Por Quinn:

Fechei os olhos com força. Eu já imaginava que isso tivesse acontecido. O estado que a encontrei na praça naquela noite. Mas, eu preferia acreditar que não. Toda a dor que ela escondeu esse tempo estava transbordando agora. E eu não sabia o que fazer. A raiva tomou conta do meu corpo. Abracei a pequena, que parecia tão frágil, com toda a força que eu consegui. Queria tirar o sofrimento dela. Deixei escorrer algumas lágrimas furiosas, mas eu preciso ser forte. Eu preciso ser forte pra ela.

– Ele me agarrou e... e... eu não tinha força... e... – Rachel soluçava, com a voz cortada pelo choro intenso – Eu me sinto tão... suja. Não consigo esquecer o cheiro, nem... a dor. – Senti seu corpo tremendo e a segurei. – Não consigo olhar meus amigos, nem meus pais. Tenho vergonha de mim. – Explodindo mais uma vez.

– Shhhhhh... Você não precisa ter vergonha de ninguém, minha pequena. Você... foi uma vítima. Quem tem que sentir vergonha é esse idiota que te fez tanto mal. – Fechei os olhos com força, tentando me controlar. – Rach... Quem fez isso?

– Eu... eu... – Ela esconde o rosto no meu peito e eu seguro sua cabeça, tentando acalmá-la. – Não sei, Q, não sei, eu... eu... não sei.

– Ei, ei, ei... Calma, já foi. Shhh... Não precisa falar. – Eu sabia que ela estava mentindo, mas não podia obrigá-la a falar. Já foi o suficiente a coragem que ela teve em me contar.

– Não... consigo... eu... –Rach tentava manter os olhos abertos, mas eu sabia que ela estava com sono. Coloquei um calmante na água, antes de voltar pro quarto. Ela precisava dormir.

– Shii... Dorme, pequena, dorme. Amanhã a gente conversa sobre isso. Você promete que não vai fugir?

– Sim...

Senti o corpo dela se acalmando, e aos poucos eu também conseguia relaxar mais.

– Quinn.– Rach apertou minha mão.

– Estou aqui. – Retribuindo o aperto.

– Você... Você pode cantar pra mim? – Sussurrou.

– Cantar, Rach? Faz tempo que eu não canto. – Ri fraco, passando a mão no cabelo da morena.

– Por favor...

E meu coração se quebrou em mil pedaços. Eu quero levantar daqui e achar o covarde que fez isso com ela e socá-lo até ele ficar desacordado, depois eu chamaria o Puck pra ele me ajudar a levar o infeliz para um porão escuro e torturá-lo todos os dias da sua miserável vida. Mas, se Rachel pede só pra eu cantar, eu só canto. Mesmo que eu saiba que isso não é grande coisa, ainda mais quando eu não canto desde as nacionais, no colégio. Tomo um folego e começo a cantar Fix you de Coldplay.

– Lights will guide you home, and ignite your bones...– Suspirei, limpando seu rosto. – And I will try to fix you.

Terminei de cantar, quase com um sussurro, minha voz tinha começado a falhar. Deixei um beijo na bochecha de Rachel, que estava com os olhos fechados e uma expressão mais tranquila no rosto.

– Obrigada. – Suspirou e caiu no sono.

Esperei mais alguns minutos, observando ela dormir. Tão linda. Eu queria ficar e abraçá-la a noite toda, protege-la.

– Eu não vou deixar que nenhum mal te aconteça de novo, meu amor. Nunca mais.

Ela podia não me escutar, mas eu precisava dizer. E precisava sair da cama, precisava explodir. Desprendi seus braços de minha cintura, devagar e sai do quarto. Eu não sentia muito bem minhas pernas, nem sei como consegui andar. Cheguei na sala, Santana estava encostada na cadeira, segurando a mesa com força, seus dedos estavam brancos. Me aproximei e ela se virou, seus olhos estavam com um brilho estranho. E eu entendi. Santana soube. Não deu tempo eu abrir a boca, que senti seus braços me rodearem, seguros.

