Momentos mais tarde, eles estão atravessando o lago do pântano, utilizando-se de uma pequena balsa criada com troncos amarrados por cipós. Verena usara seus conhecimentos de construtora de pequenos barcos para orientar o grupo. Ela ia à frente remando a balsa com a ajuda de Killian.

— Quando chegaremos ao castelo, papar, será que minha mãe irá me reconhecer?

Abaixando os olhos para ver a garota sentada na balsa, o pirata fecha o cenho em uma carranca. Provoca medo na menina. Ele encolhe um dos ombros.

— Espero que sim. E também espero que ela se ilumine com esse sorriso maravilhoso que você tem.

— Mas ela pode não me reconhecer.

— Azar o dela. – intromete-se Belle estreitando os olhos para tentar ver alguma coisa além daquelas arvores escuras.

De volta a um trecho de floresta, o grupo procura espaço para um pequeno descanso. Era preciso uma limpeza geral, hidratação e recuperação das forças com alguma comida. A temperatura havia caído depois que saíram das águas do lago pantanoso.

— Como se sente, meu amigo?

A pergunta ao seu ouvido, provoca sobressalto em Killian. Ele sorri e retorna do mundo de devaneios.

— Muito assustado. Agora que estou ciente de que poderei voltar a ser o sucessor do Crocodilo, fico apavorado. Confesso que é uma sensação ótima perceber os poderes ficarem mais forte...porém, a que custo?

— Vamos conseguir controlar isso. – a mão de Belle se fecha no ombro do pirata e o espanta pela força física da pequena.

— Como iremos anunciar nossa chegada? Seremos sutis ou iremos chegar chutando algumas bundas?

Seria interessante e a ideia faz a bibliotecária achar graça. Ela segura a nuca do pirata e traz a cabeça dele para deitar em seu ombro. Beija-lhe a testa coberta pela franja espessa e escura. Estranha demonstração de afeto com alguém que a tentara matar duas vezes.

— Vamos aguardar para conhecer como seremos recebidos. Na hora iremos encontrar uma maneira. – ela diz.

— Poderíamos alegar que viemos por um portal em busca de aliança para retomada do reino. Não creio que Regina ou Zelena saibam quem somos. As maldições costumam provocar momentos de amnésia, lembra-se?

Ele faz beicinho e concorda com a informação.

— Sugiro que tomemos cuidado com o que conversamos. Elas podem estar atentas e ouvindo tudo o que planejamos.

O pirata perde seus olhos em algum ponto da floresta e começa a imaginar como iria atrapalhar os ataques e as observações. Teria de desobedecer ao acordo e ser um pouco traiçoeiro não negando a estirpe herdada do Crocodilo. Lançaria alguma nuvem de esquecimento sobre as conversas e que atrapalharia aquela constante vigilância feita pelos desconhecidos. Uma vez dentro do palácio, seria obrigado a evocar seus poderes e provocar algum esquecimento em quem enviara os espiões trazidos pelos ventos. Ele sorri de forma cruel: iria enviar pelos ventos, a tal nuvem de esquecimento, mas não compartilharia sua atitude.

Nas primeiras horas claras da madrugada, todos retomam a caminhada. Preparados para mais ataques, já conheciam que a Floresta das Esmeraldas estava muito mais perigosa do que antes da chegada das novas governantes.

Finalmente chegam a um vilarejo e são vistos com temor e desconfiança. Os moradores surgem em grupos armados com instrumentos agrícolas preparando-se para a defesa do lugar. Quem eram aqueles desconhecidos trajados como piratas e portando espadas e outras armas? Seriam pilhadores cruéis? Seriam amistosos ou aliados da Rainha Fera?

— O que desejam aqui, forasteiros? – um homem velho se adiante aos moradores.

— Com vocês não queremos nada. – Killian assume uma expressão trancada. – Estamos seguindo na direção do Castelo de Regina Mills.

Os aldeões conversam entre si.

— Estão a direção certa. Vocês são aliados delas?

— Sou aliado de minha tripulação, companheiro. – Killian aponta para as companheiras em sua volta. – Vivo por elas e com a Rainha quero apenas negociar.

O homem gesticula e as pessoas abaixam suas armas.

