Meu melhor remédio
3 Super-heroína.
Uma semana. Rachel já havia feito sua mudança, tratou de ser a mais rápida possível. Tinha sido estranho se despedir de seus pais. Ela queria que eles ficassem ali e a mimassem como sempre fizeram. Mas, era difícil fazer isso quando ela nem se quer conseguia encará-los nos olhos, o que não passou despercebido para seus pais. Leroy quase convenceu a Hiram a ficar um pouco mais, dizendo que seu sexto sentindo estava gritando, que sua pequena estrela estava precisando dele. Hiram, como o lado mais racional do casal, alegou que o melhor pra Rachel era deixar que ela andasse com suas próprias pernas. Ela não estava mais no colégio, afinal. E daí que ela iria morar com a causadora da maioria das raspadinhas que foram jogadas nela no ensino fundamental? Talvez estivesse na hora de um pouco de confiança. Mesmo com os corações apertados, eles voltaram para Lima.
A convivência entre as duas meninas estava cada vez melhor, se é possível. Passavam o tempo na faculdade, mas quando chegavam em casa conversavam e conversam até perderem a hora. Elas sabiam se respeitar. Às vezes, Quinn tinha que apenas estudar, mas Rachel ficava ao seu lado, estudando também, ou escutando música com o fone de ouvido, ou só descansando, observando os movimentos da loira. Quando o inverso acontecia, na maioria das vezes, Quinn lia um livro deitada ao lado de Rachel. O importante era não se desgrudarem. Saber que estavam ali, uma para a outra, bastava.
Principalmente nas madrugadas, que tinham sido repetidas, uma rotina, desde que Rachel chegara ao apartamento. Os pesadelos.
Por Quinn:
02:00h da madrugada. E eu aqui, olhando para o teto, sem conseguir dormir, esperando. Ao mesmo tempo, rezando pra que ela durma a noite inteira, pela uma vez. Fecho os meus olhos, cansada, e quando meu sono parece vim... Os gritos. Suspiro frustrada. Levanto correndo, faço meu percurso de sempre, passando antes pela cozinha, em busca de um copo com água e indo para o quarto da morena. E lá se vai outra parte do meu coração. A imagem de Rachel tremendo, encolhida no canto da cama, já tinha entrado na minha lista de piores visões que eu posso ter.
Não tenho mais palavras. Nem ela. Basta apenas um toque em seu ombro que ela toma conta do meu corpo. E a gente fica assim, abraçadas, até a pequena parar de tremer e voltar para o sono. Ela volta. Eu fico a observando cada minuto, como se o descanso dela trouxesse uma paz enorme para o quarto. E trazia. Se a imagem dela na hora das crises é terrível, a dela dormindo é uma das mais lindas que existe. Sim, é. E eu não tenho o porquê desmentir isso ou parar e pensar no que eu estou dizendo.
– Você não tem dormido, loira? Fabray? QUINN!! – Santana grita.
– O QUE É? Precisa gritar? – Bronqueio.
– Faz uma hora que eu falo com você, mas você não responde. Dane-se. – Grita. A latina pega suas coisas e levanta da cadeira, mal humorada. Eu faço o mesmo que ela e a sigo, confusa.
– Ei, ei, ei. – Seguro seu punho, obrigando-a a ir mais devagar. – Também não precisa de tanto. Só estava pensando.
– Eu sei, Quinn. Faz uma semana que você só faz isso. Eu falo contigo e parece mais um monólogo. Vem sozinha, chega atrasada e sai voando para casa.– San solta um suspiro magoado.
– Eu... Ahn... Desculpa! Eu só não estou dormindo bem. – Tento abraçá-la, mas ela se afasta. – Vamos, morena, não fique assim.
– Tanto faz, Fabray. – Vira novamente e volta a andar.
– Você está chateada com mais alguma coisa. O que houve?
– Não interessa, de verdade. Esquece.
– San, por favor... Você quer ir lá pra casa? Rach só chega mais tarde hoje, a gente pode conversar. – Ela encolhe os ombros e eu aproveito para abraçá-la por trás. – Por favor.
E ela aceitou. Sorri grande e a puxei pelos braços. O que ela falou tem sentido. Não lembro qual a última vez que nós conversamos. Me preocupei demais por Rachel e acabei esquecendo de Santana. Depois que ela me gritou, eu pude ver que tem algo de errado com ela também. Não tão sério como é com Rach, mas ela parecia realmente prestes a explodir. Mas, ela é Santana López. Ela não explode. Não por isso.
– Então...– Tento começar, sentando no sofá, depois de comermos. – O que é que você tem?
– Rachel está morando aqui. Você lembra quem é a melhor amiga de Rachel, Quinn?
– Claro que sim. Bri... – E um estralo vem na minha cabeça. – Brittany. Oh, Deus, San! Você ainda gosta dela.
