Meu melhor remédio

2 Depois da tempestade.


Por Rachel:

Ótimo. Estou na casa de Quinn e, realmente, não sei o que fazer. Antes que eu comece a pensar de novo na noite passada, meus pés me empurram e eu levanto em um pulo. Pego as roupas que ela deixou em cima da mesa para mim. Sorri leve. Nossos tamanhos são diferentes, isso vai ficar um pouco folgado em mim. Me encaro no espelho do banheiro e suspiro forte. Meu reflexo não está um dos melhores. Fecho os olhos com força. Como eu vim parar aqui desse jeito? Aliás, por que eu vim pra cá?

Sim, eu estou com vergonha. Eu estou com vergonha dos meus pais, estou com vergonha de meus amigos, de Britt. Deus, eu estou com vergonha de mim, mal consigo me encarar no espelho! Abro o chuveiro depressa, deixando que água quente leve, mais uma vez, essa agonia de dentro de mim. Esfrego minha pele com raiva. Passo sabonete uma, duas, três vezes e, céus, não consigo esquecer o cheiro terrível que parece estar impregnado em mim. Sem querer, um soluço escapa da minha boca. As lágrimas já estão correndo mais uma vez, sem minha permissão. Sinto que eu posso cair a qualquer hora.

Desligo a água, me obrigando a sair daqui. Já bastou ontem. Eu não posso chegar na casa dos outros e quebrar assim. Certo, é Quinn, somos amigas. Bom, até uns dias atrás éramos apenas indiferentes. Mas, crescemos, nos entendemos e resolvemos deixar nossas brigas para trás. Coloquei sua camisa e seu short, e sim, ficaram folgados. E, estranhamente, confortáveis. Respirei fundo mais uma vez e fui em direção à cozinha. A loira estava sentada, lendo um livro e tomando um café. Outro sorriso. Ela fica bem de óculos.

– Hey, eu fiz alguns sanduíches, tem iogurte, tem vitamina, tem algumas frutas também. — Ela franze o cenho. – Eu posso pegar alguns biscoitos se você preferir.

– Uou, não precisa, de verdade. Só a vitamina bastava pra mim. – Quinn me olha feio e abre a boca para reclamar. Mas, eu continuo. – Se bem que... eu vou aceitar o sanduíche.

– Ótimo.– Ela sorri vitoriosa e eu viro os olhos. – Se precisar de alguma coisa, é só avisar.

– Obrigada.– Murmuro sem graça.

Nós comemos em silêncio. Ela continuou lendo seu livro e eu agradeci por isso. Eu não queria ter que acordar e responder milhares de perguntas, que eu nem sei se algum dia vou estar pronta para responder. E dessa vez não é drama Berry, como Santana costuma dizer. Infelizmente não é. Suspiro forte. Oh, merda! Você não está sozinha, Rachel. Comece a controlar seus impulsos. Quinn olha por cima do óculos. Eu encontro preocupação no seu olhar e coro, começando a ficar constrangida. Forço um sorriso e ela me devolve, abaixando novamente a cabeça para seu livro. Engoli outro suspiro. Dessa vez ele não me entrega.

Quando terminei, fui em busca do meu celular. Estremeci vendo as várias chamadas perdidas de meus pais e algumas de Britt. Tomei folego e consegui ligar pra casa.

Rachel Berry, por que a senhorita não atendeu nossas chamadas? –Droga, Hiram atendeu.

– Pai, eu realmente não vi. Eu... vim para casa de Quinn e... Perdi a hora. Acabei adormecendo.

– Estrela, aconteceu alguma coisa?– Ele trocou o tom de irritado para preocupado. E eu não queria isso. Pela primeira vez, preferia a raiva.

– Não, está tudo bem. As aulas ontem foram cansativas. Já sabe, Cassandra pegando no meu pé sempre.

– Você vai vim almoçar em casa ou vai direto pra NYADA?

– Vou direto. – Menti mais uma vez. Não quero ir pra casa, muito menos ir pra aula. – Falando nisso, pai, eu preciso desligar. Mande um beijo pro papai. Eu amo vocês.

– Nós te amamos também, estrelinha. Você sabe disso, certo?– Assenti, mesmo que ele não pudesse me ver, sentindo um nó na garganta.

