Meu final feliz
16 Capítulo 16
Regina se aproxima da porta do cômodo que protegia a fonte de água que minava de algum lençol freático, com propriedades medicinais e que favoreciam a cura de ferimentos de corpos que mergulhassem ali. Era um dos lugares mais cinza daquele castelo.
A mulher olha o ambiente com atenção e aguça sua audição, sorrindo ao perceber que alguém usava as águas verdes para conseguir aumentar a resistência de seu organismo. Era o seu belo hóspede que parecia incólume aos ferimentos sofridos pelo ataque da Fera e que naquele momento usufruía dos benefícios que as águas vinham trazer à sua saúde.
Parada, escondida nas sombras e encantada com a cena quase inocente de um banho, Regina se deixa levar por todos os movimentos feitos pelo homem, distraído com os cuidados pessoais e com a diversão infantil nas águas. Era um menino brincando numa piscina natural.
Ela se empertiga ao vê-lo esboçar os movimentos para sair da água. Levantando-se, ele sai da piscina e procura uma toalha para enxugar-se com os cuidados dos recém-recuperados de ferimentos. Cobrindo os lábios com as pontas dos dedos, Regina permanece ficar ainda mais apaixonada pelo conjunto daquele corpo masculino sem roupas. Deveria ser macio para tocar, embora fosse desprovido de gorduras e com músculo definidos pelos trabalhos braçais.
— Está vendo algo que a agrada, Rainha?
Envergonhada, Regina fica com os olhos apertados por alguns segundos. Depois, decide ir adiante e caminhar até o homem parado ao lado da piscina.
— Vim agradecer-lhe por ter salvado a minha vida, quando caí na água congelada.
— É uma vida, Rainha. – ele enrola a toalha em torno do corpo e olha a mulher por cima do ombro. – Está tudo bem com você?
Regina ajeita os cabelos sobre a parte deformada do rosto e aproxima-se de Dashiel, usando as sombras do cômodo para ajudar a camuflar sua monstruosidade.
— Vou ficar bem. Gostaria que viesse jantar comigo hoje. Estarei no salão às oito da noite, caso você queira aparecer. Eu me sentiria honrada.
Dashiel não responde nada. Apenas demonstra que seus lábios estão sorrindo discretamente.
No horário marcado, Dashiel chega à sala de jantar. Estava garboso demais para ser o simples oleiro. Usava uma elegante vestimenta amarela com detalhes prateados, como se tivesse encarnado um príncipe nascido do seio de uma família nobre com séculos de existência. Era a peça de ouro mais valiosa de todo o castelo de Regina.
Por segundos, ele se choca ao ser recebido por uma mulher enfeitada num vestido vermelho e flores nos cabelos, presos em cachos longos caídos pelos ombros nus. O rosto sempre protegido pela máscara de porcelana, talhada perfeitamente com os traços anteriores ao incêndio. Ela estende a mão, invertendo a posição social do cavalheiro em conduzir a dama para a mesa e recebe total cooperação do convidado.
— Este lugar é especial para você, meu querido.
Dashiel se acomoda constrangido, sabendo que pelas regras sociais, quem deveria ser acomodada com cortesia seria aquela mulher de rosto deformado, mas de modos refinados quando dominava o corpo.
— Pedi que fizessem um jantar com alimentos leves, porque nossos corpos estão frágeis demais.
Os olhos de Dashiel recebem a luminosidade dos fortes candeeiros e tornam-se mais claros e mais brilhantes, como se fossem pequenas esmeraldas coladas para sempre naquele rosto.
— O que houve na noite do incêndio?
Regina termina de encher a taça com vinho e a serve ao convidado.
— Jantávamos nesta mesma sala e o fogo surgiu do nada. Estávamos os dois presos aqui dentro e não conseguimos fugir juntos.
— O rei morreu e seu rosto foi atingido. Onde Zelena interfere nesta história? Por que foi parar dentro do espelho?
— Fiz um acordo que exigia um pagamento. Zelena me provocou e tornou-se o pagamento. – a voz saía abafada pela máscara. – Mas isso não lhe interessa, então, vamos falar sobre seus gostos e suas necessidades.
