Meu final feliz
27 Capítulo 27
Todos estão reunidos em torno de uma mesa em um dos cômodos. Conversavam sobre assuntos diversos, até a chegada de Regina ao lado do pirata.
— O baile será daqui a duas noites. – ela fala e se senta à cabeceira da mesa.
— Com o risco de ataque, você ainda quer fazer um baile e abrir as portas do castelo aos revoltosos? Está colocando muito crédito em seus poderes. – Verena continua afiada.
Regina não responde. Apenas fixa seu olhar frio no rosto da outra mulher.
— Sabemos do risco de ataque, sobretudo, porque há uma arma letal contra a Rainha.
— E iremos oferecer a vida de Regina em uma bandeja, Capitão? É sua proposta?
— Não, Príncipe. O que eu gostaria de propor é um desafio que pode salvar a todos ou matar a todos. Iremos colocar nossas cabeças sobre uma bandeja e que vença o mais sortudo.
— O que exatamente você está pensando, Killian? – Belle se interessa.
O pirata abre um alforje e vai entregando aos seus companheiros, um frasco minúsculo feito de vidro. Presa do lado de dentro da tampa, uma agulha fina poderia ser vista.
— A arma que a irmã de Dashiel possui é uma seta poderosa quando for umedecida com o sangue do alvo. Ela exigiu que nosso Príncipe conseguisse o sangue de Regina, mas a morte de nossa Rainha não é solução para nossa situação. Caso não nos livremos da situação, a situação irá livrar-se de nós e de todos que saíram ou que ainda vivem em contos de fadas.
— O que sugere, Capitão? – Zelena apanha o frasco e olha-o sem querer ouvir a resposta.
Killian espreme os lábios e levanta as sobrancelhas grossas.
— Todos nós iremos pôr uma gota de sangue dentro do seu frasco. Depois, eles serão postos no alforje e somente um será sorteado para ser entregue à líder dos revoltosos. Vamos saber se ainda há resquícios de humanidade dentro de nossos corações ou se estamos aqui por egoísmo à possibilidade de nosso próprio prazer.
Um burburinho começa entre as pessoas ali. A ideia era absurda demais para ser levada adiante.
— Certo! E se o sangue escolhido for o meu? – explode Zelena. – Acredita que alguém chorará a minha morte?
— Todos nós devemos fazer a mesma pergunta, Verdinha. Mas caso você tenha tanto medo de não ter a morte chorada, eu poderei tirar seu coração. Mesmo que a seta a acerta, você não morrerá. É o que quer?
— Então, tire o coração de todos nós. – sugere André que estava num canto da sala.
Erguendo o dedo indicador, Killian nega e sorri.
— O que eu quero saber é se entre nosso grupo, os sentimentos ainda são fortes a ponto de revertermos a maldição. Caso eu tire o coração de todos, ninguém se preocupará e descobrir no fundo de sua alma, onde ainda vive o amor. Vão pensar: eu não vou morrer mesmo, então, porque precisarei refletir sobre a existência do amor em mim? Ou mesmo tentar resgatar o amor em sua alma?
— É pura insanidade, piração, loucura, mas tem lógica. – Verena concorda com um movimento de cabeça. Retira a tampa do frasco e observa a agulha fina. – Posso ser a primeira.
Com um gesto suave, o pirata faz surgir diante de cada uma das pessoas, um pequeno pires com um líquido branco.
— Mergulhem um dos dedos no ópio e esperem alguns segundos. Evitará maiores dores e medo.
Robin aponta o dedinho rechonchudo na direção do pirata e sorri.
— Você furaria meu dedo, papai?
— Por que a menina precisa ser exposta a isso? É horrendo?
Os olhos celestes e perversos do pirata se fixam no rosto bonito de Zelena. Encaram-se por longos segundos.
— Ela será exposta a coisas piores, caso não tomemos uma atitude. Mas para livrá-la das trevas que se instaurarão, posso matá-la agora. Quer isso?
— Não há necessidade, seu bruto. É uma vida! – rebate Zelena falando com os dentes travados.
