Meu final feliz
15 Capítulo 15
Nos dias seguintes, em todas as manhãs, Dashiel encontrava roupas elegantes em seu quarto. Deveria vestir-se como se fosse um príncipe e manter-se aprumado para apresentar-se à Rainha logo nas primeiras horas da noite, para o jantar. Sempre silencioso, ele se alimentava e a observava tocar músicas intermináveis naquele cravo de madeira escura. Depois, ela começava a ler poemas em velhos livros e somente se recolhia quando a madrugada avançava.
Ela somente despertava depois da oitava badalada do carrilhão, após a meia noite. Era quase um ritual, segundo havia dito. E Dashiel sabia que as primeiras horas do sol eram apavorantes para o rosto deformado da Rainha.
Naquela madrugada, Dashiel não se recolhe ao seu quarto. Termina sua missão de ouvir aquelas músicas assombrosas e aqueles poemas indecifráveis, ficando na expectativa de ouvir todo o silêncio que domina aquele castelo com móveis vivos. Por algumas horas ele aguarda estático, como se fosse uma daquelas estátuas em pedra porosa, ansioso pela chegada dos primeiros raios do sol e com eles a possibilidade de afastar-se do castelo sem que fosse percebido de imediato.
E é o que faz. Controlando sua ansiedade e seu medo, Dashiel sai do castelo sob o céu ainda em tonalidade azul mesclado de laranja. O arrebol era o melhor momento para empreender uma fuga, mesmo que ela durasse apenas poucas horas de liberdade. E ele segue para fora, passando pela tenebrosa fileira de soldados de areia, adormecidos enquanto sua Rainha também estivesse adormecida.
No horário estabelecido pelo seu corpo, Regina desperta e encontra seu desjejum sobre uma mesa em seu quarto, como era de praxe. Os serviçais eram orientados a não perturbarem a Rainha e faziam todo as tarefas, saindo rapidamente pelas inúmeras passagens secretas, a fim de não serem vistos e provocarem ainda mais fúria na alma da mulher.
— Ele não está em seu quarto, Majestade. – o único serviçal a ter a permissão de aproximar-se de Regina era um velho cuidador do Rei. – Levei as roupas e fui apanhar as vestimentas de ontem, preparar o banho e o desjejum, mas o jovem Dashiel sequer dormiu em sua cama.
— Como sabe disso, André? Ele pode ter ido caminhar pelo jardim.
— O jovem Dashiel sequer desarrumou os lençóis e não há vestígios das roupas usadas ontem, Minha Flor de Lotus. Lamento informar, mas ele conseguiu sair do castelo e deduzo que se aproveitou das horas de transição entre a noite e o dia.
Crispando as mãos, Regina controla o ímpeto de transformar-se numa fera e correr pelos campos atrás de sua presa. Como ele havia ousado desafiar as ordens? Ela havia sido cortês e comportara-se como se fosse ainda aquela dama de outrora! Para que? Para que o desgraçado fugisse como se fosse um rato ladrão?
A imagem de Zelena surge em um espelho grande numa das paredes.
— O seu passarinho fugiu da gaiola de ouro? – ela gargalha. – Você está ficando frouxa, irmãzinha! Não consegue manter um simples oleiro sob sua tutela? E de quer serve aqueles monstros cheios de areia e os outros guardiões do bosque e do pântano? Eles precisam ficar acordados até quando você está dormindo! Use seus poderes!
— Cale-se, Zelena!
— Eu lhe dei conselhos para ser suave com aquele belo homem, mas não lhe sugeri que se tornasse cega pela beleza dele. Pensou mesmo que algumas músicas horrendas e alguns poemas rascunhados fossem impressioná-lo? – outra risada debochada é ouvida. – Tente ser profunda! Tocar cravo é a coisa mais ridícula que já fez, mesmo porque nem tocar direito você sabe! Seja uma dama na essência da palavra, coisa feia! Além de ser uma monstruosidade, ainda quer ser considerada estúpida e amadora?
Regina gesticula e torna-se vestida em roupa de cavalaria. Iria atrás de sua nova aquisição e daria a ele uma lição da qual jamais se esqueceria.
— Localize-o, Zelena!
A mulher dentro do espelho sorri e permite que sua imagem se dissipe em uma nuvem clara. O velho serviçal não concorda com tamanha devoção para infernizar a vida de Regina, mas não se atreve a intervir no relacionamento doentio das irmãs.
Diante dos olhos de Regina, as imagens de Dashiel dentro de uma igreja abandonada, surgem nítidas. Ele estava sorrindo e acariciava uma estátua de uma mulher, sentada sobre algo que parecia ser um pequeno bando redondo. Ele se senta ao lado dela e retira um livro de dentro de um alforje e começa a ler um poema para a estátua, como se ela pudesse ouvir.
