonte metaleiro”. A coluna dizia coisas acerca desses “meliantes” ou “garotos que batem nos mais fracos para esconder sua baixa auto-estima”. Claro que ele se sentiria ofendido, uma vez que a matéria foi quase toda direcionada para ele. Nem mesmo alguém com um cérebro muito pequeno, como Levy achava que ele tinha, leria aquele jornal e não sentiria a indireta cravada diretamente no peito como uma estaca da prata em um coração de vampiro: certeira e para matar.
Já não se dando muito bem com ela, foi com a atualização da coluna, ontem, que ele explodiu. Levy falou sobre hemorróidas e estilo. Sim, hemorróidas! Ninguém fala de hemorróidas em um jornal estudantil, mas Levy fala e quase perdeu a vaga por isso. Mas ela revolucionou aquele jornal. Depois da sua entrada, ele passou a ser 3x mais lido. Claro que as pessoas não sabiam que era ela quem escrevia, porque ela acreditava que as pessoas deixariam de ler se descobrissem, mas ainda assim sentia-se orgulhosa de si mesma pelo bom trabalho desempenhado.
Só que Gajeel, como estava sempre a seguindo nos lugares mais inusitados, acabaria descobrindo e foi o que aconteceu há dois meses.
A matéria de hemorróidas foi direcionada ao namorado de Lucy, porque ela sabia dos maus bocados que a amiga passava e daria o seu jeitinho de se vingar, mas acabou atingindo em parte Gajeel também, que estava sempre andando com ele em grupo. O grupo dos populares.
A matéria dizia algo como:
Populares ou idiotas?
Saiba qual é a explicação mais lógica para explicar a infantilidade dos garotos que batem nos mais fracos para esconder a sua baixa auto-estima
Quem nunca se deparou com aquela pessoa que quer ser o centro do mundo ou que acha ela é a dona da verdade? Acho que nove em cada dez pessoas já passaram por essa terrível situação. Mas o que você não sabia é que essa doença — sim, doença — está associada a diversas outros fatores, como a hemorróida. Sim, você não leu errado. HE-MOR-RÓI-DAS.
Hemorróidas são veias inchadas e dolorosas na parte inferior do reto ou do ânus, e ela normalmente é causada por n fatores. Um deles é o esforço na hora de evacuação. Acontece que esse tipinho de gente, os populares, são pessoas que nasceram com uma grande deficiência mental e no lugar de colocar inteligência para fora, eles colocam, desculpem o termo, merda. No lugar de um cérebro, eles possuem um intestino delgado e grosso, que produzem e armazenam fezes. E, no exercício de colocar algo para fora, eles acabam ganhando algumas não tão queridas hemorróidas, na cabeça e na bunda.
por Miss Love,
Quinta-feita, 10 de Outubro de 2013.
O jornal teve que imprimir várias exemplares porque ele estava fazendo a sensação, principalmente porque ele trazia não só a matéria sobre hemorroidas, mas também uma lista com as dez pessoas mais bem vestidas do colégio e as dez mais sem noção no quesito moda. Para que ninguém suspeitasse que ela se tratasse da Miss Love, ela estava ocupando a posição de número dez nesta última. E, no primeiro lugar, estava ele. Levy não imaginava que ele se importasse tanto com a aparência, ou talvez ele não se importasse mesmo... Talvez ele só tenha ficado irritado com a parte que dizia “Para andar na moda não é preciso ser rico e nem colocar metal em seu corpo como fazem alguns, quem usa ferradura é cavalo. Basta somente usar o cérebro e voalá! Você estará arrasando nas passarelas do Japão”.
— O que você andou aprontando dessa vez, Levy? — Acusou Lucy. — Está com uma cara muito suspeita e eu não estou com uma boa sensação sobre isso. — Ela estreitou os olhos. — Ainda não li as atualizações do jornal, mas se não estiver enganada, você voltou a alfinetar Gajeel.
O quê?! Pensavam que era a primeira vez que Levy fazia isso? Risos.
— Está bem evidente, não é? — Sorriu orgulhosa de si mesma, como se merecesse um troféu pelo que fez. Talvez merecesse mesmo, ninguém era mais audaciosa do que ela. — Leia isso... — Ela tirou da mochila uma mostra do jornal e deu a ela.
Lucy leu. — Brutamontes costumam se vestir mal, mas não creio que seja uma questão de mau gosto. O motivo está no uso do cérebro. Levy, o que é isso? — Lucy se surpreendeu. — Você pegou pesado dessa vez.
