A noite estava bastante agitada e havia muita movimentação dentro do bar. Os funcionários corriam de um lado ao outro para o atendimento dos clientes animados e barulhentos.

Em um canto do balcão, brincando com seu coquetel, Zelena observa uma pessoa e especial. Ela sorri ao lembrar-se de que havia usado o feitiço localizador para descobrir onde Regina estava. Disfarçada em outra forma humana, a ruiva consegue chegar ao bar e estava agora seguindo Regina em suas estripulias.

Um garçom alto e muito elegante se aproxima de Regina e entrega-lhe mais um coquetel colorido, com faíscas brincando sobre os pequenos guarda-sóis. Ele fala algo bem junto ao rosto da mulher e os dois riem de maneira cúmplice.

Hummm! Então Regina havia encontrado um belo exemplar masculino para afogar sua solidão. Pela cumplicidade e pelas imagens vistas no espelho, os dois estavam começando a formar um casal apaixonado e sedento por momentos vulgares. Não! Regina não tinha esse direito! Mesmo que fosse apenas por diversão, não seria justo que ela vivesse momentos deliciosos ao lado de um típico príncipe de contos de fadas. Regina era uma vilã fria, cruel e com terrível histórico de atrocidades contra pessoas indefesas, apenas porque uma menininha havia revelado um segredo, de maneira inocente.

Discreta, Zelena sai dali e vai até o banheiro. Depois, desaparece em uma nuvem de fumaça verde. Retorna para casa, onde ainda encontra a filha adormecida.

Era manhã, quando Regina caminha pelo corredor e dirige-se para seu quarto. Porém, para ao ver Zelena saindo do quarto de hóspede. As das trocam um sorriso amável.

— Vou fazer um café. Quer que eu lhe traga uma caneca?

— Não, Zelena. Vou dormir um pouco e aproveitar esse sábado para cuidar apenas de mim. Bom dia!

— Bom dia, irmãzinha! – Zelena sorri e depois faz um biquinho.

Pouco antes do meio dia, Regina chega ao bar onde Dashiel trabalhava e encontra o local sendo limpo por uma equipe de funcionários.

— Preciso falar com Dashiel. Onde posso encontrá-lo?

— Ele está em casa. – responde uma jovem apontando para a direção oposta ao mar.

— Desculpe-me, mas não sei onde fica.

A jovem informa corretamente o endereço e observa a mulher curvilínea afastando-se. Ela sorri.

— Dashiel conquistou a Prefeita de uma cidade!

— O cara é perfeito! Mas ela já foi à casa dele...como não sabe o endereço? – comenta outro funcionário.

Dashiel dormia profundamente, mas desperta ao som da campainha da casa. Misericórdia! Ele precisava dormir! Quem viria incomodá-lo e em busca do que? Apenas algumas horas de sono! Seria pedir muito?

— Regina? – ele se encosta ao batente da porta. – O que está havendo?

— Estou perdendo a noção do perigo.

— Por que retornou? Por que não me ligou? O que está havendo?

— Posso entrar? – Regina força a passagem com o corpo e ela mesma fecha a porta atrás de si.

Procurando paciência dentro de sua alma, Dashiel acompanha a mulher invasora. Precisava pôr um ponto final naquela história e naquela impertinência. Regina era deliciosa, louca e linda, mas não tinha o direito de tentar entrar na vida de um desconhecido e obrigá-lo a aceitar a situação.

— Regina, nosso combinado é não invadirmos a privacidade alheia. Foi ideia sua!

Um rosnado é a resposta de Regina. Ela gesticula violentamente e uma onda poderosa atinge o corpo de Dashiel, fazendo-o voar longe. Ele se choca contra um dos sofás e rola para o chão.

— Q-quem é você?? – ele grita tentando fugir, mas é imediatamente imobilizado por mãos que não conseguia ver. – Você é um demônio!!!

— Não, meu lindo homem. Eu sou uma bruxa! – ela se inclina para frente e sorri. – E uma bruxa apaixonada não deve ser contrariada!

Dashiel sente sua cabeça girar. Muitas imagens invadem suas lembranças, coisas confusas que não tinham significado. Ele começa a gritar, mas sente sua boca ser amordaçada por algo que não identifica. Arregala os olhos apavorados, quando se vê erguido e colocado sobre o sofá. Ele se debate em vão.

