Meu maior e melhor erro

1 Corremos, pois queremos correr. Até não poder mais


Notas iniciais
Como um dia pode escorrer pelo vidro embaçado de uma picape surrada?

É engraçado que, quando somos crianças, pensamos que cada relação pode ser eterna. E que cada aventura ficará gravada na nossa mente. A verdade é que, não importa nossos esforços, as pessoas se vão, nós crescemos e esquecemos. De repente, tudo pareceu um sonho colorido, e os momentos perderam sua importância. Um dia incrível passa a ser só mais um dia em nossas lembranças.

-Jun, vamos, papai vai ficar preocupado!

-Estou indo. – atolo meus pés infantis na lama, chove forte, mas não me importo.

-Eu te ajudo. – meu braço é puxado para o espaço com força, me lançando a face ao chão. Não me importo. Abro o sorriso mais quente e sincero possível.

-Vamos! – e então corremos, pulando arbustos e escorregando em barrancos. Fazemos o caminho mais longo possível. Não me importo.

Qualquer e todo tom cinzento e fúnebre é revertido pelo olhar de uma criança. Em sua mente inocente, cada segundo é uma oportunidade a mais para se divertir. Para ser sincero, sinto falta dessa diversão.

-Minghao, me espera! – meu cabelo castanho escuro está escorrido no rosto, reduzindo meu campo de visão. Vou ficando cada vez mais para trás...distante...sozinho.

-Não vou me afastar de você.

-Promete?

-Prometo por eu mesmo.

E então continuamos correndo, não contra o tempo, não de alguém, mas porque queremos correr. E essa é a diferença, você não faz porque é preciso. A praia se aproxima, junto com o universo dos adultos, e é tudo tão pesado, turvo e aguçado. Latas de cerveja na areia, histórias sobre sexo sendo contadas na roda de amigos (não que eu soubesse o que era sexo na época) e gritarias. Ofensas e reclamações no mesmo timbre alterado. Por que nos tornamos tão agressivos e infelizes com o passar dos anos?

Meu pai está de pé, rodeado por whisky barato, lutando para se manter. Eu idolatrava esse homem, como qualquer jovem idolatra seu pai, incapaz de notar suas falhas. Segura um pedaço de vidro quebrado, derrubando cascos pela areia fria e espessa.

-Seu traste, seu verme, seu filho da puta! – meu olhar atento é despertado por uma sensação de alerta. Seguindo seu ponto de visão encontro Hao, agarrado às pernas de seu pai. Ele está vermelho, e eu não entendia o porquê na época, mas agora entendo. Era medo. Em sua forma mais genuína.

-Você que dormiu com minha esposa, seu merda! Pensou que eu não descobriria? — ele avança um passo, tentando mostrar superioridade.

-Pai, para com isso, por favor! – Hao começa a gritar, mas uma imensa mão cheia de ódio passa voando pelo seu corpo, jogando-o longe. Mesmo dessa distância, consigo vê-lo contorcer de dor.

-Papai, o que está acontecendo? — minha vez de questionar. Sinto meus olhos inchados.

-Fique fora disso, Jun. – e sou empurrado. Os dois impressionistas na minha frente passaram a se bater, ávidos para demonstrar quem era o macho alfa do bando. Estúpidos. Precisam provar, não para alguém, mas para si mesmo que têm algum valor.

A partir desse momento, eu passei a me importar. Passei a enxergar a vida da mais dura maneira: pela verdade. Tentei me aproximar de Minghao, ajudá-lo, mas fui agarrado pela cintura.

-Vamos embora daqui!

-Não, pai, espera...

-Silêncio!

O pai dele faz o mesmo, tento me debater, e sou recompensado por um tapa nas costas. Nossos olhos se encontram.

-Minghao...

Fui jogado dentro de uma picape surrada. A imagem daquele paraíso marítimo foi varrido como a água escorrendo pela janela embaçada.

Ele prometeu...prometeu que nunca se afastaria...

Notas finais
Esse capítulo serve mais como um prólogo da história, para apresentar meu estilo de escrita e criar background (plano de fundo) para a história que virá a seguir. Espero que gostem ^^