Meu maior e melhor erro

2 Uma silhueta estranha, mas também familiar.


Notas iniciais
"Se eu der um passo a frente, espinhos aparecerão no campo de flores" - My I (Seventeen)

— Jun...Wen Junhui!

-O que? O que houve? — levanto em solavanco. Meus olhos ardem. Sinto meu rosto marcado profundamente pelo formato dos livros.

-Virou a noite de novo? — pergunta o garoto ao meu lado, retirando um lenço do bolso e secando a mesa na qual eu estava dormindo.

-Não. – mentira. Esfrego meus olhos antes de organizar minhas coisas.

-Você sabe que é um péssimo mentiroso.

Dou de ombros. Jihoon me encara com sua expressão sarcástica, os cabelos pretos jogados por cima do rosto. Mesmo sendo mais velho que eu, seus traços físicos parecem dizem o contrário. Solto um sorriso de canto antes mesmo que eu perceba.

Não sou do tipo popular. Na verdade, Jihoon é meu único grande amigo. Isso, claro, se você não considerar o garoto que almoça ao meu lado todos os dias, mesmo nunca tendo trocado uma palavra comigo.

Checo meu relógio de pulso. Está na hora. Recolho as folhas jogadas e as lanço na bolsa. Tomo meu casaco e me levanto a ponto de ser questionado:

-Onde vai? Você nem mesmo abriu seu livro.

-Preciso resolver uma coisa. – Sinto minha bolsa pesar.

-Faça o que quiser. Só não esqueça que temos prova de cálculo, amanhã.

-Perfeita escolha de palavras. – e trocamos novos sorrisos, enquanto saio em disparada pelos corredores. Checo meu relógio novamente: 10:30. Estou quase lá.

Mais à frente atravesso uma série de portas duplas, todas rangendo em suas estruturas. O barulho é alto, mas eu não recuo. Sigo até um canto favoravelmente escuro da sala de aula abandonada. Assombroso. Pelo menos, ninguém entrará aqui por séculos.

Retiro meu celular do bolso. Pesquiso por um site desenhado em tons de laranja. Corro o olhar por diversos arquivos e pastas, até achar o que me interessa, uma espécie de listagem. Procuro por meu nome: Wen Junhui.

-Não pode ser, não pode ser... – falo comigo mesmo, revisando a lista sete vezes. – Merda!

Então, checo meu e-mail, e lá está a desagradável noticia:

É com intensa infelicidade que lhe informamos que sua performance não fará parte do nosso próximo festival. Esperamos que não desista de seus sonhos.

Com apreço, gerência da Pledis.

Apreço, claro. Duvido que ao menos saibam como sou. Alto, estranhamente desajeitado, e comumente imerso , seja em pensamentos, sonhos, ou os dois juntos. Preso em um ciclo de esperança e rejeição. Portador de um sonho: contar histórias, criar mensagens e transmitir através da dança. Vivendo, porém, em uma vida não escolhida por mim. Uma vida de academicismos, de números precisos e sonhos engessados.

Fico apenas sentado, por um longo tempo, encarando a escuridão. Me sinto estranhamente confortável aqui, longe de tudo. Meus olhos passam a se adaptar e eu corro a visão pelo cômodo. Amplo, majestoso e apagado pelo tempo. Mofado até onde se é possível, ecoante em excesso. Cada movimento pesa.

Reúno o máximo de coragem possível para desvencilhar do devaneio, lançando meu corpo ao ar, retorcendo o pescoço lentamente. Inalo toda aquela poeira, recompensado por um acesso de espirros. Apoio as mãos na parede fria e áspera.

As portas se abrem e dou um pulo para trás, receando ser algum funcionário da universidade. Em vez disso, uma voz doce ressoa:

-Sabia que você viria até aqui.

-Você me conhece, aparentemente.

-Claro que sim.

-Jihoon.

-Oi?

-Como eu sou?

Afundamos no silêncio e ele se aproxima, vagarosamente. Estamos próximos, a ponto de sentirmos a respiração de ambos. Seu cheiro de alecrim é forte.

-Posso dizer incrível?

-Apenas se for verdade.

-Então eu digo incrível.

-Por que só você pensa assim?

Ele hesita, por uma fração de segundo:

-Como disse: aparentemente, é porque te conheço.

Ele se senta, me puxando junto.

-E se eu corresse? De tudo.

-Então, eu te seguiria. — Essa simples escolha de palavras dele é o suficiente para me desarmar. Simples, mas que eu precisava ouvir.

-Você se lembra de quando nos conhecemos?