— Eu sei que para humanos normais, conviver com algo que não pode explicar, beira à loucura ou pode ser definido como possessão demoníaca. Mas no meu caso, sou uma pessoa reles: uma bruxa saída de um conto de fadas.

O homem se debate e fecha os olhos, lutando contra sua prisão e contra aquelas imagens coloridas que invadiam sua mente. Lembranças? Hipnose? Efeito de drogas?

— Eu decidi mostrar-me como sou, porque eu o desejo. E quando desejo um homem, simplesmente o pego para mim. – ela gesticula como se estivesse segurando um pescoço e sorri ao ver Dashiel se retesar. – Poderia esmagar seu lindo pescoço, mas o que eu ganharia com isso?

Um túnel vivo, com cores diversas surge diante dos olhos de Dashiel e a sensação de atravessá-lo retorna às suas lembranças, quase podendo tocá-las se suas mãos estivessem livres. Ele geme e sente os olhos queimarem.

— Sou a fera que o perseguirá, meu lindo homem. – Regina comprime os dedos e sorri ao ver o começo do sufocamento do homem. – Você fugirá de mim e eu o encontrarei. Por mais que você corra, eu estarei atrás, fechando a floresta em torno do seu corpo e de suas pernas. Mesmo que você tente me amar, eu jamais deixarei de ser a fera.

Ela afrouxa os dedos e o vê relaxar os músculos, embora o permanecesse aprisionado por fantasmas.

— Vou ser uma menina má, uma menina cheia de desejo e vontades, uma menina cruel e vou usar esse corpo que você está louco para me oferecer. Você é rude, príncipe, então, será humilhado para aprender a comportar-se com alguém mais humilde e respeitoso. Mas nada de humilhação de Canossa. – ela gargalha. — Não precisará ficar três dias e três noites, ajoelhado na neve, vestindo uma túnica com tecido fino, aguardando meu perdão. Porém, tenha certeza de que será humilhado.

Dashiel geme de dor. Seus músculos estavam começando a doer devido à compressão exercida sobre ele. Seus olhos já estão embaçados pelas lágrimas e pela sensação triste e opressora de um inimigo poderoso, um monstro saído do mais terrível conto de fadas. Mas por que pensar em contos de fadas naquele momento? O rosto de um homem velho, olhando-o com tristeza é visto com nitidez. Quem seria aquele homem? Dashiel fecha os olhos e chora pela sua impotência e fragilidade. Outra vez sentindo-se assim?

— Vou macular você, meu tesouro. – Regina gesticula e promove alterações físicas e hormonais no corpo do homem. Sorri com o resultado e decide montá-lo como se ele fosse um belíssimo garanhão pronto para o momento selvagem da cópula. – Isso será inesquecível! Não se preocupe com gravidez, porque minha filha é um bebê ainda. Não quero outra dor de cabeça como essa!

Noutra cidade, naquele mesmo momento, Killian entra na biblioteca de Belle e a encontra organizando seus livros nas prateleiras.

— Olá, Belle! Você é muito confusa ou as pessoas dessa cidade costumam ler muito!

A jovem sorri e não responde à provocação.

— O que você quer, Killian? Não veio apenas caçoar de minha organização.

— Organização? Essa biblioteca é uma bagunça! Todos os dias você a arruma e sempre está desorganizada!

— Certo! Fale logo o que quer. – ela termina a distribuição dos livros.

Killian se debruça sobre o balcão e bate a ponta do dedo sobre o monitor do computador.

— Preciso que faça uma pergunta ao Senhor Internet.

— E o sobre o que tenho de pesquisar? – ela começa a ligar a máquina.

— Estou com um nome em minha cabeça e preciso confirmar a biografia dele.

Depois de alguns minutos, Belle aponta para a tela acesa.

— Pesquise sobre Dashiel de Moncaliere, por favor.

Belle abre e fecha a boca, depois apenas sorri.

— Nem preciso pesquisar. Ele é um modelo internacional, fazia desfiles, editais de moda e era exclusivo de uma marca chamada Abramo. O cara é o suprassumo do mundo da moda.

Levantando uma sobrancelha, Killian mostra que aquilo era idioma grego para ele.

— O Jolly Roger é o que há de melhor em termos de navegação, certo?

— Claro que sim. Que navio tem a idade e a história dele?

— Pois bem! Dashiel de Moncaliere é o Jolly Roger da moda! — ela digita o nome e vira o monitor para que Killian veja as fotos do modelo. – Eu tenho uma amostra de um perfume dele!