O prato com o alimento é colocado diante de Dashiel e embora fosse bonito visualmente não era apetitoso. Ele se repugna com o cheiro.
— Eu quero que você aprofunde seus conhecimentos em literatura e cálculos. Quero que escolha um instrumento para aprender. Quero que me acompanhe durante as reuniões em que recebo os aldeões e aprenda com as decisões. – ela não se serve com comida e nem com vinho. – Gostaria que você me ensinasse a dançar, porque já o vi dançando em uma festa popular no vilarejo...
— Você dilacerou minha amada ou eu sonhei com isso?
Regina se empertiga e não responde de imediato.
— O que vivi naquelas ruínas... aquilo foi real ou foi um delírio? Você decepou meu braço? A estátua sangrou de fato? Meu braço foi mesmo reconstruído?
— Como a mulher se transformou na estátua? Sem corpo é amaldiçoado?
— Ela é minha esposa, minha amada, minha querida e nós nos casamos. Desobedecemos e ignoramos a maldição com o nosso casamento. Tivemos nossa primeira noite como um casal e com os primeiros raios do dia, aconteceu a transformação descrita nas palavras de quem me condenou.
Regina fica em silêncio por alguns segundos e se sobressalta com o som do prato sendo jogado no chão. Dashiel se levanta bruscamente.
— Você a quebrou com aquele machado?? Eu vi aquilo mesmo??
— Sua mente esta confusa...
— Sim!! – ele grita e afasta-se da mesa. – Não sei mais o que é real e o que é delírio!! Você cortou meu braço, mas eu ainda o tenho!! Eu quero ver minha amada, agora!!
Pondo-se em pé, Regina não demonstra alteração alguma em seus gestos.
— Quer fazer um acordo?
Dashiel engole em seco.
— Aceito. O que deseja de mim?
Ela move a cabeça para o lado, rapidamente.
— Quero que ao retornar comigo da visita à estátua, você me ensine a dançar.
— Como é??
— Esta noite iremos para e retornaremos das ruínas. Você visitará sua estátua e depois dançará comigo ao som dos instrumentos musicais dos sátiros. Quero também os seus cabelos.
— Meus cabelos?
— Na verdade, eu me lembro de tê-lo visto com os cabelos na altura do pescoço e com os cachos estavam tão vivos e definidos! Assim, longos como estão...ficam belos, porém envelhecem o seu rosto.
Ela estende a mão e o vê aceitar o apoio para saírem dali.
— Está me pedindo uma dança e o corte de meus cabelos?
— Não estou pedindo nada, Dashiel. Não há escolha quando se recebe uma ordem.
Envolvendo-o numa nuvem de fumaça verde, Regina leva Dashiel para longe do castelo. Ambos se transportam para a entrada da igreja abandonada. Caminham para o interior do prédio feito em pedras e aproximam-se de onde Dashiel havia protegido a estátua valiosa de sua esposa.
Discretamente, Regina gesticula e restaura os pedaços para estátua que ela mesma havia quebrado, momentos antes. Iria enganar os olhos de Dashiel e conseguiria conquistar a confiança dele, para aumentar a intimidade entre eles.
— Veja com seus próprios olhos, meu querido. Sua amada ainda está intacta.
Sorridente, o homem avança para a estátua e a toca como se tocasse a pele de uma jovem feliz, sentada num pedaço de coluna resgatado em algum cômodo daquele prédio. Suavemente, ele acaricia os contornos em pedra branca e depois agradece a Regina com um olhar risonho por cima do ombro.
Porém, uma umidade quente empapa suas mãos e atrai sua atenção apavorada, quando ele se depara com o sangue que vertia dos cortes. Ele se levanta e desespera-se ao ver a estátua desabar em pedaços diante de seus olhos horrorizados. E o que torna a visão mais horrenda são os órgãos internos exibidos ainda vivos e pulsantes, nos quadrantes protegidos pela camada de pedra. Uma estátua com órgãos humanos vivos! O coração! Protegido na parte superior do torso, caído num canto do chão empoeirado, ainda batia.
Dashiel se ajoelha e grita com mesma intensidade de sua dor. Sua amada, mesmo cortada, ainda estava em sofrimento de vida mutilada. Ele grita e urra em agonia.
