Meu melhor remédio
47 Só minha.
Notas iniciais
Por Quinn
Chego em casa e vejo Rachel dormindo no sofá, de pijamas, segurando o controle da televisão, que está ligada. Sorrio de lado com a cena. Com certeza ela me esperaria. Desligo a TV com o máximo de cuidado para não acordá-la e vou tomar um banho. Talvez Marley tenha razão. Eu preciso colocar um ponto final no meu passado. Apesar de soar impossível. Eu nunca vou esquecer Beth, ou tudo o que aconteceu naquela época. Mas, no momento que isso começa a afetar o meu presente, algo precisa ser feito. Não posso querer o perdão de minha filha se eu não consigo perdoar a mim mesma.
Suspiro pesado, me vestindo. Sento no chão, mexendo no cabelo da morena no sofá. Rachel abre os olhos lentamente e franze a testa ao me ver de pijama também. Beijo sua testa.
– Faz tempo que você chegou? – Murmura.
– Um pouco. – Admito, fazendo sua careta aumentar. – Eu não quis te acordar.
– Por que? – Faz beicinho. – Eu fiquei te esperando.
– Eu sei, linda. – Traço seu rosto, suavemente. – Se eu te acordasse antes, você dormiria novamente, enquanto eu tomasse banho.
– Não dormiria. – Resmunga. – Eu poderia ter tomado banho com você.
– Deus! Segura essa mulher. – Brinco. – Você está com tanta vontade assim de tomar banho comigo? – Provoco.
– Estou com vontade de você. – Sussurra. Eu mordo o lábio, sabendo que seu tom apresentou mais carinho que tesão.
– E eu de você. Sempre. – Lembro. – Como foi o ensaio? – Ela suspira, frustrada.
– Se eu não sonhasse tanto com isso, já teria jogado para o alto.
– Rachel. – Repreendo. – Não fale assim.
– É sério, Quinn. – Ela senta, me puxando para cima. – Estou cansada dos gritos do diretor, estou cansada de receber carão, estou cansada de chegar em casa tarde e estar... Cansada! – Eu sorrio triste, tirando seu cabelo do rosto.
– Não quero você se prejudicando por minha causa. – Sussurro. Ela arqueia a sobrancelha, pronta para se defender. – Preciso de você concentrada, assim não receberia gritos, carões e não precisaria demorar para chegar em casa.
– Não tem nada a ver. – Bufa. – Jesse também está cansado e é um dos mais concentrados lá. O diretor é que pega muito no nosso pé.
– Vocês são os protagonistas. – Ela vira os olhos.
– Figurantes também cansam. – Eu rio. – Falo sério!
– Vem cá. – Puxo-a para o meu colo. – Deixa eu te fazer uma massagem.
– Se você fizer isso, eu adormecerei. – Avisa, fechando os olhos. – Eu não quero dormir.
– Estou louca pra te ver no palco. – Sussurro. Ela abre um sorriso terno. – Pra dizer pra todo mundo que você é minha. Minha estrela. Minha namorada. Meu amor.
– Eu gosto de ouvir falar assim. – Encosta as costas em meu peito. – E não vejo a hora de fazer essa estreia e vir comemorar com você. – Suspira. – Tudo tem que valer a pena.
– Vai valer, Rach. – Aliso seu braço. – É de seu sonho que estamos falando.
– E da nossa vida. – Completa, virando o rosto para mim. – O nosso namoro.
– Não vamos falar disso, ok? – Beijo sua testa. – Você já está ficando com a cabeça cheia demais com essa história, está te atrapalhando.
Ela assente, fechando os olhos de novo. Eu me aconchego no sofá, alinhando nossos corpos. A conversa com Marley volta na minha mente. Não sei quanto tempo nós ficamos assim, mas eu achava que Rachel tivesse pego no sono até descobrir seus olhos me encarando, curiosa. Arqueio as sobrancelhas, devolvendo o olhar.
– O que aconteceu? – Pergunta, calma.
– Nada, por quê? – Franzo a testa.
– Eu sei quando você está me escondendo algo. – Avisa. Eu engulo seco. – Ou você está chateada comigo ou aconteceu alguma coisa na casa de Frannie. – Eu suspiro pesado. Tinha esquecido como Rachel consegue me ler tão bem.
– Não estou chateada.
– Ok... – Espera. – Isso quer dizer que... – Incentiva. Eu mordo o lábio, sem saber o como tocar nesse assunto. Ela sai dos meus braços, se sentando. – É pra eu me preocupar?
– Não! – Me apresso, sentando também. – Digo, eu acho que não.
– Tudo bem. – Fala, desconfiada. – Você vai me contar ou eu não posso saber?
– Pode, Rachel. – Esfrego meus olhos. – Claro que pode. Eu só... É que... – Respiro fundo. – É sobre Beth.
– O que houve com Beth?
– Nada. Marley estava lá e nós conversamos.
– Sobre Beth? – Levanta uma sobrancelha com um tom enciumado. Eu viro os olhos.
