Por Quinn

Eu nunca pensei que seria tão difícil sair de casa sem falar com Rachel. Por Deus, eu estou ficando louca! As aulas da manhã passaram se arrastando. Quando peguei o celular e vi a mensagem que ela tinha mandado, um sorriso fraco surgiu em meu rosto. Mas, não era isso que estava me incomodando. Bom, não era só isso.

Na hora do almoço, Santana ligou para Puck se juntar a nós. É minha melhor amiga, me conhece melhor que todo mundo. Santana me olha e me lê. Ela viu que eu não estava bem, que eu precisava disso. E o Super Puck logo apareceu para nos salvar, nos levando para um lugar calmo e distante. Ninguém se importava em perder aula, não nesses casos. O caminho foi silencioso, eu nem sabia pra onde estávamos indo.

– Então, loira... – Santana começou a dizer, quando finalmente chegamos. – O que está se passando nessa cabeça?

– Vamos lá, Quinn. Somos nós. – Puck tentou me tirar do silêncio. Não adiantou. Eu fiquei encarando o lago lindo que tinha em frente a nós. – Tudo bem, quando quiser. – Os dois deitaram na grama, ao meu lado.

Não sei quanto tempo nós ficamos assim, mas eu finalmente resolvi tomar um folego e falar de vez.

– Eu estou apaixonada por Rachel Berry. – Fechei os olhos com força, esperando os gritos e as perguntas, mas nada veio. Abri um olho devagar, depois abri o outro. Os dois estavam sentados agora, me encarando. – O que? Vocês não vão dizer nada?

– Eu, sinceramente, estava esperando você falar algo que a gente não soubesse, loira. – Santana bufou e eu abri a boca.

– Fala sério, Quinn. – Puck resmungou. – Ela mora com você agora, por que não aproveita?

– Não é assim, Noah. Eu não quero ficar com ela e pronto. Eu... Eu quero namorar, quero casar, quero...

– Para, por favor. – Santana tapou os ouvidos e eu virei os olhos, rindo, junto com Puck.

– E ela... Vocês sabem. Até um dia desses ela namorava o Finn.

– Você também namorou com ele. Santana até ficou com ele. Isso não quer dizer nada.

– Eu não sei. – Suspirei. – Ela não confia em mim.

– Q, ela MORA com você. Puck, você moraria com alguém que não confiasse? – Ele nega. – Bom, porque eu também não.

– Não é isso. Ela não está bem, mas... Não me deixa ajudar.

– Ah, não, "super-heroína"? – Santana faz os gestos nas aspas e eu sinto meu rosto queimar.

– É complicado, certo? E nós... Nós brigamos. – Murmuro. – Eu não quero ir sozinha pra casa. Por favor, morena, vamos comigo.

– Certo, certo. – Ela segura meu ombro e dá um sorriso pequeno. – Vai ficar tudo bem, minha loira.

– Sim, ficará tudo bem. – Puck repete.

Passamos mais um tempo lá e quando começou a escurecer resolvemos ir embora. Eu não posso fugir o dia todo, afinal. Chegamos a meu apartamento, mas estava tudo apagado. Estranhei.

Rachel? – Chamou Santana. – É, ela ainda não voltou.

Ótimo. – Murmurei e vi minha amiga negando com a cabeça.

Algumas horas se passaram, nós conversávamos sentadas no chão da sala, enquanto comíamos uma pizza.

Ah, fala sério. Ele não tem cara de quem apronta muito na cama.

E eu tenho? Você está me chamando de safa...

BOA NOITE, MINHAS LINDAS. – Me assustei com a voz alta de Rachel entrando. – Como estão? – Ela abraçou Santana e deixou um beijo em minha cabeça.

Bem, mas parece que alguém teve uma noite melhor que a nossa. – Santana disse sorrindo. – O que aprontou, anã?

– Nada, só... estou feliz. Sobrou pizza aí?

– Claro, pega. E a gente pode saber o motivo da sua felicidade? – Rachel olhou pra mim, enquanto Santana a perguntava. Encarei o chão.

– Não tenho motivo para ser triste, resolvi comemorar a vida. Então? – Ela ainda falava tudo muito alto, ergui uma sobrancelha.

– Então, você bebeu? – Santana ri, mas sei que ela também está desconfiada. Rachel nunca se comportou assim. Ela estava inquieta.

Oh! Não. – Gargalhou. O olhar de Santana cruzou com meu. Assenti. – De que vocês estavam falando? – Falou, colocando um pedaço de pizza na boca.

