Lá pelas tantas, a quantidade de aldeões vai diminuindo e o salão vai ficando vazio. De seu trono, Regina já havia ficado incomodada com a presença daqueles lindos forasteiros. Um pirata com um gancho no lugar de uma das mãos, uma linda garota de cabelos amarelos e duas belas mulheres armadas até em seus dentes.

Atendendo ao último aldeão, Regina se levanta do trono e ajeita a capa do vestido. Inclina-se para ouvir o que André estava falando ao seu ouvido e mantém o único olho saudável na direção dos belos visitantes.

— Traga-os para a sala de jantar. Mande chamar Dashiel e ordene que os espelhos sejam cobertos para que Zelena me deixe em paz esta noite.

— Sim, Majestade!

Com movimentos seguros e calmos, o grupo de viajantes se aproxima da Rainha e aguarda que ela se manifeste como anfitriã e determina o clima da conversação.

— Sejam bem-vindos, visitantes. – Regina retira a capa do vestido e mostra-se menos formal. – André me informou que vocês vieram de outro reino. O que houve?

— Passamos por um portal, Majestade. Precisamos de ajuda para nosso retorno e agradecemos por permitir nossa estadia em seu castelo, até o momento. Sou o Capitão Jones, estas são Verena e Belle e esta princesa aqui é minha filha Robin.

Regina toca delicadamente a máscara que cobria somente a metade de seu rosto. Estava evitando a máscara completa para não atemorizar a Dashiel ou quem deitasse os olhos sobre ela. Queria ser mais humana, o possível.

— Eu gostaria que ficassem para o jantar. Depois, poderíamos ouvir música e dançar, um pouco. Pedirei ao André para providenciar quartos confortáveis, banho e roupas para todos, caso queiram pernoitar aqui.

Num sobressalto, Belle se afasta da parede ao sentir uma pequena mão tocar em sua perna. Olha para baixo e vê a estátua de um Cupido olhando para ela. A estátua estava viva e parecia sorrir. A bibliotecária devolve o sorriso.

— Qual é o nome da menina? – Regina pergunta olhando Robin e sentindo paz.

— Eu sou Robin Elizabeth Jones. – a garota deduz que seria imprudente dizer o sobrenome Mills naquele momento. Ela faz reverência. – Ao seu dispor, Majestade!

— Seu sorriso é a coisa mais linda que já vi no dia de hoje. A que você atribui à beleza desse sorriso?

— Dentes? – Robin responde e provoca risos nos adultos.

Regina move os dedos e pede para que o grupo se aproxima da mesa. Aponta os lugares e os convida a escolher onde se sentar para o início da pequena reunião alimentar.

— Sintam-se em casa. – ela olha por cima do ombro e observa a chegada de duas serviçais enviadas por André, para o atendimento dos visitantes. – Preciso me ausentar por alguns minutos e os deixarei aos cuidados de minhas serviçais. Em breve estarei de volta.

Antes que Regina pudesse sair da sala, ela é interrompida pela chegada de Dashiel ali. Ele se inclina levemente em reverência e esboça até um sorriso. Volta-se para os convidados e os cumprimenta com a mesma elegância.

O coração de Verena explode em seu peito e o ímpeto de agarrar aquele homem e beijá-lo até que ficasse sem fôlego substitui a presença de sua alma. Seu Dashiel estava vivo e encarnava o príncipe, novamente, dentro daquela vestimenta em tom terra. Como ele ficaria lindo em uma capa de revista, vestido daquele jeito e devidamente maquiado! Era o seu menino, seu príncipe e o seu amor!

— Este é meu grande amor! – Regina mostra o que poderia ser um sorriso monstruoso e logo o desfaz. – Por favor, Dashiel, faça companhia aos nossos visitantes, porque preciso tirar a poeira do rosto. São membros de alguma realeza e sei que você é refinado o suficiente para lidar com nossos visitantes.

Ele se volta para o grupo e sorri amavelmente.

— Permita-me que eu me apresente. Sou Dashiel de Moncaliere! – ele cumprimenta um a um, inclusive a pequena Robin. — Não sei quanto a vocês, mas eu estou faminto!

Killian acomoda suas companheiras em seus lugares e faz o mesmo, sendo seguido por Dashiel. O pirata invade a alma do homem, com seus olhos poderosos e percebe o incômodo que consegue causar. Precisava provocar as memórias de Dashiel, a fim de facilitar a aproximação e sua libertação.