— Eu lhe imploro que acabe com o sofrimento dela!!
Sem hesitar, Regina puxa o coração para fora do torso e o empunha, olhando sua pulsação. Lembrando-se de que já havia feito aquilo em algum dia e algum tempo, ela o espreme entre os dedos e o transforma e poeira, sacudida dos dedos.
Outro urro de horror e agonia faz Dashiel se inclinar para frente e chorar. A nuvem de fumaça verde envolve o casal, e em poucos segundos, o castelo é o cenário para mais um momento.
Ao abrir os olhos, Dashiel se vê na mesma posição de encolhimento em que estava na igreja. Não consegue acreditar que depois de vinte e duas primaveras, sua amada iria definitivamente descansar daquele cárcere que parecia ser eterno e torturante.
— Você matou a minha esposa...
— Não, Dashiel, foi você quem a condenou e a matou. – Regina se senta num três dos degraus da escada que levava para a outra sala. Senta-se com nenhuma elegância. – Sabe, é muito difícil ver o homem que amo, ficar por mais de duas décadas idolatrando uma estátua viva.
— Do... que está... falando? – ele se apoia na parede e fixa os olhos numa estátua de um cupido rechonchudo.
Regina abaixa a cabeça.
— Você nem sabe quem sou eu, não é? Nem se lembra do que vivemos no passado, certo?
O homem sequer faz ideia do delírio da Rainha.
Retirando a máscara que escondia sua deformidade, Regina solta os cabelos e esconde parcialmente seu rosto.
— Eu já era a Rainha deste lugar, quando eu conheci, Dashiel. Meu lindo oleiro, criador dos vasos que enfeitavam a decoração do castelo. Imediatamente, eu amei você. Entretanto, o destino não queria que eu fosse agraciada com um final feliz e fez com que você se apaixonasse por uma de minhas criadas.
Ainda com o olhar perdido na estátua do cupido, Dashiel parece não ouvir.
— Quando eu soube disso, meu coração e minha mente enlouqueceram. Implorei para que você se tornasse meu protegido, meu preferido, meu amante, para que no futuro matássemos o rei e pudéssemos viver o nosso amor como o casal real. Sabe o que houve? Você riu de mim.
Dashiel nega com a cabeça. Regina pouco se importa se ele ouve ou não.
— Aquilo me ofendeu muito e fiz um juramento egoísta: destruir o sorriso nos lábios do casal apaixonado. Meu coração estava tomado pelo ódio e pelo desprezo pela sua felicidade. – ela continua. – Despertei meu lado perverso e mágico, adormecido desde a mais tenra idade. Retirei um livro de uma velha estante e ele me abriu novamente o mundo da magia.
Silêncio de Dashiel.
— Novamente eu o procurei, meu amor. Mas você me ignorou em meu novo pedido e decidi que você iria pagar pelo seu desprezo. Amaldiçoei você: não poderia ter intimidades com a sua amada ou ela seria transformada numa estátua de mármore.
Silêncio.
— Vocês zombaram de mim, outra vez. Casaram-se na manhã seguinte no mosteiro e tiveram sua primeira noite juntos, acreditando que o verdadeiro amor fosse forte o suficiente para quebrar uma maldição. Nos primeiros raios do dia depois do amor, a pele dela foi transformada em pedra, mantendo todos os órgãos vivos, protegidos por magia pura. Não sabia que isso seria possível, até ver o resultado de meu trabalho quando a cortei com o machado.
Silêncio.
— Tirei suas memórias, Dashiel, para que não me odiasse ainda mais e mantive a minha vida apenas amando-o ao longe. – Regina sorri embaixo de sua cortina de cabelos. – Confidenciei a minha loucura à Zelena, mas ela contou tudo ao meu marido e eu fui punida: o Rei usou magia poderosa e destruiu a minha face, além introduzir essa Fera junto com minha alma.
Silêncio.
— Fiquei furiosa com os dois e fui buscar mais informações para torturá-los. Prendi mina irmã num espelho central e o escondi em algum dos incontáveis quartos deste castelo...ou não. – Regina brinca com os cachos dos próprios cabelos. – Depois, voltei-me contra meu Rei e o obriguei a ficar frente a frente com uma mulher furiosa e deformada.