– Estávamos falando de como Quinn tem cara de quem faz loucuras na cama.

– SANTANA!! – Adverti.

Que? Você não acha, Rach?

– Será? Acho que ela é mais quieta. – Respondeu rindo.

– Estou aqui, sabiam? Vocês querem que eu ensine alguma coisa pra vocês, é isso? – Ri também, não queria mais ficar em clima pesado.

– Não preciso que você ensine nada, querida. Sou experiente em bem mais coisa que você e você sabe disso.– Santana levantou a sobrancelha, maliciosa. Sim, eu sabia do que ela falava. Rach apenas se encolheu, ainda rindo. – Você não vai se defender?

– Sim, claro, sim. – Rach respondeu, ficando vermelha. Rimos da cena.

Você está com vergonha, Frodo? – Perguntei.

– É que... bem...

– Oh, meu Deus. Você é virgem. – San sussurrou e eu olhei para a pequena que balançou a cabeça negando rapidamente.

– Não!! Não. – Rach quase gritou mais uma vez e gargalhou. – Eu vou pegar um copo de suco, vocês querem? – Assentimos e ela saiu em direção à cozinha.

Ela não está bem. – Santana falou me encarando. – Nada bem.

– Eu sei. – Suspirei pesado. – Era disso que eu estava falando.

– Eu vou na cozinha, só um minuto.

– Não! Santana, não.

Tentei pará-la, mas era tarde demais. Só espero que a latina não faça nenhuma besteira. Não agora...

Por Rachel:

Estava colocando o suco nos copos e quando virei, quase esbarrei com Santana. Ela segurou a bandeja antes que caísse.

– Santana! Você me assustou. – Bronqueei.

– Desculpa, anã, mas eu precisava falar com você.

– Comigo? – Comecei a ficar nervosa. Santana López querendo falar comigo? – O que... O que você quer?

– Você está com medo que eu te jogue raspadinha, Berry? – Ela fala com o olhar da líder de torcida e eu estremeço. – Não seja boba. – Vira os olhos. – Eu só queria te dizer que eu sei que você não está bem. E por mais que você finja que consegue, sei que sabe que Quinn também não acredita.

– Eu... Mas, eu estou bem, Santana. – Respondo irritada.

– Certo. Era só isso que eu tinha pra te falar. – Ela dá as costas, mas vira outra vez. – Ah, pode relaxar quanto as raspadinhas. Mas, se você machucar minha amiga, Berry, você vai ter coisas bem piores pra se preocupar.

O que? Antes que eu pudesse perguntar, a latina já havia saído e me deixado com um monte de dúvidas na cabeça. O que ela quis dizer com isso?

Por Quinn:

Ela voltou da cozinha com os copos nas mãos, fazendo piada com a cena. Não era engraçado, mas concordamos em rir. Santana segurou mais meia hora, logo deu uma desculpa de que precisava ir dormir e foi para o meu quarto. Eu sabia que era mentira, mas ela achou que eu conseguiria tirar alguma coisa da outra garota, que parecia ter tomado duas garrafas de energético.

Ela ia arrumando a sala, enquanto eu lavava a louça, ao som de uma música que ela tinha começado a cantar. Percebi que ela já estava dançando pelo apartamento.

– Rach... – Segurei seu braço, tentando-a fazer parar de pular um pouco. – Rachel. Já chega.

– Vem dançar também, Quinnie, deixa de ser chata. – Ela tentou me tirar do lugar, mas continuei firme, com o olhar sério. – O que??

– Eu que te pergunto. O que é isso? – Gesticulei.

– Isso o que? Se estou triste você reclama, se estou feliz você reclama? Ora, o que. – Era impossível. Soltei seu braço e deitei no sofá, ligando a televisão. – Ei, eu estou bem. Muito bem, mesmo. – Rachel falou segurando minha mão, sentando no chão, ao lado do sofá.

– Que bom, Rach, que bom. – Sorri fraco pra ela e voltei minha atenção para o programa.

Senti quando ela levantou do chão e andou para a cozinha. Quando fez o caminho de volta, percebi que ela se sustentava na parede, respirando pesado. Sentei em alerta. Estava passando mal? Mas, o que... Rachel ia caindo devagar, tendo a parede como apoio. E explodiu em um choro desesperador e angustiante.

Por Rachel

De repente, tudo o que eu havia guardado resolveu sair. Por ontem, por todos aqueles dias, pelos meus amigos, por Quinn. Não conseguia mais segurar o peso do meu corpo, que pareceu duplicar.