— E então? De que reino vocês vieram?

— Viemos de um reino chamado Storybrooke e estamos aqui porque atravessamos um portal.

— Por que atravessaram o portal?

— Acidentalmente. – Belle fala sorrindo, auxiliando a serviçal a servir o prato de Robin.

Dashiel encara a mulher pequena e permite que seu coração nutra a mais profunda simpatia por ela. Era doce em seu sorriso e em seus gestos, mas conseguia ser muito forte ao mesmo tempo.

— E fomos atacados durante nosso trajeto.

— Muitos viajantes são. – Dashiel exibe um sorriso triste. – Nossas matas ficaram infestadas por feras que se divertem com os viajantes. Peço desculpas pelo transtorno.

— Elas não nos feririam. Apenas foram momentos de distração para ambas as partes. – Killian molha a ponta do dedo no vinho e lambe-o. – Este castelo também não é uma zona de conforto, certo? As coisas inanimadas não são tão inanimadas, assim.

Os olhos atentos de Dashiel se fixam no rosto pardo de Verena. A mulher lhe provoca sensações agradáveis, embora não a tivesse visto sorrir. Era uma linda estátua em bronze.

— Você é o rei?

A pergunta de Killian traz Dashiel de volta à realidade. Trocam um sorriso.

— Sou apenas hóspede da Rainha. Moro aqui...

— Vai se casar com ela? É uma bela mulher, aparentemente. Por que ela usa a máscara? – Killian começa a comer.

— Regina esconde uma cicatriz causada por um incêndio.

Killian apoia as costas no espaldar estofado e alto da cadeira. Assume uma expressão debochada.

— Tudo nesta floresta agiu por magia. Este castelo de move sozinho e por magia...por que uma cicatriz causada por incêndio não pode ser tirada por magia?

— Sua pergunta é impertinente, mas deve ser respondida. – a voz de Regina atrai a olhares. – Isso em meu rosto é o resultado de uma maldição posta sobre mim, por um marido velho, perverso, ciumento e conhecedor da magia. A história do incêndio surgiu como forma de romancear a criatividade. Combinamos com os doutores que esta seria a versão oficial: a bela Rainha viveria com o resultado do incêndio e isso protegeria a minha popularidade.

Elegante e altiva, ela se senta à cabeceira da mesa. Estava usando a máscara inteira, abafando sua voz.

— E já que o senhor é um homem observador e ousado, Capitão, quero ser sincera também. Por que três poderosos viajam juntos? – ela se vira para Robin. – Quem é essa preciosidade sorriso fantástico?

— O seu rosto dói?

Um sobressalto na alma de Regina a incomoda. Por que a menina tinha de perguntar aquilo?

— Minha alma dói mais. Por que tenho a honra de receber tantos habilidosos dentro de meu castelo? Vieram dominar Oz?

— Viemos em paz, Majestade. – Belle sorri e observa a mulher virar o rosto em sua direção. Vê o olho escuro mover-se por trás da máscara. – Precisamos de ajuda para libertar duas pessoas de nossa família e um amigo.

— Eles estão aqui em meu reino?

— Em algum lugar. Precisamos encontrá-los e leva-los de volta para nosso reino.

Regina afirma com a cabeça.

— Vamos deixar assuntos mais delicados para depois do jantar. – ela se levanta. – Devo deixá-los agora, porque costumo jantar noutro ambiente. Estarei de volta em duas horas e então poderemos conversar e dançar um pouco.

Ela se retira da sala e deixa um silêncio sepulcral entre os hóspedes. Dashiel tenta amenizar a grosseria da anfitriã.

— Regina não aprecia companhia durante sua alimentação.

— Como consegue viver num castelo um tanto... – a mão de Killian gira no ar várias vezes, como se tentasse apanhar alguma palavra solta.

— Bizarro? – Dashiel sorri para a pergunta do pirata. – Humanos são universais e adaptam-se ás condições mais adversas. Sou protegido e nada de mau irá me acontecer, enquanto Regina estiver aqui.

— E quando ela não estiver mais aqui? – Killian abaixa os cantos da boca rapidamente. – E se surgir um homem por quem ela se apaixone e a leve embora?

Dashiel parece aguçar sua audição, olha rapidamente para uma das entradas do salão de jantar e mostra-se incomodado com alguma presença que rodeava o ambiente. Observa vultos escuros passarem pela porta aberta.

— Desculpem-me, mas ainda me sinto incomodado com esses sátiros.