— Deveria ter pensando nisso, antes de criar esse circo de horrores, sua estúpida! – ele bate forte na mesa e mostra-se cada vez mais impaciente. – Não precisa pôr seu sangue no frasco! Não esperaria outra atitude de sua parte!
Uma a uma, as pessoas vão furando seus dedos e depositando seu líquido vital dentro do frasco, inclusive André. A pequena Robin tem o dedinho furado com muito zelo e depois recebe um beijinho nele, como forma de amenizar a dor.
Todos os frascos fechados e são colocados dentro do alforje e delicadamente misturados. Depois, Killian apanha o Cupido e o coloca sobre a mesa para que ele retirasse o frasco que seria entregue para Clara. A estátua rechonchuda enfia a mão gorda dentro da bolsa e apanha um dos frascos, entregando-o para o pirata.
— Agora, precisamos de seu poder de persuasão, Dashiel. Venha comigo!
O Príncipe se levanta e segura a mão oferecida pelo pirata. Em seguida, os dois são envolvidos por uma nuvem de fumaça e desaparecem diante dos olhos de todos. O Cupido bate palmas.
A casa grande é observada pelo lado de fora, em meio à escuridão da noite. Dashiel dá o primeiro passo em direção à porta e toca o sino, anunciando sua chegada. Olha Killian por cima do ombro e o vê mudar de roupas, cobrindo-se com algo mais apropriado a um serviçal acompanhante.
Tomando o irmão nos braços, Clara o envolve com beijos demorados. Depois o conduz para dentro da casa, mas não sem antes olhar gulosamente para o belo serviçal que o acompanhava. Que belo homem era aquele? Iria ser poupado quando a Rainha fosse morta, apenas para ser mantido com um magnifico consorte da nova Governadora. Ela ri com a hipótese.
— Precisamos conversar, minha irmã.
— Eu sabia que você não negaria o seu sangue e o seu parentesco, Dashiel. Nós nos conhecemos antes, muito antes daquela bruxa entrar em sua vida.
Um sorriso triste emoldura os lábios finos de Dashiel. Ele se senta e não se preocupa em convidar o pirata a fazer o mesmo. Inconscientemente, ele agia com sua postura esnobe, típica dos nobres.
— Regina usou subterfúgios sobrenaturais e...tivemos uma noite intensa de intimidades sexuais...
— Você trepou com aquela cadela???
Killian explode numa tosse e quase se engasga com a própria saliva. Cobre a boca e afasta-se para continuar tossindo.
— Não gosto desses termos. Por favor, poupem meus ouvidos de tanta vulgaridade.
Clara se levanta e apoia as mãos nas pernas do irmão. Inclina-se para frente e aproxima bem o rosto do rosto dele.
— Vulgar ou eloquente o que importa? Aquela víbora maldita ousou tocar o seu corpo e não foi transformada em pedra! Deve ter usado truques sujos, típicos de monstros como da casta dela! Esse será mais um item que irei cobrar, quando cravar a seta dourada no coração daquela Besta! E mesmo que ela tire o coração do peito, a seta irá descobrir onde ele está escondido e irá ser cravada nele!
— Foi por isso que eu vim trazer o que me pediu.
Clara se empertiga e apoia as mãos na cintura. Sorri.
— Você agiu bem, meu irmão. Eu darei a ordem de poupar sua vida e a vida de quem mais você desejar. Eu a matarei na frente de testemunhas durante o baile. Mesmo não tendo sido convidada, eu iria de qualquer jeito.
— Agora está convidada. – Dashiel sorri e entrega o envelope para a irmã. – Convenci Regina a permitir que você se sente à mesa com os convidados mais próximos. Não ficará apenas no salão com os outros festivos
Afastando-se do irmão, Clara vai até um móvel e abre uma das portas, retirando uma pequena caixa em madeira clara. Abre-a e exibe seu conteúdo.
— Mandei forjar três setas. Caso uma falhe em seu trajeto, sendo impedido pela magia da bruxa, as outras serão disparadas. A Rainha Monstro não escapará.
— E posso saber como você entrará armada no baile?
