Um mês havia passado. Rachel se dedicava ao máximo em suas aulas. Sua dança havia melhorado muito, seu canto. Seu ponto fraco estava sendo as aulas de atuação. Não que Rachel Berry não soubesse atuar, porque ela sabe. Mas, estava sendo um desafio extra para a morena. Era algo que precisava de concentração e foco. Ela podia misturar seus sentimentos na música e na dança e transformá-los em algo realmente grandioso. Na encenação, no entendo, isso era uma tarefa difícil.

Os pesadelos não haviam parado, mas diminuíram a intensidade. Talvez Rachel tenha se acostumado. Talvez dormir no mesmo quarto tenha ajudado também. Depois de longas noites sem dormir direito, Quinn decidiu dormir junto a pequena, evitando as carreiras e todo o processo. Era mais fácil segurar Rachel. Ela só acordava e agarrava a cintura da Quinn como se sua vida dependesse disso. Mais fácil ainda quando a loira adormece abraçada a amiga, que já se sente protegida ao acordar.

Seus dias melhoraram com a presença de Santana e Puck. Diferente do colégio, eles conversavam e riam com frequência. Se descobriram. E essas novas amizades estavam sendo maravilhosas para Rachel e seu plano de fugir do mundo. Um mês e ela ignorava todas as chamadas de Brittany ou Marley, respondia poucas mensagens, até que as duas cansaram e desistiram de tentar. Se pudesse, ela ignoraria todas as chamadas de seus pais também, mas era muito, até pra ela.

Por Rachel

Resolvi tirar o resto do dia para decorar minhas falas da aula de atuação. O professor Esteban resolveu fazer uma seleção dos melhores alunos para uma grande apresentação de final de período. E isso é algo que eu não posso simplesmente perder. Tem que ser meu. Não é porque a ruiva com cara de mal amada sabe dizer os textos de trás pra frente que ela vai ser melhor que eu. Nunca.

Nessas horas eu agradeço pelos vizinhos serem compreensivos e não reclamarem. Ensaiei, ensaiei. E já estava ficando exausta.

– É como uma linha entre o amor e ódio, Charlie. Você não saberia... Não saberia... Oh, merda!! – Escondo meu rosto nas mãos, frustrada. Ouça a porta se abrir.

– Você já chegou. – Escuto a voz de Quinn e pelo seu tom, sei que ela traz um daqueles sorrisos. – O que houve? – Sua voz fica preocupada de repente e eu levanto a cabeça.

– Eu não consigo decorar simples linhas. Eu sei dar as melhores notas, Fabray, eu realmente consigo isso, mas em uma tarefa tão estúpida como essa... Eu só travo.

– Não seja dramática, Frodo. Basta se concentrar.

– E o que você acha que eu estou tentando fazer?

– Está tentando colocar tudo de uma vez. Não é assim que se faz. – Quinn toma os papéis da minha mão e os analisa. – Parece ser um bom texto.

– Pra você e suas manias de leitura. – Viro os olhos.

– Vem, vamos estudá-lo. – A loira puxa minha mão e senta no sofá.

– Quinn, eu já li isso mais de 50x, acredite em mim.

– Mas, ainda não entendeu o que diz. – Falou calma e eu tentei protestar. – Para de birra e senta aqui, Frodo.

E mais uma vez, uma luz se acendeu naquela sala. Estudar o texto com Quinn foi a melhor ideia de todos os tempos. Muito mais fácil recitar algo quando você sabe o que o autor quis dizer. Não mecânico, como a ruiva lá faz. Mas, simples, natural. Quinn interpretava os outros personagens, enquanto eu tentava o meu com minhas falas. Ela é impressionante. Chego a duvidar se o futura da loira é realmente o direito. Ela daria uma ótima atriz. Uma linda atriz, se eu puder completar.

– É como uma linha entre o amor e ódio, Charlie. Você não saberia explicar o sentimento, você não saberia o quão acelerado e doce bate o coração de uma mulher assim. Charlie, você já esteve apaixonado?

– Não, senhorita Michele. – Quinn intonou o garoto.

– Então, meu querido, você não sabe o significado da música.

– ISSO! Boa menina. – Quinn comemora me abraçando e me girando no ar, enquanto eu grito feliz. – Não precisamos passar a música novamente, né? Essa parte é totalmente com você. Viu? Não foi tão difícil, bastava prestar atenção.

– Você que faz tudo parecer mais fácil, super heroína. – Sorri e ela assentiu, sem graça.