Voltei para sala e Quinn não estava mais lá. Talvez ela tenha ido para Columbia e não quis interromper minha ligação para se despedir. De repente, me senti sozinha outra vez. Me encolhi no sofá, ligando a televisão. Longo dia...

Por Quinn

Aproveitei que Rachel estava no celular com os pais e fui terminar de arrumar minhas coisas pra aula. As imagens da noite passada não saem da minha cabeça e eu sinto arrepios só em lembrar de como aquele pequeno corpo soluçava tão forte. Lavei meu rosto mais de cinco vezes, tentando não me desconcentrar. Santana, com certeza, já deve estar chegando para me buscar e se eu não estiver pronta, vou levar um grito daqueles.

Pego minha bolsa e abro a porta do meu quarto, o suficiente para perceber Rach deitada, encolhida no sofá. Minha vontade foi de lagar tudo e de colocá-la no colo, dizer que tudo ia ficar bem. É isso que os amigos fazem, certo? Mesmo que não sejamos tão amigas assim, afinal foi a mim que ela procurou. Ela está na minha casa e eu não posso simplesmente sair e deixá-la assim, quando eu sei que algo sério aconteceu. Eu não vou conseguir prestar atenção na aula mesmo... Respiro fundo, discando o número que eu sei decorado e rezo pra Santana estar de bom humor.

– Hey, loira, eu já estou saindo de casa. Esqueci de pegar umas apostilas e...

– San, não precisa vim. — Interrompo e agradeço por ela não ter saído ainda. – Eu não vou pra aula hoje.

– O que? Por que? Você está doente? Precisa ir para o hospital? Você nunca falta, Quinn. — Sorri com a preocupação na voz dela.

– Eu estou bem, morena. Só... Aconteceu uma coisa e eu preciso ficar. - Suspiro. Santana fica em silêncio, esperando que eu me explique.– Rachel está aqui. - Sussurro.

– A anã? Ah, meu Deus, você....

– SANTANA. – Melhor pará-la antes que a besteira saia. – Eu não sei o que houve, mas ela está estranha. Preciso ficar.

– Ok. Tudo bem. Você precisa de ajuda? - Abro a porta mais uma uma vez, ela continua na mesma posição. – Quinn?

– Por enquanto, não. Mas, talvez eu precise.

– Qualquer coisa, me ligue. Agora eu tenho que ir, vou chegar muito atrasada e ainda aguentar o Prof. Humberto passar aquela lição de moral.

– Oh, boa sorte. – Ri, enquanto a latina xingava. Prof Humberto é o cara mais insuportável de Columbia, tenha certeza. – Obrigada, morena.

– Boa sorte aí também. – Não posso ver, mas eu sei que ela está fazendo o sorriso malicioso típico de Santana Lopez. Viro os olhos. – Tente se contro...

Desligo o celular na cara dela. Não é momento pra tirar piadinha. Coloco minhas coisas de volta na minha mesa e entro devagar na sala. A televisão está ligada, mas eu sei que ela não está assistindo. Seu corpo, antes imóvel, agora treme levemente. E eu me pergunto se ela está chorando de novo. Estremeço. Me aproximo lentamente, para não assustá-la. Agora posso ver seu rosto, não há lágrimas. Franzo a testa, confusa. Seu olhar está fixo em seus joelhos, é perdido, sem o brilho que sempre teve. Meu coração quer afundar dentro de mim.

– Rach... – Tento tirá-la do transe. – Rachel, está tudo bem?

A menina balança a cabeça, como se voltasse para a vida real. Aos poucos, ela vai tirando os olhos de si para ir de encontro com os meus. Eu dou um sorriso triste pra ela, apertando uma de suas mãos. Isso faz com que ela reaja e se atire nos meus braços. Eu tento me equilibrar, mas é impossível. Caímos as duas no chão, sem nos soltarmos. Eu sinto sua respiração irregular no meu pescoço e a aperto com mais força. Seguro sua cintura com um dos braços, enquanto tento acalmá-la, fazendo carinho em seu cabelo, com o outro. Ela não chora. Parece que ela acabou de fazer uma corrida de 10km em um minuto. Quero me afastar para buscar água, mas seus braços estão presos em mim.