Mas, pensando bem, quais eram as vezes em que Levy e Gajeel não pegavam pesado?
— Não deixa de ser uma verdade, certo? — Deu de ombros. — Além do mais, sempre deixei muito claro em minhas matérias que tudo se trata de uma questão de opinião, são escritas de um modo mais subjetivo do que objetivo. O que eu escrevi dessa vez foi apenas uma sátira, tenho a liberdade literária que me permiti escrever o que quero. Escrevo críticas, Lucy. Sabe disso.
— Eu sei, eu sei. Só não sabia que tinha começado a escrever críticas tão... Ofensivas — ela alfinetou a própria amiga. — É como se estivesse perdendo o espírito de boa escritora que sempre teve e deixado de lado para dar espaço aos seus próprios sentimentos. Um jornal é sempre usado para informar, mas você está fazendo disso um criador de opiniões, não acha?
Levy sentiu a agulhada furar a alma e balbuciou incrédula: — Não, cla-claro que não.
— Pois foi o que pareceu.
— Qual é! Não vai me dizer que ficou chateada pelo Gajeel, vai? — Algo estava entalado em sua garganta, mas Levy estava se segurando para não dizer “você se deixa enganar muito fácil, é por isso que seu namorado come outras na sua frente e você nem liga”. — Eu sofri a vida inteira nas mãos daquele cara, Lucy! Cada um se defende com as armas que tem, e eu tenho essa coluna.
— Não é isso — Lucy quis se retratar para não deixar a amigada irritada —, é que... Você quer ser uma jornalista de seriedade algum dia, o que achariam seus superiores e as pessoas se soubessem que você fez parte do jornal da escola escrevendo críticas ofensivas? Pense nisso. Isso é mais do que uma matéria, Levy. Todos estão vendo! Até Gajeel, que você mesma diz fazer mau uso do cérebro, se deu conta e veio tirar satisfações.
Levy engoliu o orgulho e pensou no futuro, imaginando-se uma jornalista desempregada, escrevendo pequenas matérias que não levariam ela a lugar nenhum. — Ok, eu vou pensar mais nisso.
Levy percebeu como Lucy estava toda sermões e quis perguntar se daquela vez ter pegado Natsu no flagra tinha abalado ela mais profundamente de alguma forma, mas ficou com medo de magoar ainda mais a amiga que já vinha sofrendo muito. — Vamos almoçar? — Lucy perguntou.
— Você não quer mesmo ir almoçar com Natsu?
Ok, ela tinha que arriscar saber como estava o seu coraçãozinho, e só com uma pergunta assim pra ela se abrir.
— Eu simplesmente não quero mais saber desse tido cujo! É difícil esquecer alguém que marcou sua vida de um modo diferente, mas eu vou conseguir.
Levy sentiu a oportunidade de dizer o que realmente pensava chegar. — Sempre deixei muito claro que Natsu não é uma pessoa que te mereça. Você é uma pessoa maravilhosa, Lucy.
Ela deu um sorriso amargo e meio melancólico. — Obrigada... Erza disse que a culpa foi minha, que eu já deveria saber que não daria certo. Natsu nunca mudaria.
Erza, uma das minhas!, pensou Levy. — Erza continua com o seu dilema de “não preciso de homens, eles são seres inferiores e insignificantes perante à minha feminilidade”? — Ela perguntou para tentar quebrar o clima. Torcia para que Erza encontrasse um grande amor e deixasse de ser tão carrancuda.
— Mais ou menos isso. — Lucy riu, dessa vez. — Mas você e Gajeel deviam se entender. Vamos lá, Levy! Ele é um cara legal.
— Lucy, você precisa dar uma passadinha no psicólogo mais tarde! Você está mal, amiga. Tem algo afetando os seus neurônios. Gajeel esta longe de ser um cara legal. Definitivamente longe!
— Você que sabe...
— Vamos almoçar.
[...]
— Sejam bem vindos de volta, Dragon Slayers! Hoje, o time de baseball do colégio Verônia, os Dragon Slayers, estão de volta depois de uma longa jornada nos EUA disputando vários títulos com colégios da América do Sul, Norte e Central. É com muito prazer e emoção que anuncio que o segundo lugar nas disputas é nosso! Congratulations, Dragon Salyers! Recebam o caloroso aplauso de todo o colégio.
E um aplauso imediato foi ouvido por todo o colégio, acompanhado de gritos, assovios e saudações.
