Meu final feliz
18 Capítulo 18
Mais outro dia é usado na caminhada. Tinham de conhecer o novo território antes de arriscarem uma chegada frontal ao castelo. As moradoras do palácio deveriam conhecer o grupo que se aproximava e saber que não estariam enfrentando adversários ou visitantes desprotegidos. Param num espaço sob as árvores e decidem descansar. Precisavam comer e beber, além de montarem vigia.
— Por que você quer que eu o chame de papai Killian? – Robin se senta ao lado do pirata e recebe um prato de ensopado. Ela estava maior do que a algumas horas. – Você é meu pai e pronto!
— Seu pai verdadeiro é Robin de Locksley, um ladrão honrado que morreu lutando por nosso povo. Você ficou com sua mamãe, mas ela teve de ausentar-se um pouco.
— Então, Killian assumiu a deliciosa função de cuidar de você. – Belle estende a mão e acaricia o rosto de Robin, que exibe seu sorriso com todos os dentes. – Eu ajudei um pouco.
A menina se exibia como se fosse uma garota com cerca de dez anos e parecia crescer a cada momento. A atmosfera daquele reino agia de maneira estranha sobre o corpinho dela.
— Eu tive muito medo de ser abandonada outra vez.
Belle e Killian se entreolham.
— Minha mãe foi embora e fiquei naquela cabana, sozinha. Amei o momento em que você veio me pegar e voltei a ficar triste quando me deixou com as fadas.
— Você se lembra disso?
— Sim, papai Killian. Mas fiquei feliz de novo, quando você entrou naquele quarto no convento e levou-me embora. Vamos mesmo ficar com Roland em nossa pequena família?
Killian estende os braços e recebe a menina nelas. Beija-lhe os cabelos amarelos e consegue ver Emma com aquela idade tenra.
— Nossa família não é pequena, amor. Temos muitas pessoas e poderemos conseguir mais pessoas para formarmos uma grande família. E nossa missão é proteger um ao outro, inclusive sua tia Regina e sua mamãe Zelena.
— Esta é minha família. – ela sorri. – Esquisita, mas é a minha família.
Verena retorna correndo e gritando, agitando as mãos e alertando a todos sobre mais uma presença ameaçadora.
— Monstro com cauda de escorpião! Protejam-se! – ela faz um rolamento pelo chão e dispara algumas flechas na direção do bicho, acertando-o mas não causando tanto dano.
Killian gesticula e protege o grupo sob uma redoma, enquanto tenta entender que coisa era aquela. O bicho tinha uma aparência impressionante!
— Mas que coisa é essa?
— Com cara de um homem, corpo de leão, cauda de escorpião e asas de morcego, Mantícora é uma criatura que dispara rajadas de espinhos venenosos como setas de uma besta. – Belle fala e espalma as mãos na parede da redoma. Ela sorri. – É uma criatura mitológica e é linda!
— Sim, tia Belle...é linda!
— E como lidamos com essa belezura? – Killian fica estático e sem ação. – Sabemos até lidar com o Crocodilo, mas... e com isso?
Belle começa a andar de um lado a outro e a resmungar.
— Vamos, Belle! Pense logo! – pede Verena observando a redoma sofrer falhas.
— Paciência é uma virtudeeee! — a bibliotecária fala com modulações na voz.
— Mas agora não é naaão! – a soldada debocha, mostrando-se apavorada.
— O Daemonolatreia de Nicholas Remigius, escrito em 1595, menciona essa entidade dando a ela o status de um demônio da ira. Já o Saducismus Triumphatus de Joseph Glanvill comenta que essa besta é um espírito sangrento devotado a vingança. Nenhum dos dois livros contém rituais para a invocação da criatura. Dentre os tomos blasfemos do Mythos, apenas o incrivelmente raro Nyargho Codex contém uma descrição apurada do manticore e uma perigosa magia que permite sua invocação. O ritual decorre de uma modalidade obscura de magia negra africana, praticada no leste do continente. – a bibliotecária fala sem se preocupar se estava ou não sendo ouvida pelos companheiros. Precisava pensar e encontra ruma solução.
Killian assume sua postura de suricato e olha incrédulo para a jovem. Vacila alguns segundos na produção da redoma, porém, logo assume seu controle.
— Faça o resumo da ópera, Passarinho, por favor!
— Preciso deste livro, Killian!
Todos ficam em silêncio.
— Livro?? Que livro?? Ler numa hora dessas??
— Killian, eu preciso do livro Nyargho Codex! – Belle grita quando várias setas lançadas pela criatura atingem a estrutura da redoma. Ela agarra as golas do pirata e pula seguidas vezes. – Preciso do livro!! Consiga-o para mim!!
Posicionando-se do lado do pirata, Verena assume o controle da redoma. O pirata se larga no chão, sentindo-se cansado e zonzo. Fica pensativo e tenta pensar como se ainda fosse um Dark One, evocando memórias e algum modo de conseguir o pedido de Belle.