– Você vai me escutar? – Repreendo. Ela se encolhe no sofá. – Ela namora o pai de Beth, lembra? Ela acha que nós precisamos vê-la, para conseguir nos livrarmos dessa culpa e seguirmos em frente.
– Você concorda com isso?
– Não sei. Estou confusa. – Gesticulo. – Você concorda?
– Talvez ela tenha razão. – Inclina a cabeça. – Pode ser bom para vocês.
– Você precisa vir comigo. – Sua expressão muda. – Por favor, eu não conseguirei sozinha.
– Quinn, Puck irá com você.
– Não importa. – Seguro sua mão. – Eu preciso de você.
– Quinn, eu...
– Já entendi. – Levanto do sofá, chateada.
Rachel não se mexe, nem tenta falar nada, o que aumenta ainda mais minha raiva. Entro no meu quarto e bato a porta, me jogando na cama.
Por Rachel
Fico paralisada, sem entender sua reação. Respiro fundo, passando a mão no meu rosto. Por que tudo tem que dá errados esses dias? Às vezes, eu só queria o colo de meus pais e pronto. Meus pais... Tomo um copo d’agua, pegando meu celular. Encaro a hora, sem certeza do que eu fazer. Mas, eu faço. No segundo toque, atendem.
– Filha. – Hiram fala, sonolento. – O que houve?
– Nada. – Sorrio para sua preocupação. – Só... Queria ouvir sua voz. – A minha quase quebra ao final da frase.
– Ow, estrelinha. Estamos com saudade de você.
– E eu, papai. E eu... – Sussurro, encostando na parede.
– Está tudo bem?
– Não. – Admito. – Está tudo uma droga. Estou cansada...
– Você está crescendo, Rach. – Diz, suave. – É assim mesmo.
– Eu não quero mais. – As lágrimas começam a embaçar minha visão.
– Vai desistir tão fácil? Não estou te reconhecendo.
– Não me importa...
– Você brigou com Quinn? – Eu fico em silêncio. – Ah, Deus. Rachel, não vai ficar chorando ai sem fazer nada. Vai atrás dela.
– Por que eu que tenho que ir? – Pergunto, magoada. – Eu sempre sou a errada?
– Não estou dizendo isso, menina. – Bronqueia. – Mas, eu conheço você e seu orgulho imenso.
– Ótimo. – Suspiro. – Liguei pra pedir apoio e recebo isso.
– Rachel...
– Vou dormir, papai. Estou realmente cansada.
– Não vai dormir sem falar com ela. – Pede. – Não fique com raiva de mim. Eu queria te abraçar e saber o que está acontecendo. Quinn é a única pessoa que pode fazer isso por mim e pelo seu pai.
– Eu sei. – Engulo seco. – Desculpa. Eu só queria vocês aqui.
– Tudo bem, estrelinha. Fique calma. Tudo dará certo. Eu quero que você respire e fale com ela, ok?
– Ok. – Paro na frente de seu quarto. – Eu te amo.
– Boa noite, filha. Eu amo você.
Entro no quarto e vejo Quinn virar para o outro lado, se cobrindo. Eu quase saio outra vez, mas me seguro, sentando na sua cadeira. Ela não se move.
– Como eu sei que você não está dormindo, eu vou falar, mesmo que fique de costas para mim. – Nada. – Você lembra o que eu te pedi na casa de Santana? Para que não fugisse? Que conversássemos, sempre?
– Lembro que você me pediu para fazer parte de minha vida, no entanto recusa conhecer minha filha comigo. – Solta, ácida. Eu rio, incrédula.
– Claro. Porque você nunca quer ver o meu lado nessa história. – Cuspo. – A mulher que adotou a sua filha, é a droga da minha mãe. E ela magoa o inferno dentro de mim, Quinn. Eu fico feliz por você, ok? Eu quero que você resolva isso. É bom ver que ela te dá essa oportunidade. Uma oportunidade que ela também teve e que não soube aproveitar. Beth é uma criança, não sabe o que está acontecendo. Pode ter certeza que vai ser mais fácil para você. Shelby me encontrou adolescente, com a cabeça formada. Pior, me encontrou se arrastando por ela. – Me interrompo para respirar. Quinn se remexe. – E sabe o que mudou? Nada.
A loira se vira para mim, com uma expressão de culpa. Eu sorrio amarga e balanço a cabeça, mantendo o olhar em minhas mãos.
– Você quer meu apoio? Eu te apoiarei. – A encaro. – Eu tenho meus limites, como você tem os seus. Não me peça para cruzá-los. – Levanto.
– Onde você vai? – Sussurra.
– Vou para o meu quarto.
– Não, por favor. – Me segura. – Me perdoe. – Choraminga. – Me perdoe. – Repete. – Eu sou uma idiota, egoísta. Eu te machuco, te atrapalho nos ensaios, te cobro. Deus, eu... – Soluça. Minha barreira quebra e eu a abraço com força, segurando sua cabeça. – Me perdoe.
– Shhhh... – Tento acalmá-la. – Não fale besteiras. – Peço. – Você a é minha melhor parte, Quinn. – Aliso seu cabelo. – Você é quem me dá forças, quem me segura, quem me faz bem.