— O que significa isso? Ele é demente?
— Por que você não vai até e pergunta pessoalmente, irmãzinha Rainha?
André se aproxima da Rainha e tenta apaziguar a situação.
— Deixe-o retornar, Majestade. Tenho certeza de que ele não fugiu, mas apenas saiu. Depois que fizer o que precisa fazer, irá retornar para casa. Ele sabe que caso tente fugir, toda a família pagará com a vida. Apenas dê tempo ao tempo.
— Conversa! Vá atrás dele e pegue o que é seu! Caso você o perdoe, hoje, ele fugirá sempre e sempre para cada vez mais longe! Está amolecendo o coração por causa de um consorte com quem sequer conseguiu dormir? – Zelena bate palmas.
André apenas observa desta vez. Não iria contrariar a irmã da Rainha ou atrairia a raiva sobre si. As duas deveriam entender-se.
— O que está esperando??? – Zelena grita tão alto que o som de sua voz provoca tremor das peças que estavam sobre os móveis. – Vai criar a fama de fraca e a fuga do seu novo consorte será piada entre seus súditos! Acha que eles terão medo de uma Rainha que não controla os passos do próprio futuro marido? Nossa! Mas que merda de fera! Dá tanto medo!
Regina abaixa a cabeça e rosna como se a fera começasse a dominar sua razão.
— Ridícula! Uma Rainha que cria guardiões depois de vê-los nas páginas de livros?? Rainha Fera? Uma rainha porca!! – novamente Zelena gargalha. – Há quanto tempo não vê um homem nu em sua cama, exceto aqueles os quais você mata com suas garras contaminadas? É uma questão de tempo, o belo Dashiel ser mais um corpo sem vida enfeitando seus lençóis de seda ou apodrecendo seu quarto! Ou você vai deixá-lo viver, depois deste desrespeito?
— Cale-se!
— Ele trocou uma mulher viva por uma estátua? Ora, mas a estátua tem rosto perfeito...enquanto você carrega essa meleca derretida no lugar da beleza que tinha! O que você tem em comum com a estátua? Apenas o olho sem pupila!
Uma explosão de fúria é a resposta de Regina. A fera estava viva e arrebenta a vidraça, saindo por ela, deixando um rosnado alto como sinal de sua raiva.
André não diz nada. Apenas ouve Zelena gargalhando.
Noutro ponto depois do bosque, Dashiel se entretinha com a leitura de mais um poema daquele livro retirado da biblioteca de Regina, sem autorização. Com respeito e paixão, o homem continua em sua tarefa amorosa, como se sentisse que a estátua conseguisse ouvir e sentir o mesmo gozo pelas palavras doces do autor.
— Quando a hora sobra em triste e tardio toque/ E em noite horrenda vejo escoar-se o dia/ quando vejo esvair-se a violeta ou que a prata a preta têmpora assedia.— Dashiel sorri e pretende continuar, mas o som da parede sendo quebrada o toma de assalto e ele acaba caindo sentado no chão empoeirado. – O que é isso??
A criatura trajando as belas roupas de Regina surge furiosa e rosnando como os lobos famintos das florestas. Não era uma visão agradável, sobretudo, quando ela faz surgir um machado de lâmina afiada e brilhante.
Dashiel grita e avança como se sua força física tivesse alguma chance contra a Fera arrepiada e gigante que havia invadido seu espaço secreto. É golpeado por um soco, porém não se detém. Engalfinha-se com o monstro, apenas para ser atirado longe e estatelar-se contra a parede fria e suja.
A Fera rosna e começa a golpear impiedosamente a estátua, quebrando-a ao meio. A parte que cai, mancha o chão e as roupas da criatura com sangue vermelho, provando que havia algo vivo dentro da pedra. Antes que pudesse entender o que havia acontecido, a Fera é atacada por Dashiel que grita, vocifera e a agride com a irracionalidade dos que desconhecem sua fragilidade.
A lâmina trabalha novamente e em meio à luta, o antebraço de Dashiel é decepado, provocando jatos de sangue contra a estátua e contra a Fera. O homem cai próximo à metade de baixo da estátua, gemendo pela dor e pela raiva de sua impotência por não ter conseguido proteger a estátua que empapava o chão com seu sangue fresco.
Regina assume o corpo, adormece a Fera e observa horrorizada a cena naquelas ruínas. Ajoelha-se e toca o rosto do homem, que começa a entrar em estado de choque pela perda de sangue. Reagindo instintivamente, Dashiel a agride, mas seu soco atinge o vácuo.