– Eu nunca parei de gostar, Quinn. Desde aquele beijo no vestuário, nunca. Eu fui uma estúpida de não ter ido atrás dela, de ter explicado. Mas, não. Nos beijamos e nunca mais nos dirigimos a palavra. Que espécie de pessoa eu sou?
– Você está com medo de encontrá-la?
– Sim. – Murmurou, colocando a mão no rosto.
– Tudo bem, calma. Nós vamos resolver isso.
– Desculpa por ter te gritado.
– Desculpa por não ter te dado atenção.
– Ok, já chega de melação. Quem somos nós? – Rimos.
Por Rachel:
Dormir mal tem prejudicado meus treinos para a dança. Mas, devo confessar que a aula de Cassandra vem se tornando uma terapia. Aprender a ignorar seus gritos foi essencial. Ela pode exigir demais de mim, e agora eu quero que ela exija. Sinto que consigo descarregar toda a minha energia ali, naquela sala. Eu poderia fazer isso por horas, talvez dias, sem parar. Mas, paro. Porque meu organismo está realmente cansado.
Tomo o meu banho para ir embora. Toda a sala parece já ter ido. Pego minhas coisas e vejo uma pessoa encostada na parede. Meu coração dispara e ao invés de correr, meus pés não me obedecem.
– Flash Back -
O beijo era terno, quente. Não queria que acabasse nunca.
– Você é louco! – Disse aproveitando enquanto tomávamos ar.
– Sou louco por você. Sempre fui.
– Eu te amo. – Sussurrei.
– Eu... te quero muito. – Franzi a testa.
– O que? Você não me ama? – Voltei a realidade. – A gente não pode fazer isso. Você... você tem namorada.
– Sim, eu tenho. – Bufou. – Mas, quero você.
E novamente me puxou e me tomou um beijo, mais intenso dessa vez, mais avassalador.
– Fim do Flash Back -
– Berry, você vai ficar aí a vida toda? – A voz irritada de Cassandra de me tira do transe.
Olho para o lado e não tem mais ninguém lá. Dessa vez meus pés me atendem e eu corro para casa. Meu estomago revirava. Estacionei o carro na garagem e subi pelas escadas. Abri a porta e ignorando as duas meninas que conversavam no sofá e me tranquei no banheiro. Alívio.
– Rachel? Está tudo bem? – Ouvi Quinn. Fechei os olhos com força.
– Sim. Eu, hm... Devo ter comido algo que me fez mal.
Não comi. A verdade é que toda vez que eu penso naquela noite, meu estomago vira um liquidificador. Lavo meu rosto e escovo os dentes. Volto pra sala, um pouco constrangida pela minha entrada. Mas, Quinn abre um sorriso e eu sinto que posso paralisar. Ela abre os braços, me fazendo sentar ao lado dela.
– Hey, anã, você já está pegando a loira? – Abro a boca, surpresa pela pergunta e sinto o corpo de Quinn tencionar, ela manda um olhar assassino pra Santana. – O que? Não é isso que vocês fazem a noite para as duas estarem com essa cara de sono?
– Eu, eu... — Balbucio. Meu rosto queima e eu me sinto culpada por Quinn não dormir direito. – Nós não...
– Não liga, Rach. Ela está querendo te deixar sem graça. – Quinn dá uma tapa na perna de Santana, que gargalha. Suspiro aliviada.
– Não fique nervosa, anã.
– Você está com ciúmes, Santana? – Tento entrar na brincadeira e ela levanta uma sobrancelha.
– Você tem boas pernas, Berry. – Mais uma vez, eu abro a boca. Santana é surpreendente. – Mas, não me deixa com ciúmes.
– O que... – Quinn se junta a latina e gargalha alto. Franzo a testa. – Você deveria me defender. – Faço bico.
– Ela não te ofendeu, Frodo, te fez um elogio. – A loira pisca um olho pra Santana. – E é verdade... Aush! Por que me bateu?
– Vocês estão me deixando com vergonha.
– Olha, Quinn, ela está vermelhinha. Awn. – Dou outra tapa, agora em Santana. – E é braba.
– Quinn também tem pernas lindas. – Solto sem pensar. As duas me olham em choque. Eu já ia me explicar, quando a risada de Santana ecoou pela sala. Olhei para Quinn e ela estava vermelha. Ponto pra mim.
– Você é genial, Berry. – Santana levanta a mão para eu bater com a minha. – Quinn é gostosa.
– Calem a boca. – Quinn murmurou.
– Vocês já são namoradas?– Gritamos o nome de Santana juntas e ela riu. – O que?
– Quinn é minha... super-heroína. – Sorri sincera e vi que Quinn tinha o mesmo sorriso. Minha protetora.
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