– Me solta, San, eu preciso... Eu preciso descobrir... Eu preciso matar esse idiota. – Tentei sair dos braços dela, mas ela só me apertava. – Me solta, Santana.

– Eu não vou te soltar. – A latina falou calma.

– Como? Como você pode estar assim? Você não ouviu? EU PRECISO SAIR. – Bati em seus braços com força, a raiva estava me dominando. – ME SOLTA.

– Já te disse que eu não vou soltar. – Lutei mais e mais, mas ela só me prendia. Aos poucos, fui perdendo as forças.

– Me solta, San... – Murmurei, sentindo meu corpo se render aquele abraço. Apertei-a contra mim, me permitindo chorar, finalmente. – Por que fizeram isso, San? Por que com ela?

– Eu não sei, loira, eu não sei. Eu também quero sair e atrás desse desgraçado. – Me afasto um pouco para olhar pra ela, confusa. – Mas, a gente não pode. Nós nem sabemos quem é. E você precisa cuidar dela, estar aqui por ela.

– Eu vou cuidar dela, San. – Garanti.

– Eu sei que vai. – Minha amiga me abraça outra vez e eu consigo relaxar em seus braços. – Você está mais calma?– Ela me pergunta depois de um tempo assim.

– Sim. – Nos separamos e ela limpa minhas lágrimas, com um sorriso triste no rosto. – Obrigada.

– Agora volta lá e vai dormir com sua menina.

– Ela não é minha ainda, San. – Sorriu e beijo a bochecha dela. – Não é ainda.

– Ainda... – Santana repete, sorrindo também.

Voltei para a cama e a abracei por trás, sentindo seu corpo procurando o meu contato. Ouvi um suspiro da morena e sorri. Eu vou te consertar.

*

– Bom dia. – Rachel sentou na cadeira da cozinha, um pouco recuada, tímida. Ela tinha o rosto inchado, consequência do choro forte e longo da noite passada.

– Bom dia, dorminhoca. – Respondi dando um sorriso e beijando sua testa, fazendo-a relaxar um pouco. – Dormiu bem?

– Uhr... Aquela água me pegou de jeito. – Rachel sorriu traquina.

– Oh, desculpe. – Corei, abaixando a cabeça. – Eu...

– Tudo bem. Te agradeço. Me fez muito bem. – Riu sincera.

– Como você está? – Perguntei preocupada.

– Aliviada, eu acho. – Suspirou. – Te prometi que eu não ia fugir, pode perguntar qualquer coisa.

– Frodo, você fala o que você sentir vontade, sabe disso.

– Sim, eu sei. Na verdade, eu já te contei tudo.

– Quem foi, Rach?

– Foi... um desconhecido. – Falou desviando o olhar. Mentira. – Acho que estava saindo de algum bar e me achou.

– Certo. Quando você encontrar a identidade dele, você pode me procurar. – Sorri brincando com ela e ela sorri de volta. – Só não deixa que isso te sufoque de novo.– Ela assentiu e eu segurei sua mão. – Você não precisa ir ao médico? Rach, você...

– Ele... – Ela limpa a garganta. – Ele usou camisinha.

– Nossa. – Um estranho muito prevenido, hum? – Mesmo assim, você deveria ir ao médico.

– Q, não precisa, ok? Por favor. – Murmura. – Olha, eu queria te pedir desculpa, pela a noite que eu te gritei.

– Tudo bem, peço desculpa por ter te pressionado.

– Você só estava preocupada. – Nos abraçamos forte e sorrimos.

– Uh, sexo matinal. – Santana aparece e nós nos afastamos, envergonhadas. – Não parem por mim, sério.

– Santana, você já acorda pensando nisso. – Rachel ri um pouco corada.

Eu olho pra Santana e dou um sorriso de agradecimento por ela continuar a brincar como se não tivesse acontecido nada. Isso ajudou a aliviar o clima. Continuamos conversando, sobre outras coisas. Assistimos a um filme de comédia e quebramos qualquer tensão que ainda existia.