— A ordem será dada, mas não será a minha mão a disparar. – ela sorri e estende a mão, pedindo objeto valioso.
Com movimentos seguros e elegantes, Dashiel se levanta da poltrona e pede a aproximação de Killian, com um gesto suave, mas imperativo. O pirata sorri e reverencia o homem, reconhecendo sua postura aristocrática e nobre. Entrega o pequeno frasco para o príncipe.
— Aqui está, minha irmã. Foi tudo o que consegui durante a noite em que...
— Não quero detalhes, meu irmão. Somente a ideia de que saber que ela ousou macular o seu corpo, provoca nojo em mim. Apenas espero que os momentos de prazer que ela lhe proporcionou, não tenham afetado sua alma. – Clara se afasta e guarda o frasco junto às setas, escondendo a caixa no móvel. – Jamais se esqueça de que ela transformou sua esposa em uma estátua e ...
— Regina fatiou o corpo de minha esposa e expos os órgãos vivos aos meus olhos. Depois arrancou o coração de minha amada e esmagou entre os dedos, criando apenas um punhado de poeira branca.
Estática, impressionada e horrorizada, a mulher não consegue falar nada. Passa os olhos para o rosto do pirata e depois para o rosto do irmão. Nega com a cabeça.
— Nós nos veremos no baile, meu amado irmão.
Naquela mesma noite, Killian e Dashiel estão sentados diante da lareira. Bebiam vinho e observavam os movimentos do fogo, cada qual perdido em seus pensamentos.
— Você ama alguém, Killian?
— Amo uma mulher que me ensinou a ser um homem melhor. Por ela, comecei a fazer parte de algo maior e menos mesquinho. Mas creio que ela está me odiando agora, porque evitei que visse nesta aventura que poderá custar minha vida.
— Mas você poupou a vida dela. Seria mais uma alma aprisionada neste castelo.
— Sim. Porém, eu tenho de conseguir vitória para que aqueles a quem ela ama, não sejam condenados à morte em vida. – Killian bebe mais um gole do vinho e move a cabeça ao ouvir passinhos chegando perto. – Olá, amor! Por que não está dormindo?
Robin se aproxima, sorri para o príncipe e vai sentar-se nas pernas no pai. Abraça-o com propriedade.
— Eu dormi desde que você saiu com Dashiel. Mas acordei e quis ficar com você.
— Já escolheu sua roupa para o baile?
Ela dá de ombros e mantém o sorriso apaixonante.
— Como é a sua amada? – Dashiel quer retomar a conversa.
— Linda, forte e apaixonante! Emma Swan me fez encontrar um lar para o meu coração. – um sorriso apaixonado comprova um coração lotado de amor. – Caso ela estivesse aqui, eu poderia sacrificá-la apenas para provar a pureza do meu amor e todos seríamos salvos. Parece cruel, mas é a verdade.
Não há resposta do príncipe. Ele abaixa a cabeça e fica pensativo, até que pequenas lágrimas cristalinas começam a rolar pelo seu nariz longo. Ele funga algumas vezes.
— Crueldade foi o que Regina fez à minha esposa. Transformou-a em uma estátua com órgãos vivos dentro dela. Manteve a mulher viva, encarcerada em uma pedra esculpida. Para mostrar seu poder, cortou-a com um machado e os pedaços caíram no chão, exibindo um corpo humano vivo e mutilado, esguichando sangue quente...Regina a deixou em pedaços por horas ou dias não sei mais...depois, arrancou o coração dela e espremeu entre os dedos. Sem arrependimento, ela limpou a poeira da estátua nos tecidos de seu vestido. Por fim, Regina ainda quis saber se eu a amava, depois de tudo o que a vi fazer contra minha amada.
Robin estende a mão e toca os cabelos cacheados do príncipe. Queria consolá-lo, mas ele era muito grande para caber em seu colo.
— Por que tamanha crueldade?
— Não era Regina. Era a Fera.
— Eu espero que o frasco sorteado tenha sido com o meu sangue. Não quero mergulhar na loucura que tanto tenho medo. Não sei mais o que é real e o que não é.
E a noite termina.
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