Quando ele abre os olhos pela primeira vez, observa Regina sentada ao lado cama com o queixo apoiado na mão. Junto dela, um homem de pele escura olhava na direção do homem deitado na cama.
— O que houve, Rainha?
— A estátua sangrou.
— Por isso cortou o braço dele?
— O braço estava no lugar errado e não controlei a força com que abaixei o machado.
Ao abrir os olhos pela segunda vez, Dashiel sente o frescor de água embaixo de seu corpo. Estava sendo mergulhado em água fria e estava reconfortante. E da terceira vez em que abre os olhos, ele já se sente muito melhor e fortalecido, conseguindo perceber que seus braços continuavam intactos.
Levanta-se da cama e observa o quarto silencioso. Olha as mãos e não se depara com irregularidade alguma. Algo tinha sido feito e o braço decepado estava em seu lugar novamente ou aquilo tinha sido o mais horrendo dos pesadelos? Chega à janela e observa que o gelo havia tomado conta dos arredores do castelo horroroso, como se fosse uma forma de proteção ou de impedimento para nova saída.
Olha por cima do ombro e vê a roupa preparada para o clima daquele dia. Veste-a e sai do quarto, sentindo-se estranhamente fortalecido, embora se lembrasse de ter perdido muito sangue. Havia perdido mesmo? Não hesita e caminha pelo imenso salão que iria conduzi-lo a uma saída lateral do castelo, onde um pequeno lago estava enfeitado por folhas e flores em sua chegada, mas ocupado por gelo naquele exato momento.
Ele abre as portas imensas e respira o ar gelado vindo daquela falsa mudança climática. Tudo ali era uma farsa, inclusive seu braço restaurado. Sem pensar começa a correr por cima do lago congelado e sem olhar para trás não percebe que imediatamente começa a ser perseguido.
Correndo sem preocupar-se com perigo silencioso o estava seguindo, Dashiel não consegue evitar que as mãos poderosas da Fera o detenham contra o gelo, obrigando-o a ficar deitado ali. Ambos se encaram furiosos.
— Eu serei a sua perdição, Rainha Maldita!
A Fera se levanta e deixa-o deitado ali. Ela vestia um belo casaco em lã de ovelha e parecia muito aquecida. Empertiga-se e olha-o com o mais absoluto desprezo com aqueles olhos escuros e dentes pontiagudos.
— Morra congelado, verme infame!
Dashiel permanece deitado e crispando as mãos ao lado corpo, grita. Mas grita tão forte quanto ele consegue, tentando mostrar que seu grito poderia ser mais potente que a dor que estava sentindo pela quebra da estátua viva. Agora, ele consegue chorar pela sua perda e chora ruidoso como se fosse uma criança.
Mas o ruído forte de um grito rouco misturado ao som de gelo quebrando-se, atrai sua atenção e ele se senta na superfície do lago, apenas para ver a Fera afundando-se na água gelada, começando a lutar contra seu peso e a confusão de tecidos do vestido e do casaco.
Desta vez, quem desperta sobre a cama quente, protegida por cobertores felpudos e pesados, é Regina. Ela se sente febril e angustiada. Ao seu lado, André a observava com olhos complacentes e protetores.
— O...que h-houve? Minha gar-garganta dói...
— A senhora caiu no lago congelado da ala norte do castelo. Afundou-se e teria morrido, não fosse pelo seu consorte que a salvou.
— C- como...ele conseguiu?
— Não posso afirmar, Majestade. A senhora transformou-se na Fera e ficou presa pela imensa quantidade de tecidos em torno de seu corpo. Ele a jogou para fora da água e a senhora fugiu para o bosque.
Regina ergue a mão e toca o rosto.
— Estou... sem... máscara...
— A senhora está recuperando-se.
— Onde... está... Dashiel?
— Recuperando-se dos ferimentos que suas garras provocaram no corpo dele. Eu o deixei mergulhado na fonte, sob a supervisão dos sátiros.
Regina acha graça.
— Os sátiros vão comê-lo vivo...
— São sátiros...não tolos. – André sorri. – Quando a senhora foi tirada da água e fugiu, conseguimos arrancar Dashiel do lago gelado. Estava bem ferido pelas suas garras.
— Eu entendi...não precisa repetir...por que Zelena não se manifestou até agora? Ela...não perderia a chance...de infernizar minha vida...com as piadas...sem graça...
André ajeita os cobertores.
— Pedi aos serviçais para que cobrissem todos os espelhos. A senhora precisa de um momento em paz e sua irmã apenas atiça a Fera dentro de sua alma.
— Quero ver Dashiel...por favor... – ela vê tudo escurecer.
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