Jantamos e passamos o texto mais uma vez. Agora deixando que eu cantasse. Mas, infelizmente já estava ficando tarde para podermos abusar da boa vontade dos vizinhos. Não que eu acho que eles se incomodem com minha voz ou coisa do tipo.

Quando sai do banho, Quinn já estava deitada em sua cama e, claro, com um livro na mão. E eu me pergunto quantos desses livros enormes ela consegue ler. Não estava na hora de dormir ainda, mas eu realmente gosto de ficar perto dela. Ela sorri e entrelaça uma de suas mãos com a minha. Fico brincando com seus dedos, tentando não cair no sono agora mesmo.

– Rach... – Ela chama baixinho e eu viro o rosto pra ela. – Por que você não chama alguém mais experiente para ensaiar? Você deveria falar com o Brody, ele é seu amigo e... – Eu parei de escutar. Meu estomago está gritando e tudo está girando de repente. – Rachel?

– Não.

– Por que não? – Ela franze a testa. – Ele já participou de várias peças, é um ótimo...

– Só não, Quinn. – Solto nossas mãos.

– Mas, Rach, ele pode te aju...

– Já chega. Já disse que não. – Falo com raiva.

– Vocês brigaram?– Ela me olha confusa.

– Não, Quinn. Eu não quero falar sobre isso. – Digo irritada e levanto de sua cama.

– Ei, pra onde você vai?

– Vou dormir no meu quarto. Sozinha. Boa noite.

– Rachel... – Fecho a porta.

Me tranquei no banheiro, para mais uma vez, colocar tudo para fora. Escovei os dentes e deitei na cama sem saber direito o que estava sentindo. Um turbilhão de emoções. Coloquei o fone nos ouvidos com o volume no máximo. Encarei o teto. Assim as horas se arrastaram. Até que escutei Quinn me chamado e abrindo lentamente a porta. Fechei os olhos. Não queria conversar, tampouco que ela se preocupasse comigo. Ela acreditou que eu estivesse dormindo e saiu do meu quarto. Suspirei. Logo me rendi ao sono de verdade.

Pare, pare. – O empurrei, impedindo mais um beijo. – Não quero que você brinque comigo.

Não estou brincando. – Sorriu malicioso. – O que iremos fazer é coisa de gente grande.

Nós não iremos fazer nada. – Disse decidida. – Não estrague o que nós temos.

Quem liga pro que nós temos? – O que? Meu coração afundou. – Linda, o que nós temos é isso, essa tensão sexual toda vez que nos encontramos. Vamos acabar com isso.

Tensão sexual? – Ri, sem acreditar no que estava ouvindo. – Você é um idiota. – O empurrei com força e peguei minha bolsa para ir embora.

Onde você pensa que vai? – Senti sua mão agarrando meu punho com força.

EI, VOCÊ ESTÁ ME MACHUCANDO. – gritei tentando me soltar de sua mão.

Precisamos ter uma conversa. – Ele tinha uma expressão estranha no rosto.

Não temos mais nada para convers... – Ele me imprensou em um beijo. Eu tentei virar o rosto, mas ele apertava mais ainda. Então o mordi. – AI! Não torne isso mais difícil, pequena.

Quem é você? QUEM? – Tentei correr e mais uma vez ele me segurou, tentando tirar minha roupa. – Não, NÃO. PARE.

PARE, PARE!!!!!– Abri os olhos assustada.

Shiii... Estou aqui, passou. – Quinn sentou na cama, passando a mão no meu cabelo. – Calma, Rach. Shhh...

Eu não conseguia respirar. Tudo de volta, toda dor, toda a lembrança. Aquilo estava me fazendo pirar. Não suportaria conviver com isso. Senti a garganta fechando.

Respire, por favor, respire. – Olhei para Quinn, que estava nervosa do meu lado e apertava minha mão. Consegui inspirar e a vi relaxando. – Tudo bem, só foi um pesadelo. Vou te buscar água.

Não foi. Vivi um pesadelo.

Por Quinn

Aquela noite não podia está sendo mais estranha, depois de Rachel ter saído estranha do meu quarto, ela tem um pesadelo e quase um ataque de pânico. Alguma coisa não estava certa. Aquela garota no quarto me lembrava da mesma que tinha me ligado, semanas antes, para busca-la na praça e não a que ria e fazia piada com qualquer coisa. Isso já está indo longe demais.