Por Rachel:

As semanas estavam passando rápidas, não sei se isso estava sendo bom. Queria que essa peça acontecesse logo, estava cansada e ansiosa. Mas, ao mesmo tempo queria mais dias para ensaiar e me sentir mais confiante. Ah, sim, claro: eu ganhei o papel da protagonista. Com a ajuda de Quinn, tudo foi tão mais fácil. Apesar da correria, tratei de visitar meus pais sempre que tinha um horário livre, como manter o contato com meus antigos amigos. Britt e Quinn estavam se dando super bem.

Hoje as duas tinham se juntado para fazer uma reunião lá em casa, com a desculpa de que eu estava correndo muito e não tinha mais tempo para me divertir. E era certo.

– Estava curioso pra saber quem era a amiga da baixinha que estava roubando a MINHA amiga. – Puck disse ao ver Marley no sofá, nos fazendo rir.

– Fico feliz que eu tenha despertado sua curiosidade. – Marley falou arqueando a sobrancelha. Olhei para Quinn, que retribuiu o olhar sorrindo.

– Não tanto quanto agora, imagino. – Puck respondeu, aumentando o sorriso de Marley.

Oh, Deus! Eles estavam flertando nos primeiros minutos? Acho que Quinn pensou o mesmo que eu e interrompeu o clima, brincando. Logo chegou Santana. Ela estava estranha, um pouco tensa. Vi Puck e Quinn trocarem um olhar. Franzi o cenho. O que está acontecendo?

– Que milagre você está em casa, anã. – San me abraçou.

– Me dei um pouco de folga hoje. – Respondi devolvendo o abraço.

– Por Deus, ela não precisa mais ensaiar. – Puck zombou atrás da gente, arrancando risada de todos. Franzi o cenho.

– Não precisa mesmo, amiga. Tenho certeza que você vai arrasar. – Britt piscou pra mim, meio tímida.

– É... – Santana limpa a garganta. – Hey, tudo bem?

– Sim, tudo ótimo. E com você? – Britt responde fria.

– Bem. – O sorriso de Santana é totalmente falso.

Mas, que diabos? Quinn abraça San. Eu olho pra Britt, mas ela desvia o meu olhar. Só Marley parece estar tão perdida quanto eu. Eu ia perguntar, mas Quinn pegou algumas garrafas de vodka da geladeira e alguns salgados e nos chamou, me interrompendo. Conversávamos e riamos como sempre acontece quando nos juntamos.

Marley já estava um pouco alegre quando propôs jogar verdade ou consequência. Mas, no fundo eu sabia qual era a intenção dela e resolvi ajuda-la. Depois de muitas rodadas e brincadeiras, a garrafa caiu de Quinn pra Marley. Vi um olhar malicioso de Puck para a amiga e sorri, balançado a cabeça.

– Consequência. – Marley não deixou nem que a loira perguntasse. Rimos alto da agitação dela. – Quer saber? Nem precisa mandar também.

Olhei surpresa pra ela. Britt estava com a boca aberta, com certeza pensando o mesmo que eu. Marley sempre foi tímida, quieta. Ela morou na mesma rua que a gente, mas não frequentou o mesmo colégio. Por isso, ela não conhecia Puck. Ela namorou um menino durante anos, mas Jake era um chato e ninguém gostava dele, só ela. Depois que ela descobriu que ele a traia, nunca mais quis ver sua cara. Talvez esse término tenha sido bom, afinal. Ou talvez seja o álcool. Puck é lindo e beija muito bem. Como eu nunca pensei em juntar esses dois antes?

Ficamos parados quando Marley levantou em direção a Puck, colocando a mão em sua nuca e o puxando para um beijo intenso. Comemoramos e gritamos com a cena.

– Ah, vão para um quarto. – Santana gritou, nos fazendo gargalhar.

– Eu realmente gostei de você. – Puck sorriu pra Marley, que voltava para o seu lugar.