– Olha o tanto de merda que eu tenho feito, Rach...
– Não me importa. – Aviso. – Nada disso tem valor comparado ao bem que você me faz. – Seguro seu rosto, limpando suas lágrimas. – Eu te amo, Lucy. Nada muda isso.
– Promete. – Sussurra.
– Prometer o que, amor?
– Promete que não vai mudar. – Meu coração se aperta. Seguro seu punho e sento na cama, trazendo-a para o meu colo. A loira esconde o rosto no meu pescoço.
– Que namorada tão sensível eu fui arrumar, Deus. – Brinco, fazendo-a rir um pouco. – Eu preciso prometer? É lógico que não vai mudar.
– Te amo. – Beija minha bochecha. – Desculpa. Eu não sei o que está acontecendo.
– Eu sei. – Passo a mão em seu cabelo, tirando-o de rosto molhado. – Alguém traz nossas férias de volta? – Rio.
– Por favor. – Sorri. – Que saudade daquela cachoeira.
– Que saudade daquele quarto. – Provoco. Ela ri, beijando minha mão. – Nós vamos ficar bem.
Por Brittany
Santana estava fazendo algum trabalho da faculdade, enquanto eu falava no celular com o meu pai. Depois da conversa mais cedo, eu decidi liga-lo. É claro que eu queria falar com ele. E aqueceu meu coração escutar a sua voz. Eu gostaria que minha mãe também se arrependesse. Apesar de tudo, também sinto a falta dela. Desligo o celular e minha namorada chega por trás, apoiando o queixo no meu ombro. Sorrio, segurando seu rosto.
– Tudo bem? – Sussurra.
– Sim. – Encosto em seu corpo. – Ele está mesmo querendo me ver.
– Que bom, Britt. – Beija meu pescoço. – Vocês marcaram de se encontrar?
– Marcamos. – Suspiro. – Esse final de semana.
– Vai me abandonar outra vez? – Faz beicinho. Eu rio, virando.
– Quer me expulsar daqui já? – Levanto uma sobrancelha. Ela aperta nossos corpos.
– Vão ter que tirar a força. – Avisa. – Nunca mais vou deixar você sair daqui.
– Hmmm... – Mordo seu lábio de leve, fazendo-a suspirar. – Bom, porque eu não pretendo ir.
– Ótimo.
– Perfeito.
– Maravilhoso.
– Cala a boca. – Eu rio, sentindo sua boca contra a minha, faminta. – Minha. Minha. Minha.
– Sua, sua, sua. – Abraço-a. – Tão bom ter você comigo hoje. Te disse que Lina ia gostar de você.
– Quem não gosta de Santana Lopez? – Brinca.
– Ah, é? – Me afasto um pouco. – Você não estava tão segura assim na hora.
– Só estava fazendo charme. – Balança a cabeça.
– Sei. – Viro os olhos. – Vai fazer charme para o meu pai também?
– O... O que? – Sorri, nervosa. Eu prendo o riso, sentindo seu corpo ficar tenso.
– Você vai conhecê-lo, ué.
– Eu não... Eu... Nós...
– Estou brincando, boba. – Rio. Ela abre a boca e franze a testa. – Charme, né?
– Não tem graça. – Me aperta. – Conhecer sogro é diferente. – Eu rio mais. Seus braços me prendem. Solto um gemido incontrolável, fazendo um sorriso malicioso surgir em seu rosto. – Vai brincar ainda?
– Vou. – Sussurro. Fecho os olhos, sentindo sua boca em meu pescoço, arrepiando minha pele.
– Vai? – Eu assinto, sem poder falar. – Eu também. – Se afasta.
– Santana. – Bufo. – Assim não vale. – Choramingo.
– Vale. – Grita da sala. Eu vou atrás dela, enquanto ela ri.
– Você é uma idiota. – Dou língua, sentando no sofá. – Sabe... Hoje fazem seis meses da nossa primeira vez. – Cantarolo.
– Sério? – Arqueia as sobrancelhas, sorrindo.
– Sim. – Mordo o lábio. – Seis meses e eu estava morrendo de ciúmes de você naquela época.
– Pensei que ia dizer que estava morrendo de tesão, de amor... – Brinca. Eu jogo uma almofada nela.
– Se você tivesse ficado com Daniela naquela festa, Santana, eu juro que te matava. – Ela fica tensa. Eu fico tensa. – O que foi?
– Nada. – Ri, brincando com os dedos.
– Santana, você ficou com ela naquela festa?
– NÃO. – Levanta. – Claro que não, Brittany. Fiquei com você o tempo inteiro, lembra?
– Lembro. – Respondo, desconfiada. – Tem alguma coisa que eu não sei?
– Por que você está perguntando isso?
– Santana...
– Ela me beijou, ok? – Solta. Meu coração dispara. – Foi só uma vez, eu juro. E eu me afastei e...
– Quando?
– Britt, eu não...
– Quando?
– Quando ela veio para cá. – Sussurra.
Fale com o autor