Toma, coloquei açúcar, vai te ajudar a se acalmar. – Ela não me encarou e bebeu devagar. – O que está acontecendo?

Pesadelo. – Sua voz saiu como um sussurro.

Certo. E antes?

Antes que? – Ela não me olhava, então puxei seu rosto para meu lado, obrigando-a a fazer contato comigo e fiz uma cara séria. – Só... Estava cansada.

Por que você não me conta a verdade? Você brigou com Brody, foi isso?

NÃO. – Franzi o cenho com sua reação. – NÃO ME SENTIA BEM E VIM DORMIR. AGORA TIVE UM PESADELO. O QUE VOCÊ QUER QUE EU FALE? VOCÊ NÃO TINHA UM LIVRO PARA LER? VAI LÁ E ESQUECE DE MIM, PORRA. JÁ ESTOU BEM.

A olhei espantada. Peguei o copo de sua mão, levantei, dando as costas a ela e fui em direção à porta, para sair do quarto.

Desculpe. – Sussurrou tão baixo que quase não fui capaz de ouvir. Fechei os olhos, continuando na mesma posição.

Eu me importo com você. Achei que esses últimos dias tivessem feito você criar o mínimo de confiança em mim. Respeito seu espaço, sempre vou respeitar. Não precisava ser grossa na primeira vez que tento quebrar esse muro que você constrói quando precisa de ajuda. – Tentei não transparecer, mas a mágoa saiu na minha voz. – Perdão se fiz alguma merda com o de antes. – Completei me referindo a conversa sobre Brody. Suspirei e sai do quarto.

Por Rachel

Sinto muito, mesmo. – Disse depois que ela fechou a porta, sem me ouvir.

Ótimo, além de tudo tenho que magoar a pessoa que mais tem me ajudado. E eu queria ter dito a ela. Pensei em busca-la em seu quarto, mas talvez eu já tenha atrapalhado demais por uma noite. O que eu estava fazendo, afinal? Me escondendo de meus medos, me escondendo de meus pais, dos meus amigos. Meus amigos. Olhei para o relógio. 01:05h. Suspirei. 01:06h. Não consegui, peguei o celular e disquei o número que sabia decorado. Talvez o único que eu tenha conseguido, já que ligava tanto. Chamou uma vez e pensei em desligar. No terceiro atenderam.

Alô? – A voz de Britt era sonolenta.

Desculpa te acordar. – Murmurei.

Rachel? – Disse mais firme. – O que... mas, que diabos! Você...

Por favor. – Cortei, suplicando. – Por favor, não briga comigo. Eu só... só queria... não sei. Conversar.

O que aconteceu? – Britt usou o tom preocupado que eu tanto conhecia, não pude evitar sorrir.

Como você está?

Ahn, bem... Rach, não posso fingir isso. E mesmo assim ainda te conheço. Sei quando você quer fugir de um assunto. Bom, parece que tem ido muito além de mudar a conversa. – Sua ultima frase saiu embargada, meu coração encolheu dentro de mim. Sabia o quanto estava magoando ela e todos que me afastei.

Não estou bem. Mas, é muito difícil de falar. Mais do qualquer outra coisa. – Suspirei. – Perdão. Perdão por não conseguir me livrar disso e não voltar a ter coragem de olhar pra vocês. Mal me olho no espel...

Pra vocês? Não sei o que aconteceu, sei que foi sério. Mas, eu, Rachel? – Ela estava irritada.

Por favor, Britt. Eu só te peço que não me cobre. Não agora. Eu... – Senti minha voz falhar – Só quero não pensar. – Ouvi a respiração pesada dela no outro lado da linha e fechei os olhos.

Como é morar com a Quinn, afinal? – Sorri, ela ia fazer o que eu pedi: me distrair.

Conversarmos por mais ou menos uma hora. Ouvi as histórias sobre todos. Sobre como tudo estava e de como sentiam minha falta. Percebi que morria de saudade de todos eles. Toda essa conversa acabou nostálgica. E ela desligou pedindo pra que eu não voltasse a desaparecer.

Quando acordei, estranhei Quinn não estar na cozinha, tomando seu café em meio a um monte de folhas espalhadas. Fui ao seu quarto, mas ela já tinha ido embora. Sim, ela estava chateada comigo. Peguei o celular e enviei um “Bom dia. ;) Sinto muito por ontem.”, que não teve resposta. Não tive outra opção, se não tomar café da manhã sozinha, pela primeira vez naquele apartamento. E foi estranho. Terrivelmente estranho.