Era um momento propício e Killian não desperdiça a oportunidade para divertir-se um pouco. Faz um gesto discreto e em seguida ouve alguns gritos e trotes vindos do corredor. Os sátiros tinham sido atingidos e espantados por algo que os agulhava, mas que não conseguiam ver.

— Sátiros dentro do castelo? – Verena se interessa. — Não são perigosos?

— E sou o único que não oferece perigo algum aqui dentro...mas não sei até quando. – o oleiro responde suavemente.

Momentos mais tarde, dois sátiros assustados estão sentados e bem comportados num dos cantos do salão de festas, tocando seus instrumentos para que os convidados pudessem dançar um pouco. As criaturas lançavam olhares assustados na direção de Killian, porque o haviam reconhecido como um Dark One. Bonito, mas muito perigoso e zombeteiro.

Enquanto Killian se divertia com Robin, o anfitrião Dashiel conduzia Verena em uma aula de dança improvisada, deixando Regina sentada ao lado de Belle.

— O seu Capitão não é um mero capitão, não é, querida? Ele exala poder e arrogância. Posso sentir que ele tem poderes.

— Killian é um pirata muito velho e já viveu até na Terra do Nunca. O corpo dele não é como o corpo de humanos comuns. Mas ele não é um homem mau.

— Não lhe disse isso, criança. Apenas afirmei que consigo sentir o poder que emana dele, embora queira lutar contra isso. Quem sabe se esse Capitão pirata possa me ajudar a quebrar essa maldição e devolver-me o rosto sadio.

— Seria uma honra para todos nós. – Belle toca a mão da Rainha e a vê repudiar discretamente o toque. – Em meu reino, fomos atingidos por uma maldição que nos manteve presos por vinte e oito anos, e que foi quebrada pelo beijo do amor verdadeiro. Espero que essa maldição também seja quebrada com algum ato de amor verdadeiro.

O som abafado de uma risada é a primeira resposta de Regina.

— As maldições são lançadas, porque quem as lança nunca foi amado de verdade. Por não acreditar no amor verdadeiro, imagina que sua obra seja perfeita e indissolúvel, quando determinam que o sentimento é a única arma para acabar com o mal. Mas se enganam, porque sempre há alguém com o coração disposto a amar alguém... exceto em meu caso.

— Por que diz isso?

Com movimentos leves, Regina retira a máscara e exibe seu rosto tenebroso para a mulher menor. Sorri ao ver a reação de pânico e piedade dela.

— Isso responde a sua pergunta, meu doce? Qual é o homem que sentirá amor verdadeiro por uma besta que devora animais vivos e que perderá a razão humana em menos de seis meses? – ela recoloca a máscara. – Quando eu era jovem e bonita nunca fui amada. Agora, que envelheci e estou deformada, tudo o que consigo é a companhia forçada de meu Dashiel.

A jovem olha na direção do príncipe e o encontra com olhares furtivos para Regina, como se tentasse entender o teor da conversa.

— Por vinte e dois anos tenho lutado pelo amor desse homem, mas nunca o consegui. Então, decidi conseguir esse homem à força e tudo o que ganhei foi medo e ódio dele. O tempo vai passando e vou tornando-me mais monstruosa...

— Sua alma não me parece monstruosa, Majestade.

— Sinto que você consegue sempre ver o lado bom das pessoas, pequena. Hoje durante as audiências, condenei um camponês estuprador à morte por desmembramento. Ocorrerá em uma semana e em praça pública. Isso é decisão de uma alma boa?

— A senhora poderia reconsiderar a sentença.

— E abrir procedência para outros e outros casos de ataques às jovens moças? Acha mesmo junto? – ela aponta para a jovem. – Se fosse você a Rainha deste reino, como resolveria isso?

— Apelaria para as leis locais. Prisão por muitos anos e...

— Quando ele sair da prisão, cometerá outros e outros crimes por estar com raiva da punição que recebeu ou por ter sido ainda mais envenenado dentro das masmorras. – Regina move sua cabeça e observa a dança de Verena e Dashiel. – Sua amiga está apertando muito as costas do meu homem amado. Ela quer morrer ou quer saber qual de nós duas possui mais poderes?

Rapidamente Belle estende as mãos e pede tolerância para a Rainha que sequer a havia reconhecido. Levanta-se e pedindo licença, vai trocar o par de Dashiel, enviando uma mensagem de cuidado para Verena, que entende de pronto.