Os olhos pesados de Dashiel se voltam para o perfil de Regina.
— Ficamos trancados em nosso quarto e eu coloquei fogo no cômodo. Os empregados vieram nos salvar, mas antes de arrombarem a porta, eu arranquei o coração do rei e o transformei em pó branco. Os religiosos declararam aos súditos que o amado Rei havia falecido pela fumaça inalada e que a Rainha teve o rosto queimado durante o incêndio.
— Você...destruiu...tantas vidas...
— Lamento, mas amor verdadeiro não existe, Dashiel. Muitos pais abandonam seus filhos em florestas...muitas mães entregam suas filhas para bruxas...pais tentarem seviciar suas filhas a pontos delas figurem para a floresta e viverem camufladas em capas de pele de asno...não há amor real e verdadeiro, querido. Tanto que o meu amor foi transformado em ódio por você.
— O que você fez com as nossas vidas?
Regina se levanta e sem pudor em esconder a deformidade de seu rosto, aproxima-se de Dashiel. Ele a olha como se não se importasse com sua feiura monstruosa, que aumentava a cada um dos anos que se passavam e que iria tomar conta de todo seu rosto, caso a maldição não fosse quebrada.
— Você me ama? – ela pergunta ao homem, tocando-lhe a pele do pescoço e aproximando seus lábios dos lábios dele.
— O que pensa que está fazendo? – ele vira o rosto, repudiando o toque. – Você é uma mulher de alma deformada...doente...
Um sorriso irônico é a primeira resposta de Regina.
— O que incomoda em você não é minha alma. Um homem que visitava uma estátua em todas as noites, por longos vinte e dois anos, falava com ela, lia poemas para ela e certamente praticava o onanismo para os olhos mortos da estátua, como se a homenageasse, é tão doente quanto eu. Eu sou uma mulher viva, cheia de desejos e posso oferecer o que aquela pedra não poderia.
— Era a...minha...esposa, Regina...
— A verdade é que uma estátua com rosto perfeito é mais excitante do que uma mulher-fera com rosto deformado e cega de um olho. Quem sentiria desejo sexual ou amor por um monstro como eu?
Dashiel ri irônico e encosta a parte de trás da cabeça na parede. Fecha os olhos, exibindo o pescoço longo como se fosse um convite para um beijo ou uma carícia.
— Viajei por muitos lugares a trabalho e na procura da cura de minha esposa, Regina. Acredita mesmo que fui tocado apenas por belas pessoas? Durante meses, eu vivi dentro de um circo de aberrações...mas pessoas com belas almas...
— Permitiu que pessoas deformadas fisicamente fossem transformadas em pedra após momentos de intimidade como você? Então, é mais cruel do que eu.
Ele ri e deixa a cabeça despencar contra o peito.
— Para obter prazer, não precisamos ter um corpo dentro do outro, Rainha. Precisamos de toques com as mãos, com a pele e com os lábios. A condenação era somente minha e eu não poderia compartilhar meu sêmen maldito com quem que fosse.
— Compartilhe-o comigo. Poderemos criar alguma proteção mágica que impeça o contato de meu corpo com o seu fluído prazeroso. Eu o amarei com a loucura dos sátiros. – ela permanece parada em pé, bem próximo a ele. – Irei ao seu quarto em todas as noites e farei a mesma proposta, porque sei que agora você está aliviado pelo favor que lhe fiz ao matar sua esposa. Você me disse que pagaria qualquer preço, para que eu a salvasse da dor...
Os olhos de Dashiel se arregalam horrorizados. Como ela ousava fazer tal afirmação?
— Nunca lhe disse isso...apenas implorei que acabasse com o sofrimento dela...
— Sei que você deve ter tentado livrar-se dela em muitos momentos de desespero...mas como se mata uma estátua em cujo peito bate um coração? Cortando a cabeça? Cortando em muitos pedaços? Queimando a pedra?
— O que está falando, sua demente??
— Falo do sentimento de alivio que está em sua alma e que surgiu quando eu espremi o coração de sua estátua. – suavemente, ela avança e tenta acariciar o peito dele, mas suas mãos são violentamente empurradas. – Ei!