— De onde vocês estão vindo? Estão com fome ou sede?

— Viemos por um portal de outro reino e não pretendemos nos demorar. Queremos apenas negociar com a Rainha e depois retornar para nosso reino. – o pirata se vira para as companheiras de jornada. – Vocês estão com fome?

Robin levanta o dedinho indicador e sorri. Imediatamente, centenas de sorrisos surgem nos rostos dos aldeões. O que aquela garota possuía naquele sorriso?

— Eu gostaria de uma caneca com leite e um pedaço de pão.

Cerca de uma hora depois, o grupo está acomodado em um dos casebres, junto ao homem velho.

— Nossa floresta ficou enfestada de criaturas perigosas, depois que nossa Rainha foi atingida pelo incêndio. A irmã dela é uma bruxa poderosa e antes de ser presa no espelho, infestou nossas matas.

— Nós enfrentamos alguns guardiões que queriam impedir a nossa chegada. – Verena fala e continua observando as pequenas estátuas feitas em madeira que jaziam numa prateleira. – De onde saíram aquelas coisas?

— Não sabemos, Senhorita. – o velho enche a caneca de leite e entrega para Robin. Ele olha para Killian com desconfiança. O olhar azul daquele homem era algo muito desafiador e perverso. – O que vocês encontraram?

— Não são sempre as mesma criaturas vigilantes?

O velho nega com a cabeça. Até a voz do pirata causava receio na alma dele.

— Eu acredito que as formas são criadas no momento do ataque. Os únicos que são perenes são os soldados de areia.

— Muitos governantes usam esse artifício de criar soldados de areia. Já ouvi inúmeras histórias da presença desses guerreiros inertes em exércitos de alguns reinos. – Killian observa Robin comendo. – Fomos atacados por...

— Lobos que viraram Vampiros e dois mandícores que brigaram entre si. – Robin fala rapidamente e olha para Killian como se pedisse desculpas pela intromissão.

Os adultos ficam em silêncio e depois observam para a entrada do casebre, por onde Belle entra trazendo pequenas armas feitas de cordas.

— Aproveitei para conseguir alguns fandíbolos, com os aldeões. Poderemos precisar porque nos disseram que os macacos voadores são os guardiões das proximidades do castelo. Não poderemos usar flechas contra eles, porque são pessoas transformadas. – Belle fala e começa a distribuir as armas. — Um dos aldeões me disse que hoje é um dos dias de audiência com a Rainha. Quem quiser resolver seus problemas deve ir até ela.

Uma expressão engraçada surge no rosto do anfitrião. Ele bate levemente a mão na própria testa e sorri.

— Eu não omiti a informação por negligência. Foi apenas um descaso e...

Killian retira alguns dobrões de ouro e entrega ao homem velho.

— Isso é pelo alimento que deu à minha filha e pelos mantimentos que nos forneceu para a viagem. Mas agora precisamos ir para chegarmos ao castelo antes que escureça.

— Boa sorte!

Aquela simples despedida provoca uma raiva súbita na alma de Killian. Ele se surpreende e deve concordar que Belle estava certa quanto ao uso excessivo de seus poderes. Não poderia acostumar-se com eles em sua vida ou não seria diferente ao Crocodilo. E as pessoas não precisariam de duas aberrações na mesma cidade e em suas vidas.

A tarde chega naquele pedaço de terra e traz a queda da temperatura. Caminhando ainda em fila indiana, o grupo continua atento ao que poderia surgir como mais uma surpresa de sua jornada. E de fato não tarda a acontecer: barulhos característicos de grandes asas são ouvidos e sua origem logo identificada. Um bando de macacos voadores defendia o território e não se mostrava amistoso ou disposto a perder o ataque.

— Crianças, sugiro que provem o quanto são bons de pontaria! – Belle assume a dianteira e usando de suas habilidades de arqueira começa a atirar pedras com seu fandíbolo. Iria doer, mas nenhum dos macacos seria morto.

Os demais companheiros da pequena, fazem o mesmo e provocam um alvoroço no bando de primatas voadores, surpreendidos com aquele ataque de pedras. Guincham alto e ferozes, ora conseguindo, ora não conseguindo escapar das pedras. Aqueles que conseguiam desviar-se a descer até o grupo eram acertados por um cajado conseguido por Verena.