-Quando dividimos o livro de geometria analítica? — Naquele dia, dividimos o livro, um lugar a mesa, anseios e histórias.

-Obrigado por aquele livro. — E por tudo que veio depois disso, penso.

Esse tipo de conversa nunca foi fácil para mim. Sempre me sentindo extremamente desconfortável e intensamente culpado. Culpado por jogar o peso de meus anseios em outra pessoa. Porém, igualmente culpado por nunca contar toda a verdade.

-Eu nunca vou me afastar de você. — Jihoon faz menção de me abraçar.

Essas palavras me travam, e, de repente, sou jogado em um abismo. Sinto meu corpo tremer e meu coração voltar a bater rapidamente. Hiperventilo. Eu me levanto, violentamente. Minha visão embaça, como vidro molhado e o medo percorre o meu olhar.

-Jun?

-Me desculpa. – e ultrapasso os limites da sala, meu rosto em chamas.

-Jun, espera! Por favor!

-Você não pode me deixar também…

Quando me dou conta, estou do lado de fora do prédio da engenharia, no gramado. Chove intensamente, o dia parece se misturar com a noite. Meus pés ficam atolados na terra, fazendo com que eu caia. Tento não me importar. Sigo correndo, sem rumo. Correndo de um medo que habita em minha mente, como se eu fosse capaz de fugir. Apenas uma coisa não é diferente: em nenhum momento eu olho para trás. Não quero olhar.

Esse medo sempre conviveu comigo, sempre que alguém faz menção de se aproximar verdadeiramente de mim. Essa constante sensação de que vou ser abandonado. “Eu nunca vou me afastar de você”. Tal sequência de palavras sempre foi capaz de ser um gatilho na minha cabeça.

Estou atropelando as passadas, cansado. Prometo parar quando não possuir mais energia para continuar. Me aproximo de uma via e, antes que pudesse atravessar, sou surpreendido por um veículo e um sinal de alerta. Recuo, sentindo a corrente de ar passar pelo meu corpo. Caio sentado na guia, meus pés submersos na água que por ali passa. O chão está frio. Abraço minhas pernas enquanto passo a percorrer o ambiente com o olhar. É vazio. Do lado em que estou não há outras pessoas, nem sequer um ponto de ônibus. Há apenas um menino de 20 anos, cabelos castanhos, absorto e sentado na guia, totalmente encharcado.

Aos poucos, sinto meu corpo se acalmar. Consigo enxergar tudo com mais clareza. A rua sem carros, o asfalto quebrado, a guia do outro lado da rua e...outro menino. Alto, cabelos pretos e extremamente lisos, escorridos no rosto. Suas pernas estão esticadas na rua e seus braços jogados ao lado do corpo. O garoto também me encara, fixamente. De longe, não me parece coreano.

Dessa forma ficamos, não sei por quanto tempo. Dois garotos, duas vidas, separados por uma via e sob a mesma chuva. O silêncio parecia abraçar a nós dois e, por muito, nenhum teve coragem de se levantar e ultrapassar aquela barreira.

Por fim, o garoto se ajeitou, passando a mão nos cabelos, os jogando para trás. Ajeitou o bracelete dourado, tossiu e:

-Você não deveria correr daquele jeito. — disse, em chinês. Sua fala era calma e pausada.

-Você não deveria estar sentado aqui fora, na chuva. — respondi, sem ao menos pensar. O garoto pareceu brilhar.

-Mas aqui estou. — Ele se levanta de forma apressada, parecendo se dar conta de algo. Seus olhos me fitam, antes de continuar:

-É capaz de dizer que não voltará aqui?

-Não.

-Então eu também não direi.

Trocamos sorrisos. Sorrisos em meio a chuva. Me sinto quente e pouco me importo de estar molhado.

-Espero que amanhã não esteja chovendo. — afirmo.

-Então não estará. — o garoto concordou, inclinando a cabeça. Então, virou de costas, passando a caminhar, se distanciando aos poucos, permitindo que a água atingisse o solo novamente. O sigo com meus olhos até não poder vê-lo mais. Fico ali, mirando o espaço vazio. Sentado na guia. Não mais abraçando minhas pernas. Não mais hiperventilando. Por pura impressão, ou não, o dia acabara de clarear um pouco.

Notas finais
Essa, com toda certeza, é a história mais íntima e especial que já escrevi. Então, fico feliz de poder compartilha-la com vocês. Devo dizer que esse capítulo ficou bem maior do que o anterior e que os próximos seguirão esse tamanho, provavelmente. Espero que estejam gostando muito ^^
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.