— Como pode acreditar que minha alma iria compartilhar um crime com a sua alma doentia?? Por que acreditou que eu iria sentir-me aliviado em ver o coração de minha esposa amada, ser esmagado pela eterna carcereira de nossa prisão maldita?? Você não é somente horrenda para olhar, mas é apavorante para ser ouvida! Você é abominável! Eu a abomino!
Regina se afasta dele e o encara por alguns segundos.
— Amanhã quero que dance comigo depois do nosso jantar e espero que compareça com os cabelos cortados. Mandarei André cortar suas madeixas, meu caro marido.
— Eu a abomino! – Dashiel se vira e caminha para fora do salão, deixando Regina sozinha.
Depois de alguns segundos, ela consegue falar para si mesma.
— Mas eu o amo...
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Era madrugada e Dashiel ainda caminhava pelos corredores escuros daquele labirinto. Sua cabeça rodava e já nem sabia onde estava ou se já havia passado naquele corredor, momentos antes. Aqueles rostos em alto relevo esculpidos nas paredes tinham olhos que se moviam quando ele passava. Pesadelo? Delírio? Horror? Choque?
O som de passos de pés pequenos chega aos ouvidos do homem. Ele para e observa a estátua rechonchuda do Cupido, caminhando atrás dele, como se o vigiasse à distância.
— Vá embora, pequeno...deixe-me em paz...
A estátua nega com a cabeça e ajeita a fralda que escondia sua nudez de criança gorda. Ele aponta para uma escada, usando seu dedinho roliço. Ordena que Dashiel o siga e é atendido.
— O que perderei com isso?
Seguindo a estátua pequenina, Dashiel sobe muitos, diversos e até centenas de escadas, atingindo um nível do castelo que ele desconhecia. Um sótão sujo, iluminado por luzes bruxuleantes das velas, empoeirado, onde vários móveis adormeciam escondidos sob lençóis. Nas paredes, algumas telas pintadas em óleo representavam um casal em idade desigual: Regina e seu marido rei.
Protegido pelas sombras do imenso cômodo, Dashiel observa Regina ajoelhada diante de uma tela desconhecida até pelo modelo. A tela representava Dashiel como se fosse um príncipe, elegantemente trajado, com os cabelos encaracolados e curtos, na altura do pescoço. Mas quando ele havia posado para aquela obra? Teria mesmo sido o modelo ou tudo não passava de magia?
Regina estava ajoelhada em cima de algo volumoso e mexia naquele amontoado, como se estivesse descobrindo detalhes ou valorizando sua aquisição. Estreitando os olhos, Dashiel consegue identificar os gestos da mulher: a predadora brincando com sua presa, porque não estava com fome, mas queria apenas divertir-se antes de degustar o petisco.
Por que deveria fica ali observando aquela mulher insana, dominada pelo amor e pelo ódio? Entediado, Dashiel faz menção em descer os degraus e sair dali, mas o som de um berro longo e furioso atrai sua atenção. Ele se volta e depara-se com a Rainha Fera devorando a carne de um pequeno porco.
Momentos depois, Dashiel entra de supetão em seu quarto e sequer se lembra de fechar a porta atrás de si. Anda de um lado ao outro pelo quarto, massageando as frontes e tentando recuperar sua sanidade, perdida com a cena anterior. Para junto ao dossel da cama e encosta a testa no tecido da armação, ficando pensativo e incomodado. Ao virar-se para recomeçar sua caminhada pelo quarto, depara-se com André em pé e dentro de seu espaço pessoal.
Tão perto que conseguia sentir o hálito do invasor. André havia bebido licor.
— Ei!
— Príncipe Dashiel, já lhe avisei que sempre deve fechar a porta de seu quarto, assim que entra nele. Caso contrário, as sombras vivas dos corredores se sentem convidadas a entrar em seu quarto. E elas são perigosas...na maioria das vezes.
Dashiel não se sente seguro com aquela proximidade e com o tom de voz usado pelo serviçal de confiança de Regina. Era quase ameaçador e ele decide afastar-se do visitante inesperado, subindo no colchão de sua cama.
— Tire suas roupas, Príncipe.