Sentada na penúltima fila do ginásio, logo após ter comido um belo senhor prato no almoço, Levy estava fazendo algumas anotações para uma matéria esportiva. Os Dragon Salyers estavam de volta e no colégio não se falava outra coisa.
Levy não era boa com matérias esportivas e odiava fazê-las, mas quando conseguiu a vaga no jornal disse e prometeu várias coisas, e nessas coisas estava incluído o “por favor, senhor diretor, eu juro que faço o que tiver que ser feito. Eu até escrevo notícias que não gosto de escrever, como... Como esportes, por exemplo!”. Ela não ficou com a função de jornalista esportiva, entretanto, mas Romeo, que era o responsável por isso, pediu para que ela o substituísse hoje. Ele era um dos poucos com quem se dava bem e não poderia dizer não ao amigo.
Ela já o conhecia desde o ano passado, porque eles sempre tinham a sorte de estarem juntos na turma de química. A química bateu instantaneamente, até porque ele também tinha o sonho de ser jornalista, só que esportivo. Então a relação entre eles era sempre de “uma mão lava a outra” desde que descobriram que suas aspirações eram semelhantes, e não simples passatempo como a maioria das pessoas que compunham o time de jornalistas do colégio.
Ele também era um bom amigo, exceto quando ligava às 3 da manhã, bêbado, para dizer que sua namorada era uma egoísta que não o amava mais. Na opinião de Levy, aquilo era tudo fruto da imaginação da sua cabeça, porque achava que Wendy o amava mais do que ele a ela. Mas o desejo que ela tinha por coisas caras — e isso acabava deixando Romeo em uma situação constrangedora, já que ele também era bolsista como Levy e mal tinha dinheiro para o lanche — deixava Romeo inseguro, e assim ele pensava que ela estava se cansando dele, mas não era verdade.
— Como andam as coisas por aqui?
— Entediante... — Levy suspirou para Erza, que chegou e logo se sentou ao seu lado. Àquela hora, estaria importunando os garotos do conselho e esbanjando todo o seu poder, obrigando-os a carregar caixas pesadíssimas, então estranhou que ela estivesse ali. — O que faz aqui?
— Observando... — A dona do cabelo ruivo mais bonito e natural de todo o colégio, estreitou os olhos.
Erza era a típica garota marrenta que, apesar de muito bonita, estava sempre esnobando o sexo oposto. E não era porque fosse homossexual, só achava que eles tinham um cérebro muito pequeno. Por onde passava, chamava atenção por ter os cabelos mais bonitos que qualquer garota possa ter: longo, liso, brilhoso e de um vermelho vivo. Ela também era mais alta do que Lucy e — claro — Levy, e além de ser a presidente do conselho estudantil, fazia parte das três mosqueteiras, como assim chamava Lucy: Levy, Lucy e Erza. Juntas para combater o crime e as forças do mal. Ou para engordarem muito no sábado à noite comendo doces e pipoca em frente à gloriosa TV de 52 polegadas da Lucy.
Lucy, em contrapartida, tinha os maiores peitos e o cabelo loiro escorrido até a altura dos ombros. E, de quebra, ainda carregava o título de miss estudantil 2012. Levy acreditava que esse era o principal motivo por qual Natsu havia pedido ela em namoro, já que ele não costumava passar mais do que vinte e quatro horas com a mesma garota. Ele queria exibi-la para os outros como um troféu, não era porque gostava realmente dela que estavam juntos, e todos sabiam. Todos, menos Lucy, que tinha o espírito de menina boba, ingênua e apaixonada.
— Está gostando de ser jornalista esportiva por um dia? — Erza mudou de assunto.
— Você só pode estar brincando! Com toda a certeza isso aqui não é minha praia. Escrever matéria sobre os idiotas dos Dragon Salyers?! Eca. Veja só... Mal chegaram e já estão olhando para as meninas da torcida com cara de “vou comer todas”. Eles conseguem ser bastante insolente, e eu odeio isso!
— É por isso que eu sou sua amiga, Levy — concordou Erza. — São todos um bando de idiotas! Ainda não me esqueci do incidente da sala 16.
— Pode apostar...
Explicando.
Na sala 16, no ano passado, ao término do Festival de Verão do colégio, rolou uma suruba muito louca envolvendo todo o time de baseball com as garotas mais bonitas do colégio; o que não tirou em nada a reputação e o prestígio do colégio, já que em campo eles eram, de fato, muito bons. O diretor nada mais fez do que dar uma suspensão básica de uma semana a todo mundo. E a maior culpa?! Recaiu sobre a presidente do conselho estudantil que organizava todo o evento. Em outras palavras: Erza.