— O que meu Crocodilo faria nessa hora? – ele fecha os olhos, vasculhando as memórias das bibliotecas que havia visitado durante suas jornadas. Sorri ao lembrar-se da imensa biblioteca de Alexandria. Como se estivesse naqueles corredores, visualiza as prateleiras e encontra o tomo do livro. – Aqui está!
Belle avança como se fosse uma fera e retira o livro das mãos do pirata. Senta-se no chão como se fosse uma criança. Vasculha as páginas com fome e procura pela invocação escrita ali, antes que o livro fosse dissolvido.
— Aqui está! – ela grita. Começa a ler rapidamente, pronunciando palavras em um idioma estranho. – Pronto, vai acontecer!
— E o que vai acontecer? Não. Não precisa me responder...
Os olhares se voltam para a criatura furiosa lá fora, quando algo acontece: outra criatura surge do meio do nada, emite um rosnado metálico e avança num ataque. As duas criaturas começam uma luta animalesca e bizarra, enquanto Belle grita para que o grupo providencie a sua saída dali o mais rápido possível.
— Invocar outra criatura?! Essa foi sua melhor ideia? – Killian passa correndo com Robin nos braços.
— Eu queria algo que enviasse a criatura para longe de nós, mas foi o que deu para fazer!
— Calem a boca e corram, seus miseráveis! –Verena é rápida e ultrapassa a todos na carreira.
Nos primeiros raios do sol, o grupo consegue encontrar uma fonte de água doce dentro de uma pequena caverna. Teriam de descansar as pernas depois da fuga. O que teria acontecido com aquelas coisas espinhentas?
— Morte por envenenamento, mas de tudo o que tinha vida naquele perímetro. Elas lançam espinhos peçonhentos e trocaram farpas. Morrem com o próprio veneno, dissolvem-se e são soltas no espaço até que alguém encontre o livro e faça uma invocação. – Belle molha o rosto e os cabelos.
— Então, destrua o livro.
— Não tenho como destruir, Killian. Quem o trouxe deve mandá-lo de volta. Mas sugiro que fiquemos com ele, porque pode ser útil caso nosso plano de resgate não dê certo.
— Plano de resgate? – a soldada se volta para o pirata. – Temos um plano de resgate, certo?
Ele dá de ombros e mantém a cabeça baixa, riscando a terra no soalho da caverna.
Sentada no chão, Robin folheia o livro e sente-se enjoada pelo cheiro das páginas. Empurra o livro para longe e repugna-se.
— Deixe esse livro enterrado aqui mesmo. – a menina dá de ombros. – Caso alguém o encontre...o que poderemos fazer?
Apanhando o livro e o guardando dentro de sua mochila, Verena se certifica que o objeto estava seguro.
— Poderá ser útil em algum momento e depois quando retornarmos, Killian poderá enviá-lo de volta à sua prateleira. – opina Verena. – Sugiro que poupemos mais os nossos poderes e usemos mais as nossas habilidades como pessoas comuns. Imaginem se nenhuma de nós tivesse habilidades?
— Eu voto pelo sepultamento do livro aqui mesmo. – o pirata também se enjoa com o cheiro do livro.
Ao despertar de seu cochilo, momentos depois, Killian sorri ao ver o lindo sorriso de Robin. Ela estava velando seu sono e acariciava sua franja com cuidado. Como aquela garota era apaixonante! Por que ele tinha sido agraciado com aquele pequena boneca de sorriso valioso? Quem lhe dera tamanhão presente? E misturando a tudo isso, ainda iria ver sempre o sorriso lindo de Roland e suas covinhas nas bochechas. Seria sua linda família!
— Você está com fome, papai?
— Muita fome, amor. – ele toca os cabelos da garota. Ela havia crescido ainda mais. – Você é tão linda, minha querida...sua mãe ficará orgulhosa ao vê-la como está.
— Precisamos comer e retomar nosso caminho. – ela fica em pé e abre os braços. – Viu como eu cresci um pouco mais?
Killian fica sério e estende a mão para a garota.
— Robin, eu acredito que você não precise precipitar as coisas por medo de ficar sozinha. Não tire de você o direito de ser criança, apenas por temer o afastamento das pessoas. Estarei aqui ao seu lado, para cuidar de você e de Roland, até que sua mãe possa assumir a função. Olhe em volta e veja quantas pessoas você tem, agora.
— Sendo adulta, eu poderei me defender.
Ele nega com a cabeça.
— Deixe-me lembrar o objetivo de nossa missão, meu amor: estamos aqui para resgatar três adultos que não souberam e não conseguiram defender-se. Ser adulto não é sinônimo de ser autossuficiente, amor. – ele ergue o braço e exibe o gancho. – Eu já era adulto quando isso me aconteceu.
— Então, tenho de ser como o Peter Pan e não querer mais crescer?
Um sorriso malicioso surge nos lábios bonitos do pirata. Ele nega.
— Quer ouvir a verdadeira história de Peter Pan?
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