Maneando a cabeça afirmativamente, Killian espreme os lábios e continua vendo as fotografias na tela do computador.

— Ele está morando na cidade vizinha. É dono de um bar lindo e mora num loft no alto da colina.

— Você o viu??

— Não só o vi, como o levei para caçar tesouros em meu navio. Preciso saber sobre a vida dele, porque tenho interesses.

Belle cruza os braços na frente do peito, como fazem as crianças birrentas quando querem exigir algo dos adultos. Faz beicinho.

— O que foi?

— Eu farei a pesquisa minuciosa para você, mas quero conhecer o Dashiel. Já que conseguimos sair de Storybrooke e não virarmos árvores, quero me leve para conhecê-lo. Pode fazer isso? – ela levanta as mãos na altura das orelhas. – Será nosso segredo!

Naquela mesma noite, Regina tenta em vão entrar em contato com Dashiel. Dezenas de telefonemas e nenhuma resposta. Ela sabia que não deveria, mas estava tomada de preocupação pelo sumiço do amigo. Precisava muito vê-lo e saber o que estava havendo, mas não seria ansiosa. Aguarda a entrada da madrugada e envolve-se numa nuvem de fumaça, surgindo na varanda da casa do modelo.

Espalma as mãos na madeira da porta e concentra-se. Ouve o som da respiração dele e consegue sentir a aflição que emanava de seu coração. Dashiel estava escondido lá dentro e algo ruim o havia atingido.

Materializa-se na escada para o mezanino e começa a subir os degraus.

— Dashiel... – ela fala suavemente e consegue ouvir barulhos intensos vindos do quarto. Acelera seus passos e finalmente chega ao ponto mais íntimo da casa, encontrando o homem protegido contra a cabeceira da cama, olhando-a com horror. – Dashiel...o que houve?

Ele espalma as mãos no ar, como se aquilo fosse impedir a aproximação.

— O que houve, meu querido? O que fizeram a você?

Regina acende a luz do cômodo e seus olhos focam as marcas na pele do homem. Alguém o havia tocado de forma bruta e poderosa, deixando as digitais na pele escura dele.

— O que houve?

— O... o que...v-você ainda quer? Saia daqui, bruxa!! – ele estava rouco e sua voz falhava.

— Bruxa? Não precisa ser rude...

— Maldito monstro! – ele avança e recua sobre o colchão. – Demônio! Quer me confundir de novo? Quer destruir a minha sanidade? Por que você voltou?

— Dasheil...do que está falando? – ela se aproxima vagarosamente e sem que ele perceba, envia com um gesto suave, um aroma que provoca relaxamento nos músculos dele.

Mais calmo, ele iria adormecer e Regina poderia descobrir a gravidade do que lhe havia acontecido. Iria recorrer à colheita das lembranças do homem e tentar resolver ou aliviar sua dor. Precisava conter o desespero dele.

Alguns dias se passam...

— Quem mais sabe sobre Dashiel? Você espalhou meu segredo sem meu consentimento?

A pergunta produz estranheza na expressão do pirata. Por que aquele tipo de pergunta, sem mesmo ter desejado um boa noite em sua chegada? Nem havia fechado a porta da casa da prefeita.

— Por que duas perguntas imbecis como essas?

— Aconteceu algo terrível a ele, cerca de quatro dias.

Killian franze a testa e fica pensativo. Depois dá de ombros.

— Eu estive com ele ontem...fomos navegar, conversamos e tiramos muitas fotos...fizemos um mergulho e ele não demonstrou estar depressivo ou traumatizado. O que houve com ele?

— Retirei a memória do que aconteceu. – Regina se afasta e vai buscar um apanhador de sonhos. Retorna para junto do pirata e ergue o objeto. — Veja o que retirei da mente dele.

Atento, Killian se aproxima para enxergar melhor. Fica curioso demais.

As imagens do ataque sofrido por Dashiel surgem como se fossem cenas de um filme de horror. Os gritos, os lamentos e por fim a violação. O homem havia sido atacado por uma fera sob a forma de Regina.

— Não sei o que dizer...- ele gesticula confuso, mas rapidamente retorna ao estado normal. Empertiga-se como se fosse um suricato e encara a Rainha. – Está me acusando de ter assumido suas formas físicas e ter feito essa barbaridade?

— Quem mais sabia de meu interesse por ele?