E a garrafa foi girada mais uma vez.

Por Santana (Yeah!):

Dessa vez a garrafa parou de Puck para mim. O moreno sorriu vitorioso, enquanto Quinn o olhava alertando. Senti meu corpo congelar. Lancei um olhar pra pedir um “vá com calma” pra ele.

– O que faremos, latina? – Puck colocou a mão no queixo, fingindo pensar.

– Nem respondi se queria consequência. – Falei rápido.

– Sei que você não é medrosa. – Eu encolhi, enquanto os outros riam. – Sei que você também gosta de loiras...

– Puck, não. – Murmurei.

– E se for dançarina, então? Uh. – Lancei um olhar para Britt, que estava com uma expressão assustada. – Vamos lá, Brittany.

– O QUE? – Gritamos juntas.

– Eu não vou fazer isso. – Britt advertiu e eu senti meu coração afundar.

– Qual é, Britt? Estamos só brincando.

– Eu tenho namorado, Puckerman.

Não. Por favor, isso não está acontecendo. Ela não está aqui, não está negando me beijar, não está dizendo que está namorando. Por favor, me acordem. Sinto uma mão na minha perna, apertando levemente. Quinn.

– Beijo no jogo da garrafa não é traição. – Puck tentou.

– Ela já disse que não, Puck. – Eu levantei e lancei um olhar furioso pra ele. – Já deu por hoje, né?

– Onde você vai? – Rachel perguntou, vendo eu me afastar.

– Vou buscar algo para tomar.

Entrei na cozinha procurando ar. Eu preciso respirar. Como essa menina consegue mexer tanto comigo ainda? Estúpida, estúpida, estúpida.

– Você não é estúpida. – Quinn fala e eu me assusto. – Desculpa.

– Eu não sabia que estava pensando alto. Devo ter mais cuidado na próxima. – Ri torto.

– Você está bem? – Ela segura minha mão e eu aperto.

– Sim, estou bem. – Respiro fundo. – Vamos voltar, ainda temos que tentar com você e Rach. – Puxo sua mão, mas ela não anda.

– A brincadeira já acabou, San.

– Ah! Não... Vamos... Vamos continuar. Eu não queria ter...

– Tudo bem, morena. Eu não quero que meu primeiro beijo com Rachel seja em um jogo.

– Ok. – Suspiro. – Você... sabia que ela estava namorando?

– Não. Quer dizer, eu ouvi algo, mas não sabia que era sério.

– Quem é?

– Bom... É, o Sam.– Quinn sussurra.

– O que? Sam Evans? Aquele babaca que você namorou? – A loira assente, mordendo o lábio. E eu não aguento. Gargalho e ela me acompanha. – Isso só pode ser piada.

– Você é muito melhor, San.

– Sim, eu sou bem melhor que aquele lerdo. – Rimos outra vez.

– Quinn... – Rachel sussurra e olhamos assustadas pra ela. Quanto ela ouviu? – Eu... Posso falar com você?

Sinto a loira ficando tensa ao meu lado. Não posso evitar ficar tensa por ela também. Dou um abraço forte nela e sussurro um boa sorte. Ela assente, nervosa. Dou um sorriso pra Rachel, que não tirou os olhos de Quinn. E volto para a sala.

Por Quinn:

Não, não, não. Volta Santana, volta pra cá, não me deixa sozinha. De repente, minhas mãos começam a suar. O que essa menina faz comigo? Não tem nem um minuto que ela entrou aqui e eu já sinto que posso desmaiar a qualquer momento.

– Diga, Frodo. – Tento parecer normal, mas minha voz sai um pouco tremida. Me amaldiçoou por isso.

– Por que... – Ela para e respira fundo. – Por que você disse que não queria que o nosso... primeiro beijo? Bom, que o nosso primeiro beijo fosse em um jogo? Você... Você quer me beijar? – Sussurra.

Notas finais
http://letras.mus.br/coldplay/183253/traducao.html