— Erza, me diga... — O telefone tocou. — Ah, só um momento. Alô?
— Levy? Aqui é o Romeo. Sabe o que é que é? É que eu me esqueci de te dizer, mas eu gostaria de te pedir mais um favor, se não for pedir muito. Você poderia entrevistar Gray Fullbuster e Jellal Fernandes? São os mais novos integrantes do time e isso pode, e vai, enriquecer a matéria. Boatos dizem que o time ganhou em segundo lugar nas disputas por cota deles dois, são brilhantes! — Ele não deu tempo para que Levy recusasse o pedido. — Obrigada, Levy.
Desligou na cara dela. Na lata.
— Quem era? — Erza perguntou curiosa.
— Nada, não. Só o Romeo me pedindo mais um favor — bufou. — Ele quer que eu entreviste os novos integrantes do time.
— Senhorita McGarden? — A secretária do diretor apareceu de repente. — Sr. Alberona deseja falar com você e disse que é urgente.
— Comigo? — Sr. Alberona era o diretor do colégio. — Mas tem que ser agora? É que eu estou no meio de uma-
— Agora — disse.
Levy olhou para Erza como se ela fosse um pote de ouro no final de um arco-íris. — Erzazinha...
— Nem vem! — Ela adivinhou de imediato que aquele tom de voz de Levy estava suspeito e que lá vinha bomba.
Mas acontece que não era nada demais; é só que, apesar de tudo, ela não queria deixar o amigo na mão e precisava escrever aquela matéria. Como chamado súbito do diretor, talvez não restasse mais tempo para escrever algo digno e tinha que apelar um pouco para a amizade. A vida tem dessas coisas.
— É só entrevistar os dois novos integrantes do time. Eu te dou um questionário e você só terá que aplicá-lo e gravar as respostas, é fácil! Vamos lá. Eu sei que você é a melhor e que vai conseguir fazer algo tão simples assim até mesmo de olhos fechados — suplicou fazendo biquinho.
— Dá logo isso aqui! — Erza tomou a papelada e o gravador das mãos de Levy.
Quem não resiste a um biquinho?
[...]
Enquanto esperava seu chamado, Levy imaginava os motivos por quais fora chamada à direção do colégio e chegou à conclusão de que poderia — e só podia — ter sido por causa das matérias que vinha escrevendo. Já havia recebido algumas advertências anteriormente, mas nenhuma delas tinha exercido nenhum efeito grave, já que o Sr. Alberona era uma pessoa bastante flexível. Estava pensando agora em pegar leve da próxima vez, e talvez devesse mesmo.
Ele mandou que ela entrasse e se sentasse minutos depois.
— Sente-se, McGarden — ele disse. — Mande entrar o outro — ele disse no telefone para a sua secretária que ficava em uma sala ao lado da sua, ainda no mesmo cômodo.
E para sua surpresa, quem entrou na sala foi a pessoa que mais odiava no mundo.
O diretor também ordenou que ele se sentasse e prosseguiu: — Vamos direto ao assunto. Estou ciente dos erros de você, McGarden, e de você, RedFox. Você anda praticando bullying com a senhorita aqui presente e eu não vou permitir isso dentro deste colégio — implacavelmente e mostrando uma expressão sério, ele disse a Gajeel. — E quanto a você, McGarden, anda escrevendo alfinetadas na coluna do jornal que tanto quis fazer parte. Era para isso?
— Não, senhor — ela se adiantou em explicar.
— Eu ainda não terminei de falar — ele deu uma bronca nela. — O que proponho é simples: uma convivência amigável entre ambos para manter a paz e a harmonia do colégio. E, depois de pensar um pouco, cheguei a uma resposta muito simples para o problema de vocês dois: terão de conviver juntos durantes três meses.
— O QUÊ?! — Os dois disseram em uníssono.
Seria difícil, até porque os dois não aguentavam respirar o mesmo ar e compartilhar o mesmo ambiente, mas ordens são ordens, e obedece quem tem juízo.
Notas finais
Sejam bem vindos a mais uma de minhas longfics que tanto amo. Essa mal começou, mas verdadeiramente já se sinto um carinho muito especial por ela. Espero que vocês possam sentir o mesmo e que acompanhem até o final.
Beijos,
Mellorine.
Trilha sonora da estória: http://www.kboing.com.br/taylor-swift/1-1004310/
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