— Ora, Majestade! Burrice tem limite até mesmo para você! Olhe para mim! Um homem com a minha aparência e experiência, não precisa usar truques amadores para levar quem quer que seja, para minha cama! Não seja estúpida!

— E quem mais faria tal agressão? Você ainda é um Dark One, embora não queira assumir!

O pirata se levanta e gesticula de maneira malcriada.

— Eu pensei que você fosse mais inteligente! Está me acusando dessa agressão, porque não quer culpar o próprio sangue! Quem matou Marian e assumiu o lugar dela para engravidar de Robin, sua burra?

Regina rosna e infla o peito. Enche a mão com uma bola de fogo.

— Jogue-a! Está dando guarida à sua pior inimiga e ainda tem coragem de afirmar que eu preciso de truques infantis para conseguir tocar em Dashiel! Caso eu o queira em minha cama, estendo a mão e ofereço uma noite alucinante para ele! E caso acontecesse, aposto que ele não voltaria para você!

A bola de fogo desaparece da mão de Regina e ela leva os olhos furiosos na direção da escada que dava acesso aos quartos. Maldita!

— Sua irmã verdinha está debaixo do seu lindo nariz, fazendo traquinagens e você está de boca aberta como sempre! Pergunte-se como ela soube de Dashiel!

Por alguns minutos, Regina fica em silencia, pensativa. Depois levanta o rosto e o exibe com uma expressão de horror.

— Zelena viu minhas pesquisas?

Virando-se para sair da casa, o pirata não responde à pergunta. Estava muito ofendido para continuar ali.

— Killian, espere!

Virando-se pesadamente, o pirata encara Regina com seus olhos pesados e entediados.

— Fiz um preparo para conseguir lembrar do que houve na noite em que conheci Dashiel. Transportei minhas memórias para um espelho, como se fosse a tela de uma televisão. Assisti a tudo, mas não tive o trabalho de apagar as imagens...

— O alface que você chama de irmã também não quis apagar. Lamento, Majestade, mas você é decepcionante. Entende agora por que jamais terá o seu final feliz? Você o compartilha com quem não deve fazer e deixa brechas para que tudo seja destruído.

Sem esperar mais nenhum momento, Regina sai da casa e segue para o mausoléu. Lá dentro, consegue sentir a presença de Zelena e já imagina que seus livros pesquisados, também foram alvo da curiosidade da menina má. Para diante dos livros espalhados sobre a velha mesa e observa o espelho deixado no mesmo lugar. Tudo estava perfeitamente organizado.

— Ela esteve aqui...

— É mais fácil distribuir a culpa em quem estava mais próximo. – a voz de Killian ecoa no cômodo.- Decepcionante como sempre. Amadora. É isso que você é: amadora em todos os sentidos. Não consegue terminar nenhuma missão com êxito. Não consegue manter homens vivos ao seu lado; perdeu Henry para Emma; sua maldição poderosa foi quebrada por um simples beijo na testa de uma criança morta...ah, sua maldição matou Henry!

Regina se volta para o pirata e olha-o como se estivesse vendo o Dark One em pessoa novamente. Ele parecia estar mais bonito com seu semblante sombrio.

— Mas eu ainda tenho fé em você, Majestade. Eu fui um vilão mais cruel do que você pode imaginar. Nem seus truques mágicos, suas maldições, seus ataques às aldeias ou às mortes que provocou não são páreos para o meu histórico de 300 anos. — ele sorri e assume a sua expressão de felino. – Eu tive a redenção, fui ao Hades e voltei do Olimpo para viver o meu final feliz. Você terá o seu final feliz, caso deixe de ser amadora.

Ele vira de costas e vai embora como se estivesse desfilando numa passarela.

Sozinha no mausoléu, Regina se perde em seus pensamentos. Como agir sem despertar desconfiança em Zelena. Por que ela havia feito aquilo? Por que tamanha crueldade? Tudo para que nenhuma das duas tivesse seu final feliz? Zelena deveria estar feliz por existir outro homem na vida de sua irmã. Assim, quando Robin retornasse, estaria livre para ela.

— A menos que ela saiba algo que não sei sobre a obliteração da alma de Robin...ele não poderá retornar e ela me culpa por isso? Quer me punir por não poder ter Robin por perto? Mas ela tem uma filha com ele! – Regina segura a cabeça e fecha os olhos. – Preciso ver Dashiel.