– Estou aqui com você, calma.

– Pensei que você tinha saído. – Ela murmura, mais calma, escondendo a cabeça no abraço.

– Eu disse que não ia te deixar, Frodo.

– Idiota. – Ela me dá uma pequena tapa e ri. Sinto meu corpo se acalmar. – Você não tem aula? – Se afasta para me olhar.

– Digamos que não. – Pisco um olho.

– Ah, não. Não, não, não. – Rachel tenta se levantar do chão, mas eu seguro seu punho, sem entender. – Quinn, você não pode faltar aula por mim. Por favor...

– Não importa, Rach. Eu quero ficar, ok? Ou você vai me expulsar? – Sorri, vendo a morena jogar o cabelo no rosto, com vergonha.

– Não vou te expulsar da tua própria casa.– Murmurou.

– Ótimo, porque eu estou pensando em pedir um super almoço pra gente, depois fazer uma super panela de brigadeiro, para assistirmos algum musical super chato que você super gosta.

– Soa super bem. – Ela franze a testa e eu gargalho.

– Você gosta de comida chinesa?

– Gosto sim.

Levantei do chão e dei um beijo na cabeça dela, antes de ir para cozinha pegar o número do restaurante. Voltei para a sala, me sentei ao seu lado no sofá e ela, rapidamente, se acomodou no meu colo outra vez. Sorri. Terminei a ligação, vendo a televisão, que agora parecia ter a atenção da morena. Comecei a mexer em seu cabelo e perdi o tempo.

– Você não vai me perguntar o que houve? – Pergunta de olhos fechados, me assustando.

– Eu... Não, eu não vou.– Ela abre os olhos e me encara. – Você quer me contar?

– Não. – Sussurra. Se eu não estivesse tão perto não ouviria. Dei meio sorriso pra ela e afaguei seu rosto. Tão lindo e tão indefeso... O que?

– Quando estiver pronta, eu te escutarei.

– Obrigada. Por isso, por ontem, por me deixar ficar e cuidar de mim. Muito obrigada.

– Você pode ficar o tempo que quiser. – Sinto-a estremecer. – O que foi?

– Eu só... Eu não... Como eu vou...

– Frodo, se você fizer sentido, fica mais fácil a gente se entender. – Eu brinco, tentando tirar o nervosismo dela.

– Eu não quero ir pra casa. Não quero ver meus pais.

– Vocês brigaram?

– Não. Eu só... – Ela respira fundo.– Não posso.

– Ei, tudo bem. Você pode ficar o tempo que quiser, de verdade.

– Eles vão embora para Lima daqui a uns dias. Me sinto mal por não poder aproveitá-los um pouco mais.

– Você vai morar sozinha?

– Sim. – Ela suspira, se encolhendo de novo.

– Por que você não vem morar comigo? Digo, eu moro sozinha também e... Tem um quarto sobrando e...

– Sério? – Rachel me encara, surpresa.

– Claro que sim! Seria ótimo.

– Obrigada. – Ela me abraça forte e eu acho que consigo me acostumar com isso facilmente. – Seria perfeito.

Sinto meu rosto queimar um pouco. Quinn e Rachel morando no mesmo apartamento. Aposto que todos do colégio apostariam que nunca veriam isso. Talvez Santana e Puck, por serem meus melhores amigos, ficariam de fora do bolão. Falando em melhores amigos...

– Rach, posso te perguntar algo? – Ela solta um gemido frustrado e eu explico logo. – Não é isso. Queria saber por que você não ligou pra Britt ou Marley, ao invés de mim.

– Você ficou chateada? Eu estou te incomodando, né? — Ela levanta, sentando no sofá, de frente pra mim e eu viro os olhos.

– Rachel Drama Berry. Te chamei pra vim morar aqui e você ainda está achando que me incomoda? Só fiquei curiosa, afinal, elas são mais próximas, te conhecem mais, podem te ajudar melhor... Não sei.

– Não podem. – Murmura. – Na verdade... A primeira pessoa que me veio na cabeça... Foi você. – Ela dá um sorriso envergonhado e um sorriso enorme surge no meu rosto.

– Eu fico feliz por isso, Frodo.