Por fim, os macacos retornam voando para as torres do castelo, já avistadas não muito distantes. E era para lá que o grupo iria.

Ao atingirem a clareira em torno do castelo, os viajantes param e observam o estado de decadência daquela obra arquitetônica. A cor verde estava muito escura e deixava o prédio semelhante a um castelo medieval feito em pedras e muito desgastado pelo tempo.

Próximos aos portões, várias carroças estavam paradas, indicando que muitos camponeses tinham vindo apresentar seus problemas para que a Rainha os ajudasse a resolver. Mais adiante, duas fileiras de estáticos soldados de areia, formavam um corredor por onde as pessoas eram obrigadas a passar até atingirem a entrada do prédio. E por incrível que pareça, pessoas de verdade faziam a recepção dos aldeões.

— Pensei que todos os serviçais tinham sido transformados em utensílios domésticos: relógios, carrilhões, castiçais, baquetas ou xícaras...

— Isso aconteceu somente no desenho, papai.

Os adultos riem e são contaminados pelo entusiasmo de Robin. Ela estende a mão e segura a mão de Killian, buscando proteção.

— Será que minha mãe vai me receber bem?

— Não se preocupe com isso, querida. Tudo vai terminar bem.

Um dos serviçais se aproxima do grupo de piratas e tenta sorrir. Porém, seu nervosismo impede que o sorriso permaneça em seus lábios. Piratas no castelo? Armados? E chefiados por um homem com uma terrível aura de poder? Isso não poderia ser real!

— Sou André Velasquez, cuidador principal do castelo. Sejam bem-vindos!

— Sou o Capitão Killian Jones. – ele aponta para suas companheiras. – Aquelas são Belle e Verena, minhas imediatas. A garota é minha filha Robin. Estamos para conversar com a Rainha e conseguir uma maneira de retornar ao nosso reino.

— Os mensageiros nos avisaram sobre a presença de um grupo de viajantes pelas nossas matas.

— Então, devem ter avisados que fomos atacados durante nossa jornada. Isso não foi elegante da parte da Rainha.

— Muitos forasteiros chegam ao nosso reino procurando esmeraldas e outras riquezas. A intenção do coração deles é podre e a nossa floresta reage para defender-se.

Killian abaixa a cabeça e não responde de imediato. Depois, levanta a cabeça e encara o serviçal.

— Então a sua floresta errou quanto às nossas intenções.

— Acredito que a floresta reconheceu sim, o que havia em seus corações, Senhor. – André sorri. – Caso ela tivesse errado, vocês estariam mortos. Não sobreviveriam aos ataques. Eles sabem ler os corações e apenas quiseram retardá-los.

De fato, as defesas tinham sido fáceis demais para a grandiosidade dos ataques. Ou eram miragens ou estavam apenas divertindo-se à custa dos viajantes.

— Por favor, queiram acompanhar-me ao salão de audiências. A Rainha está atendendo os aldeões. Por aqui!

Killian segue à frente do grupo e não hesita em acompanhar o serviçal. Enquanto caminha, vai admirando a decoração tenebrosa e as telas representando o rosto inexpressivo de Regina em vestimentas reais. O som de vozes vindo de outro salão tira o pirata de seu devaneio assustado e ela segura a mão de Robin. Logo atrás das duas, o restante do grupo segue em silêncio.

— Sentem-se nos bancos finais do salão. Devem respeitar a ordem de chegada dos aldeões, enquanto eu os incluo no rol de inscritos. Ressaltarei que vocês são prioridade...

— Não. – o tom de voz de Killian assusta do homem. – Deixe-nos ficar por último e ficaremos bem. Diga-me: além da Rainha, quem mais pertence à família dela?

André estreita os olhos e olha na direção da mulher sentada no trono, com seu rosto parcialmente protegido pela peça de porcelana.

— Ela terá prazer em conversar com vocês. Os aldeões já se alimentaram antes de virem para a audiência, mas caso tenham fome, poderei prepara algo...

— Não! – todos respondem ao mesmo tempo.