— O que disse?
— Preciso levar suas roupas usadas no dia de hoje, para serem lavadas. Suas roupas para o amanhecer estarão em seu quarto, quando a luz do dia começar a brilhar. Agora, senhor, preciso que tire suas roupas.
Mais tarde, tendo conseguido adormecer, Dashiel é despertado pelo som de uma flauta de Pan. O som estava muito próximo à sua cama e o convida a sentar-se para descobrir o que estava havendo naquela semiescuridão.
— Regina? É você?
A música para e a figura de um sátiro grande e forte sai das sombras. Encolhe um dos ombros e sorri com sua face horrenda. Exibe seu corpo híbrido e sua saliência sexual, avisando que estava pronto para a cópula.
— Não tenha medo de mim. Sou um amante, não um guerreiro ou um violador.
— Eu quero que saia do meu quarto! Agora! – Dashiel salta da cama, irritado, indo para a porta e controlando sua raiva para não socar aquele invasor. Mas antes que pudesse mover a maçaneta, sente seu corpo ser erguido e atirado violentamente contra a cama.
O sátiro agarra Dashiel com força inumana, e o mantém preso contra o colchão.
— Estou faminto e não sou alimentado por minha Rainha há vários dias. O seu cheiro é delicioso e sua pele é quente. Deixe-me ouvir o som de seu coração, antes que ele pare quando eu sugar até a sua medula.
A criatura abre a boca em dimensão desproporcional a ponto de conseguir engolir todo o rosto do seu prisioneiro, porém, é impedido por mãos fortes e dominadoras com unhas vermelhas.
— Ele é meu! – Regina grita e joga a criatura brutalmente contra uma das paredes, impregnando-a ali contra a superfície dura. – Vai pagar um preço muito alto por ter tocado em meu protegido!
O sátiro se debate e vai sofrendo uma mutação até transformar-se em algo diferente à sua apresentação inicial. A criatura não estava mais tão doce e tão peluda. Era um humano como pele de salamandra e dentes grandes, escurecidos e assustadores...um vampiro canibal.
— Misericórdia... – Dashiel consegue murmurar.
Regina gesticula e a criatura que se debatia é simplesmente transformada em mais um desenho estampado naquela parede cheia de traçados artísticos.
— Maldito! – ela se volta para o homem sobre a cama e percebe o assombro estampado naqueles olhos bonitos. Eram esmeraldas brilhantes e enfeitadas pelo horror que o castelo oferecia a cada um dos amanheceres. – Peço perdão por não proteger você, Dashiel.
— Eu...não fechei a porta... assim que entrei no quarto. – ele mantém os olhos fixos na figura recém estampada na decoração. – Desobedeci... suas regras...
Sentando-se na cama, Regina se preocupa em manter o rosto escondido pelos cabelos longos e escuros, exibindo somente a parte que ainda não havia sido tomada pela deformidade.
— Vou ficar sentada naquela poltrona e velarei o seu sono, meu amado. Ficará protegido...- ia esboçando o movimento para sair da cama, quando a mão de Dashiel a impede, segurando seu braço.
— Penso que seria mais prudente se você dormisse comigo aqui na cama...eu me sentiria mais seguro...você se incomodaria?
— De forma alguma.
Na manhã seguinte, Regina modifica a baixa temperatura e descongela o lago em que havia caído. Imediatamente, o calor aumenta dentro do castelo e tudo parece ficar mais animador. Queria compartilhar da primavera que estava dentro de sua alma, por ter ficado tão próxima ao homem amado.
— Então, a minha irmãzinha resolveu privar-me dos acontecimentos de nossa casa. Muito gentil de sua parte, sua Besta Fera!
Regina dobra o tecido que cobria o espelho de Zelena.
— Fique feliz por eu não ter quebrado o espelho matriz.
— Mesmo com sua malcriação, serei uma irmã generosa com a sua feiura. – Zelena ajeita os cabelos vermelhos. – Detectei a presença de dois poderosos em nosso reino. Acredito que você terá visitas nos próximos dias e de pessoas conhecedora dos dois lados da magia.
— E quem são?