– Flash Back —

– Me solta. ME SOLTA. – Tentei escapar, mas ele era mais forte que eu. – Pare, o que você está fazendo?

O que a gente já deveria ter feito há muito tempo. – Ele se esfregava em mim, enquanto lágrimas de medo e raiva corriam pelo meu rosto.

Ele tapou minha boca com uma das mãos. Me debati, em vão. Estava ficando cada vez mais fraca. O desespero tomou conta de mim, quando o vi abaixando a calça e fazendo o mesmo comigo. E a dor.

– Fim do Flash Back —

– AAAAAAAAAAAH, ME SOLTA, ME SOLTA.

– Ei, ei, shiiii... tranquila! Olha pra mim. – Continuei de olhos fechados. – Rach, olha para mim. – Quando o fiz, percebi que era Quinn que estava tentando me segurar.

– Me ajude. – Disse, me jogando com força nos braços dela. – Por favor, me ajude.

– Calma, meu amor. Calma. – Quinn me apertou mais no abraço, como se tentasse me proteger. Me senti acolhida.

– Não me deixe sozinha. Não sai de perto de mim. – Supliquei entre soluços.

– Não vou sair. Estou aqui com você, fique calma. – Quinn balançava seu corpo como quem quisera acalmar uma criança que não dormia. Mas, aquilo estava me fazendo bem.

Quando eu consegui controlar minha respiração, senti ela se afastando um pouco. Segurei seu braço com mais força, não queria sair daquela posição.

– Vamos pro quarto, não vou sair de perto de você, eu prometo. – Assenti, ela beijou minha testa.

Se ela não tivesse me ajudado dando o apoio do seu corpo, eu cairia novamente. Não conseguia controlar as lágrimas. Vi que a camisa de Quinn tinha marcas do meu choro. Engoli seco, tentando prender um pouco. Mas, era bem mais forte que eu.

– Não faça isso. – Me bronqueou, enquanto me deitava. Olhei confusa pra ela. – Não engula o choro. Eu quero que você coloque tudo pra fora, ok? Não se preocupe.

Encolhi nos braços dela e soltei um soluço alto. Senti o corpo dela estremecer com isso, mas eu não estava conseguindo suportar. Minha garganta estava ardendo como se eu tivesse comido um pote de pimenta pura. E, pela primeira vez, eu não queria ficar sozinha. Quinn fazia carinho no meu cabelo e passava a mão pelo meu braço, sem dizer nada. Eu agradecia a ela por isso. Não sei quanto tempo a gente ficou daquele jeito, mas estava quase dormindo.

– Rach... Levanta, você precisa de um banho, colocar uma roupa mais folgada. – Quinn falou, se afastando com cuidado.

– Hm. – Tentei levantar, mas senti tudo girar.

Quinn me sustentou e me levou pra o banheiro. Eu não conseguia processar nada que estava acontecendo. Quando me dei conta já estava de pijama na cama, de novo. Percebi que estava sozinha e as lágrimas começaram a encher meus olhos mais uma vez. Abracei o travesseiro com força, tentando repor o vazio que tomava conta do meu corpo.

– Hey... – A loira me chamou e eu levantei rapidamente a puxando pra perto. – Fui pegar um copo d’agua pra você.

– Fique aqui. – Murmurei enquanto aceitava a água. Senti um alivio na garganta.

– Não sairei. –Quinn se aconchegou na cama e eu a abracei, como fazia todas as noites. – Eu não sairei.

– Flash Back -

Dor, muita dor.

– POR QUE? POR QUE VOCÊ TÁ FAZENDO ISSO? EU... – Dor, lágrimas, raiva.

– Cale a boca, cale a boca. – Colou os lábios no meu e o mordi de novo, fazendo sangrar.

– EU TE ODEIO. ODEIO. Odeio. – Minha voz foi indo embora.

– Você me ama, sempre amou, querida. Agora fique quieta e não me atrapalhe. – Dor. Dor. Dor.

– Fim do Flash Back -

Abri os olhos depressa, com a respiração desregulada. Quinn apertou meus braços, me fazendo lembrar que ela estava lá. Levantei tremendo, peguei o copo que estava ao lado da cama e bebi mais. Minha amiga apenas esperava, assistindo. Voltei para o meu lugar, em seu colo, encolhida.

– Eu... eu... – Respirei fundo e ela segurou minha mão. – Eu fui... fui abusada.

Notas finais
Acho que é daqui que tudo começa a mudar. Paremos (não tanto, porque ainda não foi explicado e tem a reação de Quinn) o drama por um tempo...