— Não sei, Regina. Apenas detectei a forte presença deles. Os ventos dos mares me deram a informação e talvez teremos companhia nesta merda de reino, onde nunca acontece nada. A única animação desta mastaba podre é ver seu lindo oleiro tomando banho em sua fonte restauradora. Como ele é bonito, não é?
— Um vampiro canibal conseguiu entrar em nossa casa e eu o impedi de matar Dashiel.
Zelena se mostra surpresa. Eram criaturas perigosas e que poderiam causar muitos estragos, caso conseguissem alimentar-se com proteínas humanas.
— Dobre a vigilância, porque os vampiros detectaram o sangue fresco do seu belo futuro consorte.
— Mas eu já enviei alguns de meus soldados de areia para o covil dessas coisas. Quero um massacre completo. Vamos saber quem é mais feroz das duas espécies de bestas. Vá procurar informações sobre nossos visitantes, para que estejamos preparadas para eles. – é a ordem seca de Regina.
— Irei porque quero mesmo sanar as minhas curiosidades, mas estarei de volta para assistir ao atendimento dos aldeões. Não se esqueceu que eles têm o direito à audiência no dia de hoje, não é? – Zelena sorri. – Tente usar mais maquiagem nessa face derretida, porque você está ficando mais bruta e horrível cada vez em que nos encontramos. Não se enjoa de ser monstruosa?
Mas Regina não se ofende. Ainda podia sentir em seu olfato, o cheiro gostoso do homem que havia dormido em seus braços. Ainda se sentia envaidecida pelo convite feito por ele e por ter realizado um sonho nutrido por mais de vinte e duas primaveras: dormir com Dashiel protegido em seus braços. Queria que fosse o contrário, mas isso ainda precisava ser amadurecido. Um dia, ele a veria com olhos de carinho e amor, não vendo mais a feiura que dominava seu rosto de mulher.
Olha pela janela e observa o sol impor o seu domínio na região antes congelada. Tudo deveria ser lindo para agradar aos olhos de seu hóspede, uma vez que a anfitriã jamais conseguiria exercer essa função. Ela se sobressalta ao ver Dashiel já desperto, começando a entrar nas águas do lago, ambos complementando suas belezas naturais.
— Você cortou os cabelos dele. – ela murmura ao sentir a presença de André na sala.
— Sim, minha Rainha. Assim conforme o seu desejo.
— Gosto dos cabelos dele, assim. – os dedos de Regina tocam a superfície do vidro da janela. – Será que algum dia, ele irá me amar e conseguir salvar-me?
— Depende da senhora, Majestade. Depende das mudanças que fizer neste castelo e nas assombrações que povoam os corredores. Por que não permite que a luz do sol invade estas paredes e torne tudo mais claro aos olhos do Príncipe? Os olhos dele ficariam ainda mais belos, caso fosse iluminado pelo sol aqui dentro também...ele ficaria mais feliz e poderia ver que sua alma é boa, Majestade.
— Ele me disse que tenho a alma podre.
O serviçal abaixa a cabeça e não responde.
— Ontem, eu dormi abraçada nele e percebi o quanto confiou seu sono a mim. Inalei o cheiro dos cabelos dele e senti o calor de sua pele. Não sabia que um homem poderia ter uma pele tão quente! É como se estivesse sempre saindo de uma banheira com água aquecida!
— Lamento lembrá-la, Majestade, mas o prazo da maldição termina em alguns meses. Caso não consiga que o amor nasça no coração de seu oleiro...
Regina concorda com a cabeça. Sabia que iria viver condenada a ser uma Fera completa, em meio a tantas criaturas fantásticas naquele castelo surreal.
— Não o violente com sua crueldade, dê luz, cores e sons a ele. Ofereça o que a senhora tem de mais bonito e use sua magia para visitá-lo em sonhos. Produza sonhos sensuais, floridos e perfumados. Atice a curiosidade dele sobre seus mistérios, Rainha...faça-o dependente de sua presença e de seu perfume. Inebrie-o, entorpeça-o e faça-se necessária nas horas do dia e da noite dele. É tudo o que sei aconselhar.
— E poderia me dizer como se faz tudo isso, tendo essa face horrenda como eu tenho?
— Quem sabe se a senhora tiver um pouco de boa vontade?
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